A língua, o Rolls Royce e o Volkswagen - Le Monde Diplomatique

FALA E ESCRITA ÁRABES

A língua, o Rolls Royce e o Volkswagen

setembro 14, 2011
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A língua está no centro da identidade dos povos, da resistência às iniciativas coloniais.

Como falar e escrever em árabe? A questão é complexa porque depende de fatores ideológicos que não têm nada a ver com a língua falada por nativos. Eu não sei de onde vem essa concepção segundo a qual o árabe exprimiria essencialmente uma violência abominável e incompreensível, mas é evidente que todos os traidores com turbantes das telas de Hollywood dos anos 1940 e 1950 falando com suas vítimas em tom colérico e com um deleite sádico certamente contribuíram para a construção dessa imagem. Outra contribuição, mais recente, foi a obstinação dos meios de comunicação norte-americanos pelo terrorismo, que parece ser a única atividade relacionada aos árabes.

Entretanto, a retórica e a eloquência na tradição literária árabe têm pelo menos um milênio de existência: são os escritores de Bagdá, como Al-Jahiz e Al-Jurjani, que elaboraram sistemas incrivelmente complexos e particularmente modernos para entender a retórica, a eloquência e os tropos.1 Mas esse trabalho se baseia no árabe clássico escrito e não no falar cotidiano. Pois o primeiro é dominado pelo Alcorão, ao mesmo tempo origem e modelo de tudo o que foi feito depois em matéria linguística.

Expliquemos esse ponto, pouco familiar aos falantes das línguas europeias modernas, nas quais não há diferença entre as versões orais e literárias e nas quais a Escritura santa perdeu inteiramente sua autoridade verbal. Todos os árabes usam um dialeto oral que varia de maneira considerável de uma região para outra ou de um país para outro. Eu cresci numa família na qual a língua falada era uma mistura do que era comumente usado na Palestina, no Líbano e na Síria: esses três dialetos apresentavam diferenças suficientes para que possamos distinguir, por exemplo, um habitante de Jerusalém de outro de Beirute ou ainda de um de Damasco – mas os três poderiam se comunicar entre si sem realizar grandes esforços.

Como fui à escola no Cairo, onde passei a maior parte de minha juventude, eu falava também fluentemente o dialeto egípcio, muito mais rápido e elegante que os outros adquiridos com minha família. Além disso, o egípcio era mais comum: quase todos os filmes árabes, os dramas radiofônicos e as novelas da televisão eram produzidos naquele país. O idioma deles tornou-se familiar para toda a população do mundo árabe.

Durante os anos 1970 e 1980, o boomdo petróleo levou à produção de dramas televisivos em outros países, dessa vez em árabe clássico. Esses dramas maquiados, pomposos e pesados eram supostamente feitos para agradar ao gosto dos muçulmanos (e de cristãos conservadores, geralmente mais puritanos), que poderiam ter rejeitado os filmes cairotas cheios de verve. E para nós eles eram desesperadamente tediosos! O mousalsal(novela) egípcio realizado às pressas nos divertia infinitamente mais do que o melhor dos dramas em língua clássica.

De qualquer forma, de todos os dialetos somente o egípcio teve tanta difusão. Assim, eu teria toda a dificuldade do mundo para entender um argelino, tamanha é a diferença entre os dialetos do Machrek e os do Magreb. Teria a mesma dificuldade com um iraquiano ou com um interlocutor com um forte sotaque do Golfo. É por isso que as informações radiodifundidas ou televisadas utilizam uma versão modificada e modernizada da língua clássica, que pode ser compreendida por todo o mundo árabe, do Golfo ao Marrocos – seja quando se trata de debates, documentários, reuniões, seminários, sermões da mesquita e discursos, passando por reuniões nacionalistas, ou ainda encontros cotidianos entre cidadãos falando línguas muito diferentes.

Assim como o latim tinha sua importância para os dialetos europeus falados até um século atrás, o árabe clássico permaneceu muito vivo como língua comum escrita, apesar dos imensos recursos de toda uma série de dialetos falados que, com exceção do egípcio, nunca foram difundidos fora do país de origem. Além do mais, esses dialetos falados não contam com a vasta literatura do árabe clássico.

Mesmo os escritores conhecidos como “regionais” têm uma tendência em utilizar a língua moderna clássica e apenas ocasionalmente o árabe dialetal. Na prática, uma pessoa educada aprende dois usos linguísticos bem diferentes, a tal ponto de, por exemplo, uma conversa em dialeto com um repórter de um jornal ou de uma televisão passar automaticamente, com o início da gravação, para a língua clássica, mais formal e polida.

Existe, é claro, um elo entre as duas línguas: as letras são quase sempre idênticas e a ordem das palavras também. Mas os termos e a pronúncia diferem à medida que o árabe clássico, versão padrão da língua, perde a característica de dialeto regional ou local e emerge como um instrumento sonoro, cuidadosamente modulado, elevado, extraordinariamente flexível, no qual as fórmulas permitem uma grande eloquência. Utilizado de modo correto, o árabe clássico não tem igual no que diz respeito à precisão da expressão e ao modo surpreendente pelo qual as variações das letras individuais em uma palavra (sobretudo as terminações) permitem exprimir coisas bem distintas.

É também uma língua com uma centralidade sem igual em relação à cultura árabe: como escreveu Jaroslav Stekevych, que lhe consagrou o melhor livro moderno,2 “como a Vênus, ela nasceu em estado de beleza perfeita e conservou essa beleza apesar das peripécias da história e das forças do tempo”. Para o estudante ocidental, “o árabe traz uma ideia de atração quase matemática. O sistema perfeito de três radicais consoantes, as formas aumentadas dos verbos com significados básicos, a formação precisa da derivação verbal, dos particípios. Tudo éclareza, lógica, sistema e abstração”. Mas é também um belo objeto a ser observado em sua forma escrita. Daí o papel central e perdurável da caligrafia, arte combinatória da mais alta complexidade, mais próxima do ornamento e do arabesco do que do discurso explícito.

Durante os primeiros dias da guerra no Afeganistão, em 2001, no canal árabe via satélite Al-Jazeera viam-se discussões e reportagens inexistentes nos meios de comunicação dos Estados Unidos. O que mais surpreendia, além do conteúdo dos programas, era, e isso apesar das complexidades abordadas, o alto nível de eloquência que caracterizava os participantes enfrentando as piores dificuldades – incluindo os mais repugnantes e até mesmo Osama bin Laden. Este último falava com uma voz suave, sem hesitações ou mínimos erros, o que seguramente contou para sua influência. Foi também o caso, em menor medida, de não árabes como os afegãos Burhanuddin Rabbani e Gulbuddin Hekmatyar, que, sem dominar o dialeto árabe, souberam se expressar na língua clássica com uma facilidade desconcertante.

É evidente que o que chamamos de árabe padrão moderno (ou clássico) não é exatamente a língua na qual foi escrito o Alcorão há catorze séculos. Ainda que o Livro santo seja hoje um texto muito estudado, sua língua soa antiga, quase pomposa e, em consequência, inutilizável na vida cotidiana. Comparada à prosa moderna, a língua do Alcorão tem aspectos de poesia fonética.

O árabe clássico moderno resulta do processo de modernização iniciado durante as últimas décadas do século XIX – o período da Nahda, ou renascimento. Foi sobretudo obra de um grupo de homens da Síria, do Líbano, da Palestina e do Egito (entre os quais um número surpreendente de cristãos). Eles se dedicaram coletivamente à transformação da língua árabe, modificando e simplificando um pouco a sintaxe do original do século VII por meio de uma arabização (isti’rab): tratava-se de introduzir palavras como “trem”, “empresa”, “democracia” ou “socialismo”, inexistentes durante o período clássico. Como? Extraindo-as dos imensos recursos da língua graças ao procedimento técnico gramatical de al-qiyas, a analogia. Esses homens impuseram um vocabulário novo, que representa atualmente cerca de 60% da língua clássica padrão. Assim, a Nahda conduziu a uma libertação dos textos religiosos, introduzindo de forma sutil um novo secularismo naquilo que os árabes diziam e escreviam.

A gramática árabe é tão sofisticada e sedutora por sua lógica que um aluno mais velho a estuda com mais facilidade porque poderá apreciar as sutilezas de seu raciocínio. É nos institutos linguísticos do Egito, da Tunísia, da Síria, do Líbano e de Vermont que o melhor ensino de árabe é oferecido aos não árabes.

Quando a Guerra Árabe-Israelense de 1967 me levou ao engajamento político a distância, uma coisa me chocou mais do que tudo: a política não foi conduzida em ameya, ou na língua do grande público, como chamamos o árabe dialetal, mas no rigoroso e formal fosha, a língua clássica. Compreendi rapidamente que as análises políticas apresentadas nas reuniões e encontros aparentavam ser mais profundas do que de fato eram. Para minha grande decepção, descobri que eram particularmente verdadeiras as aproximações do jargão dos marxistas e dos movimentos libertários da época: as descrições de classes, de interesses materiais, aqueles do capital e do movimento de trabalhadores, eram arabizadas e direcionadas, por meio de longos monólogos, não ao povo, mas a outros militantes sofisticados.

Em âmbito privado, líderes populares como Yasser Arafat e Gamal Abdel Nasser, com quem mantive contato, utilizavam muito melhor o dialeto que os marxistas, os quais eram também mais cultos que esses dois dirigentes. Nasser, em particular, falava às massas de fiéis em dialeto egípcio com as frases sonoras do fosha. Quanto a Arafat, levando em conta que a eloquência do árabe depende muito do falar dramático, sua reputação era de ser um orador abaixo da média: seus erros de pronúncia, suas hesitações e suas circunlocuções atrapalhadas pareciam, para um ouvido apurado, um elefante passeando em uma loja de porcelana.

A Universidade Al-Azhar do Cairo é uma das instituições de ensino superior mais antigas do mundo; ela é também a sede da ortodoxia islâmica, e seu reitor éa mais importante autoridade religiosa do Egito sunita. Mais do que isso: Al-Azhar ensina – essencialmente, mas não só – o saber islâmico, cujo cérebro é o Alcorão, assim como tudo relacionado amétodos de interpretação, jurisprudência, hadiths,3língua e gramática.

A habilidade de dominar o árabe clássico se encontra no centro do ensinamento islâmico de Al-Azhar, para os árabes e os outros muçulmanos, pois estes últimos consideram o Alcorão o Verbo de Deus incriado, “descido” (mounzal) por meio de uma série de revelações feitas a Maomé. Por consequência, a língua do Alcorão é sagrada; ela contém regras e paradigmas obrigatórios para aqueles que a utilizam, apesar de que, muito paradoxalmente, não é possível imitá-la por fato doutrinal (ijaz).

Há sessenta anos ouvíamos os oradores e comentávamos a correção de sua linguagem tanto quanto o que eles tinham a dizer. Quando fiz meu primeiro discurso em árabe, no Cairo, há duas décadas, um de meus jovens parentes se aproximou de mim após o final da fala para me dizer o quanto ele estava decepcionado por eu não ter sido mais eloquente. “Mas você entendeu o que eu dizia?”, perguntei-lhe numa voz lamentosa – minha principal preocupação era ser compreendido em temas complicados da política e da filosofia. “Oh sim, mas é claro”, respondeu ele em tom desdenhoso, “nenhum problema; mas você não foi orador ou eloquente o suficiente”.

Essa recriminação me persegue até hoje quando tenho de falar em público. Sou incapaz de me transformar em um orador eloquente. Misturo os idiomas dialetais e clássicos de maneira pragmática, com resultados duvidosos. Como já me disseram uma vez de modo amável, eu me pareço com alguém que possui um Rolls Royce, mas prefere dirigir um Volkswagen.

Foi apenas ao longo dos últimos dez ou quinze anos que eu a descobri: a melhor, a mais apurada, a mais afiada das prosas árabes que jamais li ou ouvi foi escrita por romancistas (e não por críticos) como Elias Khoury ou Gamal al-Ghitany. Ou por nossos dois maiores poetas, Adonis e Mahmoud Darwich: eles atingem, em suas odes, níveis rapsódicos tão elevados que enormes auditórios são levados a entusiasmados frenesis de encantamento.

Para eles, a prosa é um instrumento aristotélico afiado como uma lâmina. Seu conhecimento da linguagem é tão imenso e natural, seus dons tão poderosos, que eles serão eloquentes e claros sem precisar de palavras supérfluas, de verbosidade cansativa ou de exibição vã. Enquanto eu, que não fui formado no sistema escolar nacional árabe, mas no “sistema colonial”, tenho de me esforçar inteligentemente para formular uma frase em árabe clássico de modo claro e na ordem correta. Mas tenho de confessar que nem sempre os resultados são convincentes em termos de elegância…



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