A resistência do Catalão

Na Catalunha, com o desaparecimento dos vestígios do franquismo, torna-se possível instaurar um pacto de compatibilidade entre a identidade catalã - em primeiro lugar, a sua língua - e o castelhano, a língua dos espanhóis de outras regiões e dos novos imigrantes.
por: Silvio Caccia Bava
28 de abril de 2011

Para um observador europeu em geral a imagem da Catalunha no âmbito da Espanha é singular. Sabe-se grosso modoque as suas especificidades culturais e, sobretudo, linguísticas, fazem com que seja difícil considerá-la como mais uma região, ou seja, como aquilo a que ela foi reduzida pela política oficial durante os anos do franquismo (1939-1975).

Essas particularidades têm origens remotas. Há um século, a burguesia local já apadrinhava a tradução dos clássicos na língua catalã e reformava a cidade de Barcelona, transformando-a num local de vanguarda no campo das manifestações artísticas, seja na arquitetura, na pintura ou na música. Dessa forma, ela integrou a Catalunha na imagem que certa Europa tinha de si própria. Isso só foi possível porque as bases sociais assim permitiram.

A Catalunha simplesmente parecia estar se livrando tanto de uma debilidade próxima da melancolia, que tomava conta da Espanha em consequência da sua decadência econômica e militar, quanto da sua marginalização em relação à cultura europeia. Uma Espanha fundamentalmente agrária – com exceções como o País Basco – que parecia refletir-se nos versos de Antonio Machado ao descrever Castela: miserável, ontem dominadora, envolta em seus trapos e desprezando tudo aquilo que ela ignora.

Durante o período da República, a diferença cultural da Catalunha levou a um reconhecimento institucional por meio de um estatuto que lhe foi concedido junto com o País Basco e a Galícia. Vieram então a Guerra Civil e os anos de trevas do franquismo. Devido à inexistência de um pacto com o novo regime – apesar da cumplicidade de um amplo setor da burguesia catalã, submetida a uma autêntica esquizofrenia entre os seus interesses econômicos e aquilo que o franquismo representava no plano cultural –, os aspectos que pareciam caracterizá-la foram alvo de perseguição sistemática. Concretamente, a língua catalã foi excluída de todo uso oficial e limitada exclusivamente à esfera doméstica. Foram tolerados apenas os elementos da cultura suscetíveis de ser canalizados no quadro do registro folclórico, como a dança e a música tradicionais, as quais foram homologadas pela propaganda oficial como manifestações regionais da Espanha unida.

Paralelamente, no plano econômico, a Catalunha prosseguiu seu desenvolvimento, o qual acentuou o abismo social que a separava do restante do país. Durante os anos 1950, no momento em que o regime franquista estava plenamente consolidado, ocorreu um exílio dos filhos da Espanha rural rumo às zonas industriais do Norte, principalmente em direção à Catalunha e ao País Basco. Assistiu-se então a um confronto cultural, a exemplo do que estava ocorrendo no mesmo período naquela Itália evocada de maneira tão comovente pelos filmes de Luchino Visconti. Entre Almeria e Barcelona, havia o mesmo abismo econômico e cultural existente entre o Mezzogiorno de La terra tremae a Milão industrial de Rocco e seus irmãos, aprofundado, além disso, por uma diferença linguística que se revelaria essencial.

Na Catalunha, os migrantes meridionais foram vítimas, inevitavelmente, daqueles vexames que a Europa manufatureira reservava aos filhos de sua porção agrária. Mas na Catalunha, naquela época, esse desprezo, cristalizado pelo termo charnego, encontrava para alguns um paliativo no fato de que a multiplicação dos imigrantes de língua castelhana – manipulados pela política franquista – diminuía objetivamente a possibilidade de ver a língua e a cultura catalãs recuperar a presença social que haviam perdido.

Consequentemente, os nativos do restante da Espanha, ao mesmo tempo desvalorizados em razão da sua precariedade econômica e rotulados de opressores, despontavam como instrumento da repressão cultural de um povo inteiro. Uma ofensa objetiva – pela qual o regime era, em última instância, responsável – que deixaria forçosamente uma marca profunda na mente das vítimas.

Mas aqueles que na Catalunha foram chamados um dia de “os outros catalães” – e vale sublinhar aqui o termo “catalães”, pois se tratava de uma primeira tentativa de aproximação – não podiam ignorar que a população de língua catalã resistia, simplesmente lutando de múltiplas maneiras, para restaurar as condições políticas não da fertilidade da sua cultura, mas sim da sua sobrevivência. Foi assim que o combate geral da Espanha contra o franquismo foi complementado, naquela região, por uma verdadeira dialética que tinha como objetivo evitar a sua divisão em duas comunidades.

Para muitos, era preciso explicitamente que os cidadãos da Espanha abraçassem a causa da plena recuperação da língua e – de modo mais amplo – da cultura da Catalunha. Essa abertura para a alma do outro, começando com a sua língua, foi muito além – não só na Catalunha como também no País Basco – do mero problema de assumir ou não a identidade nacional da Catalunha. De fato, há razões para se pensar que a morte de uma língua é algo muito mais concreto, mais trágico, do que a simples abstração constituída por um Estado ou uma pátria. Isso porque a diversidade das línguas faz com que todas elas tenham em comum a ambiguidade e o arbitrário do registro linguístico, a sua ausência de mimetismo diante da natureza e, em suma, a sua diferença abissal no que diz respeito a um código de signos. Daí o seguinte paradoxo: as línguas são, salva veritate– ou seja, conservando seu valor de verdade –, intercambiáveis. Contudo, de certa maneira, quando uma delas desaparece é a linguagem como um todo que parece morrer – como é o caso com os humanos, já que não há humanidade sem indivíduos.

Enquanto há 25 anos a restauração da língua e da cultura catalãs não parecia ser vivenciada como um questionamento dos valores gerais, perfeitamente legítimos, vinculados a certa ideia de Espanha, parece agora que regredimos. Quando José Maria Aznar era presidente, ele passou um pito na classe patronal espanhola para que esta se posicionasse em defesa da unidade da Espanha. Já que ninguém planejava questionar a unidade do mercado – uma causa para a qual os patrões, entre todos, deveriam estar sensíveis –, aquilo escondia outra coisa.

A fantasia da perda das referências comuns no plano cultural e simbólico estava de volta. Isso não dizia respeito apenas à direita nacionalista espanhola: sintonizado com as declarações de Aznar, o presidente socialista da comunidade autônoma de Estremadura afirmou, num artigo opinativo, que a eventual soberania do País Basco ou da Catalunha era inaceitável, não apenas por razões históricas como também por razões “sentimentais” (sic). Uma palavra-chave surpreendente, vinda de um dirigente político.

As manifestações de identidade política, cultural e linguística vindas dos cidadãos de uma comunidade seriam intoleráveis porque ofenderiam nossos “sentimentos”. Não se trataria antes dos nossos ressentimentos? Daqueles que não se criam a partir do nada. Existem causas que os determinam, e duas partes que os alimentam. Tomemos como exemplo o debate lamentável a respeito da Feira do Livro de Frankfurt, para a qual um responsável cultural havia planejado uma representação da Catalunha constituída exclusivamente por autores de língua catalã. Pretendia-se, com isso, evitar uma realidade tenaz: uma importante quantidade de livros de autores catalães é escrita em língua espanhola.

Contudo, às vezes, a denúncia de um fato tão intolerável é usada como desculpa para não reconhecer que na cidade de Barcelona, hoje, de modo algum a língua catalã constitui, na prática, uma ameaça para a língua espanhola. Digo sem rodeios: muito além de toda a ideologia ou das boas intenções, a situação objetiva da língua espanhola – e da cultura que ela veicula – torna impossível que as línguas periféricas da Espanha a marginalizem.



Texto originalmente publicado em janeiro de 2006.


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