DECIBÉIS E EXTREMA DIREITA NA HUNGRIA

O belo Danúbio negro

Qual é a identidade nacional húngara? Com base em uma leitura particular da história, os dois grandes partidos da direita a definem cada um ao seu modo. Seus programas políticos e sociais inspiram-se nela para propor um conjunto de valores, ao qual uma “contracultura” – de shows de rock a exibições equestres – oferece

por: Evelyne Pieiller
30 de dezembro de 2016
Crédito da Imagem: Santiago

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Cabeças rapadas ou cabelos compridos estilo Conan, o Bárbaro, camisetas com motivos góticos, cartucheiras e grandes anéis de caveiras, tatuagens elaboradas em bíceps musculosos, lata de cerveja na mão… os metaleiros não conhecem fronteiras. Eles estavam maciçamente presentes nessa noite de agosto de 2016, em uma pequena cidade à beira do Lago Balaton, na Hungria, para um show ao ar livre em um vasto anfiteatro ao lado de uma grande sala envidraçada, onde era possível comprar objetos e suvenires com os símbolos da banda e… cervejas. Como em todos os lugares. Salvo que havia mais famílias que de costume e que as camisetas estampavam frequentemente mapas geográficos um pouco insólitos ao primeiro olhar e letras esquisitas, que mais tarde pudemos identificar como runas. Cerca de oitocentas pessoas encontravam-se ali para ver o show de um grupo de, segundo a denominação húngara, “rock patriótico”: o Kárpátia. No fundo da cena, a imagem do esqueleto de um pássaro, que evoca uma águia heráldica, mas na realidade se refere ao turul, o pássaro mitológico que teria acompanhado os magiares em sua conquista das planícies do Danúbio.
O grupo chega. Guitarras, baixo, bateria: clássico. As canções são breves, impecavelmente empolgantes. Petrás János, o cantor-baixista, cabeça rapada e um bigode orgulhoso, ocupa a cena com a convicção de um astro; o guitarrista gira a longa cabeleira. O público faz espasmodicamente o sinal do diabo, indicador e dedinho levantados, signo clássico de aprovação nos shows de metal. Tudo seria pouco surpreendente, exceto que de repente surgem bandeiras, normalmente reservadas aos jogos de futebol. Pequenas, às vezes nas mãos de crianças, ou muito grandes, agitadas com majestade. A maioria delas é enigmática, pois não corresponde ao estandarte nacional. Algumas se parecem com ele, mas, além das listras horizontais vermelha, branca e verde, dois anjos carregando um brasão figuram no meio. Trata-se da bandeira da Hungria “real” (ver mapas).
Outras apresentam variações diversas, com listras horizontais vermelhas e brancas, o que normalmente provoca furor no cidadão pouco inclinado à direita violentamente extrema, pois essas cores, que remetem à dinastia dos Arpad, fundadores do reino, são utilizadas por aqueles que se pretendem os “verdadeiros húngaros”; e, principalmente, elas foram as cores do Partido da Cruz Flechada, um movimento fundado em 1939, transposição húngara do nazismo, que, no poder entre outubro de 1944 e março de 1945, colaborou vigorosamente com o extermínio sobretudo dos judeus: meio milhão deles morreram assassinados ou foram deportados para Auschwitz. Mas as mais misteriosas são aquelas que, bem elegantes, azuis riscadas de amarelo, estampam um sol e uma lua crescente. O mistério permanece até o fim do show.
O clima é ao mesmo tempo comportado e cheio de fervor. Tem-se a clara impressão de que se ouve o tempo todo a mesma música, marcial, mas dançante, quando a mesmíssima guitarra se lança regularmente em solos líricos. Na realidade, o público faz o show, gritando a plenos pulmões os refrões. Kárpátia é um fenômeno. Extremamente popular (faz cerca de cem shows por ano), o grupo, formado em 2003, pede “justiça para a Hungria” – título de um de seus álbuns. Ele denuncia assim o Tratado de Trianon, que, em 4 de junho de 1920, consagrou o desmantelamento do reino: o país perdeu então dois terços de seu território e três quintos de sua população.

O fantasma de um país “puro”
Quase um século depois, poderíamos imaginar que o choque – certamente considerável – foi superado, mas não é o caso. Petrás János evoca no palco uma canção que sua mãe cantava para ele, “A Grande Hungria era o paraíso”, e o nome do grupo existe para lembrar que os Cárpatos antes eram húngaros. Assim, entendemos melhor certos desenhos nas camisetas dos espectadores: eles representam essa Hungria de outrora. E quando toda a sala, ao ouvir os acordes esboçados, se levanta como um único homem, imóvel em uma impressionante solenidade, acreditamos por um momento que o grupo toca o hino nacional – erro: ele toca o hino da Transilvânia, uma região do coração dos Cárpatos, hoje romena. Um hino fictício, tirado de uma opereta popular, mas que todo mundo conhece, mesmo quem não é fã do Kárpátia. A famosa bandeira azul e amarela é a da Transilvânia perdida… Petrás János lembra, não sem júbilo, que o Kárpátia está proibido de tocar na maioria dos países da antiga “Hungria histórica”.
Petrás János também canta, com o mesmo impulso vigoroso, o levante de 1956, para louvar a coragem daqueles que se opuseram à “ditadura comunista”, e celebra os dirigentes do Cruz Flechada, que foram em sua maioria executados por traição depois da vitória do Exército Vermelho. O público vibra em uníssono – em acordo aparente com aqueles que permitiram que, entre os judeus enviados a Auschwitz, um em cada três fosse húngaro. O amor pela pátria se apoia aqui no conceito “hungarista” de nação defendido pelo Cruz Flechada – uma vez húngaro, sempre húngaro – e se acompanha de um ódio vivo contra o “não húngaro”: o comunista internacionalista, mais implicitamente o judeu e mais globalmente o estrangeiro, incluindo o agente do liberalismo, que importa produtos e valores estrangeiros à “hungaridade”.
Isso porque Petrás János celebra a Hungria arcaica, um país fantasmagoricamente “puro”, povoado de descendentes guerreiros apaixonados por uma terra que eles conquistaram pela força das armas. Ele se gaba que em Budapeste nenhum prédio ultrapassa os 96 metros, para lembrar o ano de 896, quando a confederação das tribos magiares venceu seus predecessores e se instalou na planície do Danúbio, na Panônia, assinando a conquista – que em húngaro se diz “ocupação da pátria”… É importante conservar os valores ancestrais desse povo “eleito” e os símbolos dessa eleição: o turul, ao qual são erguidas estátuas por toda parte onde existem minorias húngaras, da Romênia à Áustria, passando pela Ucrânia; o alfabeto rúnico, utilizado até 1850 em certas regiões e que podemos encontrar hoje nas placas de algumas cidades governadas pela extrema direita; mas também a religião cristã, associada a Estêvão I, fundador, no ano 1000, do reino do qual ele se tornou o santo patrono, após sua canonização.
Enorme mistura para esse rock identitário que projetou a fugaz mas influente Rádio Pannon, criada em 2000 e da qual o Kárpátia não é o único representante. O Romantikus Erőszak, por exemplo, faz parte da mesma constelação. Ele também conta em música certa versão da história: “Meu sonho é a Hungria como ela existe há séculos, independente, forte, administrada por húngaros e que funciona em autogestão”,1 diz o cantor, cujo pescoço é ornado por uma tatuagem: “Viva a pátria”. O nome do grupo, “Violência romântica”, é bem representativo de uma sensibilidade comum a esse movimento. Mesmo que a violência apareça claramente, como meio reivindicado de uma ruptura com a ordem existente, talvez seja difícil associar a ela espontaneamente qualquer tipo de romantismo. No entanto, parece que esse nacionalismo frenético e dançante porta um ideal. Sob um fundo de nostalgia, mas na linguagem da modernidade, expressa-se uma aspiração ao heroísmo, ao retorno aos valores viris, unindo uma comunidade de irmãos, pelos quais se está disposto a assumir a luta, ideológica ou outra.
Uma ausência escancarada em todas essas reivindicações: a questão social. E uma relação à história que tende só a designar como “ocupação” o tempo da República Popular da Hungria, e não o das tropas do Reich, a partir de 1944, esquecendo os dois grandes períodos durante os quais o país foi dominado pelo Império Otomano, primeiro, depois por Viena.
A obsessão “Trianon” parece ainda mais dividida, porque é carregada de ambiguidades. Foi o marechal Miklós Horthy, regente do reino de 1920 a 1944, aliado do Eixo, que renegociou o tratado com Adolf Hitler e Benito Mussolini, para integrar uma parte dos territórios que tinham se tornado romenos em 1924. Pró-nazista, mas… Os territórios foram redistribuídos depois da guerra, e durante o período comunista não se falou mais de Trianon. Mas os adesivos representando a Grande Hungria floresciam nos para-brisas traseiros dos carros, cujos proprietários não são necessariamente de extrema direita.
O que se expressa também nesse tipo de manifestação é a rejeição de outra ocupação bem mais recente: a exercida pelo capitalismo. A “Grande Hungria” representa o tempo, certamente fantasiado, mas poderosamente evocador, da soberania nacional e popular. É preciso reconhecer que o país sofreu violentamente com sua “abertura” ao Ocidente. A coalizão socialista-liberal no poder nos anos 1990 seguiu sem reclamar das exigências do Fundo Monetário Internacional e instaurou uma severa austeridade orçamentária. O desemprego se tornou galopante e, em 2004, ano da adesão à União Europeia, 80% das grandes empresas e dos bancos eram de propriedade estrangeira. Se acrescentamos a esse leilão do país os estrondosos casos de corrupção, fica claro que as elites de esquerda só conseguem suscitar desprezo e desconfiança, assim como as promessas de felicidade são associadas à liberalização dos mercados.

“Caros descendentes de Átila”
Quando o Fidesz (Aliança Cívica Húngara), o partido do chefe do governo de Viktor Orbán, se une ao imaginário do Kárpátia,2 é também por essas rejeições. Em 2010, de volta ao poder depois de dez anos de ausência, ele não se contentou em decretar a data de 4 de junho, aniversário da assinatura do tratado, como dia da “coesão nacional”: o Fidesz precisou que essa comemoração fosse destinada a reforçar a “identidade nacional”. Melhor: ele concedeu cidadania às minorias de origem húngara que vivem nas regiões onde antes se encontrava a Grande Hungria, ou seja, entre 2 milhões e 3 milhões de pessoas. O partido não se contentou em louvar o irredentismo: ele promoveu uma etnicização da cidadania e evocou a criação de uma “eurorregião húngara”, lembrando o sonho das “terras unidas da Hungria”, caro ao Cruz Flechada. Orbán acrescentou a essa paixão da “hungaridade” a recusa às leis estrangeiras (europeias), pregou o “patriotismo econômico” e o “iliberalismo”.3 Ele professou enfim um anticomunismo virulento, que o fez louvar os “mártires” do levante de Budapeste de 1956…
Nada de espantoso, então, no fato de Petrás János ter sido condecorado pelo governo de Orbán. Exceto por ele ter composto o hino da Magyar Gárda, uma milícia paramilitar fundada em 2007, dissolvida em 2009 e oficialmente proibida – mas perfeitamente tolerada. Presidida por Gábor Vona, o chefe do partido de extrema direita Jobbik, a organização se consagrava à proteção das tradições, da cultura nacional… e da população. Ela tinha como objetivo, segundo seus estatutos, “defender física, espiritual e intelectualmente a Hungria”.
A medalha entregue a Petrás János ilustra impecavelmente a proximidade entre o Jobbik e o Fidesz. Mas as tônicas colocadas sobre a definição da identidade húngara diferem um pouco. “Caros descendentes de Átila”: é assim que Vona gosta de se dirigir a seus eleitores, que lhe deram 20,5% dos votos nas eleições legislativas de 2014. O festival Kurultaj, cuja primeira edição em 2010 foi realizada no Cazaquistão, tem precisamente como objetivo reunir os ditos descendentes do huno.4 Essa “reunião tribal” – tradução do termo de origem turca – acontece todos os anos, em agosto, a 120 quilômetros de Budapeste, perto de Bugac, na grande planície (a puszta), e acolhe durante três dias doze nações, 27 grupos étnicos e 250 mil espectadores para o “maior evento tradicional da Europa”.5 O vice-presidente da Assembleia Nacional apadrinha o evento destinado, segundo seus termos, a desenvolver o sentimento de fraternidade entre nações de origem turco-huna.
Para ir até o festival, deve-se caminhar muito tempo por uma pequena estrada que atravessa uma floresta. Perto da entrada, Harley-Davidsons. É provável que membros da associação dos Gój Motorosok – em outras palavras, os “motoqueiros gói”6 – estejam na festa. Por que “gói”? Uma piada, responde o fundador, que usa um pingente representando a Grande Hungria e uma jaqueta ornada com a “santa coroa” de Estêvão I. A associação propõe encontros de motociclistas e prevê principalmente um tour comemorando o Trianon. Os Gój Motorosok são famosos e parecem ser frequentemente requisitados para acompanhar políticos.
Entramos, gratuitamente, na área do festival, sob o olhar severo de um imenso Átila, cujo retrato selvagem domina a vasta esplanada. Poeira e calor – pode fazer 40 graus no verão. E temos uma espécie de vertigem, pois circulam por toda parte, entre as tendas entreabertas, sobre tapetes coloridos e entre os estandes onde podemos comprar suvenires mongóis e arcos antigos, homens cobertos de colares, braceletes, amuletos, coletes bordados, túnicas de gola russa, largas calças brancas, longos casacos de couro, com toques de pedras incrustadas, peles, às vezes até mesmo armaduras, ou peles de animais sob o torso nu. Cabelos frequentemente longos, brincos, tatuagens e bigodes arrogantes. Poucas pessoas vestidas como “civis”: caminhamos no meio de reinvenções dos conquistadores nômades. As mulheres usam saias folclóricas ou seguem a moda “Bocskai”, do nome do príncipe da Transilvânia que liderou a insurreição contra os Habsburgo no início do século XVII.
Um barulho repetitivo provoca sobressaltos regulares. Parecem tiros, mas são apenas estalos de chicote. Um chicote muito longo, claramente difícil de manejar, mais arma do que instrumento, e são muitos a utilizá-lo de maneira ritmada. Percussões por toda parte, principalmente tambores; é um clima de transe.
A tenda sobre a qual figura uma grande fotografia de Atatürk parece fechada. Em outra se exibem os maiores cães do mundo (irlandeses). Mas, em algumas, não é qualquer um que pode entrar. Quando nos apresentamos diante de uma das que parecem acolher espectadores, a porta se fecha, e o responsável pela admissão nos pergunta o que viemos ver. Respondemos que precisamente é porque ignoramos o que há ali que desejamos entrar. Ele nos responde que por essa mesma razão não seremos autorizados. Bom…
Vemos diversos policiais circulando e homens de preto, cujas únicas cores são as listras vermelha, branca e verde na manga da jaqueta: eles evocam furiosamente a Magyar Gárda. As bandeiras balançam em todos os lugares. Aqui, encontram-se uigures, turcomenos, tchuvacos, turcos, quirguizes, iacutos… O espetáculo é a multidão, mas a multidão também veio pelo programa do festival, do palco central ao “campo de batalha”: o círculo dos xamãs sob o fundo dos tambores, as gaitas de fole do folclore húngaro, os duelos de sabre, as exibições equestres etc. Sem esquecer as conferências internacionais sobre as civilizações nômades euroasiáticas.
O Kurultaj é um concentrado de turanismo: o termo designa inicialmente a família linguística uralo-altaica (línguas túrcicas, húngaro, finlandês), depois uma ideologia política que afirma a preeminência das afinidades entre povos originários da Ásia central. Essa corrente floresceu entre as duas guerras e animava o hungarismo do Cruz Flechada. Hoje, o Jobbik é seu principal representante.7 Dois de seus dirigentes possuem uma empresa de roupas e acessórios com motivos arcaicos. Seus militantes, inclusive, têm um estande no festival.
Definir-se como neto de Átila, que constituiu um império da Ásia central à Europa central no século V e morreu combatendo diante dos romanos, atesta uma identidade seguramente singular e a priori um pouco diferente daquela afirmada pelo Fidesz. Claro, a nova Constituição de 2011 desejada por Orbán descreve também a nação em termos culturais, mas a santa coroa dos reis húngaros é tomada como referência de sua unidade, e o cristianismo e a família são colocados como pilares da sociedade.
O Jobbik, que se define não como um partido, mas como uma “comunidade”, segundo um de seus dirigentes, György Szilágyi, se diz também cristão. Mas parece que seus eleitores e sua cultura própria são neopagãos, sensíveis a uma espiritualidade ligada às potências mágicas e ancestrais do espírito da natureza. Da mesma forma, ele se desvia do “Ocidente”, que traiu a Hungria com o Tratado de Trianon, para ir em direção aos seus aliados “naturais”, próximos das supostas raízes nacionais: os povos da Ásia. Um dos três deputados europeus do Jobbik prega, inclusive, uma “grande aliança turaniana” entre a Hungria e os “khanates vermelhos” da Ásia central, e o partido foi convidado na Turquia pelo Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) de Recep Tayyip Erdoğan para a proclamação dos resultados do primeiro turno da eleição presidencial em 2014. O Jobbik reserva sua hostilidade aos ciganos, não enquanto tais, como precisa o site do partido, mas porque eles seriam vítimas de más condições socioculturais, que atingiriam a coletividade… Por outro lado, ele não tem nada contra o islã, “última esperança da humanidade nas trevas da globalização e do liberalismo”, segundo Vona.8
Ir em direção a uma “melhor Hungria” passa assim pelo retorno às tradições mais ou menos imaginadas, fortemente tingidas de oposição à modernidade “ocidental”, impregnadas de fantasias medievais, que colocam em destaque a virilidade, a fraternidade entre membros de um mesmo exército, o heroísmo, a ligação com as forças primitivas da natureza. Em torno de uma mesa de bistrô ao ar livre onde estávamos nos recuperando do choque Kurultaj, dois húngaros tatuados se lançaram em uma exaltação vibrante do legendário betyár, o ladrão de estrada semelhante a um tipo um pouco particular de Robin Hood: ele rouba dos ricos, sequestra as mulheres, mas as seduz; em seu cavalo, ele é um conquistador. Bandido com honra… Coragem, escolha da ilegalidade, potência e imparcialidade: qualidades implícitas para os heróis turanianos.
O slogan do Jobbik “100% húngaro” implica a rejeição do Ocidente, do liberalismo, da submissão à União Europeia, para reencontrar uma identidade certamente húngara, mas ancorada na Eurásia, vigorosa, solidária e espiritual: o conjunto compõe também um ideal romântico, cheio de autenticidade e moral. “Não podemos parar o futuro”, afirma em sua página no Facebook o Jobbik, partido popular entre os jovens – 33% dos estudantes são eleitores ou simpatizantes. Esse futuro passa, de maneira inesperada, pela restauração dos serviços públicos e pela noção de bem comum, assim como pela expansão dos recursos nacionais, que “incluem a condição física e mental da nação, o sentimento patriótico e a solidariedade […], o fornecimento de água potável e as infraestruturas de transportes”.
As “medievalices” aparecem assim menos como a expressão de uma aspiração a reencontrar as origens de um país e mais como o símbolo de uma busca de satisfação individual e coletiva. Para dizer a verdade, essa busca de um sentido da vida que não esteja ligado ao dinheiro, ao mercado, de uma inscrição do indivíduo em um mundo estável, mas aberto à “transcendência”, explica talvez muito bem o sucesso de certo número de videogames, histórias de fantasia e parques temáticos. E, como o pertencimento à cristandade tendia antes a suplantar os outros, o Kurultaj e o turanismo consagram a “pátria” em um conjunto mais vasto, onde as fronteiras importam menos do que a comunidade.

O arcaísmo como futuro
Em outros termos, o patriota tende a se dissolver em um povo supranacional, com o qual ele decide se identificar. As escolhas desse tipo inclinam então ao arcaísmo apresentado como… o futuro, em nome da celebração de valores superiores – a espiritualidade, a defesa dos humildes, a superação dos interesses pessoais –, destruídos pela modernidade, representada em particular pela democracia e pelo capitalismo.9
Algumas dessas escolhas não são reservadas à direita identitária, reacionária e conservadora, e podem se encontrar no imaginário de movimentos que se definem como progressistas: alguns grupos em busca de um modo de vida alternativo, os detentores de uma especificidade cultural mais ou menos ameaçada e que deveria ser protegida, os partidários de uma moral que se oponha ao “narcisismo” induzido pelo capitalismo artístico etc.
Na Hungria, esse chamado a um retorno a um passado fonte de um futuro feliz é ainda mais ouvido porque parece proposto por dois partidos concorrentes. Suas diferenças talvez importem menos do que suas convergências: quando Orbán encomenda uma canção em homenagem aos “mártires de 1956”, é a um roqueiro, o compositor e produtor Desmond Child, nascido norte-americano de pais húngaros e recentemente naturalizado. Conhecemos este último em uma forma mais sedutora, na época em que ele compunha para os extravagantes Alice Cooper e Kiss, mas não para inflamar o desejo de “caminhar de mãos dadas sobre os passos de nossos heróis”.10 Mas o mais surpreendente é que o Fidesz, apoiado sobre um conceito de família em torno do casal homem-mulher, se compromete aqui com um militante homossexual, casado com um homem.
Próximo a Budapeste, em Sziget, acontece quase ao mesmo tempo um festival de rock reconhecido pela Europa e pelos europeus, com ingressos caríssimos. Os húngaros quase não vão.
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Evelyne Pierre é Jornalista enviada especial do Le Monde Diplomatique Brasil


1    Cf. Salomé Legrand, “‘Violence romantique’, le rock hongrois qui aide ‘à résister contre Bruxelles’” [“Violência romântica”, o rock húngaro que ajuda “a resistir contra Bruxelas”], Trans’Europ Extrêmes, 18 maio 2014.
2    Ler G. M. Tomas, “Hongrie, laboratoire d’une nouvelle droite” [Hungria, laboratório de uma nova direita], Le Monde Diplomatique, fev. 2012.
3    “Viktor Orbán pourfend le libéralisme occidental” [Viktor Orbán cliva o liberalismo ocidental], Courrier International, Paris, 1º ago. 2014.
4    Os hunos precederam em vários séculos as tribos magiares, vindas do Ural. Conquistadores temíveis, pagãos com ritos “bárbaros”, hunos e magiares foram rapidamente aproximados no imaginário coletivo.
5    Cf. o site Kurultaj.hu.
6    Gói significa “gentil, não judeu” em iídiche.
7    Na Turquia, o panturquismo, reivindicado pelos ultranacionalistas herdeiros dos Lobos Cinzas, o reclama. Os líderes do panturanismo jovem turco tinham, em outro momento, se unido a Mustafa Kemal Atatürk.
8    Ler Corentin Léotard, “Une extrême droite qui n’exècre pas l’islam” [Uma extrema direita que não execra o islã], e Jean-Yves Camus, “Des extrêmes droites mutantes” [Extremas direitas mutantes], Le Monde Diplomatique, respectivamente abr. 2014 e mar. 2014.
9    Página do Facebook do Jobbik.
10    Joël le Pavous, “L’hymne à la liberté commandé par Orbán se fait descendre en Hongrie” [O hino à liberdade encomendado por Orbán é rejeitado na Hungria], Rue89, 24 ago. 2016.

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