CHIEF HAPPINESS OFFICERS

A sinfonia da felicidade

“Hoje em dia, fala-se dessa moda do bem-estar no trabalho”, começa a jornalista no palco, sorriso branco estampado na cara. “Vocês conhecem o chief happiness officer? Sua missão é divertir os funcionários. O número de ofertas para esse cargo na França explodiu em cerca de 1.000% em dois anos”

por: Julien Brygo
3 de outubro de 2016

Os empresários não medem esforços para garantir a felicidade de seus funcionários? Aos trabalhadores forçados, que labutam por pouca coisa e talvez não pensassem a respeito, o programa Envoyé spécial [Enviado especial], do canal de televisão público France 2, acaba de dar uma edificadora lição. Em uma reportagem difundida no dia 1º de setembro, ele nos mostra os passos de Sophie, chief happiness officer em uma start-up parisiense especializada na venda on-line de artigos de moda “feitos à mão”. Inventada nos Estados Unidos, essa nova profissão, que podemos traduzir como “chefe do departamento de felicidade”, consiste em “criar um bom ambiente no escritório”, deixando todos alegres com refeições, festinhas ou passeios destinados a reunir o grupo e aumentar seu ardor em realizar o trabalho. Depois do café da manhã oferecido aos funcionários, o dia de Sophie “continua no minimercado do bairro, onde ela faz compras para preparar um churrasco que a equipe vai degustar”, indicam os autores da reportagem, aparentemente subjugados, eles também, pelo banho de alegria no qual estão mergulhados os cinquenta funcionários da empresa.

Quanto mais as condições de trabalho se deterioram para a grande massa de trabalhadores, mais a mídia se encanta com o desbunde de favores reservados aos mais sortudos entre eles. Em 4 de abril, por exemplo, em plena mobilização contra a “lei do trabalho” (a reforma trabalhista francesa), enquanto a exasperação diante das devastações da precariedade e da epidemia de “trabalhos de merda” inflava as ruas, o programa Happy boulot [Happy trabalho], do canal BFM Business – “todos os conselhos para começar bem seu dia de trabalho” –, escolhia um tratamento deslocado da atualidade social ao se preocupar com os excessos de generosidade aos quais os trabalhadores estavam reduzidos.

“Hoje em dia, fala-se dessa moda do bem-estar no trabalho”, começa a jornalista no palco, sorriso branco estampado na cara. “Vocês conhecem o chief happiness officer? Sua missão é divertir os funcionários, cuidar de sua felicidade no trabalho. O número de ofertas para esse cargo na França explodiu em cerca de 1.000% em dois anos no site de anúncios Oapa! […] Hoje, um funcionário que tem alto potencial no mercado digital, econômico, contábil, quando entra no mercado, pode escolher entre no mínimo três ofertas. O que vai fazê-lo preferir entre uma ou outra, bom, é justamente o que vem além do interesse pelo trabalho, de seu salário e de seus bônus, é a cereja do bolo. E se for uma melancia, melhor ainda! […] O risco, na verdade, é o acúmulo. Lembrem-se de que há alguns meses Facebook, Google e Yahoo rivalizavam sobre a licença-maternidade. Um propunha seis meses; o outro, um ano; e o último dizia: todo o tempo que quiserem [risos do apresentador no palco, incrédulo diante de tanta magnificência]; depois eles passaram à licença-paternidade. Sendo assim, qual é a próxima etapa? […] As pessoas se acostumam com o conforto, mesmo que excepcional; elas pedem cada vez mais. Então o risco, a longo prazo, é ficar sem ideias de gentilezas.” Eis um tema pouco abordado pelos sindicatos: a tendência dos patrões em exagerar na bondade para com os funcionários.

A “moda do bem-estar no trabalho” não contempla exclusivamente os competidores criados nas escolas de administração. Parte de suas benfeitorias por vezes pinga a conta-gotas nas escalas inferiores da hierarquia, se acreditarmos nas palavras de Christian Barqui, presidente da Associação Progresso da Gerência (APM) e, além disso, dono das saladas em sachê Florette (1.500 funcionários, seis fábricas, 200 milhões de euros em valor de mercado). Em uma entrevista recente ao jornal Le Figaro (12 set. 2016), esse adepto do lean management – uma doutrina de otimização do rendimento elaborada no Japão pelo grupo Toyota e aperfeiçoada em seguida nas pesquisas neoliberais do Massachusetts Institute of Technology (MIT) – proclama seu vínculo com as “teorias que encorajam os trabalhadores a trabalhar com muita liberdade”. “É preciso fazer de tudo para que os colaboradores possam utilizar sua inteligência e encontrar seu equilíbrio”, defende o industrial da alface pré-lavada, que, no entanto, lembra que “a empresa não pode ser uma democracia”. Quando perguntamos a ele se tomou “medidas para encorajar o bem-estar no trabalho nas fábricas de Florette”, ele responde: “Sim. Por exemplo, eu abri uma sala de descanso equipada com pufes Fatboy. Também tenho um no meu escritório”. Aos vinte minutos de soneca diários concedidos aos trabalhadores em troca de uma produtividade maior, acrescentam-se “cursos de ioga toda segunda-feira à noite” e, duas sextas-feiras por mês, sessões individuais de reflexologia. Benefícios certamente úteis para a manutenção da força de trabalho, que, contudo, não são gratuitos – “o trabalhador paga 75% da sessão”, precisa Barqui. Aqui nada de “happy” churrasco nem de cicerone para passeios no teatro. É bonito ser generoso, mas as pequenas mãos que empacotam as folhas de salada não podem ambicionar o mesmo conforto que os grandes espíritos das start-ups.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A superexposição midiática dos mimos patronais não demonstra apenas uma amável derivação da máxima de Pierre Gattaz, “os donos de empresa são heróis”: ela também consagra a linha de demarcação que estrutura o mundo do trabalho. De um lado, uma aristocracia laboriosa dotada de bons salários e vantagens que alimentam seu espírito. Aninha-se aí o último bloco dos trabalhadores realmente protegidos: aqueles que gozam de uma relação de forças favorável aos seus interesses e não conhecem o medo do dia de amanhã. Do outro lado, os milhões de sujeitos de um mercado de trabalho que com todo rigor não poderíamos nem sequer qualificar como assalariados, de tanto que proliferam descontos que amputam o trabalhador de sua qualidade e de seus direitos de assalariado: estagiários, interinos, substitutos de férias, autoempreendedores, contratos de formação alternada, contratos de uso, contratos com horários moduláveis, contratos de duração determinada de meio período, empregos do futuro, serviço social etc. A condição dos vagabundos da indústria dos serviços se degrada no mesmo ritmo que a dos trabalhadores “com status”, em princípio mais sortudos, mas para os quais o “bem-estar no trabalho” se resume frequentemente à esperança de não saírem muito feridos das técnicas administrativas em prática para tirar o melhor deles. Nas empresas e nos serviços públicos que os adotaram, o lean management celebrado pelo dono da Florette se ilustra frequentemente menos pelas massagens nos pés do que por esgotamentos em série. É o caso, por exemplo, da Poste (correios) e dos hospitais. No centro hospitalar universitário (CHU) de Toulouse, onde a preocupação em rentabilizar os cuidados levou a direção a se converter ao “toyotismo”, quatro membros da equipe de enfermeiros morreram neste verão.

O refrão do bem-estar assinala outra fratura. Em La Griffe du chien [A garra do cão], seu romance sobre a economia da cocaína, o autor norte-americano Don Winslow descreve a criação, ao longo dos anos 1980 e 1990, de uma nova organização do trabalho no seio de um poderoso cartel de drogas mexicano. Seu chefe, o alter ego ficcional de Joaquín Guzmán Loera, dito “El Chapo”, líder do cartel de Sinaloa, é apresentado no livro como um pioneiro do neoliberalismo. Ele teria dado seu toque pessoal à doutrina reaganiana ao transformar seu exército de bandidos remunerados em uma rede de pequenos empreendedores autônomos, ligados a ele por um simples – mas inviolável – juramento de fidelidade. “Queremos empreendedores, não empregados. Os empregados custam dinheiro, os empreendedores produzem”, explica a um de seus tenentes. Ignoramos o grau de veracidade histórica dessa passagem (Winslow diz ter se baseado em pesquisas sólidas), mas acreditamos na hipótese de que um dos narcotraficantes mais sanguinários da história também seja um dos precursores do autoempreendedorismo. O governo francês bebe dessas boas fontes, ele que favoreceu a extensão desse regime a cerca de 1 milhão de trabalhadores. Obrigados a pagar suas cotizações sociais e entregues ao bel-prazer de empregadores “clientes” que não têm nenhuma obrigação para com sua sorte, os autoempreendedores se encontram em um grupo de trabalhadores cada vez mais fragmentado, atomizado, em que cada um se vira em concorrência com os outros. Nesse modelo, ajuda mútua e solidariedade não subsistem mais do que no contrabando. Ao contrário, o punhado de “colarinhos-brancos” entupidos de pílulas da felicidade parece deter o monopólio dos valores de camaradagem, de pertencimento de classe e de espírito de equipe. Talvez eles prefigurem um mundo onde a noção de coletivo de trabalho só existirá sob a varinha cintilante dos chief happiness officers.


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