Anatomia do poder - Le Monde Diplomatique

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Anatomia do poder

julho 4, 2012
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1956: em plena Guerra Fria, o sociólogo norte-americano Charles Wright Mills publica A elite do poder. Suas pesquisas traziam à luz o conluio de interesses econômicos, políticos e militares. Mills identifica assim um grupo coeso de indivíduos que “podem realizar sua vontade, mesmo que outros se oponham a isso”

Nointerior da sociedade norte-americana, o essencial do poder nacional reside nas áreas econômica, política e militar. As outras instituições aparentam estar à margem da história moderna e, às vezes, parecem se submeter às três primeiras. Nenhuma família exerce nos negócios nacionais um poder tão direto quanto o de uma grande empresa; nenhuma igreja exerce na vida dos jovens norte-americanos um poder tão direto quando o da administração militar; nenhuma universidade pode tomar decisões tão carregadas de consequências quanto as do Conselho de Defesa Nacional. As instituições religiosas, escolares, familiares não são mais os centros autônomos do poder nacional; ao contrário, essas áreas, até pouco descentralizadas, estão cada vez mais submetidas ao poder das três grandes, que são as únicas a tomar decisões de importância capital e imediata.

As famílias, as igrejas e as escolas se adaptam à vida moderna; são os governos, os exércitos e as empresas que a moldam; e justamente por aí eles transformam essas instituições menos poderosas em meios para atingir seus fins. Assim, as instituições religiosas fornecem capelães às forças amadas, que os utilizam para afirmar seu desejo de matar. As escolas selecionam e formam os homens em vista de seu futuro cargo na empresa e de sua futura especialidade no exército. Quanto à família estendida, há muito tempo que a Revolução Industrial a destruiu, e agora o pai e o filho são arrancados de sua família, à força, se necessário, todas as vezes que o exército do Estado os chama sob sua bandeira. E todos os símbolos dessas instituições inferiores servem para legitimar o poder e as decisões dos três grandes.

O destino do indivíduo moderno depende não apenas da família em que nasceu ou entrou pelo casamento, mas também, e cada vez mais, da empresa onde passa as horas mais ativas de seus melhores anos; não apenas da escola onde recebe sua educação de criança e adolescente, mas do Estado que o mantém nas mãos por toda a sua vida; não apenas da igreja, aonde ele vai de vez em quando escutar a palavra de Deus, mas do exército, onde lhe ensinam a disciplina. […]

Nessas áreas institucionais, os meios de poder de que dispõem os decisores aumentaram em proporções enormes; seu poder central executivo se ampliou; no interior de cada um, desenvolveram um sistema de administração moderno cada vez mais rígido.

Àmedida que essas áreas aumentam e se centralizam, as consequências de suas atividades se ampliam e as relações com as outras duas ordens se tornam mais numerosas. As decisões tomadas por um punhado de empresas privadas influenciam não apenas a economia mundial, mas também os eventos militares e políticos.

As decisões da administração militar afetam gravemente a vida política e o nível da atividade econômica. As decisões tomadas na área política determinam as atividades econômicas e os programas militares. Não existe mais de um lado a economia e do outro uma ordem política que contém um aparelho militar sem relação com a política ou com as potências do dinheiro. Há uma economia política unida por incontáveis ligações com as instituições e as decisões militares. Dos dois lados da linha de demarcação mundial que atravessa a Europa Central e passa pelos confins da Ásia, as estruturas econômicas, militares e políticas se permeiam progressivamente.

Se há uma intervenção do governo na economia da empresa, há também uma intervenção da empresa no processo de governo. No sentido estrutural, esse triângulo do poder está na origem de um entrecruzamento de diretórios que desempenha um papel essencial na estrutura histórica do presente.

[…] No cume dessas três áreas ampliadas e centralizadas, aparecem os homens que constituem as elites econômica, política e militar. No topo da economia, entre os ricos da empresa, encontram-se os CEO’s; no alto da ordem política, os membros do diretório político; no topo do aparelho militar, a elite dos soldados-homens de Estado agrupados em torno dos chefes de estado-maior e do escalão superior do comando.

Na medida em que essa três áreas coincidem entre si e que suas decisões se tornam totais em suas consequências, os chefes das três áreas do poder – senhores da guerra, dirigentes de empresa e diretório político – tendem a se unir para formar a elite no poder na América.

Consideramos frequentemente as altas esferas que evoluem em torno desses cargos de comando em função do que possuem seus membros; estes têm mais acesso aos bens e às experiências mais procuradas do que os outros. Vista desse ângulo, a elite se comporia simplesmente de homens que têm mais de tudo aquilo que é preciso ter, quer dizer, geralmente dinheiro, poder, prestígio e todos os estilos de vida que essas coisas permitem.

[…] Mas a elitenão é composta simplesmente dos homens mais privilegiados, pois eles não poderiam “ser privilegiados” sem os cargos que ocupam nas grandes instituições, que são, de fato, as bases necessárias do poder, da riqueza e do prestígio, e ao mesmo tempo os meios principais para exercer o poder, adquirir e conservar a riqueza, e obter o alto grau de prestígio que se reivindica.

Por poderosos, entendemos evidentemente aqueles que podem realizar sua vontade, ainda que outros se oponham a isso. Em consequência, ninguém pode ser verdadeiramente poderoso se não tiver acesso à direção das grandes instituições, pois é com esses meios institucionais de poder que os homens realmente poderosos exercem, em primeira instância, seu poder.

[…] Se tirássemos dos cem homens mais poderosos da América, dos cem homens mais ricos e dos cem homens mais célebres os cargos que ocupam nas instituições, se tirássemos deles seus recursos em homens, mulheres e dinheiro, se transferíssemos para longe deles os meios de comunicação de massa que centralizam atualmente a atenção sobre eles, eles ficariam sem poder, pobres e desconhecidos. Pois o poder não pertence de fato a um homem. A riqueza não está centralizada na pessoa do rico. A celebridade não é inerente a nenhuma personalidade. Para ser famoso, rico e poderoso, é preciso ter acesso às grandes instituições, pois os cargos que os homens ocupam ali determinam em grande parte sua chance de obter e manter esses valores aos quais damos tanta importância.

[…] Portanto, é preciso ressaltar um fato que todas as biografias e todas as memórias dos ricos, dos poderosos e dos grandes colocam em evidência: qualquer que seja sua diversidade nas outras áreas, os homens das esferas superiores estão implicados num conjunto de “grupos” que se sobrepõem, de panelinhas unidas entre si por ligações complicadas. Existe uma espécie de atração mútua entre os que “se sentam no mesmo terraço”, ainda que frequentemente esse fato só apareça claramente, para eles mesmos e para os outros, quando passam pela necessidade de traçar uma linha demarcatória; quando, para se defender, eles tomam consciência do que têm em comum e fecham, por consequência, suas fileiras às pessoas externas.

[…] Podemos considerar os homens que ocupam os cargos de comando como os possuidores do poder, da riqueza e da celebridade; podemos considerá-los membros da camada superior de uma sociedade capitalista. Podemos também defini-los em função de critérios psicológicos e morais, e ver neles certos tipos de indivíduos selecionados. A elite, assim definida, é simplesmente um conjunto de homens dotados de um caráter e uma energia superiores. […] Na verdade, sempre nascem ideias desse tipo numa sociedade onde alguns homens possuem, mais do que outros, o que há para se possuir. Aos privilegiados repugna pensar que são apenas privilegiados. Eles logo acabam por se definir como intrinsecamente dignos do que possuem; acabam se considerando uma elite “natural” e até vendo seus bens e privilégios como extensões naturais de seu eu superior.

[…] No entanto, àmedida que a elite floresce enquanto classe social ou conjunto de homens nos cargos de comando, ela escolhe e forma alguns tipos de personalidade e rejeita outros. O tipo de ser moral e psicológico que os homens se tornam é em grande parte determinado pelos valores segundo os quais vivem e pelos papéis institucionais que lhes são permitidos e que lhes são solicitados interpretar. Do ponto de vista do biógrafo, um homem da classe superior é formado por suas relações com os outros homens de seu meio, em uma série de pequenos agrupamentos íntimos pelos quais passa e aos quais poderá retornar durante toda a vida. A elite assim concebida é um conjunto de altas esferas cujos membros são escolhidos, formados, autenticados e autorizados a tocar de perto aqueles que comandam as hierarquias institucionais anônimas da sociedade moderna. Se existe uma chave que permite compreender a ideia psicológica da elite, é o fato de que seus membros, mesmo estando conscientes de quanto o processo de decisão é impessoal, partilham a mesma sensibilidade íntima. Para entender a elite como classe social é preciso estudar uma série de pequenos meios onde vivemos face a face; entre eles, o mais evidente do ponto de vista histórico foi a família de classe superior, mas os mais importantes são agora a “boa” escola secundária e o clube das grandes cidades.

A “elite norte-americana” nos lembra um conjunto de imagens confusas e provocadoras de confusão, e, no entanto, quando pronunciamos ou ouvimos expressões como “classe superior”, “oficiais”, “clube dos milionários”, “poderosos”, temos a vaga impressão de saber o que elas significam, e frequentemente sabemos. Mas o que fazemos raramente é ligar essas imagens às outras; não fazemos mais esforços para formar no nosso espírito uma imagem coerente da elite no seu conjunto.

Mesmo quando, às vezes, tentamos fazê-lo, geralmente chegamos a acreditar que não há uma elite, mas várias elites, e que elas não são realmente ligadas entre si. O que precisamos compreender é que, se não tentamos vê-la como um todo, nossa impressão é unicamente o resultado da nossa falta de rigor analítico e de imaginação sociológica.

[…] Quando os jornalistas sérios nos dizem: “São os acontecimentos, não os homens, que forjam as grandes decisões”, estão fazendo eco à teoria da história considerada como Sorte, Acaso, Destino ou obra da Mão Invisível. De fato, a palavra “acontecimento” é apenas um termo moderno para expressar essas velhas ideias que buscam separar os homens da sua história, porque nos levam a acreditar que a história acontece pelas nossas costas. A história seria algo à deriva; a área da ação, mas não do ato; seria o acidente puro, o acontecimento que ninguém desejou.

O curso dos acontecimentos depende mais, na nossa época, de uma série de decisões humanas do que de um destino inevitável. O sentido sociológico do “destino” é simplesmente este: quando as decisões são incontáveis e cada uma, tomada separadamente, não tem grandes consequências, adicionam-se para formar uma soma que nenhum homem desejou – a história tomada como destino. Mas nem todas as épocas têm a mesma fatalidade.

Como o círculo dos homens que decidem diminui, como os meios de decisão se centralizam e como as consequências das decisões tomam uma amplitude enorme, o curso dos grandes acontecimentos depende frequentemente das decisões tomadas por certos círculos determináveis. Isso não quer dizer necessariamente que o mesmo círculo de homens dirige o fio dos acontecimentos do início ao fim, a tal ponto de a história inteira ser o resultado do seu complô. O poder da elite não significa necessariamente que a história não é forjada também por uma série de pequenas decisões, das quais nenhuma é muito refletida. Não significa que a política em curso e o acontecimento vivo não sejam submetidos a mil pequenos arranjos, compromissos e adaptações. A ideia de uma elite no poder não implica nenhuma concepção do processo de decisão enquanto tal: é uma tentativa de delimitar os domínios sociais nos quais esse processo, qualquer que seja, se desenrola. É a pesquisa dos homens que estão implicados nesse processo.

[…] Se a história tem um sentido, somos “nós” que o daremos por nossos atos. No entanto, o fato é que, ainda que estejamos todos na história, não temos todos o mesmo poder de fazer a história. Pretender o contrário é um absurdo no plano sociológico e uma marca de irresponsabilidade no plano político. É um absurdo porque todo grupo e todo indivíduo são limitados, antes de mais nada, pelos meios de poder técnicos e institucionais dos quais dispõem; não temos todos o mesmo acesso aos meios de poder que existem nem a mesma influência sobre a utilização que deles é feita. Acreditar que “nós” fazemos a história é uma marca de irresponsabilidade política, porque isso nos impede de saber a quem cabe a responsabilidade das grandes decisões tomadas por aqueles que têm acesso aos meios de poder.

Ao estudar a história da sociedade ocidental, mesmo de maneira muito superficial, vemos que o poder dos decisores é antes de tudo limitado pelo nível técnico, pelos meios de poder, de violência e de organização que existem em uma dada sociedade.

Sob o mesmo ângulo, vemos também em toda a história do Ocidente uma linha ascendente e praticamente ininterrupta: os meios de opressão e exploração, de violência e destruição, como os meios de produção e reconstrução, foram progressivamente ampliados e centralizados.

Como os meios institucionais de poder e os meios de comunicação que os ligam entre si são cada vez mais eficientes, aqueles que os dirigem estão na chefia de instrumentos de dominação sem precedentes na história da humanidade.



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