As mulheres indígenas defendem suas águas - Le Monde Diplomatique

AUTÓCTONES E AMBIENTALISTAS

As mulheres indígenas defendem suas águas

setembro 27, 2011
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Armas à mão, as mulheres indígenas do México defendem, desde 2004, seu acesso à água. Questões ecológicas e sociais se encontram: a luta contra a exploração das reservas hídricas é sobretudo um combate a favor da melhoria das condições de vida dos povos autóctones e contra as expropriações das quais são vítima

(Chiapas, México, em 2000 – Grupo de mulheres e crianças indígenas do México participam de manifestação em apoio ao Exército Zapatista de Libertação Nacional)

Já era esperado: o exército e a polícia federal tomaram posse, no dia 8 de fevereiro de 2005, da usina de saneamento situada na Villa de Allende, 130 quilômetros ao Noroeste da Cidade do México, diante de uma fileira de mulheres mazahuas impotentes, com suas armas precárias. As ameaças – “fechar as torneiras do México” – do Exército Zapatista de Mulheres Mazahuas pela Defesa da Água foram levadas a sério pelas autoridades. “Não há mais razão para se preocupar”, diz o capitão da polícia às câmeras: “A água do México está segura.”

Em setembro de 2004, entretanto, diante de outras câmeras, os policiais tinham recebido ordens de não intervir. Diante deles, trezentas mulheres mazahuas, jovens e muito velhas, portando armas tão antigas quanto a revolução zapatista de 1910, tinham ido se manifestar diante do palácio presidencial de Vicente Fox para “defender a água”. Os policiais zombavam de forma aberta: na linha de frente havia pessoas com mais de 70 anos, e, além de tudo, suas armas eram ridículas – algumas tinham sido fabricadas naquela mesma manhã com dois pedaços de pau e fita adesiva preta grossa…

No entanto, as câmeras eram numerosas naquele dia, e as indígenas foram vistas em todas as telas. A “comandante” Victoria, que comentou os acontecimentos diante de uma plateia de jornalistas, foi levada a sério: “Nós, o Exército Zapatista das Mulheres Mazahuas para a Defesa da Água, estamos prontas a morrer para conseguir um plano de desenvolvimento sustentável da água no vale do estado do México. Pedimos aos habitantes da capital que parem de desperdiçar água. A água é um bem precioso; nós, os mazahuas, em cujas terras abrigamos a preciosa bebida, pegamos as armas hoje para proteger esse bem”. Uma delegação foi recebida sem demora, a Comissão Nacional da Água (CNA) foi pressionada a tomar medidas, e o ministro do Meio Ambiente, Alberto Cardenas Jiménez, foi enviado ao local alguns dias depois. “Incrível”, murmuraram os mexicanos, “um ministro foi até os indígenas…”.

A mídia também foi encontrar as comunidades mazahuas. Estas nunca tiveram uma rede de abastecimento de água, apesar de seus rios e nascentes alimentarem 10 milhões de citadinos da capital no contexto do sistema cutzamala, um dos sistemas hidráulicos mais importantes do mundo, que inclui barragens, usinas de tratamento e quilômetros de aquedutos. Desde 1982, a água é extraída de suas terras, a 130 quilômetros da Cidade do México, e o sistema se estende para ainda mais longe, desde o estado de Michoacán, a seis horas da capital…

Em 2003 e em 2004, as terras dos mazahuas foram inundadas em decorrência de um transbordamento das barragens do sistema, mantidas de modo inadequado. Os cultivos perdidos nunca foram indenizados. Foi a “gota d’água”, aquela que dá início à luta “quando não temos mais o que comer”, dizem as mazahuas. Mas sua revolta já havia nascido antes, de tanto ver a indústria madeireira cortar as árvores, o governo extrair a água e “ninguém se perguntar se a água não precisa da árvore e como nós, o povo mazahua, poderemos sobreviver sem os dois”, afirma Guadalupe, uma das lideranças mazahuas.

Diante das câmeras, as mulheres fazem algumas demonstrações de suas competências militares, e as autoridades se prontificam em “fazer de tudo para ajudar as comunidades”. Mas, a cada reunião, as mulheres saem dos escritórios com a boca colada com fita adesiva: elas não obtêm seu “plano de desenvolvimento sustentável”.

 

Nos ombros

A estrada que em três horas liga a capital às comunidades mazahuas segue, em alguns trechos, os enormes aquedutos de concreto. No caminho, mulheres puxam jegues carregados de galões. Em fevereiro de 2005, a água não havia ainda chegado, apesar das promessas do governo. “Um jegue pode carregar até 80 litros de água”, conta Guadalupe, que caminha quatro horas para levar água até sua casa. A algumas centenas de metros o aqueduto serpenteia pelo vale: “Dezessete metros cúbicos de água por segundo partem rumo à capital”, diz Guadalupe de cor, descarregando um enorme saco de roupa que ela irá lavar no riacho, enquanto sua filha enche galões com uma mistura de água e sabão.

Uma dezena de mulheres lava e se lava nos riachos. À noite, acompanhadas dos filhos, irão até a associação de bairro para responder às questões dos jornalistas: Por que as armas? Por que o Exército Zapatista? Por que as mulheres? “Zapata1lutava pela terra e pela liberdade. Nós lutamos pela mesma coisa. Nossas riquezas naturais estão se esgotando, nossos rios estão poluídos, nossos homens foram todos para a cidade trabalhar. São as mulheres que lutam pela água, pois somos nós que a carregamos, nós a utilizamos mais do que os homens. Mas sabemos também que a água é vital para o futuro de nossos filhos, de nossa cultura sobre estas terras cada vez mais abandonadas.” Quem fala chama-se Iris e acaba de completar 19 anos. Ela veste uma roupa tradicional das mazahuas e, preso à sua saia bordada, um telefone celular toca diversas vezes. São “outras companheiras” que estão em outra reunião não muito longe dali, diz.

“Se estamos pedindo o uso racional da água, o reflorestamento de nossas terras, é também para o bem dos habitantes da capital. Sem nossas lutas, sem essa tomada de consciência, o sistema cutzamala não durará mais de dez anos. Nós estamos vendo: a cada ano há menos água. Nós temos mais consciência do problema do que um engenheiro da CNA. Não deveria ser desse jeito, mas é assim.” Victoria fala lentamente, bebendo “chá das montanhas”. A noite é fria nas terras dos mazahuas. Ao longe, percebem-se os últimos restos de neve. As mulheres mazahuas sempre disseram que lutavam pelo país todo. “O governo precisa parar de desperdiçar as riquezas naturais e desprezar-nos, nós, o povo autóctone”, diz Beatrize, a mãe de Victoria, avó de 25 netos.

Os mazahuas, como os nahuas ou os descendentes dos maias, contam frequentemente que sua vida não vale muito aos olhos das autoridades. À beira de um canal do sistema cutzamala, Manuel se aproxima dos túmulos e lê nomes em voz baixa: “Esses dois tinham 15 anos, eles estavam brincando perto do canal”. Cerca de setenta mazahuas, jovens e adultos, morreram no canal a céu aberto. Os mazahuas não sabem nadar e a correnteza é muito forte. “A cada morte, pedimos que cubram o canal, mas eles nunca nos ouvem.”

 

Mulheres, fuzis e câmeras

O subdiretor da CNA fica irritado com os jornalistas estrangeiros e as questões sobre o risco que representa o canal. “É um tema quente, não é mesmo? Mulheres e fuzis…”. No final, Jesus Campos reconhece a legitimidade da luta das mulheres: “Precisamos proteger melhor essas terras, e é verdade que essas pessoas merecem um pouco mais de atenção”. No entanto, o funcionário se recusa a falar sobre uma gestão comum da água com os mazahuas.

“O governo pensa que ainda somos analfabetos, apesar de nossos métodos de luta serem modernos”, diz Manuel, enfurecido. “Nós lançamos comunicados à imprensa, estamos organizados em rede, temos celular: por que eles se recusam a nos levar em consideração?”. Na época, as comunidades mazahuas tinham ouvido falar das reuniões internacionais sobre a água e conheciam em particular a existência do Fórum Mundial da Água, que deveria se realizar ali mesmo no México, em 2006. A questão era saber se eles teriam o direito de falar “ou se o governo tentaria esconder a luta dos indígenas do mundo todo. Mas falaremos, iremos diante das câmeras, temos experiência agora”, diz com um sorriso Santiago Pérez, advogado e defensor de movimentos sociais que ajudam os mazahuas.

Por enquanto, a arma “mídia” revelou-se a mais eficaz de todas, mesmo se foi um fuzil carregado por uma indígena que atraiu as câmeras no início. Quando perguntamos se não há uma contradição em defender a água com armas, Victoria sorri e reflete: “Sim, pois a água é vida; mas para nós, os mazahuas, a vida hoje é defendida assim. Nós temos um fuzil em uma mão e, com a outra, plantamos árvores. Cada árvore traz 2 mil litros de água suplementares. Se amanhã a cidade entender a importância de nossa luta, então, sim, teremos água no futuro”.

Uns após os outros, os jornalistas deixam as terras dos mazahuas. As mulheres anotam seu número de celular, lembrando-os, de modo gentil, da importância da água, da necessidade de “acordar o país”, e de não “desperdiçar água” na volta a seus apartamentos na Cidade do México. Elas posam uma última vez para os fotógrafos, com o olhar determinado, a arma em punho. Os militares, ao longe, observam a cena: com suas metralhadoras para guardar os aquedutos, eles não atingem os verdadeiros objetivos.



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