A rota do Ártico passa pela Islândia - Le Monde Diplomatique

SURPREENDENTE APROXIMAÇÃO ENTRE PEQUIM E REYKJAVIK

A rota do Ártico passa pela Islândia

agosto 31, 2016
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Ainda hipotética, a abertura de rotas marítimas no Oceano Ártico suscita interesse crescente das potências comerciais. Para se aproximar dos recursos naturais da região polar, Pequim corteja a Islândia, primeiro país europeu a assinar um tratado de livre-comércio com os chinesesFlorent Detroy

Em meio à vegetação amarelada que bordeja o fiorde mais comprido da Islândia, Thorvaldur Ludvik Sigurjonsson, cabelos ao vento, desenha mentalmente o local do futuro porto de Dysnes. O consórcio de empresas islandesas Arctic Services, que ele dirige, espera se aproveitar no futuro da abertura da rota marítima criada pelo derretimento da calota polar a fim de construir ali, na costa norte do país, uma plataforma giratória virada para o Ártico. Graças ao aquecimento global, o movimento pelo Oceano Ártico aumenta a cada ano – 53 navios cruzaram-no em 20141 –, embora ainda não exista uma rota segura e regular para o tráfego comercial. Para sua surpresa, o consórcio viu em abril de 2012 o Banco Chinês de Desenvolvimento interessar-se pelo projeto. De olho nas riquezas do Norte, a China monta há quinze anos uma vasta estratégia de posicionamento no Ártico, onde a Islândia é historicamente o eixo central.
Como 50% de seu PIB depende do tráfego marítimo,2 a nova superpotência econômica considera a rota do Nordeste, ao longo das costas russas, bem como a passagem do Noroeste, uma alternativa aos canais de Suez e do Panamá, mais congestionados e sobretudo mais distantes. Pela passagem do Nordeste, o trajeto Roterdã-Xangai diminui em um terço, isto é, cerca de 5 mil quilômetros. Pequim está igualmente interessada num acesso mais fácil aos recursos naturais locais. A região circumpolar do Ártico, com efeito, abrigaria 13% dos recursos convencionais de petróleo ainda não descoberto3 e 30% dos de gás, além de importantes riquezas minerais e pesqueiras.
A China já começou a investir na região, principalmente em minas na Groenlândia e em petróleo no Mar da Islândia. Também demonstrou, em 2010 e 2012, sua capacidade de abrir caminho para o Norte com o único navio quebra-gelo de que dispõe, o Xuelong [Dragão das Neves]. A reunião do Partido Comunista chinês, em novembro de 2013, discutiu a possibilidade de despachar 20% das exportações com valor comercial via Ártico de hoje até 2020 e cerca de um terço de hoje até 2035.4
Esse interesse levou Pequim a solicitar um posto de observador no Conselho do Ártico. Num primeiro momento, em 2009, o pedido foi rejeitado. O Canadá e a Rússia temiam que a internacionalização do Ártico o colocasse sob a égide da ONU.5 Os outros países permaneceram céticos em relação ao interesse da China, que só abriu sua base científica ali em 2004, no arquipélago de Svalbard. Mas, como lembra Olga V. Alexeeva, professora de História da China na Universidade do Quebec, “esse posto era essencial para ela, que, se quisesse ter voz sobre as condições de desenvolvimento da região, precisaria antes de tudo ser reconhecida como uma grande potência responsável”.
A partir de 2006, Pequim iniciou uma aproximação com o menor Estado do Ártico, a Islândia, abrindo negociações em torno de um tratado de livre-comércio. Simbolicamente, no mesmo ano, os Estados Unidos se retiraram de sua base islandesa de Keflavik. Após o acordo financeiro sino-islandês, em 2010, que ajudou Reykjavik a sair de sua crise financeira, a visita em 2012 do então primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, consagrou essa aproximação. Primeiro do gênero entre a China e um país europeu, o acordo de livre-comércio foi assinado definitivamente um ano depois. O então presidente islandês, Olafur Ragnar Grimsson, desempenhou um papel essencial, conduzindo uma diplomacia paralela bastante favorável à China.6

Exploração com os russos
Essa diplomacia bilateral foi eficaz, uma vez que a Islândia imediatamente apoiou a candidatura chinesa. Pequim aplicou então a mesma estratégia a vários outros membros do Conselho do Ártico.7 O presidente chinês na época, Hu Jintao, foi ao Canadá em 2010 e depois à Dinamarca em 2012, multiplicando os acordos científicos e comerciais. Além disso, embora algumas autoridades chinesas clamassem em 2009 que “nenhuma nação” tinha soberania sobre o Ártico,8 Pequim “baixou o tom diante dos membros do Conselho do Ártico e das populações autóctones, assegurando respeitar a soberania dos Estados”, explica Rachael Lorna Johnstone, professora de Direito na universidade islandesa de Akureyri. Em razão do estreitamento dessas relações bilaterais, a China obteve enfim uma cadeira de observadora no Conselho durante a Conferência de Kiruna (Suécia) em 2013, tal como outros países (Japão, Coreia do Sul, Cingapura, Índia e Itália, que se juntaram a França, Alemanha, Holanda, Espanha, Polônia e Reino Unido).
Ainda que se defina como um “Estado do Ártico Próximo”,9 é pouco provável que a China se contente com esse status. Contudo, ela corre o risco de ver os Estados Unidos atravessarem seu caminho. Adotando até então uma postura discreta, Washington comprometeu-se mais profundamente por ocasião de sua presidência do Conselho em 2015, principalmente com a nomeação de um embaixador para o Ártico. Desde 2013, Pequim reforçou também seus laços com Moscou ao assinar com o petroleiro Rosneft um acordo para a exploração do Ártico russo. Essa colaboração se acelerou quando as sanções ocidentais privaram a Rússia dos capitais necessários à valorização de seus recursos.
Hoje, a população islandesa compreende que serviu de trampolim para a China. Como constatou em 2013 Örn D. Jónsson, professor da Universidade da Islândia, “nosso país serviu de bancada de teste ou campo de treinamento para a diplomacia e as negociações comerciais, mas perdeu importância com o correr do tempo”.10 O acordo de livre-comércio faz da Islândia a principal amiga da China no Ártico; mas ela não é mais a única…



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