A tragédia da emancipação feminina - Le Monde Diplomatique

MULHERES

A tragédia da emancipação feminina

setembro 27, 2011
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Presa diversas vezes nos EUA, Emma Goldman exilou-se na Rússia em 1917 e, 20 anos depois, combateu o fascismo na Espanha. Anarquista, foi também uma ardente feminista que, apesar de algumas concepções datadas, várias vezes antecipou suas herdeiras da luta pela igualdade de gênero

 

Vou começar com uma afirmação: deixando de lado todas as teorias políticas e econômicas, as distinções de classe e de raça, as fronteiras artificialmente traçadas entre os direitos das mulheres e os dos homens, afirmo que há um ponto no qual essas diferenças podem se encontrar e se fundir em um todo perfeito.

A paz ou a harmonia entre os sexos e os indivíduos não dependem necessariamente de um nivelamento superficial dos seres humanos nem requerem a eliminação das particularidades e dos traços individuais. O problema que temos de considerar hoje e que seria preciso resolver é o seguinte: como ser você mesmo e ainda estar em unidade com os outros, como sentir-se em profunda comunhão com todos os outros seres humanos e conservar intactas suas próprias qualidades? Esse me parece ser o terreno no qual poderiam se encontrar sem antagonismo e sem oposição a massa e o indivíduo, o verdadeiro democrata e o verdadeiro individualista, o homem e a mulher. A fórmula não deve ser “perdoar uns aos outros”, mas “compreender uns aos outros”. A frase tantas vezes citada de Madame de Staël – “Compreender tudo é perdoar tudo” – nunca me convenceu: ela cheira a confessionário. Perdoar os outros evoca a ideia de uma superioridade farisaica. Compreender o próximo basta, e essa declaração encarna, em parte, minhas ideias sobre a emancipação da mulher e seus efeitos sobre seu sexo todo.

A emancipação deveria dar à mulher a possibilidade de ser humana no sentido mais verdadeiro. Tudo o que nela reclama a afirmação de si e a atividade deveria alcançar sua expressão mais completa; todos os vestígios de séculos de submissão e escravidão deveriam ser retirados do caminho que conduz a uma liberdade maior.

Esse era o propósito original do movimento em favor da emancipação feminina. Mas os resultados obtidos até agora isolaram a mulher, despojando-a das fontes de uma felicidade que lhe é tão essencial. A emancipação externa simplesmente fez da mulher moderna um ser artificial, que lembra os produtos da arboricultura francesa, com suas árvores e arbustos fantasiosos podados em forma de pirâmides, cones, cubos etc. E é especialmente na pretendida esfera intelectual de nossa vida que podemos encontrar em grande número essas plantas femininas artificiais.

Liberdade e igualdade para as mulheres! Quantas esperanças e aspirações essas palavras despertaram quando pronunciadas pela primeira vez por alguns dos mais nobres e corajosos corações de nosso tempo. O sol, em toda sua glória e esplendor, iria nascer em um novo mundo, no qual a mulher seria livre para dirigir seu próprio destino – objetivo certamente digno do entusiasmo, da coragem, da perseverança e do esforço incessante dos pioneiros de ambos os sexos que arriscaram tudo para se colocar contra um mundo apodrecido pelo preconceito e a ignorância.

Minhas expectativas também tendem para esse fim; mas sustento que a emancipação da mulher, tal como praticada e interpretada hoje, falhou completamente. A mulher agora se vê diante da necessidade de emancipar-se da emancipação, para se libertar. Pode parecer paradoxal, mas é exatamente assim.

O que a mulher obteve com a emancipação? O direito de votar em alguns estados. Isso purificou a política, como profetizaram muitos protagonistas do sufrágio feminino? Certamente não. Aliás, há muito tempo as pessoas dotadas de um julgamento claro e sadio pararam de falar da “corrupção no campo da política” em tom de salão bem-pensante. A corrupção na política nada tem a ver com a moral ou a frouxidão moral das personalidades políticas. Sua origem é puramente material. A política reflete o mundo comercial e industrial guiado pelos seguintes lemas: “Mais vale receber do que dar”, “Compre barato e venda caro”, “Uma mão suja lava a outra”. Não há por que imaginar que a mulher provida do direito de votar venha um dia purificar a atmosfera política.

A emancipação da mulher igualou-a economicamente ao homem, ou seja, ela pode escolher uma profissão ou ocupação. Mas como sua educação física passada e presente não a dotou da força necessária para competir com o homem, ela é muitas vezes forçada a consumir toda a sua energia, esgotar sua vitalidade e tensionar demais todos os seus nervos para atingir um valor de mercado. E mesmo isso são muito poucas as que conseguem, pois é um fato reconhecido que as professoras, médicas, arquitetas ou engenheiras não são acolhidas com a mesma confiança que seus colegas do sexo masculino, e com frequência não recebem remuneração equivalente à deles. Já para as que atingem essa igualdade enganosa, é geralmente à custa de seu bem-estar físico e psíquico. Quanto à grande massa das trabalhadoras, que independência elas ganharam trocando a estreiteza de perspectivas e a falta de liberdade do lar pela estreiteza de perspectivas e a falta de liberdade da fábrica, da oficina de costura, da loja ou do escritório? Acrescente-se a isso, para muitas mulheres, o incômodo de, ao fim de uma extenuante jornada de trabalho, voltar para uma casa fria, seca, suja e nada acolhedora. Que independência gloriosa!

Não é de admirar que centenas de moças mostrem-se tão ansiosas em aceitar a primeira oferta de casamento que se apresenta, tão desgostosas e cansadas estão de sua “independência” atrás de um balcão, uma máquina de costura ou uma máquina de escrever. Elas perseguem o casamento tanto quanto as moças de classe média que aspiram livrar-se do jugo da autoridade parental. Uma independência que tem como ganho uma subsistência medíocre não é nem tão atraente nem tão ideal para que possamos esperar que as mulheres se sacrifiquem por ela. Afinal, nossa independência tão altamente cantada é apenas um método lento para adormecer e abafar a natureza feminina em seus instintos de amor e maternidade.

A estreiteza da concepção existente de independência e emancipação da mulher, o medo de amar um homem que não é seu igual do ponto de vista social, o medo de que o amor a exproprie de sua liberdade ou de sua independência, o terror de que o amor ou o gozo da maternidade atrapalhem o exercício de sua profissão, todas essas apreensões fazem da mulher moderna emancipada uma vestal à força, diante da qual a vida passa – com as grandes dores que purificam e as profundas alegrias que deleitam – sem que sua alma seja tocada ou arrebatada.

A emancipação feminina, tal como entendida pela maioria daqueles que a aceitam ou a expõem, ocupa um horizonte muito estreito para dar espaço à expansão, em plena liberdade, das emoções profundas da mulher verdadeira: amante e mãe. Embora a mulher economicamente independente ou que consegue se manter sozinha ultrapasse suas irmãs das gerações passadas no conhecimento do mundo e da natureza humana, é justo por isso que ela se ressente profundamente da ausência essencial à vida: o amor, que sozinho é capaz de enriquecer a alma humana e sem o qual a maioria das mulheres torna-se mera autômata profissional.

Qualquer movimento que vise à destruição das instituições existentes e sua substituição por algo mais avançado, ou mais perfeito, tem entre seus partidários aqueles que, teoricamente, defendem as ideias mais radicais, porém na prática da vida cotidiana não passam de filisteus médios fingindo ser respeitáveis e preocupados com a boa opinião de seus adversários. Assim é entre os socialistas e até mesmo entre os anarquistas, que dizem que “a propriedade é um roubo”, mas ficam indignados caso alguém lhes deva meia dúzia de alfinetes.

Encontram-se filisteus do mesmo gênero no movimento feminista. Jornalistas e escritores pintaram a mulher emancipada em quadros de arrepiar os cabelos do cidadão de bem e de sua morna companheira. Cada participante do movimento foi descrita como uma George Sand, em seu desprezo pela moralidade. Nada era sagrado. Emancipação feminina tornou-se sinônimo de uma vida de devassidão e luxúria, associal, arreligiosa, amoral. As defensoras dos direitos das mulheres ficaram indignadas com essa caricatura e, sem nenhum humor, colocaram toda energia em provar que não eram tão más como pintavam, muito pelo contrário. Durante o longo tempo em que a mulher gemeu sob o jugo do homem, ela não poderia ser boa nem pura. Mas agora, que é livre e independente, ela pretende mostrar como poderia ser boa e como sua influência poderia ter um efeito purificador sobre todas as instituições da sociedade!

O grandioso movimento em favor da emancipação real não encontrou em seu caminho uma grande raça de mulheres capazes de olhar a liberdade de frente. Sua visão puritana e hipócrita baniu o homem de sua vida emocional como um perturbador e um suspeito; ou conseguiu tolerá-lo apenas como um pai para os filhos, pois não era possível dispensá-lo. Felizmente, nem as mais rígidas puritanas seriam fortes o bastante para matar a aspiração inata à maternidade. Ora, a liberdade da mulher está intimamente ligada à do homem, e muitas de minhas irmãs ditas emancipadas parecem ignorar o fato de que uma criança nascida na liberdade reclama o amor e a dedicação de todos os seres humanos que a cercam, do homem e da mulher. Infelizmente, essa concepção estreita das relações humanas produziu a tragédia que vemos na vida das mulheres e homens contemporâneos.

Uma inteligência rica e uma alma nobre são geralmente atributos considerados necessários a uma personalidade nobre e bem temperada. Para a mulher moderna, esses atributos são obstáculos à plena afirmação de seu ser. Faz bem mais de um século que a antiga e bíblica fórmula do casamento “até que a morte os separe” foi denunciada como uma instituição que implica a soberania do homem sobre a mulher, a submissão absoluta desta última a seus caprichos e ordens, sua completa dependência em termos de nome e sustento. Muitas e muitas vezes, provou-se de maneira irrefutável que as velhas relações matrimoniais reduzem a mulher às funções de empregada do homem e procriadora de seus filhos. Mas ainda encontramos muitas mulheres emancipadas que preferem o casamento, com todas as suas imperfeições, ao isolamento de uma vida de celibato: vida restrita e insuportável por conta dos preconceitos morais e sociais que mutilam e amarram a natureza das mulheres.

A explicação de tal inconsistência por parte de muitas mulheres avançadas provém do fato de que elas nunca compreenderam realmente o que significa a emancipação. Elas acharam que bastava serem independentes das tiranias externas. As convenções éticas e sociais, tiranos interiores muito mais perigosos para a vida e o crescimento individual, foram deixadas para se resolverem por si próprias. E elas parecem ocupar um lugar tão considerável na mente e no coração de nossas mais ativas propagandistas feministas como na mente e no coração de nossas avós.

Pouco importa se esses tiranos interiores apresentam-se sob a forma da opinião pública ou do o-que-vai-pensar minha mãe ou minha tia – ou os vizinhos, o pai, o chefe, o conselho disciplinar… Até que a mulher aprenda a desafiar todos os rabugentos, todos os “detetives” morais, todos os carcereiros do espírito humano; até que aprenda a se manter firme em seu terreno e a insistir no exercício da liberdade, sem restrições, de ouvir a voz de sua natureza, ou seja, o chamado do maior tesouro da vida: o amor por um homem; até que o convide para o exercício do mais glorioso de seus privilégios: o direito de colocar uma criança no mundo – até então ela não pode ser chamada de emancipada.

Em um de seus livros, um romancista moderno tentou retratar a mulher ideal, bela, emancipada. Esse ideal é encarnado por uma jovem médica. Ela discorre com grande habilidade e sabedoria sobre como criar os filhos, é caridosa e fornece medicamentos gratuitos para mães pobres. Ela conversa com um amigo sobre as condições sanitárias do futuro e explica como bacilos e germes serão exterminados pelo uso de assoalhos e de paredes de pedra, eliminando-se tapetes e cortinas. Ela se veste, naturalmente, de maneira muito simples, muito prática, de preto. O rapaz, que em princípio ficara intimidado pelo conhecimento de sua amiga emancipada, aprende gradualmente a compreendê-la, e um belo dia percebe que a ama. Eles são jovens; ela é boa e bela e, embora rigidamente vestida, um colo branco imaculado e mangas delicadas suavizam seu aspecto severo. Seria de esperar que o rapaz declarasse seu amor, mas ele não é do tipo que faz bobagens românticas, claro que não. Então impõe o silêncio à voz da natureza e permanece correto. Ela, da mesma forma, continua a se mostrar exata, razoável, bem-criada. Temo que, caso eles se unissem, o jovem poderia congelar-se em vida. E confesso que não vejo nada de grandioso nessa “nova beleza”, fria como as paredes e os assoalhos com que ela sonha. Eu prefiro as baladas amorosas dos séculos românticos, Don Juan, as fugas à luz do luar, as escadas de corda, as maldições paternas, os gemidos da mãe e os comentários de vizinhos indignados, a essa correção e essa nitidez medida a régua. Se o amor não sabe como dar e receber sem restrições, então não é amor, mas uma transação que nunca deixa de considerar acima de tudo o lucro ou a perda que deve resultar da operação.

A salvação está em uma enérgica marcha em direção a um futuro mais brilhante, mais claro. O que precisamos é nos libertar das velhas tradições, dos hábitos ultrapassados, e seguir em frente. O movimento feminista só deu o primeiro passo nessa direção. Temos de esperar que ganhe força suficiente para dar o segundo. O direito ao voto e as capacidades cívicas igualitárias podem constituir uma boa reivindicação, mas a verdadeira emancipação não está nas urnas ou no tribunal. Ela começa na alma da mulher. A história nos ensina que, em qualquer época, foi por seus próprios esforços que os oprimidos realmente se livraram de seus senhores. É absolutamente necessário que as mulheres guardem esta lição: sua liberdade irá até onde for seu poder de libertar-se. É portanto mil vezes mais importante que elas comecem por sua regeneração interior, por abandonar o fardo dos preconceitos, das tradições, dos costumes. Reivindicar direitos iguais em todas as áreas da vida é bom e justo, mas ao final das contas o direito mais fundamental é o de amar e ser amado. Se a emancipação feminina parcial tiver de se transformar em uma emancipação completa e verdadeira da mulher, será com a condição de que ela jogue no lixo a noção ridícula de que ser amada, amante e mãe é sinônimo de ser escrava ou subordinada. É preciso livrar-se da absurda noção de dualismo entre os gêneros, em outras palavras, de que homem e mulher constituem dois mundos antagônicos.

A mesquinharia separa, a grandeza reúne. Sejamos grandes e generosos. Uma concepção verdadeira das relações de gênero não admite nem vencedor nem vencido – ela só reconhece uma coisa: a doação de si, ilimitada, para ser mais rico, mais assertivo, melhor. Essa é a única coisa que pode preencher o vazio e transformar a tragédia da emancipação feminina em gozo, um gozo sem limites.



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