CRESCIMENTO DAS POLARIZAÇÕES POLÍTICAS NA EUROPA

A agonia do “extremo centro”

O Partido Socialista Operário Espanhol decidiu, em 23 de outubro, deixar o conservador Mariano Rajoy formar um governo. A decisão põe fim a dez meses de bloqueio institucional. Ela também dá forma a uma “casta” denunciada pelo Podemos: um campo político preocupado em manter o status quo

Crédito da Imagem: Aroeira

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A política europeia atravessa um período de polarizações. Esse processo não surgiu por acaso. É uma resposta à radicalização do projeto neoliberal que se seguiu à crise financeira de 2008: aumento brutal das desigualdades, aceleração da destruição do Estado social, expulsão de milhões de trabalhadores daquilo que lhes concedia até então a plena cidadania – o emprego… Uma série de abalos econômicos e sociais sacudiu as fidelidades partidárias, reverteu os consensos de outrora e conduziu a deslizamentos tectônicos cujo resultado ninguém ousa prever.
Por que falar de polarizações, no plural? Porque, ainda que no mais das vezes resultem de fenômenos ligados aos políticos europeus (a austeridade, o problema dos refugiados etc.), elas se traduzem por enfrentamentos estruturados sobre o plano nacional e variam de um país para outro.
Essas polarizações não delimitam campos de forma tão oposta quanto os polos de uma pilha. Certas proximidades podem até surpreender, como na questão da saída da União Europeia. Aqui, a oposição “esquerda-direita” esclarece menos que outra, estruturada em torno da questão da soberania nacional. Entre os partidários da saída, encontramos uma parte da extrema direita, ao lado de certos setores da esquerda radical. Do lado “europeísta”, estão a chanceler alemã Angela Merkel e um de seus principais adversários do ano de 2015, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras. Ambos estão de acordo quanto a subordinar a independência nacional à consolidação da União Europeia – ainda que o esforço custe menos à primeira, cujo país desempenha um papel de bússola para Bruxelas. Apesar dessa proximidade estratégica, esses surpreendentes companheiros de estrada não compartilham nenhum projeto político…
O enquadramento de polarizações multiformes caracteriza o período de recomposição dos campos que conhecemos. Os antagonismos se deslocam: eles se exprimem com frequência pelo viés dos sismos eleitorais que amedrontam as elites – o voto a favor do Brexit, a vitória do Syriza na Grécia, os resultados obtidos pelo Podemos na Espanha etc. –, mas que ao final afetam muito pouco a vida cotidiana das populações. No entanto, estamos apenas nos primeiros momentos de uma reconfiguração política, econômica e cultural em escala continental…
Importantes mutações já podem ser observadas. O intelectual Stuart Hall definiu a política conduzida pela primeira-ministra Margaret Thatcher nos anos 1980 como um “populismo autoritário”, concebido para responder ao enfraquecimento da social-democracia keynesiana do pós-guerra. Operando a fusão do dinheiro com o poder, essa revolução conservadora conheceu sua principal vitória com o surgimento da “terceira via” trabalhista, encarnada por Tony Blair.1 Convidada a citar seu maior sucesso, a Dama de Ferro respondeu: “Tony Blair e o Novo Trabalhismo”.2 Essa mutação da social-democracia em “social-liberalismo” produziu o que o intelectual britânico Tariq Ali chama de “extremo centro”, que reúne a esquerda pró-empresarial e a direita pró-patronato a serviço do “1%”, a elite oligárquica dos mais ricos. No controle desde a Segunda Guerra Mundial, esse campo conheceu uma crise que reforça organizações até então deixadas à margem. Na maior parte dos casos, o fenômeno conduziu a um deslocamento do campo político para a direita. Mas nem sempre.

Um imaginário da escassez
Na Grécia, por exemplo, a crise da social-democracia se traduziu em longos meses de luta contra os governos de “extremo centro” submetidos à Troika (Banco Central, Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional). Essa luta terminou com a vitória do Syriza nas eleições legislativas de janeiro de 2015 e com a marginalização do Partido Socialista Grego, o Pasok. Mas, em seu confronto com as instituições europeias, o Syriza recusou vislumbrar qualquer perspectiva de ruptura. O fracasso dessa estratégia reformista o levou a se transformar no equivalente funcional de seu adversário “social-liberal” de ontem… Na Áustria, ao contrário, o voto de protesto beneficiou o partido de extrema direita Freiheitliche Partei Österreichs (FPÖ, Partido da Liberdade).
A crise dos refugiados estrutura outro eixo desse fenômeno geral de polarização. De momento, a resposta principal dos líderes europeus foi o fechamento das fronteiras – outra consequência da austeridade. Porque, para além dos cortes orçamentários e das privatizações, esta impõe o que o economista Isidro López qualificou de “imaginário da escassez”, a ideia de que “não vai ter para todo mundo” e que, em consequência, alguns são “demais”.3 Organizando a oposição entre identidade nacional e cidadania, esse eixo de polarização beneficia as elites, cuja responsabilidade se obscurece diante da colocação dos mais frágeis na mira de acusação: os migrantes, os estrangeiros ou, simplesmente, os “outros”.
Igualmente contraditória, a campanha em torno do Brexit mostrou que a falta de solução política crível em escala europeia deixava o campo livre para o medo, a xenofobia, o enraizamento identitário, o egoísmo e a busca de bodes expiatórios. A campanha foi organizada em torno de diversas preocupações populares, entre elas aquela ligada à degradação da democracia. Certos partidos, nem sempre de esquerda, como o Partido para a Independência do Reino Unido (Ukip), tomaram posse dessa preocupação, assumindo em seus discursos a defesa do povo contra as elites, dos “de baixo” contra “os de cima”. E eles convenceram.
O Movimento 5 Estrelas, na Itália, oferece uma das expressões mais estrondosas desse voto de protesto. O partido de Giuseppe (“Beppe”) Grillo resulta de uma dupla denúncia: a do crescimento em poder de um populismo autoritário encarnado pelo berlusconismo e a de uma esquerda em decomposição na sequência de seu apoio ao governo de Romano Prodi. Mas denunciar significa se definir em negativo: fica a questão da identificação do projeto que se deseja defender.
Por outro lado, é bem verdade que a ausência de contornos nítidos pode se mostrar útil. Qual era, na Espanha, em 15 de maio de 2011 e nos dias que se seguiram, o grito do movimento de ocupação das praças (o 15-M)? “Eles não nos representam!”, uma denúncia do choque de austeridade imposto pelo governo e da corrupção da classe política. Esse coquetel explosivo quebrou os consensos sociais sobre os quais repousava a legitimidade do regime nascido da Constituição de 1978.4 Sem projeto: uma rejeição.
O caso espanhol esclarece muito bem o fenômeno que nos interessa aqui. De início, pelo fato de que o país serviu de laboratório para a aplicação das medidas de austeridade exigidas pela União Europeia. Em segundo lugar, porque a Espanha conheceu a emergência de um imaginário ao consagrar o endividamento como modo de vida. A explosão da bolha imobiliária revelou as ilusões dessa visão e introduziu uma dissonância no ambiente cultural que alimentava os sonhos de prosperidade das classes médias proprietárias. Consequência? Uma mudança de postura em relação ao mundo político semelhante àquela que se expressa em toda a Europa e oscila deste ou daquele lado do tabuleiro de xadrez em função da existência – ou não – de lutas sociais animadas por organizações populares.
Num tal contexto, a irrupção do Podemos, em 2014, representa um passo a mais nesse distanciamento das populações em relação às elites. Ela se inscreve na agitação que se seguiu ao 15-M, aos impulsos de solidariedade com a Plataforma de Apoio às Vítimas das Hipotecas (PAH) e às “marés”, os movimentos sociais identificados pela cor de roupa adotada em suas manifestações: branco para a saúde, verde para a educação, vermelho para a ciência, azul para a defesa da água, negro para a defesa das condições de trabalho dos trabalhadores e contra os golpes orçamentários, violeta para os direitos das mulheres…
Todavia, seria prematuro proclamar a morte dos partidos do “extremo centro”, muito menos na Espanha. Além disso, nosso partido não conseguiu (ainda que tenha faltado pouco) ultrapassar o Partido Socialista Operário Espanhol (Psoe) nas últimas eleições gerais.5 Desde dezembro de 2015, o país nunca conseguiu dar a si um governo e teve de organizar novas eleições em junho de 2016 – as primeiras em sua história recente. Não seria possível entender essa instabilidade sem levar em conta o clima de polarizações, tanto nas ruas como no Parlamento. A capacidade das elites (e dos aparelhos) de se organizar continua colossal, enquanto as dificuldades para constituir um bloco social que exiba um projeto de ruptura permanecem. Disso resta que, pouco a pouco, novas maneiras de ver o mundo e novas forças sociais se constroem.
Nesse contexto de polarizações, a luta pela construção de uma maioria social não é travada no centro do tabuleiro de xadrez político, mas em suas bordas: ali onde se organiza a luta entre povo e elites compreendida em seu senso mais estrito de antagonismo de classe. Nascido para frear a sangria que priva a população de direitos conquistados com muita luta, esse confronto oferece uma ocasião estratégica: conquistar novos direitos e inventar novas formas democráticas.
Em dois anos, milhares de pessoas passaram pelos círculos do Podemos. Mas se por um lado todas votaram a favor desse partido em diversas eleições, por outro a maior parte não participou de maneira regular da vida de suas estruturas de base. O Podemos soube dar corpo a uma política “do excepcional”, chegando a mobilizar milhões de pessoas por ocasião de eventos pontuais, mas se mostrou menos hábil para propor uma política “do dia a dia”, mobilizar uma comunidade, solidariedades, redes de apoio mútuo suscetíveis de reforçar a resistência e as lutas. Ninguém acredita que ele vai conseguir sozinho “territorializar a política”. Ele terá de trabalhar com outros atores para tecer ligações em todos os espaços da vida social e gerar instituições de classe autônomas, capazes de resistir aos assaltos dos neoliberais. Trata-se de um dos principais desafios durante o próximo período, se desejarmos evitar dois obstáculos perigosos: ficar na memória de todos como um partido “relâmpago”, morto tão rapidamente quanto nasceu; ou nos transformarmos em um partido a mais, à imagem dos outros. O movimento do 15-M abriu o ciclo político que tornou possível a emergência do Podemos, mas a passagem para uma nova etapa da vida do partido requer um retorno da mobilização social e a intensificação do fenômeno das polarizações. Então se abrirá a via da mudança, interditando a restauração do regime atual.
As palavras do intelectual sardo Antonio Gramsci foram citadas com frequência e continuam sendo válidas: “O velho mundo agoniza, o novo mundo tarda a nascer, e nesse lusco-fusco irrompem os monstros”. No polo antissistema, dois polos de formam: um promove a xenofobia; o outro, a luta de classes. Os monstros surgem quando o campo de batalha político se estrutura em torno de questões da identidade e de pertencimento nacional em vez daquelas da democracia e da justiça social.


1    Ler Keith Dixon, “Dans les soutes du blairisme” [Nos subterrâneos do blairismo], Le Monde Diplomatique, jan. 2000.
2    Conor Burns, “Margaret Thatcher’s greatest achievement: New Labour” [A grande conquista de Margaret Thatcher: o New Labour], 11 abr. 2008. Disponível em: <conservativehome.blogs.com>.
3    Isidro López, “Seis tesis sobre la Unión Europea” [Seis teses sobre a União Europeia], La Circular, 2 jun. 2016. Disponível em: www.lacircular.info.
4    Ler Renaud Lambert, “Podemos bouscule l’Espagne” [Podemos sacode a Espanha], Le Monde Diplomatique, jan. 2015.
5    20,68% dos votos para o Podemos contra 22% para o Psoe na eleição de 20 de dezembro de 2015; depois, respectivamente 21,10% e 22,66% no pleito de 26 de junho 2016.

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