FEMINISMO

As sufragistas e o jiu-jítsu

Na aurora do século XX, o combate das sufragistas britânicas pela igualdade cívica coincidiu com a introdução das artes marciais japonesas na Europa. Como frequentemente a história ultrapassa a ficção, essa concomitância permitiu abalar – de fato – o Estado patriarcal

por: Daniel Paris-Clavel
8 de março de 2017

Dirigido por Sarah Gavron com um roteiro de Abi Morgan, o longa-metragem britânico As sufragistas estreou em novembro de 2015.1 Mesmo que tenha o mérito de existir e ser muito bem interpretado, pode decepcionar os apreciadores de uma utilização dinâmica do cinema a serviço de um assunto igualmente dinâmico.

Partindo da politização de uma jovem operária, o filme revisita algumas das ações marcantes realizadas no período de 1913 pelas militantes a favor do direito de voto das mulheres. Infelizmente, como a mistura dos gêneros cinematográficos parece decididamente tabu, a retenção chorosa do “drama social” ganha da real exuberância dos fatos históricos, que só poderiam existir num filme de ação.

Isso porque, para conquistar seus direitos, essas avós do Movimento pela Liberação das Mulheres (MLM) dos anos 1970 tiveram de bater nos locais certos, o que lhes permitiu não apenas conquistar em 1918 o direito de voto para 8 milhões de inglesas com mais de 30 anos (e depois, em 1928, para todas as maiores de idade), mas também redefinir a relação das mulheres com a violência política e doméstica. Isso nos faz sonhar com uma nova adaptação para o cinema, com Gina Carano e Ronda Rousey – atrizes e campeãs de Mixed Martial Arts (MMA) – como sufragistas realmente de choque…

Vamos recordar alguns fatos. Em 1903, Emmeline Pankhurst (1858-1928), cansada dos movimentos não violentos das organizações sufragistas, criou a Women’s Social and Political Union (WSPU) com duas de suas filhas, Christabel (1880-1958) e Sylvia (1882-1960). Ao cuspir em um policial, a primeira inaugurou em 1905 a série de prisões arbitrárias que visariam a família Pankhurst e as militantes da WSPU.

A Union ficou rapidamente conhecida, com Emmeline Pankhurst pregando desde 1910 a ação direta a fim de chamar a atenção, principalmente depois do “Black Friday”, uma manifestação feminista reprimida pela polícia com uma violência impressionante. Aquelas que as mídias nomeariam de “sufragistas” passaram então a atacar a sacrossanta propriedade privada, quebrando janelas, incendiando algumas chácaras ricas, devastando os terrenos de golfe e os jardins botânicos reais.

Esse vandalismo assumido, que misturava desobediência civil e sabotagem, não era nada diante da violência masculina cotidiana: exiladas até em seus lares e locais de trabalho, as militantes eram insultadas na rua; jogavam pedras nelas, quando se manifestavam, e os homens chegavam a subir nos palanques dos encontros para bater nas oradoras, debaixo dos olhares insolentes dos policiais que esperavam para ocupar seus lugares. E, quando as militantes aprisionadas seguiam a orientação de uma greve de fome sistemática para reclamar o status de prisioneiras políticas, elas eram alimentadas à força…

Preocupadas com o número cada vez maior de cidadãos (masculinos) tocados por essas torturas, as autoridades editaram em 1913 o Cat and Mouse Act: as grevistas de fome eram liberadas quando seu estado estava muito degradado e depois presas novamente uma vez que estivessem restabelecidas… Para as sufragistas, tornou-se imperativo impedir esse cruel jogo de gato e rato, que visava abertamente decapitar o movimento. Foi aí que os samurais intervieram.

O jiu-jítsu, literalmente “arte da flexibilidade”, utiliza a força do adversário contra ele mesmo, o que torna possível acabar com um oponente fisicamente mais forte. Desenvolvido pelos samurais do Japão feudal como uma técnica de combate sem armas, ele deu origem ao judô, ao aikidô e, mais recentemente, ao jiu-jítsu brasileiro. Em 1898, um certo Edward William Barton-Wright (1860-1951) introduziu a arte no Reino Unido, depois de tê-la estudado no Japão. Ele se serviu dela como base para seu próprio “bartítsu” (a partir de seu sobrenome), um ancestral do MMA moderno que combina jiu-jítsu, boxe inglês, savate e luta. Aberta em 1900 no Soho, sua escola atraiu diversos alunos – soldados, aristocratas… Ela empregava professores renomados como o francês Pierre Vigny, que ensinava savate e bastão de combate, e cuja futura esposa, Marguerite, desenvolveria alguns anos depois uma impressionante técnica de autodefesa com um guarda-chuva. Mas, sobretudo, a escola se beneficiava da preciosa presença de dois mestres japoneses, Yukio Tani (1881-1950) e Sadakazu Uyenishi (1880-?).

Depois de uma demonstração pública que os fascinou, Edith e William Garrud, um casal de professores de musculação, se inscreveram imediatamente na escola de Barton-Wright. Em 1903, quando esta fechou as portas, eles acompanharam Uyenishi, que fundou sua escola (School of Japanese Self-Defense), e ficaram com o estabelecimento quando o mestre voltou para o Japão. Edith Garrud (1872-1971) ensinava o jiu-jítsu para mulheres e crianças. Paralelamente, ela abriu no East End londrino um dojo (sala de treinamento) reservado para a instrução das sufragistas da WSPU e da Women’s Freedom League, nascida em 1907 de uma cisão da primeira.

Para uma mulher, nessa época, praticar um esporte já era um ato político. Edith Garrud era ainda por cima uma militante feminista; do alto de seu 1 metro e meio, aquilo que ela mais amava era provar a superioridade da agilidade sobre a força bruta ao longo das demonstrações que a opunham de brincadeira a um figurante fantasiado de policial. Ela promoveu a autodefesa feminina não apenas por meio de seus cursos, mas também aparecendo no primeiro filme de artes marciais inglês (Jiujitsu Dows the Footpads, 1907), criando uma peça de teatro cômica contra a violência conjugal (What Every Woman Ought to Know, “Aquilo que toda mulher deveria ousar saber”, 1911) e escrevendo artigos, principalmente para a Votes for Woman, o jornal da WSPU. Enfim, ela escalou os muros da prisão de Holloway para cantar ali em voz alta em apoio às sufragistas encarceradas.

Em 1913, diante da amplitude da repressão, simbolizada pelo Cat and Mouse Act, Sylvia Pankhurst exortou a WSPU a criar um “serviço de segurança”, encarregado de proteger as manifestantes das forças da ordem. Assim nasceu o Bodyguard, um grupo de cerca de quarenta mulheres treinadas por Edith Garrud, que instalou esconderijos de armas sob os tatames de seu dojo. Encabeçando o grupo se encontrava Gertrude “Gert” Harding (1889-1977), canadense que chegou a Londres em 1912 e ficou célebre por ter arrancado as orquídeas dos jardins botânicos reais – uma realização inicialmente atribuída a homens pelas autoridades, incapazes de conceber que uma mulher pudesse ter escalado os muros de proteção.

Dissimulando sob os vestidos tijolos, bastões de ginástica e cassetetes subtraídos dos policiais, os membros do Bodyguard protegiam as manifestações e os encontros, rivalizando em coragem e engenhosidade para contrabalançar sua inferioridade numérica. Ninguém contabilizava mais as fraturas, feridas e inchaços nas fileiras. Elas planejavam itinerários e soluções de fuga. Muitas delas se fantasiavam, por exemplo, de sósias das sufragistas procuradas pelos policiais, como Emmeline Pankhurst, para fazê-los se perder na saída de um encontro.

A imprensa, que noticiava rapidamente suas conquistas, as apelidou de “amazonas” ou “sufrajítsu”, enquanto o governo se desesperava diante dessas mulheres que ridicularizavam a autoridade ao arrancar os suspensórios dos policiais. “No que diz respeito às nossas combatentes”, escreveu Emmeline Pankhurst em uma homenagem às suas protetoras, “elas estão em plena forma e têm muito orgulho de suas conquistas […] Nossa camarada que teve a cabeça aberta recusou que lhe dessem pontos porque queria manter a cicatriz o mais visível possível. O verdadeiro espírito da guerreira!”2

Por sua vez, a polícia aprendeu de vez em quando a ser esperta. Em 1913, ela prendeu Emmeline Pankhurst, que retornava de uma viagem aos Estados Unidos, no próprio barco, a fim de evitar qualquer intervenção do Bodyguard que a esperava no porto. Mas, na maior parte do tempo, os bobbies se contentavam em atacar, com o cassetete em punho, contando com seu número e sua brutalidade. Como durante a “batalha de Glasgow”, em 1914: em um encontro da WSPU na Escócia, Emmeline Pankhurst enganou a vigilância policial se fazendo passar por uma simples espectadora; mas, quando se dirigiu ao palanque, cinquenta policiais se lançaram sobre ela, defendida por trinta membros do Bodyguard, sob os olhares chocados de 4 mil espectadores. A violência e a arbitrariedade da prisão, mesmo em um encontro autorizado, fizeram muitos indecisos se unirem à causa sufragista.

Depois da entrada do Reino Unido na guerra contra a Alemanha, Emmeline Pankhurst escolheu interromper as ações da WSPU, dissolver o Bodyguard e chamar as inglesas a apoiar o esforço de guerra nacional. A decisão, que visava destacar o papel das mulheres como cidadãs, para assentar a legitimidade de suas reivindicações cívicas, traria seus frutos em 1918, mas provocou o desentendimento definitivo entre Sylvia Pankhurst – que se uniu às comunistas que se opunham à guerra – e a mãe. Cada vez mais assustada pela perspectiva de uma revolução comunista, esta última acabaria se unindo ao Partido Conservador. Edith Garrud, por sua vez, continuaria até 1925 a dar aulas de jiu-jítsu com o marido, fortalecida pelo status de primeira mulher ocidental instrutora de artes marciais.

Do outro lado do Canal da Mancha, as “jiujitsufragistas” intrépidas marcaram alguns espíritos, entre os quais o de Madeleine Pelletier (1874-1939), primeira mulher psiquiatra e militante socialista libertária. Depois de ter ido em 1908 a uma manifestação de sufragistas londrinas, Pelletier defendeu em seu jornal, o La Suffragiste, o ativismo contundente de suas irmãs: “É claro que quebrar uma janela não é um argumento; mas, se a opinião, surda aos argumentos, só é sensível às janelas quebradas, o que fazer? Quebrá-las, evidentemente”.

Esse espírito foi encarnado de maneira notável, em um contexto completamente diferente, pela poeta Qiu Jin (1875-1907), a “primeira feminista chinesa”, que militou principalmente contra a tradição dos pés enfaixados. Ela aprendeu as artes marciais chinesas e japonesas para preparar a insurreição contra a dinastia Manchu. Ensinando musculação nas escolas de meninas, as quais acabou orientando para o manejo de armas, ela provocou escândalo ao exortar suas alunas a aprender uma profissão. Foi decapitada por tentativa de golpe de Estado em 1907.3

Porque sabiam que os oprimidos são sempre os primeiros a pagar quando algo dá errado, essas pioneiras da autodefesa social e feminista ousaram redefinir a feminilidade em função de suas necessidades reais. Por meio da prática do jiu-jítsu, as sufragistas anteciparam a advertência dada pela socióloga e formadora austríaca Irene Zeilinger em seu Pequeno manual de autodefesa para uso de todas as mulheres que estão cansadas de ser assediadas sem dizer nada: “O agressor decide que haverá violência; a nós cabe decidir contra quem essa violência será dirigida”.4

*Daniel Paris-Clavel é criador e animador da revista ChériBibi, consagrada às culturas populares (www.cheribibi.net).


1 Em cartaz no Brasil desde 24 de dezembro de 2015.

2 Citado em Tony Wolf, Edith Garrud: The Suffragette Who Knew Jujutsu [Edith Garrud: a sufragista que sabia jiu-jitsu], Lulu.com, 2009. Cf. também o romance gráfico Suffrajitsu: Mrs. Pankhurst’s Amazons [Sufrajítsu: amazonas da sra. Pankhurst], de Tony Wolf e João Vieira, Jet City Comics, Tacoma (Washington), 2015.

3 Cf. Suzanne Bernard, Qiu Jin. Féministe, poète et révolutionnaire [Qiu Jin. Feminista, poeta e revolucionária], Le Temps des Cerises, Montreuil, 2006.

4 Irene Zeilinger, Non c’est non [Não é não], Paris, 2008.

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