CINEMA

Além do urso-polar

Mostrar os efeitos das mudanças climáticas diretamente na vida das pessoas talvez seja um caminho acurado a seguir para mobilizar o público. Afinal, uma coisa é ler previsões com gráficos, tabelas e mapas sobre o aumento do nível do mar no Pacífico e informar que ilhas irão desaparecer; outra é dar voz a indivíduos qu

por: Mônica C. Ribeiro
6 de junho de 2016

Há uma década, quando Al Gore lançava o filme Uma verdade inconveniente, pouco entendíamos do que se tratava mudança climática e aquecimento global. O derretimento do Ártico e da Antártida parecia demasiadamente distante de nossa vida, embora a imagem do urso-polar sitiado num pedaço de gelo flutuando no oceano tenha mobilizado a atenção de muitas pessoas. Al Gore e o Painel das Mudanças Climáticas da ONU, o IPCC, ganharam o Prêmio Nobel da Paz em 2007 por sua contribuição, e o filme levou o Oscar de melhor documentário no mesmo ano.
Dirigido por Davis Guggenheim, o filme contribuiu para promover a reflexão e o debate sobre questões complexas de forma mais próxima, numa linguagem direta e relativamente simples. Em que pesem as críticas de personalização e mistura de fatos e hipóteses, é inegável que os termos “mudança climática” e “aquecimento global” tiveram uma disseminação bem mais ampla por meio dele. Al Gore ganhou destaque em veículos de comunicação como nenhum cientista ou ativista havia conseguido até então.
Outro momento importante para a mobilização sobre o tema foi a 15ª Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, ou COP-15, realizada em 2009 em Copenhague. Um “otimismo climático” como jamais visto se espalhava, incluindo a presença de celebridades que se engajavam na causa – Leonardo DiCaprio, o então governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, Daryl Hannah – e a chegada de Barack Obama à Casa Branca, denotando uma mudança de tom em relação ao seu antecessor.
Desde que comecei a me interessar pelo tema e a ler relatórios e informações gerados pelo IPCC – grupo que reúne cientistas de todo o mundo para sintetizar e divulgar o conhecimento mais avançado sobre as mudanças climáticas, apontando causas, efeitos e riscos, projeções de futuro e cenários –, percebi a complexidade e a dificuldade de traduzir todo aquele repertório de dados em conteúdo que fizesse sentido para as pessoas.
Em algumas conversas com estudantes de Comunicação sobre o tema ao longo dos últimos anos, eu fazia uma dinâmica em que pedia que me dissessem qual era a primeira imagem que lhes vinha à cabeça quando ouviam o termo “mudança climática”. O urso-polar e as geleiras ainda eram campeões, embora eles não conseguissem estabelecer relações globais sobre os efeitos disso no Brasil e no mundo.
Em fevereiro deste ano, o IPCC promoveu a primeira reunião de comunicação desde sua criação, em 1988. No encontro realizado em Oslo com jornalistas, uma das recomendações encaminhadas foi a incorporação de comunicadores profissionais, jornalistas de ciência, psicólogos e antropólogos ao processo de elaboração do relatório desde a fase de definição do escopo, o que representaria uma mudança importante para facilitar essa comunicação com o público.
Quando assisti ao documentário Thule Tuvalu, produção sueca que retrata como duas localidades – Thule, na Groenlândia, e Tuvalu, no Pacífico – já sofrem com as mudanças climáticas, percebi o potencial do audiovisual para mexer com o imaginário sobre o tema. O filme mostra o degelo extremo de Thule afetando a vida de seus habitantes e sua cultura, formas de alimentação e de subsistência; e o aumento do nível do mar em Tuvalu, que ameaça os habitantes e seu modo de vida na ilha-nação.
Mostrar os efeitos das mudanças climáticas diretamente na vida das pessoas talvez seja um caminho acurado a seguir para mobilizar o público para essas questões. Afinal, uma coisa é ler previsões com gráficos, tabelas e mapas sobre o aumento do nível do mar no Pacífico e informar que ilhas irão desaparecer; outra é dar voz a indivíduos que já são afetados por isso.
Quando falamos em comunicar as questões climáticas, esbarramos nas condicionantes econômicas e políticas, que muitas vezes não só dificultam mas também promovem uma contracomunicação. É esse o caso abordado pelo filme O mercado da dúvida, uma das produções que serão exibidas este mês em São Paulo, durante a 5ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental. Baseado no livro de Naomi Oreskes e Erik Conway, o filme norte-americano mostra em detalhes táticas e ações de empresas interessadas em suscitar dúvidas sobre as mudanças climáticas para prorrogar seus lucros. Esse grupo se apropria de estratégias usadas pela indústria do tabaco há mais de quarenta anos, responsáveis por negar os prejuízos à saúde humana.
Também baseado em livro homônimo, da jornalista e ativista Naomi Klein, o filme Isso muda tudo aponta a necessidade de mudarmos nossa matriz energética para fontes renováveis, abandonando os combustíveis fósseis, e reduzirmos de maneira drástica o consumo dos recursos naturais, o que exigiria forte transformação socioeconômica e política.
Filmes sobre as pesquisas na Antártida ajudam a entender o complexo processo de leitura do gelo como determinante para compreendermos a composição atmosférica da Terra ao longo dos anos. O céu e a geleira, do francês Luc Jacquet, por exemplo, aborda uma vida dedicada a entender a Antártida: o trabalho do glaciologista francês Claude Lorius, que passou o inverno na região pela primeira vez em 1957 e desenvolveu técnicas revolucionárias para analisar a composição atmosférica e a temperatura dos últimos 800 mil anos. Já o filme No limite da Antártida narra a batalha de cientistas para entender os processos críticos que estão mudando a paisagem local, com consequências sentidas em todo o planeta.1
Além disso, a mobilização e o ativismo podem ser facilitadores da comunicação. O documentário A revolta dos Yes Men mostra uma dupla de ativistas e suas táticas para ridicularizar governos e multinacionais pela ausência de ações em relação às mudanças climáticas. O humor e a sátira também se revelam bons instrumentos para comunicar e incentivar mudanças sociais e políticas.
Todos esses filmes serão exibidos durante a 5ª Mostra Ecofalante, realizada de 15 a 29 de junho em salas de cinema da cidade de São Paulo. Mais informações no site: www.ecofalante.org.br/mostra/.

Mônica C. Ribeiro é jornalista e mestre em antropologia.


1    Uma boa leitura sobre o tema é o recém-lançado livro do jornalista Claudio Angelo, A espiral da morte: como a humanidade alterou a máquina do clima, Cia. das Letras, São Paulo, 2016.

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