“A solução para a crise está nas favelas e periferias” - Le Monde Diplomatique

NOVOS COLETIVOS

“A solução para a crise está nas favelas e periferias”

por Luís Brasilino
agosto 31, 2017
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Quem são e como atuam os novos coletivos que estão enfrentando a conjuntura de crise que afeta o Brasil nos últimos anos, organizando a população das periferias e questionando os vícios das estruturas tradicionais da esquerda. Confira a seguir entrevista com Raull Santiago, do Coletivo Papo Reto, composto por jovens moradores dos complexos do Alemão e Penha

Luís Brasilino

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“A solução para a crise está nas favelas e periferias. Basta ver o que estamos fazendo de forma independente, basta nos ouvir, basta parar de nos observar pela mira do fuzil de um policial.” A conclusão é de Raull Santiago, do coletivo carioca Papo Reto, formado por moradores dos complexos do Alemão e da Penha, onde atua. Nascido em 2014, seu objetivo é, por um lado, noticiar eventos, protestos e reivindicações para dentro do morro e, por outro, colocar para fora “a realidade da favela”, contrapondo os estigmas reproduzidos pela mídia comercial.

Nas palavras do movimento: “Muito do que acontece no território passa pelas lentes do Coletivo, que busca fazer uma cobertura diferente da mídia corporativa, ou seja, aqui se aplica o ‘do favelado para a própria favela’, resumindo: Nós por Nós. […] O Nós por Nós é um simples e forte esquema de segurança de ativistas e moradores em dias de guerra a partir do diálogo e troca de informações. Hoje o Coletivo mantém uma rede com moradores de todo o Complexo do Alemão e estão em contato uns com os outros 24h por dia. Assim surge o veículo de Comunicação Independente PAPO RETO, pondo em prática o Nós por Nós!”.1 Mais de 40 mil pessoas seguem o perfil do coletivo no Facebook. Confira a seguir a entrevista com Raull Santiago.

Le Monde Diplomatique Brasil – Em torno do que se constituiu seu coletivo? Quais são as pautas e as conquistas para a coletividade que resultaram de suas ações?

RAULL SANTIAGO – O Coletivo Papo Reto atua, resumidamente, em duas vertentes: 1) Comunicação de Resistência – usamos o audiovisual e as redes sociais como ferramentas de comunicação independente para dar visibilidade ou provocar ações em torno de buscar o fim da violência policial, garantia de direitos diversos, inclusive o direito à vida. Com essas ferramentas podemos disputar narrativas sobre a nossa realidade, mostrando que há, sim, problemas na favela, mas que a maioria deles é causada pela forma errada com que governantes investem ali, muitas vezes chegando até nós por meio da Secretaria de Segurança e da mira do fuzil de um policial, apenas. Também usamos essa vertente do Coletivo Papo Reto para pressionar outras questões, mas todas são voltadas para a garantia de acesso a diversas coisas contidas no que se diz ser direito básico, além de respeito e vida; 2) Publicidade Afirmativa – nessa vertente do uso do audiovisual e das redes sociais, mostramos que, apesar dos confrontos locais, há muitas coisas incríveis acontecendo, ideias, pessoas, projetos que transformam positivamente o Complexo do Alemão, em sua maioria de forma independente. Isso acontece por meio de programas de entrevistas, bate-papos on-line. Intervenções artísticas e culturais diversas que mobilizamos pela rede, entre outras coisas. A comunicação que fazemos ter força em mão dupla, tanto para mobilizar para algo que ainda vai acontecer como para compartilhar algo que esteja acontecendo ou já tenha acontecido.

Como a crise atual afeta o cotidiano do coletivo e da militância?

Independentemente dos governos, na favela sempre há crise, pois sempre os principais investimentos em política pública para as favelas vêm da Secretaria de Segurança e de uma lógica de guerra. Isso gera problemas gravíssimos que, em cenário de dita crise, se tornam muito piores, porque as violações locais, que são inúmeras extorsões, agressões, situações forjadas ou mesmo execuções, são deixadas em segundo plano ou quase não recebem atenção, uma vez que a dita crise governamental ocupa todos os espaços de visibilização das urgências.

A crise na favela é diária, sempre existiu, só aumenta a escala quando isso chega a outras classes. Enquanto isso, seguimos crescendo o triste e grave número de país que mais mata pessoas e o terceiro em população carcerária, preta e pobre, no mundo. Grave demais! Nossa morte ou aprisionamento é a principal crise.

Quais são os principais problemas? Falta de recursos materiais? Precariedade dos serviços públicos? Violência estatal e não estatal?

Todas as situações apontadas acima são problemas. No Complexo do Alemão, por exemplo, política pública se resume a polícia. O teleférico que ficou famoso mundialmente hoje se encontra fechado e caindo – está assim há mais de um ano. Servições básicos funcionando de forma precária e zero investimento em arte, cultura, melhoria do acesso à educação. Não podemos receber como política pública o Exército invadindo a favela. Isso não constrói nada positivo, pelo contrário.

A crise política e econômica atual abre oportunidades ou afeta negativamente o coletivo? Por quê?

Da crise nós nascemos, a crise da sobrevivência, de viver em meio a confrontos, de tentar mostrar que a favela é incrível, em meio a uma sociedade com gigantesco preconceito para com o nosso lugar. A crise aumenta os problemas, deixa as coisas mais caras, tira visibilidade das nossas demandas urgentes. Acho que essa é a questão.

Quais desafios e perspectivas você prevê para a atuação de seu coletivo?

O desafio é compartilhar, mobilizar mais pessoas a se perceberem como multimídia e participarem de forma ativa, em um cenário em que há grande violência, principalmente do Estado. E, num cenário de dita crise e à beira de uma eleição, é tentar provocar consciência crítica, para que a favela se posicione e pressione por uma mudança de cenário. A solução para a crise está nas favelas e periferias. Basta ver o que estamos fazendo de forma independente, basta nos ouvir, basta parar de nos observar pela mira do fuzil de um policial.

Com base em sua pauta específica, qual é a questão mais urgente que se coloca para o Brasil atual?

O Brasil precisa parar de matar jovens negros e pobres. A questão racial, que executa 60 mil pessoas por ano, ou que encarcera em massa, tornando-nos a terceira maior população carcerária do mundo, é algo gravíssimo. Precisamos falar de racismo, precisamos falar sobre novas políticas de drogas e fim da guerra às drogas, precisamos garantir a vida nas periferias. Viver é urgente!

*Luís Brasilino é editor do Le Monde Diplomatique Brasil.



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