ORIENTE MÉDIO - TENSÃO NO CATAR

A Polarização do Golfo e seus recentes desdobramentos na Era Trump

Um novo capítulo de tensão e polarização desenha-se no Oriente Médio. Acusando o governo catari de apoiar grupos terroristas, os governos da Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Egito cortaram relações diplomáticas com o Catar. Nestes países já é legalmente proibido declarar qualquer tipo de solidariedade aos vizinhos cataris, e a punição pode chegar a 15 anos de prisão. Os sinais da emissora de TV Al Jazeera também foram interrompidos.

por: Nathalia Quintiliano
6 de julho de 2017
Crédito da Imagem: White House/cc

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A recente crise política no Golfo deixou o Catar, um dos menores e mais ricos países do mundo, em clima de instabilidade econômica, política e social. Sob a acusação de incitar o extremismo e o terrorismo ao apoiar particulares grupos islamitas, e também de estreitar os laços com a Republica Islâmica do Irã, os governos do Reino da Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Republica Árabe do Egito cortaram relações diplomáticas com o país no dia cinco de Junho de 2017. A decisão aconteceu dias depois da vista do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à Arábia Saudita.

A escolha de Riad como a primeira visita oficial da nova administração de Washington mostrou a aproximação entre os dois países, e garantiu o apoio necessário para a tentativa de consolidar a liderança da Arábia Saudita entre os países do Golfo. Além disso, a escolha reafirmou o posicionamento estadunidense em relação ao Irã, grande rival saudita na região.

Após o vazamento de uma publicação na mídia nacional catari reafirmando os laços do Emir Tamim bin Hamad al-Thani com o Irã, defendendo seu apoio a grupos islamitas como o Hamas, na Faixa de Gaza, a Irmandade Muçulmana no Egito, e a Jabhat Fateh AL Sham, filial da Al Qaeda na Síria, a tensão entre o Catar, e os outros membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) escalou. Apesar da declaração do Emir AL-Thani de que a publicação foi resultado da ação de hackers, e que por tanto seriam falsas, embaixadores de três países do Golfo (Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Arábia Saudita), e também do Egito, foram rapidamente retirados da capital, Doha, e as ligações diplomáticas, terrestres, marítimas e aéreas com o país foram cortadas. As declarações continuam sendo veiculadas em uma espécie de guerra midiática entre os países da região. Os cidadãos do Catar que estavam residentes, a turismo, ou negócios, receberam um prazo de duas semanas para retornar ao seu país de origem. As representações das companhias aéreas e marítimas do Catar foram fechadas, e no momento estudam alternativas para as suas rotas internacionais, ja que não podem sobrevoar o espaço aéreo ou frequentar os portos desses países. Enquanto isso, companhias como Emirates e Etihad de Dubai e Abu Dhabi, respectivamente, já interromperam as suas rotas para o Catar desde o dia sete de Junho. Na Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes, por exemplo, já é legalmente proibido declarar qualquer tipo de solidariedade aos vizinhos cataris, e a punição pode chegar a 15 anos de prisão. Os sinais da emissora de TV Al Jazeera também foram interrompidos.

Abruptamente, o Catar se encontrou isolado e sem uma perspectiva concreta no complexo jogo geopolítico da região. Ira e Turquia pediram diálogo para resolver a crise, e declararam seu apoio ao país prometendo fornecer alimentos. A Turquia decidiu enviar soldados para a sua base militar no Catar, mostrando apoio à Doha, porém sem enfrentar os sauditas. E, apesar do apoio entusiasmado de Trump à Riad, uma ruptura diplomática no Golfo dificilmente atenderia aos interesses de Washington na sua coalizão contra o terrorismo transnacional. O Catar abriga uma base da Força Aérea estadunidense, a Al Udeid, usada principalmente nas batalhas contra o Estado Islâmico, e conta com mais de 10 000 militares no pais. Segundo o Secretario de Estados EUA, Rex Tillerson, a questão é unicamente diplomática, e o Pentágono não espera nenhuma mudança nas suas operações.

A disputa pela liderança do Golfo é uma constante entre os países membros do CCG e o Irã desde a sua criação, em 1981, após o advento da Republica Islâmica no Irã em 1979. O Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã é o mais importante do mundo para o comércio de óleo e gás. Estima-se que 35% do comércio marítimo de petróleo mundial passe por ali, sendo em media 17 milhões de barris de petróleo diariamente. Ao Norte do Estreito encontra-se o Irã, gigante xiita, e ao sul o rival saudita, o Sultanato de Omã e os Emirados Árabes Unidos. As enormes reservas petrolíferas dão importância estratégica ao Golfo Pérsico, e deixam a região em uma constante corrida pela liderança, geralmente pleiteada pela Arábia Saudita e disputada pelo Irã. No meio desta crescente polarização, pequenos (porem prósperos e influentes) países como Catar, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e mais o Sultanato de Omã, parecem buscar através de políticas discretas ou mais abertas (como é o caso do Catar) o meio de lidar com esta rivalidade de forma que a estabilidade econômica não seja afetada, e a identidade própria não seja nulificada.

Em via de regra, existe certo nível de coesão na política externa dos países participantes do CCG. O Bahrein, por exemplo, é um país insular na linha de frente da guerra por procuração entre Arábia Saudita e Ira. Com uma população majoritariamente xiita, mas com uma liderança sunita, o país é fortemente dependente de Riad para sua segurança interna, o que geralmente garante um alinhamento instantâneo do Bahrein à agenda política saudita.

Já os Emirados Árabes Unidos, mais independentes economicamente, muitas vezes optam por uma neutralidade comercial entre Riad e Teerã, visto que durante as sanções impostas contra o Irã, Dubai era o centro financeiro e o porto que movimentava as cargas destinadas a Teerã. No entanto, clivagens internas no passado fizeram com que as monarquias de Dubai e Abu Dabi criassem uma política restrita e de tolerância zero contra grupos islamitas. Durante a Primavera Árabe, em 2011, o braço da Irmandade Muçulmana, o Al-Islah, ganhou certa influência nos emirados mais pobres da Confederação. Dubai e Abu Dabi, as monarquias mais prósperas, decidiram extinguir as aspirações deste e outros grupos islamitas de forma bastante radical, alinhando-se politicamente com a Arábia Saudita.

Esta medida entra diretamente em choque com a política catari, que vem mostrando abertamente seu apoio á Irmandade Muçulmana ao longo dos anos, oferecendo asilo para seus membros e também ao próprio Presidente Morsi, do Egito, logo após o Golpe Militar de 2013 que colocou o atual Presidente Abdul Fatah Khalil Al-Sisi no poder.

Entre os países membros da CCG, o Catar, país com apenas 2,4 milhões de habitantes sendo 90% destes expatriados, e aproximadamente 11 milhões de km², é o que mantém a sua política externa mais distinta de seus vizinhos. Além dos laços com o Irã, o apoio aberto á Irmandade Muçulmana no Egito, e a certos grupos islamitas de oposição na Síria e Líbia fez com que a Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrein retirassem seus embaixadores do país já em 2014. Após negociações, a questão foi resolvida de forma diplomática, mas naquele momento ficava claro que o Catar precisaria se alinhar ao restante do Conselho para que houvesse mais coesão estratégica. Entretanto, o fluxo financeiro constante proveniente do Catar para esses grupos islamitas chocou-se com as políticas de combate ao terror americanas, tornando o pais uma possível ameaça ao Conselho do Golfo, alinhado à agenda estadunidense.

O Impacto Econômico

Os países do Golfo estão entre os mais ricos do planeta. O Catar teve o maior PIB per-capita de 2016. Diferentemente de seus países vizinhos, não é o petróleo, mas sim a exploração de Gás Natural Liquefeito (GNL) o carro-chefe que garante a forte economia do país. O Catar é o maior exportador de Gás Natural Liquefeito do mundo, responsável por um terço do comércio global. A aproximação natural entre Irã e Catar se deve ao compartilhamento da South Pars / North Dome Field, o maior campo de gás natural do mundo. Cobrindo uma area de 9 700 km2 dos quais 6 000 km2 (North Dome) pertencem ao Catar, e 3 700 km2 (South Pars) pertencem ao Irã, o campo produz mais de 60 milhões de pés cúbicos de gás natural diariamente. Em abril deste ano, o Catar declarou suas intenções de reiniciar o desenvolvimento da área sul do North Dome, ao levantar uma moratória auto-imposta há 12 anos. Segundo o CEO da Qatar Petroleum “um estudo confirmou o potencial para o desenvolvimento de um novo projeto com uma capacidade de 2 bilhões de pés cúbicos/dia.” A decisão certamente ajudará o Catar a manter sua vantagem competitiva em 2020, quando se especula uma diminuição da demanda global.

O comércio de GNL entre os países do Golfo é relativamente baixo: A via de abastecimento de gás que sai do Catar para os Emirados Árabes, e que também abastece Oma, chamada Dolphin, consome 1.8 bilhões de pés cúbicos diariamente, e a capacidade do gasoduto é de 33 bilhões de m³/ano. Todavia, os maiores compradores do GNL catari são da Ásia. A japonesa JERA Co., maior compradora de gás natural da atualidade, foi informada pela Qatargas de que não haverá qualquer mudança no abastecimento providenciado pelo Catar aos seus compradores. No entanto, a JERA Co. declarou no dia 12 de junho que “a crise se trata de uma questão geopolítica do Oriente Médio, existindo a possibilidade de afetar o setor de Energia, e que portanto estariam atentos à movimentação do mercado.”

As operações logísticas, por sua vez, serão bastante afetadas. Seis navios-tanque ancorados nos Emirados Árabes deverão ser removidos. Navios oriundos ou destinados ao Catar não poderão utilizar portos estratégicos da região, como Fujairah, por exemplo, um porto chave nos EAU para abastecimento de tanques. A maior companhia marítima de contêineres – a Maersk Lines – foi oficialmente informada do novo regulamento, e publicou esta semana que está a procura de rotas alternativas para manter o comércio na região. As linhas aéreas enfrentam problemas similares: a rota da Qatar Airways, por exemplo, foi drasticamente reduzida, e companhias aéreas como Etihad e Emirates ja encerraram sua rota para o Catar. Além disso, o pais conta com apenas uma fronteira terrestre, sendo esta com a Arábia Saudita, que no momento encontra-se fechada. Por ser altamente dependente da importação de alimentos, o bloqueio dos países vizinhos vem assustando a população sobre uma possível crise alimentar. Segundo o jornal catari Al Jazeera, muitos cidadãos já começaram a estocar alimentos e itens básicos.

Uma medida de retaliação por parte do Catar também seria uma possibilidade, apesar de bastante remota, segundo alguns analistas. Apesar de não manter contratos diretos com o país, o Egito conta com o gás natural catari para abastecimento interno. Como a negociação é feita via tradings suíças que não utilizam frotas do Catar, o bloqueio imposto pelo CCG não afetaria o estoque egípcio. No entanto, o Catar legalmente pode emitir restrições de destino e usuário final, afetando assim a economia egípcia.

Analistas afirmam que direcionar as relações dos Estados Unidos apenas para a Arábia Saudita, ignorando o importante papel que o Irã desempenha na região, pode ter sido um grande erro estratégico de Washington: se o que o Ocidente espera é um Oriente Médio mais estável, não será possível fazê-lo em termos unicamente sauditas, sem a inclusão de players fundamentais para a região.

O mercado parece aguardar o desenvolvimento da crise diplomática enquanto se prepara para qualquer desfecho possível. No entanto, até o momento, parece bastante improvável que o mercado de GNL entre em crise, mesmo com as incertezas políticas. A decisão da CCG, entretanto, parece um caminho sem volta para todos os envolvidos. Resta saber se o Catar ira ceder à pressão de seus vizinhos, ou eventualmente sair do bloco e manter a sua independência, criando um novo contexto no complexo tabuleiro geopolítico da região.

“Nathalia Quintiliano é Oficial das Nações Unidas e atualmente trabalha para o Mecanismo de Monitoramento do embargo de armas e munições imposto aos grupos de oposição no Iêmen. Nathalia atua também como ponto focal da UNOPS Djibouti para a Força-tarefa para a Prevenção de Abuso e Assédio Sexual no país.”



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