O QUE FAZER

A saída é pela cultura

O que fazer após o afastamento da presidenta Dilma Rousseff, concretizado no dia 12 de maio? O Le Monde Diplomatique Brasil convidou pensadores e lutadores sociais de diversos matizes para debater como lidar com a crise e trabalhar com certos elementos, como a guerra das ideias, as eleições municipais de outubro e a or

por: Paulo Petersen
6 de junho de 2016

Diante de um futuro imediato incerto, ao menos uma certeza: chegamos ao fim do ciclo político iniciado com a abertura democrática da década de 1980. Antes de nos perguntarmos como dar início a outro ciclo, cabe questionar por que o anterior se esgotou. Aprender com o passado é a melhor maneira de enfrentar o futuro. Nessa busca por lições, não devemos esquecer que, mesmo no mais renhido período de repressão do Estado militar, forças de resistência dispersas por todo o país estavam organizadas nas comunidades eclesiais de base (CEBs) e em outros espaços autônomos de abrangência local. Essas experiências populares de reflexão e ação crítica forjaram lideranças sociais que, com a abertura, não encontraram dificuldade para se identificar mutuamente nos processos que levaram à criação do PT e de alguns dos atuais movimentos sociais de expressão nacional.

Alimentado pelas bases da sociedade civil, esse processo emergente descortinava horizontes promissores para a superação de uma cultura política congenitamente patrimonialista e clientelista em nosso país. De fato, o arranque do modo petista de governar foi animador. Os mecanismos inovadores de governança então introduzidos demonstravam na prática que a esfera da ação pública não se limita às iniciativas do Estado. A participação direta da cidadania na gestão das políticas desde os mais recônditos rincões até a esfera federal seria o caminho para o aprofundamento da democracia. A cultura popular funcionaria como o fio terra de nossas instituições, a partir das quais seriam criados elos entre o local e o nacional, entre o passado e o futuro, entre o socioambiental e o econômico, entre a sabedoria popular e o saber científico, enfim, entre o povo e o território.

Em 2014, o Brasil saiu do mapa da fome das Nações Unidas, uma conquista civilizatória. A ela somaram-se outros avanços sociais significativos. No entanto, como se dizia nas CEBs, a verdadeira emancipação ocorre quando a palavra chega junto com o pão. Não foi o que aconteceu. O pragmatismo eleitoral, associado às clássicas estratégias de governabilidade, impôs obstáculos no caminho virtuoso da democracia. Interrompeu-se a construção de um projeto nacional politicamente ancorado e defendido por uma cidadania crítica capaz de se reconhecer e de se projetar a partir de nossas múltiplas identidades culturais.

Cada vez mais desconectados das raízes populares que os instituíram, os sucessivos governos do PT não foram capazes de realizar as reformas estruturais necessárias para romper os mecanismos de poder responsáveis pela brutal concentração de riqueza e pela alienação política em nossa sociedade. Com louváveis exceções, o viés tecnocrático dominou a gestão governamental. As políticas não foram politizadas; o compensatório prevaleceu sobre o emancipatório; as orientações econômicas alimentaram o improdutivo capital financeiro e acentuaram a destruição do capital ecológico.

A lógica do distributivismo material sem reformas estruturais chegou ao limite. A bolha estourou e estamos diante do iminente risco de graves retrocessos em direitos sociais duramente conquistados. Para sairmos desse impasse histórico, é preciso humildade para reconhecer que o golpe de Estado perpetrado pelo Congresso Nacional é uma expressão sintomática da frágil democracia construída nas últimas décadas. É preciso também sensibilidade para auscultar a mensagem que se avoluma nas ruas e mídias sociais. Repor o governo legitimamente eleito é apenas o primeiro passo do contragolpe. Superada a etapa do “Fora Temer”, os passos seguintes deverão permanecer sintonizados com os canais de expressão popular na construção de um projeto nacional autônomo fundado no bem comum e na sustentabilidade ambiental. Só há saída pela cultura.


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