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O DESAFIO DA ACEITAÇÃO
Telenovela e LGBT: tudo a ver

Apesar de uma abertura das telenovelas a novas e produtivas representações da homossexualidade, a regra são tramas e conteúdos que recorrem aos estereótipos de homossexuais como forma de reafirmar e reproduzir as normas que sustentam a superioridade dos heterossexuais, bem como seus privilégios

por Jean Wyllys

Mesmo sendo um dos produtos culturais mais consumidos (certamente é a forma de ficção mais consumida) num país com índices ainda alarmantes de analfabetismo e analfabetismo funcional; onde a educação formal de qualidade ainda é uma meta a ser alcançada; em que a ampla maioria da população não tem acesso às artes vivas nem a exposições de artes plásticas; e com poucos leitores de livros mesmo entre aqueles que estão no – ou concluíram o – ensino superior, a telenovela ainda é alvo do desprezo de parte expressiva da intelectualidade brasileira de esquerda (e, por extensão, alvo do desprezo ou do desinteresse de muitos políticos e lideranças de movimentos sociais orientados ou influenciados por essa parte da intelectualidade de esquerda). Alheios – voluntariamente ou não – às novas teorias sobre a comunicação de massa e ao conhecimento produzido pelos chamados estudos culturais, esses muitos políticos e lideranças acabam por descartar algo que é essencial ao entendimento da mentalidade do povo brasileiro e seus desdobramentos políticos e à disputa pela (re)construção dessa mentalidade: a telenovela. Esse desprezo tem, é preciso dizer, uma genealogia: ele é fruto da crítica marxista que os teóricos da Escola de Frankfurt – mais notadamente Adorno e Horkheimer – fizeram ao que chamaram de indústria cultural, ou seja, a conversão da cultura em mercadoria e o processo de subordinação da consciência à racionalidade capitalista, impulsionados sobretudo pelo advento dos meios de comunicação de massa (o rádio, o cinema e a TV).

Mas, a despeito desse desprezo em relação à telenovela, é crescente o número de estudiosos e ativistas políticos interessados em seu papel na (re)construção da mentalidade do povo brasileiro e em seus impactos nas relações socioculturais; entre esses ativistas e estudiosos, eu e outros integrantes dos movimentos LGBTs nos incluímos. Nós entendemos que a telenovela faz parte das práticas de significação e dos sistemas simbólicos por meio dos quais os sentidos são produzidos e os sujeitos são posicionados, ou melhor, entendemos que a telenovela é representaçãoe, como toda representação, ela não apenas reproduza realidade, mas também a produz, isto é,desencadeia (re)ações entre os telespectadores. Por isso, não a descartamos.

A telenovela foi e ainda é meio de reprodução e de transmissão de preconceitos sociais de todos os tipos: de raça ou cor ou de origem étnica ou geográfica (racismo); de gênero (machismo); e também o preconceito relacionado à orientação sexual. Como bem explica o doutor em Filosofia e teórico da comunicação Wilson Gomes, o preconceito social é de natureza cognitiva: “Tem a ver com certezas compartilhadas por parte de grupos sociais; tem a ver com certezas às quais se adere irracionalmente, portanto, sem exame dos pressupostos e sem fundamentação racional; tem a ver com juízos – em geral negativos – sobre a natureza de ‘classes’ de pessoas; tem a ver com aplicar esses juízos a priori sobre classes de pessoas para decidir, sem as conhecer individualmente, o que são as pessoas encaixadas naquela classe, os seus comportamentos esperados, o seu caráter e o sentimento que elas nos merecem”. É seguro dizer, portanto, que boa parte das “certezas” que a ampla maioria das pessoas (incluindo aí muitos homossexuais) partilha acerca da homossexualidade, bem como seus “juízos negativos” sobre gays e lésbicas, vem da telenovela (e, por extensão, dos programas humorísticos e séries de TV). Aliás, o fato de boa parte das “certezas” e dos “juízos” acerca da homossexualidade vir da telenovela faz dela igualmente um meio importantíssimo na desconstrução ou erradicação dessas mesmas “certezas” e “juízos”, ou seja, faz da telenovela um meio privilegiado no enfrentamento do preconceito social anti-homossexual e seus estigmas.

Há quem possa dizer que representações de telenovelas são “abstrações” e, como tais, são inócuas. Não é a verdade. As representações são a matéria-prima do pensamento. E o pensamento é a ponte do corpo para o ato (no mínimo para o ato linguístico que é o insulto ou a injúria), para a ação. O preconceito social anti-homossexual e os discursos de ódio contra os homossexuais, bem como os crimes de ódio de que estes são vítimas, são complementares. A essa articulação e operação em conjunto damos o nome de homofobia (aqui esta palavra designa também os preconceitos, discursos e ações contra travestis e transexuais que são motivados menos pela orientação sexual e mais pela identidade de gênero). Milhões de lésbicas, gays, travestis e transexuais são, diariamente, vítimas da homofobia, que se manifesta de diversas maneiras: da piada sobre “bicha” contada nos corredores das empresas em intervalos de almoço ou para o cafezinho até sua manifestação mais grave, que é o assassinato com requintes de crueldade, passando pelos apelidos grosseiros e as humilhações em sala de aula ou em casa e pelas comparações com personagens estereotipados das telenovelas e dos programas humorísticos.

A primeira telenovela da Rede Globo (e eu me refiro mais a essa emissora não só por ser ela a campeã de audiência, mas por ter se especializado na produção de telenovelas, convertendo-as em carro-chefe de sua programação e em seu principal produto de exportação) a apresentar um personagem homossexual foi Orebu, de Bráulio Pedroso, exibida de 4 de novembro de 1974 a 11 de maio de 1975. Nela, Conrad Mahler (Ziembinski) tinha uma relação com o michê Cauê (Buza Ferraz) e assassinava a mulher por quem o namorado se apaixonara. Percebam que essa trama associa os homossexuais com a passionalidade extrema, o desequilíbrio psíquico e a criminalidade. Mais de dez anos depois de O rebu, outra novela da Globo – Roda de fogo, de Lauro César Muniz – reproduzia o mesmo estereótipo: Mário Liberato (Cecil Thiré) nutria uma paixão doentia por seu rival Renato Vilar (Tarcísio Meira) e, numa cena surpreendente para os dias de hoje, em que a representação do “beijo gay” não acontece porque a emissora alega que a audiência não estaria “preparada” para ela, chegou a se esfregar na cama de Renato e a beijar loucamente seu travesseiro, num surto de obsessão, misto de ódio e amor. De lá para cá, a representação dos homossexuais em telenovelas variou para o estereótipo da “bicha louca” ou da “sapatão” (aquele/aquela que deve fazer rir ou de quem se deve rir) e, mais recentemente, para personagens mais positivos e complexos. Essa abertura da telenovela para representações positivas (ou no mínimo produtivas) não é uma simples concessão dos autores e da emissora em que trabalham, mas resultado de uma batalha cultural que inclui as críticas e pressões políticas dos movimentos LGBTs, a conversão da comunidade LGBT em nicho de mercado consumidor, as reações da audiência medidas em pesquisas de opinião e/ou em grupos de discussões, a emergência das tecnologias da comunicação e da informação, em especial a internet, e os enfrentamentos dentro da própria emissora entre artistas e executivos – o que deve nos obrigar a fugir de maniqueísmos ou simplificações grosseiras quando formos tratar do tema.

Por outro lado, não existe uma forma “correta” de representar “o homossexual”. Primeiro porque existem homossexuais (assim, no plural) e, desse modo, uma diversidade de práticas e comportamentos homossexuais. O que acontecia até pouco tempo é que a telenovela se fixava apenas em determinadas características e comportamentos e os cristalizava, fazendo parecer que só existiam essas características e comportamentos. É isso que é o estereótipo: a redução da diversidade a um modelo cristalizado e imutável. Nos últimos anos, os estereótipos têm dado lugar a representações mais complexas, mas também – e infelizmente – à invisibilidade de pessoas LGBTs. Ante a perspectiva de uma nova batalha cultural em torno da representação da homossexualidade – batalha cada vez mais inevitável em razão do crescimento do número de evangélicos, coroado com a ocupação de muitas cadeiras nas casas legislativas por políticos forjados em Igrejas fundamentalistas neopentecostais contrárias à existência da homossexualidade, e da emergência da “classe C” nos doze anos da era Lula – e ante a perspectiva de enfrentar essas forças em oposição, a Globo tem optado algumas vezes por não representar os homossexuais em telenovelas, ou seja, optado por invisibilizá-los.

De forma geral, tem prevalecido, nos últimos anos, a abertura das telenovelas para novas e produtivas representações da comunidade LGBT. Os principais autores da Globo têm sido ousados em criar personagens que, de forma tímida ou não, representam a diversidade dos comportamentos homossexuais. Digo “de forma tímida ou não” porque já houve representações muito mais ousadas antes de a batalha cultural em torno delas se acirrar, como, por exemplo, a que aconteceu em A próxima vítima, de Sílvio de Abreu, em que os adolescentes bonitos, honestos, inteligentes e nada afetados Sandrinho (André Gonçalves) e Jéferson (Lui Mendes) se apaixonaram e foram aceitos pelas famílias; sem falar que um deles era negro e o outro, branco. O casal caiu nas graças da audiência que, anos depois, rejeitaria o casal de lésbicas balzaquianas e bem-sucedidas interpretadas por Christiane Torloni e Sílvia Pfeiffer em Torre de Babel. Aguinaldo Silva também ousou bastante ao criar uma história de amor entre a médica Leonora (Milla Christie), que era competente, honesta e bonita, e a patricinha Jennifer (Bárbara Borges), quase a mocinha da novela Senhora do destino. De todos os autores da Globo, Aguinaldo Silva é aquele que seguramente mais representou homossexuais em suas telenovelas, talvez por ter sido, em sua juventude, ativista do então incipiente movimento homossexual no Brasil. Nessas representações, Silva jamais cedeu aos estereótipos pura e simplesmente: quando recorreu a eles, rasurou-os todos (como nos casos de Uálber, de Suave veneno, e, mais recentemente, de Crô, de Fina estampa, ambos afeminados e engraçados, mas dotados de virtudes que fariam deles os heróis das tramas não fossem os poucos vícios). Silva não quer saber quão madura está a comunidade LGBT para lidar com suas próprias contradições: ele simplesmente as desnuda por meio de personagens que despertam sentimentos ambíguos na audiência que ainda não se livrou do preconceito social anti-homossexual. Outro autor com muitas representações positivas da homossexualidade em suas telenovelas é Gilberto Braga. Embora apele mais à inteligência do telespectador para que este perceba a homossexualidade de seus personagens (um flerte não com os estereótipos, mas com a invisibilidade, também com o propósito de rasurá-la), Braga escreveu, com Ricardo Linhares, a novela Insensato coração, em que não só os personagens homossexuais eram facilmente identificados como tais mesmo sem qualquer vestígio de estereótipos, mas a própria homofobia era um dos temas principais da trama. Braga e Linhares representaram diferentes formas de ser homossexual e os conflitos no interior da própria comunidade LGBT por conta das diferentes identificações (de classe social; étnicas; culturais e religiosas) que interpelam gays e lésbicas. No que diz respeito à representação de homossexuais mais próxima da realidade dos fatos e a serviços prestados à cidadania LGBT, Insensato coração é a melhor novela já exibida pela Globo. Foi ela que sustentou, na esfera pública, a denúncia dos crimes de ódio contra homossexuais enquanto a presidente Dilma enterrava o projeto Escola sem Homofobia por pressão da bancada evangélica no Congresso Nacional e sob o silêncio constrangedor de lideranças dos movimentos LGBTs cooptadas pelo governo do PT.

 

Hegemonia heteronormativa

Contudo, apesar dessa abertura das telenovelas a novas e produtivas representações da homossexualidade, a regra são tramas e conteúdos que recorrem aos estereótipos de homossexuais como forma de reafirmar e reproduzir as normas que sustentam a superioridade dos heterossexuais, bem como seus privilégios – o que faz delas motores importantes da heteronormatividadeno Brasil. Esta aponta/constrói, como “natural”, a sexualidade para fins procriativos e faz uma correspondência entre sexo biológico e papel de gênero. Qualquer menino que escape, ainda que cedo, do papel de gênero que, segundo a perspectiva heteronormativa, corresponde ao sexo que a natureza lhe deu é imediatamente alvo de insulto. Este se apresenta antes e primeiramente como performance linguística (a língua é performativa: produz sentimentos e ações, afeta os corpos e as relações). Lacan diz que o inconsciente é produto das inscrições profundas da língua em nós, ou seja, as sensações de prazer e desprazer produzidas pela língua desde a mais tenra infância estruturam nosso inconsciente, logo, nossa relação mais íntima conosco além de nossa relação com o mundo. É a língua o primeiro veículo de reprodução e transmissão do preconceito social anti-homossexual por meio do insulto. Mas o insulto se apresenta também na forma da caricatura e dos estereótipos reproduzidos na telenovela, ou seja, ele se desdobra em outros sistemas de representações, como o audiovisual, que inclui o cinema, a televisão e a internet.

Os efeitos da heteronormatividade e do insulto anti-homossexual em LGBTs são a homofobia internalizada e uma inveja estrutural do lugar privilegiado e “superior” que o heterossexual (e em especial o homem heterossexual) ocupa na sociedade. Daí a vergonha de si, a necessidade de camuflar trejeitos, de se passar por hétero, viril, a excessiva polarização ativo × passivo; a aversão e o ódio aos afeminados, travestis e transexuais e a excessiva valorização dos que “são mas não parecem”; a prática clandestina e culpada da homossexualidade, disfarçada na ofensa e perseguição aos assumidos; e a inveja daqueles membros da comunidade difamada que conseguem vencer o estigma e chegar ao lugar privilegiado dos heterossexuais, ao lugar da estima. A homofobia não nos vitima, portanto, apenas exteriormente, mas antes interiormente. As consequências políticas disso são enormes: LGBTs não se identificam ao ponto de se converterem num grupo com objetivos comuns e força eleitoral; não conquistam espaço nas casas legislativas nem no Poder Executivo e, por isso, não conquistam os direitos que lhes são negados; o movimento não cresce e tende a ficar nas mãos de quem não representa a diversidade da comunidade LGBT.

Por isso, a telenovela não pode ser ignorada por intelectuais, por políticos nem por movimentos sociais que estejam seriamente comprometidos com a disputa dos corações e da mente dos brasileiros no sentido de (re)construir uma mentalidade caracterizada pelo respeito à dignidade humana de todos e todas, a despeito de suas diferenças e identificações. Alguns podem considerar as representações dos homossexuais em telenovelas meras “abstrações”. Porém, como bem lembrou Albert Camus em A peste, quando as abstrações se põem a fazer sofrer, humilhar e, por fim, matar, o melhor que fazemos é nos ocupar delas.

Jean Wyllys

Jornalista, escritor, mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia, professor de Teoria da Comunicação da Universidade Veiga da Almeida e deputado federal pelo Psol- RJ



Ilustração: Daniel Kondo


07 de Janeiro de 2013
Palavras chave: Gay, LGBT, preconceito, sociedade, mídia, televisão, novelas, Brasil, comportamento, aceitação, visibilidade, estereótipos, telenovela, homossexualidade, heterosexualidade, homossexuais, diversidade, identidade, gênero, homofobia, transexuais, Rede Globo, Aguinaldo Silva, dramaturgia, Gilberto Braga, Jean Wyllys
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comentários
17 comentários
02/02/2014 - 10:16hs - Nanda Cury

Numa sociedade com elevados índices de analfabetismo funcional não surpreende o baixo nível do debate daqueles que criticam o artigo, a homoafetividade e homossexualidade. É risível constatar que o discurso dessas pessoas AINDA se baseia no preconceito e numa fala com zero reflexão e que vem sendo reproduzida há anos por uma sociedade intolerante, violenta e excludente. Vivam e deixem viver! Parabéns, Jean, pelo artigo. Embora eu não goste de novela, é impossível não reconhecer seu o papel fundamental de promover a discussao e reflexao de vários temas na sociedade. É muito bom ver a homossexualudade ser retratada com RESPONSABILIDADE por alguns autotres. Que o beijo gay deixe de ser tabu e passe a ser mostrado com naturalidade, não apenas no último capítuli, mas ao longo de toda trama. Apesar dos que dizem que homossexualidade não é natural, etc, estamos aí, mostrando a todos que existimos e que passamos muito bem, apesar de mentes tão tacanhas e dis julfamentos daqueles que provavelmente nunca conheceram a grandeza do amor!!

08/06/2013 - 17:05hs - Pedro Henrique

Artigo dos mais baratos e que só revela na verdade a tentativa torpe de subverter os valores próprios de cada indivíduo ludibriando-lhes a capacidade de auto-reflexão utilizando-se de raciocínios o mais estritamente ideológicos o possível, não passando disso, e ainda tendo o cinismo de idolatrar a esfera midiática de telenovelas como se de fato servissem ao propósito de estimular a reflexão crítica das pessoas - que, inclusive, não conseguem nem perceber que a própria identidade gay para a sua construção tem como fundamento a heterossexualidade, a relação depreendida do par de sexo opostos, visto que por si só nem sequer existe, e que necessita antes apropriar-se de insumos (daí identidade de gênero) provenientes da própria condição heterossexual de ser de outrem, digo, de cada pessoa, comprovada pelas evidências anátomo-fisiológicas (homem ou mulher). Quer dizer, num primeiro momento, a dita cuja se apropria da heterossexualidade no intuito de dela tirar uma identidade adequada mediante re-significações inteira e unicamente simbólicas, resultando portanto, e não mais que isso, numa construção sumariamente ideológica e virtual (note bem, virtual!) da identidade de gênero (note também que desassociada esta aqui da sua natureza sexual biológica correspondente, inerentemente heterossexual), e que pela sua própria condição, incorporada pela pessoa como um constructus, isto é, na forma de uma identidade estranha, chega ao ponto de, para ter que se autenticar, fazer com que a pessoa desarranje toda a sua estrutura interna subjetiva (e com ela todo tipo de valor agregado desde suas experiências mais remotas como ser cognoscente). Por conseguinte, temos presente o momento em que o indivíduo, agora portador dessa identidade aparente, é levado a entrar em própria contradição à medida que a identidade aparente adquirida por ele começa a a gir no sentido de ter que destruir, deslegitimar mesmo, entre outras coisas, a base de sua própria sustentação, que é a heterossexualidade, de onde provém a sua identidade de gênero original ( porque não se pode criar algo do nada, da mesma forma que a identidade de gênero não é criada aleatoriamente, mas sim através de sua razão de ser, a heterossexualidade). Assim, se percebe que mesmo diante da tentativa de se utilizar de símbolos culturais que personifiquem a identidade pretendida durante o ato linguístico ( ou, como é dito no artigo, performance linguística), ainda assim essa manobra não consegue disfarçar, assim como o senhor Jean Wyllys, que, por mais que haja êxito nisso, tal identidade nunca é perfeita - visto que requer constantemente um esforço psicológico para seguir com o pretendido, fazendo com que o indivíduo viva episódios de estranhamento de si e dos outros, além também explicar o porquê de sua conduta ser tão desenfreada, hostil e intolerante para com aqueles que ele achar que devem corresponder aos seus anseios: porque o mesmo não se sente seguro consigo mesmo, precisando incumbir no outro a responsabilidade que lhe é devida pelas suas próprias decisões pessoais.

13/03/2013 - 23:27hs - Vanessa

Bem Interessante o texto. Tando que poderíamos também estender esta idéia sobre outros grupos que sofrem preconceito, entre eles os próprios evangélicos. Há sim evangélicos preconceituosos e que manifestam sua ignorância e preconceito indiscriminadamente e não vivem a essência do que pregam, que deveria ser o amor ao próximo. Mas felizmente esta amostra não define os evangélicos, e aliás, a generalização é fonte de muitos preconceitos. Na linha de pensamento a respeito da importância na construção dos conceitos dos telespectadores, podemos citar também personagens católicos ou evangélicos que são estereótipos cheios de preconceito. Não assisto novelas nem tenho conhecimento sobre isso, por isso não lembrarei de nomes, mas o estereótipo existe não só para homossexuais mas para outros grupos também.

20/01/2013 - 18:12hs - bRUNO

James: Monte uma comunidade homossexual. James, mesmo que você monte uma comunidade numa ilha isolada, o resto do mundo vai continuar existindo, os heterossexuais continuarão existindo, portanto durma sossegado, não é através da homossexualidade que a espécie humana entrará em extinção. No mais, imagino que também aches anti-natural a relação entre um homem+mulher que não podem ter filhos. Aí eu te digo, monte uma comunidade com casais estéreis... kkkkkk.... Por favor, isso é burrice ou desonestidade intelectual?

19/01/2013 - 15:48hs - Helena
Inveja de nao termos um representante paulista desse naipe. Parabéns!
19/01/2013 - 12:23hs - Para James
Querido James, não sei ao que você está se referindo como anti-natural em relação à sexualidade. Mas posso lhe assegurar e, você pode também pesquisar sobre isso, que de um ponto de vista BIOLÓGICO, a homossexualidade é tão natural quanto a heterossexualidade. Existem várias espécies de animais, além dos seres humanos, em que a homossexualidade ocorre, então o que tem de anti-natuaral nisso? Em relação à sexualidade humana, que é bem mais complexa, nada é em preto e branco. Existem vários espectros de sexualidade. Quanto à sua questão sobre quantas crianças nasceriam de uma comunidade homossexual, não é possivel se chegar à uma previsão-resposta, pois dada a complexidade que a sexualidade humana possui, não se pode afirmar nada. Em primeiro lugar, a natureza precisa de diversidade, como afirmei anteriormente, existem espectros e bissexualidade ou experimentações, mutações que acabariam gerando frutos. Conheço casos de casais heterossexuais que foram casados por anos e tiveram vários filhos, mas em um dado momento se separaram e um deles(do casal) se descobriu/assumiu homossexual e vive sua vida. Conheço pessoalmente 3 casos idênticos... De uma perspectiva pessoal: Eu sou homossexual, sempre fui, NASCI ASSIM, não foi uma escolha, não foi um distúrbio, não foi a minha criação( meus pais são heterossexuais e me criacaram como tal). Existe algo mais natural que isso? Não vou nem entrar no mérito genético, pois não há prova suficiente ainda para suportar essa teoria, mas que por experiencias pessoais e de amigos, acredito ser bem verdadeira. [conheço várias pessoas homossexuais que tem irmãos ou outros membros da família também homossexuais, genética? talvez... Espero que tenha sido claro. Passar Bem
18/01/2013 - 23:17hs - James
Monte uma comunidade homossexual por 10 anos e depois me diga quantas crianças nasceram nesse período. Não adianta lutar contra a natureza. O normal do ser humano é ser hétero. Se você é diferente, ok, beleza, seja feliz assim, com seus pares, mas não queira que eu ache isso lindo e natural porque não é - e nunca vai ser. Quer ver pegação gay na TV, monte um canal e só assista a ele. A propósito, seu artigo é uma bosta. Só alguém muito doente e seriamente desequilibrado acreditaria que a novela é espaço de cultura e educação. Dá pena dos seus seguidores.
17/01/2013 - 23:11hs - Priscilla
Excelente texto, porém ainda que a Rede Globo seja campeã de audiência e grande produtora de novelas, o que o SBT fez, sua audácia ao colocar na novela duas mulheres dando um beijaço, deveria ser incluído.Foi revolucionário.
15/01/2013 - 16:48hs - Welfare Fernando Kesnault

Excelente texto...deveria ser artigo de estudo para todos os cursos superiores da área de humanas e mesmo médica. Fundamentado e corajoso.

11/01/2013 - 17:39hs - Teresa Cristina

Gostei muito de ler o seu artigo Jean. Parabéns.

09/01/2013 - 22:15hs - Ana Virgínia da Silva Barbosa
Muito bom esse texto adorei, serve de inspiração para redação em vestibular.
09/01/2013 - 21:59hs - Tiago H. Cardoso
Concordo com a sua posição, caro Jean, quanto às equivocadas críticas que muitos intelectuais fazem da telenovela brasileira, e também quanto à enorme influência que a homofobia tem nesses meios, graças ao estereótipo do homossexual devasso, engraçado, neurótico. Acrescento que o estereótipo do homossexual, hoje em dia, também está atrelado ao mercado, onde se vende o estilo gay, com as vestimentas gays, lojas gays, ruas gays, etc, fazendo com que empresários acabem lucrando com a segregação entre hétero e homossexual. Lutar contra a homofobia, então, também significa estabelecer que a identidade e expressão sexual do indivíduo não se revela por uma moda, mas sim por suas significações subjetivas em cada pessoa
09/01/2013 - 19:11hs - Adriana Ibiti
Caro Sr. Wyllis! Seu artigo é muito oportuno, especialmente se levamos em consideração que os aspectos relacionados à heteronormatividade, ou seja, ao fato de ressaltar aspectos negativos de personagens homossexuais, é um fenômeno repetido em todo o mundo e historicamente, desde que o cinema foi inventado, como forma de legitimar a heterossexualidade como única forma possível ou desejável de relacionamento entre duas pessoas. No entanto, a partir da década de 90, começou a surgir uma nova forma de representação da homossexualidade mais complexa e diversificada, como explica o seu artigo. É lamentável, em minha opinião, que a telenovela brasileira não seja tratada com a seriedade que merece, já que pode ser considerada uma das principais formas de entretenimento do telespectador no Brasil. Aqui na Europa, os estudos relacionados ao que as pessoas fazem com o tempo livre são cada vez mais difundidos e aprofundados. A própria Teoria do Entretenimento propõe que os aspectos derivados do consumo da mídia não devem ser ignorados já que são determinantes na legimitação ou na mudança de comportamentos e podem influir na percepção da realidade. Não é à toa que a chamada Psicologia dos Meios de Comunicação busca entender como o telespectador identifica-se com os personagens, que sentimentos, emoções e recordações são despertados e como vive os momentos de diversão. O que passa nas telenovelas influi no comportamento cidadão, pode implicar em mudanças de atitude, facilitar ou dificultar a aceitação individual e revelar tendências. Em minha opinião, essa problemática deve ser levada a sério e os movimentos LGBT precisam ficar atentos para que as representações dos homossexuais nas telenovelas, nos comerciais e no cinema possam colaborar para difundir uma imagem positiva de gays, lésbicas e transexuais. Parabéns por possibilitar a visibilidade deste tema. Adriana Ibiti Doutoranda em Comunicação Audiovisual e Publicidade e Mestre pela Universidad Autònoma de Barcelona (Espanha).
09/01/2013 - 18:03hs - Guilherme
Estava com minha namorada na fila de um supermercado e vi uma travesti fazendo compras. Ela estava de chapéu, óculos escuros, falava o mais baixo possível e não olhava para os lados -- parecia alguém que disfarçava um crime. Aquilo me fez refletir. E ficar ainda mais preocupado com a crescente evangelização do Brasil.
09/01/2013 - 12:24hs - FC
Apesar de sua coesão o texto trabalha um ponto ainda não bem definido no atual panorâma político/cultural: como a dita esquerda trabalha com a questão da orientação sexual. Isso, porque, ao focarmos nas ideologias clássicas de esquerda, o tema não deveria ser tratado e, se o fosse, deveria ser abordado com uma simples prisão ou qualquer outra violação aos direitos fundamentais. Basta, para tanto, assistir, ainda nos dias de hoje, como Cuba, bem como outras nações que subsistem com modelos do velho comunismo soviético, ditatorial, stalinista, posicionam-se quanto as diferentes orientações sexuais. O posicionamento da esquerda ante a telenovela brasileira, e sua distonância ou própria ingerência sob o tema, em minha opinião, repousa assente nesta contradição ideológica, inarredável a uma genuína ideologia marxista. A esquerdas são forjadas em um substrato elementar, a luta de classes, leia-se, a luta dos trabalhadores. Outras questões, como gênero, raça, orientação sexual, ambiente e etc, nesse paradigma são cooptadas pelas novas esquerdas que, inevitavelmente, destoam de sua própria gênese. Talvez, neste ponto resida a contradição e, em ato seguido, toda a forma de supressão ou unificação dessa luta, enquanto luta política. Política essa fora da representatividade, mas permeada no corpo social. Essa ausência de uma matriz definida ideológica, consequentemente, ganha ressonância, na política representativa e nos atores sociais que a compõem, ao meu ver. Contudo, parabenizo o autor pelo texto que permite uma reflexão inicial sobre um tema complexo, passível de constantes reflexões e interpretações.
08/01/2013 - 23:56hs - Lourdes Solange Schmidt
O melhor texto que já li a respeito desse tema. Parabéns, companheiro Jean Wyllys.
08/01/2013 - 18:06hs - Luiz Filósofo

Muito bom sua reflexão sobre esta questão específica da indústria cultural que reproduz valores patriarcais machistas, logo a homofobia. Mas a força do costume é maior do que a nossa vontade política. Sei que é uma questão de tempo, de informação, de educação de qualidade, de arejamento cultural, mas temos óbices como o pensamento religioso e o preconceito popular, este construído a partir da religião antihomossexual. Seria interessante, não sei se você leu, Microfísica do Poder de Faucault, onde a questão dos poderes não só se limita ao Estado, mas as suas instituições espalhadas na sociedade como o Hospital, por exemplo, que faz controle social. Não sei se vc sabe, mas a RECORD religiosa tem um reality FAZENDA VERÃO onde duas lésbicas decidiram ficar juntas e uma delas é a grande kerida do público para vencer o reality. Só que a RECORD tenta a toda hora keimar o filme dela, mostrando seus pontos negativos, pq ela tem peso na língua no sentido classista. Enfim, a história avança, mas também reflui. E o advento da AIDS interrompeu uma revolução sexual surgida nos anos 1960. Acho q a partir daí parte da sociedade ficou mais reacionária e intolerante. Fiz uma monografia de graduação sobre homossexualidade e deixei quieta. Tirei nota dez. Mas um dia acho que vou aperfeiçoá-la pra publicar.

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