COREIAS

A península coreana na mira do império

A política internacional da Guerra Fria modulou desde o início as relações entre as duas Coreias. Segundo Bruce Cumings, em seu North Korea: Another Country (2004), já logo após o armistício em 1953, os Estados Unidos introduziram armas nucleares na Coreia do Sul e, desde então e nas décadas seguintes, sempre tiveram presente fazer uso delas já no início de uma eventual nova guerra na península

por: Ricardo Pagliuso Regatieri
13 de julho de 2017

 

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Recentemente, a península coreana se converteu mais uma vez em centro das atenções mundiais e objeto de preocupação no que diz respeito a um possível conflito armado ou mesmo a uma escalada nuclear. Com efeito, mais de um quarto de século após a derrocada do sistema soviético e dos regimes do Leste Europeu a ele associados, a Guerra Fria naquela região do planeta, com sua roupagem bem particular, parece não ter acabado. A divisão entre Coreia do Sul e Coreia do Norte remonta ao final da Segunda Guerra Mundial e ao início da disputa entre os Estados Unidos e a União Soviética no plano mundial.  Em 1905, na sequência das vitórias japonesas na Guerra Sino-Japonesa (1894-1895) e na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), e no âmbito da política imperialista que, ao fim e ao cabo, conduziu o Japão a duas guerras mundiais, a península coreana se tornou um protetorado japonês. O fim do regime colonial e a libertação da Coreia só vieram a ter lugar com a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial em 1945. No contexto da nova divisão de poder e de território a ser levada a cabo no Leste Asiático após a vitória sobre o Japão, os Estados Unidos – cujas tropas não se encontravam na península coreana – propuseram à União Soviética – com tropas já estacionadas ali – uma ocupação conjunta e a divisão da Coreia na altura do paralelo 38 (a poucos quilômetros ao norte de Seul), sob controle soviético no norte e norte-americano no sul. Ainda no fim da ocupação japonesa, pouco antes da rendição, começaram a ser organizados “comitês do povo” como preparação para a retomada da independência do país. Enquanto no norte os soviéticos estimularam os comitês do povo, nos quais em pouco tempo passaram a preponderar os comunistas que haviam atuado na resistência contra os japoneses, no sul o governo militar instalado pelos Estados Unidos eliminou-os e aliou-se com os conservadores locais vinculados aos interesses do capital. Ainda que o compromisso inicial fosse o estabelecimento de um governo unificado, os interesses que em muito pouco tempo se organizaram dos dois lados do paralelo 38 tornavam cada vez mais distante a ideia da unificação. Em 1948, foram formados um governo no Sul e outro no Norte, cada um deles contando com a retaguarda da respectiva potência de ocupação: o Sul sob a liderança de Syngman Rhee em Seul e o Norte com Kim Il Sung (avô do atual presidente norte-coreano, Kim Jong Un) à frente em Pyongyang. Em junho de 1950, a já tensa situação na altamente militarizada fronteira imaginária ao longo do paralelo 38 se converte em conflito armado e tem início a Guerra da Coreia.

Como aponta Michael E. Robinson em Korea’s Twentieth-Century Odyssey (2007), a Guerra da Coreia foi a primeira daquelas que ficariam conhecidas como “guerras de impasse” ou “guerras limitadas” no período da Guerra Fria – limitadas em virtude das consequências catastróficas de qualquer conflito mais amplo entre os Estados Unidos e a União Soviética. Robinson também chama a atenção para o fato de que, com esse enfretamento militar, teve início o uso de eufemismos que hoje em dia são correntes: nos Estados Unidos, a guerra foi noticiada como “conflito” e como “ação policial” e é com ela que aparece a expressão “bombardeio cirúrgico”. Foi também na Guerra da Coreia que se registrou pela primeira vez a ampla utilização de aviões a jato e de napalm. A guerra se encerrou em 1953 com um armistício, que está em vigor até a presente data – o que significa dizer que ela formalmente não chegou a termo. Do fim da guerra em diante, Coreia do Norte e Coreia do Sul seguiram distintas trajetórias de modernização retardatária. Orbitando em torno da União Soviética e da China, a primeira se edificou com base na ideologia do Juche patrocinada por Kim Il Sung, cujos pilares são a independência política e a autossuficiência nos campos da economia e da defesa, e que segue em vigor como a essência do “socialismo” norte-coreano. À segunda, foi facultado pelos norte-americanos acesso favorável a seu conhecimento, tecnologia e mercados, que foram fatores indispensáveis à rápida industrialização e modernização do país, fortemente impulsionadas pelo governo ditatorial de Park Chung Hee (pai da ex-presidente sul-coreana, Park Geun Hye, eleita em 2012 pelo conservador Partido Saenuri, removida do cargo por um processo de impeachment em março de 2017 e atualmente presa). Tendo liderado um golpe militar em 1961 e sido presidente da Coreia do Sul desse ano até seu assassinato em 1979, Park Chung Hee promoveu uma agressiva industrialização orientada às exportações cuja base foram conglomerados empresariais familiares, os chaebol – Samsung, Hyundai, LG, Daewoo e Korea Airlines são algumas das mais conhecidas dentre essas empresas. De 1994, ano do falecimento do fundador da República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte) e sua sucessão por seu filho Kim Jong Il, a 1998, o país passou por uma fome em massa, em parte resultante da desintegração da União Soviética e do fim de seu apoio econômico. Por outro lado, como fruto do “milagre do Rio Han” (expressão que se refere ao acelerado crescimento econômico sul-coreano, especialmente a partir da década de 1960, aludindo ao rio que corta Seul), que teve lugar sob regimes autoritários que forjaram, conforme a expressão de Kyung-Sup Chang, uma “modernidade condensada”, não sem enorme sacrifício humano, a República da Coreia (Coreia do Sul) se tornou membro da OCDE em 1996 e atualmente tanto seu governo como boa parcela de sua intelectualidade rejeitam qualquer outra caracterização do país que não seja a de “desenvolvido”.

A política internacional da Guerra Fria modulou desde o início as relações entre as duas Coreias. Segundo Bruce Cumings, em seu North Korea: Another Country (2004), já logo após o armistício em 1953, os Estados Unidos introduziram armas nucleares na Coreia do Sul e, desde então e nas décadas seguintes, sempre tiveram presente fazer uso delas já no início de uma eventual nova guerra na península, enquanto que a estratégia adotada para a Europa em caso de conflito era a de lançar mão de armas convencionais até se esgotarem todas as alternativas, e só então partir para aquela opção drástica. Também a partir do final da guerra, a Coreia do Norte respondeu à ameaça representada pelo poderio militar norte-americano desenvolvendo enormemente sua capacidade de defesa – um dos pilares da ideologia do Juche. Mais de sessenta anos depois do fim da Guerra da Coreia, como escreveu Cumings em um artigo em março do presente ano na revista The Nation, o país de 25 milhões de habitantes tem o quarto maior exército do mundo, diversas instalações militares subterrâneas e nas montanhas próximas à fronteira ao norte de Seul, mísseis que podem atingir todas as bases militares norte-americanas na região – os Estados Unidos mantêm 28.500 soldados em suas bases na Coreia do Sul –, além de bombas nucleares mais poderosas do que a de Hiroshima. No contexto do fim da Guerra Fria e com base na experiência com as bombas “inteligentes” na Guerra do Golfo, George H. W. Bush retirou, no início da década de 1990, todo o armamento nuclear estacionado na Coreia do Sul. Pouco depois, em 1994, durante a administração de Bill Clinton, foi firmado um acordo para congelar a produção norte-coreana de plutônio por oito anos; em 2000, outro foi negociado visando a compra pelos Estados Unidos de todos os mísseis de médio e longo alcance da Coreia do Norte; e ainda outro foi assinado estipulando que nenhum dos dois países sustentaria “intenções hostis” em relação ao outro. Mas na sequência do ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, a administração de George W. Bush passou a ignorar os acordos firmados e incluiu a Coreia do Norte no assim chamado “eixo do mal”. Além da Coreia do Norte, Bush apontou o Iran e o Iraque em seu discurso sobre o State of the Union de janeiro de 2002 como países buscando construir armas nucleares e pediu o apoio da população norte-americana no enfrentamento com esses países no âmbito de sua “guerra ao terror”. Cumings conclui dizendo que Pyongyang não possuiria atualmente armas nucleares caso os acordos patrocinados por Clinton houvessem sido cumpridos pelos Estados Unidos.

Em “Imperium”, artigo publicado na New Left Review em 2013, Perry Anderson joga luz sobre a política externa norte-americana desde o fim da Segunda Guerra Mundial e fornece elementos que permitem matizar a conclusão de Cumings, de modo a ir além da determinação conjuntural e atentar para aspectos estruturais da configuração internacional de poder. Segundo Perry Anderson, a Guerra Fria foi sempre assimétrica e marcada pela postura ofensiva dos norte-americanos visando a hegemonia mundial e pela posição defensiva dos soviéticos. Esses últimos nunca possuíram uma grande estratégia de preponderância de poder no plano global, de modo que a iniciativa do conflito recaiu sobre a parte mais forte, frente à qual a mais fraca teve que se posicionar. Ainda que por parte dos Estados Unidos a ideologia justificando o enfrentamento o apresentasse como “contenção” e como uma questão de “segurança”, o objetivo final era a vitória e a eliminação do inimigo. Com o fim da Guerra Fria, encerra-se uma época e os Estados Unidos se convertem na única superpotência mundial. Entretanto, não havia razão para descansar, já que a grande estratégia hegemônica engendrada a partir das décadas de 1940 e 1950 precisava ser completada: o modelo soviético desapareceu, mas o capitalismo ainda não havia cumprido seus desígnios enquanto uma ordem planetária com apenas um ator hegemônico; a democracia de mercado ainda não existia em toda parte; e na hierarquia mundial, nem todos os Estados sabiam seu lugar. Anderson afirma que os estrategistas norte-americanos sempre insistiram que o poder de seu país não deveria se assentar apenas sobre a força do bom exemplo, isto é, o fato de ser um modelo de riqueza e liberdade a ser emulado por toda a civilização do capital, mas que a isso se unia inseparavelmente a força das armas. As guerra nos Balcãs foi pioneira em virtude não só dos avanços da eletrônica em termos da precisão dos ataques, de resto já inaugurada na primeira Guerra do Iraque, mas, acima de tudo, por ter sido legitimada pela nova doutrina dos direitos humanos, capaz inclusive de se sobrepor ao princípio da soberania nacional. A “guerra ao terror” de George W. Bush, lançando mão da ideia de uma grande ameaça à civilização ocidental, é mais uma roupagem da estratégia imperial: a opinião pública dos Estados Unidos é bombardeada com o perigo iminente, agora não já dos soviéticos, mas sim de organizações extremistas e Estados-pária. Ela leva adiante, segundo Anderson, a premissa mais geral que move a atuação internacional dos Estados Unidos desde o final da Segunda Guerra: promover os interesses dos capital assegurando ao mesmo tempo a supremacia nacional norte-americana. Esse amálgama corresponde ao conteúdo do imperialismo norte-americano de caráter global. A chegada ao poder dos democratas com Obama pouco alterou a diplomacia imperial dos Estados Unidos, mas adicionou ao cardápio de armas os drones, e sofisticou os ataques de precisão e sem baixas de militares norte-americanos. O poder crescentemente acumulado pela Presidência dos Estados Unidos, com uma inversamente proporcional necessidade de accountabilty, foi herdado e expandido por Obama. A máquina de guerra que o império se tornou não se reconverteu na figura da utopia liberal de antes da Segunda Guerra finda a Guerra Fria: as instituições, dispositivos e ideologias geradas e acumuladas durante o enfrentamento com a União Soviética se cristalizaram num imenso complexo com uma dinâmica própria que não necessita mais ser movido pela ameaça soviética.

Nesse contexto, a política de deterrence adotada por Pyongyang parece ser algo mais realista do que fruto da loucura de um líder que é fã de Mickey Mouse. Como formulado por Cumings, a Coreia do Norte é o único país que tem sido sistematicamente chantageado pelo poderio nuclear dos Estados Unidos desde o início da década de 1950. A virada de Bush em relação à distensão promovida por Clinton, com a inclusão do país na lista de inimigos prioritários, se não deve ser vista como um fato conjuntural isolado e sim dentro do quadro mais amplo da geopolítica do império, foi por outro lado decisiva para o desenvolvimento do programa nuclear norte-coreano nos últimos quinze anos. No momento, a política de Twitter de Donald Trump só traz mais imprevisibilidade e instabilidade à península coreana. Mas, por outro lado, um outro fator conjuntural é promissor para o desenrolar das relações entre as duas Coreias: a eleição de Moon Jae In, do Partido Democrático, para a Presidência do país no pleito realizado antecipadamente no último dia 9 de maio em virtude do impeachment de Park Geun Hye. A conservadora Park havia congelado as relações com a Coreia do Norte e firmado acordo com Obama para a instalação de um escudo antimísseis – o Terminal High Altitude Area Defense (THAAD) – no território sul-coreano, que recentemente começou a ser implantado pela administração de Trump. Moon, que atuou como advogado de direitos humanos e foi um opositor da ditadura de Park Chung Hee, tem se posicionado contra o THAAD (que ademais conta com forte oposição entre a população da Coreia do Sul), foi um dos proponentes da chamada Sunshine Policy – uma política de aproximação entre as duas Coreias posta em marcha em 1998 e depois descontinuada –, defende o diálogo com a Coreia do Norte e já propôs uma visita ao país vizinho. A política de Pyongyang sempre foi e continua sendo marcada pelo pragmatismo, de modo que Kim Jong Um deverá lidar com o novo presidente sul-coreano sem deslumbramento, já que sabe que, com Moon, não são de se esperar grandes abalos na lógica do business as usual.

Ricardo Pagliuso Regatieri é doutor em Sociologia pela USP, tendo realizado período de doutorado sanduíche na Goethe-Universität Frankfurt. Foi professor na Korea University e na Hankuk University of Foreign Studies, ambas em Seul. Atualmente é pós-doutorando no Departamento de Sociologia da USP com bolsa da FAPESP



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