O FOGO DA AÇÃO

Ataques-relâmpago, paz impossível no Afeganistão e no Iraque

Ataques “inteligentes” contra o terrorismo “sem fronteiras”, mísseis contra bombas humanas, tanques de assalto contra carros-bomba, política do poder contra estratégia de desgaste: a paz, tanto no Iraque como no Afeganistão, não se ganha no campo de batalha...
por: Silvio Caccia Bava
13 de janeiro de 2012

Assentadas numa superioridade tecnológica absoluta, as diferentes escolas de pensamento militar norte-americanas criaram conceitos político-militares extremamente midiatizados, como os de “ataque inteligente” ou “morte zero”. Os próprios meios intelectuais, dilacerados pelo drama iugoslavo, o trauma do 11 de Setembro de 2001 ou pelo propósito de derrubar a ditadura iraquiana, reformularam sua relação com a violência internacional. A guerra foi relegitimada por meio de noções diplomático-militares recentes, como o “direito de ingerência humanitária”, com as operações militares humanitárias na Somália ou em Ruanda.

Sobretudo porque agora os conflitos são muitas vezes de curta duração (cinco semanas de bombardeio e cem horas para libertar o Kuwait em 1991; seis semanas para conquistar o Iraque em 2003), evitando desgastar o apoio da opinião pública. O caso da Bósnia foi o exemplo do que não fazer com tropas terrestres insuficientemente armadas em posição de intervenção, e a eclosão dos conflitos seguintes foi com frequência justificada pela rapidez do resultado obtido.

A escola doutrinal norte-americana da “revolução dos assuntos militares” (RMA) foi um dos fundamentos da nova postura por parte desse país.1 Ela passou a constituir a forma mais elaborada da guerra convencional, sendo copiada por todos os exércitos ocidentais. E os armamentos empregados são verdadeiros desafios industriais e tecnológicos. Do lado oposto, a outra escola, que poderíamos chamar de escola dos “equalizadores de poder” (terrorismo e proliferação de armas de destruição em massa, às vezes associados), nasceu das crises recentes, e é impossível não notar o completo paralelismo de conceitos e práticas entre elas.

Assim, a cada operação se reafirma a ideia de “ataque inteligente”, ligada à capacidade de atingir o alvo, e somente ele, graças a armas de alta precisão – mas junto com a noção de “danos colaterais”, como que para desculpar-se pelo fato de o conceito não ser tão eficiente quanto seu título poderia sugerir.2 Na outra escola de pensamento, o pressuposto de precisão cirúrgica choca-se com o atentado em massa cego, indiferente à natureza dos alvos escolhidos (petroleiros, edifícios, grandes hotéis internacionais, boates, metrô, bases militares) e à qualidade das vítimas (turistas australianos, engenheiros franceses, vítimas muçulmanas, populações indígenas). Os atentados contra o World Trade Center marcaram o primeiro ato terrorista da globalização, pois visavam edifícios de escritórios e afetaram cerca de cem nacionalidades de uma só vez.

A “morte zero” (conceito oriundo dos militares ocidentais) origina-se do sentimento de superioridade tecnológica unilateral, contribuindo largamente para a divulgação da ideia da guerra como uma ação internacional “tolerável”, na qual seria possível envolver soldados com segurança, após o fracasso sangrento de Mogadíscio (1993). Do outro lado está o ataque suicida,3 negação a priorida ideia de “morte zero”, já que se baseia no sacrifício do combatente.

O processo de seleção e preparação do camicase é perfeitamente pensado − a escolha recai sobre uma pessoa que não tem o perfil habitual do combatente: mulher jovem, diplomada, bem integrada, sem passado político… A preparação psicológica é lenta e eficiente, sempre em isolamento da família – caso da Al-Qaeda, do Hamas e dos Tigres Tâmeis (LTTE, na sigla em inglês). O sacrifício ganha o caráter de honra e proporciona uma renda para a família, como ocorre com os homens-bomba palestinos, chechenos e tâmeis. O método foi inventado no Irã e no Oriente Médio, mas aperfeiçoado no Sri Lanka pelo LTTE.

Graças a uma capacidade de alcance inimaginável, a projeção de forças ou de poder das Forças Armadas norte-americanas permitiu ganhar a guerra no Iraque ou no Afeganistão com aviões decolando às vezes do próprio território norte-
-americano. Do outro lado, os atentados de 11 de setembro de 2001 ou a tomada de reféns no teatro de Moscou em outubro de 2002 mostraram que o ataque ao santuário nacional continua sendo o ponto fraco dos grandes sistemas de segurança,4 por excesso de confiança e falta de articulação entre segurança interna e externa.

A transparência do campo de batalha permitida pelos meios tecnológicos modernos (drones, meios de observação por satélite…) é uma superioridade indiscutível dos exércitos ocidentais – desde que haja pelo menos um campo de batalha ou um frontidentificável. Se a guerra se torna uma guerrilha urbana como a do Iraque, ou escaramuças como as do Afeganistão, o domínio do campo de batalha revela-se menos eficiente em “área urbana não pacificada”. A série de atentados atribuídos à Al-Qaeda atingiu alvos tão dispersos como Paquistão, Quênia, Tunísia, Iêmen, Bali, Kuwait, Arábia Saudita e Marrocos. Os métodos empregados (ataque a petroleiros, atentados contra grandes hotéis turísticos) e a indiferença para com os alvos humanos (franceses, australianos, norte-americanos, israelenses, quenianos, marroquinos…) vêm infelizmente mostrar que o campo de batalha não é mais o lugar geográfico de encontro de duas forças armadas e que o frontestendeu-se por todo o planeta.

O desvio de recursos civis para fins terroristas é uma resposta à supremacia militar ocidental. Nenhum dos indicadores que habitualmente alertam os serviços de segurança antiterroristas, como a transferência de armas e explosivos ou o deslocamento de indivíduos fichados, poderia funcionar na prevenção do ataque contra o World Trade Center. Mesmo nas áreas mais sensíveis da investigação militar, os C4I, que trabalham com meios de comando e controle das telecomunicações e redes de informação, as redes terroristas souberam utilizar em seu benefício o desenvolvimento da internet para tornar seguras suas próprias comunicações, fazendo passar suas chamadas telefônicas por centrais inglesas ou iemenitas.5

Os enormes investimentos em pesquisa militar criam materiais bélicos extremamente caros. Nenhum regime político de perturbação pode querer competir em campo com os exércitos convencionais ocidentais, pois – sem falar no preço – teria de buscar equipamentos militares de fornecedores que se tornaram quase todos aliados dos norte-americanos. A única rivalidade militar possível está então nos “equalizadores de poder” – proliferação de armas de destruição em massa ou terrorismo, que, reduzindo custos, apagam o desequilíbrio militar. Basta lembrar que a seita Aum, responsável pelo ataque com gás sarin no metrô de Tóquio, em 20 de março de 1995, conseguiu, sem ajuda externa, desenvolver armas químicas e realizar pesquisas bacteriológicas. O custo da organização dos atentados de 11 de setembro é estimado em US$ 100 mil, causando danos diretos de cerca de US$ 40 bilhões e indiretos entre US$ 100 bilhões e US$ 200 bilhões.

Finalmente, do ponto de vista sociológico, ao militar profissional uniformizado e regularmente pago por um Estado sobre o qual se assenta a segurança externa das grandes democracias, opõe-se agora, no melhor dos casos, o miliciano subordinado a um chefe de guerra local e, no pior, o militante fanático organizado em rede, conectado pela internet, estabelecido em cidades do mundo desenvolvido ou do terceiro mundo.6 Os famosos “afegãos”, veteranos da guerra antissoviética no Afeganistão, são estimados em dezenas de milhares, desempenhando um papel importante, por exemplo, na Argélia ou Arábia Saudita. Mas não é só do terrorismo islâmico que eles nascem: o primeiro atentado em massa dos Estados Unidos (Oklahoma City, 1995) foi obra de militantes de extrema direita, e o primeiro ataque químico-terrorista da história foi organizado por uma seita.

As redes terroristas islâmicas estão se tornando intocáveis nas “áreas cinza” salpicadas pelo planeta. A lista é extensa: Afeganistão, Somália, área tribal do Paquistão, e talvez o Iraque amanhã, com atentados quase diários em 2011, ou ainda as metrópoles das grandes capitais.7 De maneira mais geral, os exércitos profissionais ocidentais enfrentarão cada vez mais grupos armados não estatais: em primeiro lugar os terroristas, mas também milícias ou neomercenários, como na Costa do Marfim, grupos descontrolados ou exércitos de senhores da guerra, como no Afeganistão, Somália e República Democrática do Congo.8

Daí decorrem algumas grandes regras, que estruturam a segurança internacional.

 

1. Guerra como substituta da política

Constata-se uma verdadeira valorização da guerra na reflexão dos neoconservadores norte-americanos, com a noção de “guerra preventiva”9 ou a hipótese de uso de armas nucleares de baixa potência. A guerra contra o Iraque revelou-se um conflito convencional contra um Estado hipoteticamente proliferador, e não contra um grupo terrorista. E há o desaparecimento da fronteira nítida entre guerra e paz, já que as guerras convencionais ganhas podem suscitar novas ameaças terroristas.

 

2. Difícil pós-guerra

O resultado mais tangível das guerras recentes (Afeganistão, Kosovo, Iraque; o pós-guerra na Líbia permanece incerto) é, no melhor dos casos, a mudança de regime, não o restabelecimento da paz. O pós-guerra tornou-se mais complicado do que a guerra em termos de solução política, custo de reconstrução, restabelecimento da paz civil, integração regional. Prova disso é o retorno dos senhores da guerra na Somália ou no Afeganistão.

A destruição do Estado em vigor, muitas vezes já em crise, desnuda a fragmentação das sociedades locais, que a ditadura mascarava, como o peso dos xiitas no Iraque ou dos pachtuns no Afeganistão. Os aliados são mais úteis para essa fase delicada do que para a guerra em si. É o que diz a frase que se tornou famosa por meio de um jornalista norte-americano: “US fights, UN feeds, EU funds” (“Os Estados Unidos lutam, as Nações Unidas alimentam, a União Europeia paga”). Após as operações militares no Iraque, a ONU foi chamada pelo então presidente George W. Bush para o salvamento.

 

3. Partilha do custo exorbitante da segurança

A dimensão econômica da segurança explodiu depois de 11 de setembro de 2001, e as autoridades devem agora considerar o novo parâmetro terrorista na metrópole. O preço dessa prevenção é difícil de definir, mas foi avaliado por Michael O’Hanlon, da Universidade Princeton (num relatório intitulado “Protegendo a pátria América”), em 0,5% do PIB, um sétimo do orçamento de defesa em nível federal e mais outro tanto dos recursos das autoridades locais. Bart Hobijn, do Federal Reserve, estima em 0,8% a baixa de produtividade associada à proteção antiterrorista. Uma das questões essenciais, portanto, é saber como dividir o fardo.

Desse modo, podemos compreender todas as disposições tomadas, em 26 de outubro de 2001, com a aprovação do USA Patriot Act (“Lei Patriota”),10 que organiza a defesa norte-americana contra novas ameaças sob o ângulo quase exclusivo da luta antiterrorista. Um de seus aspectos essenciais consiste em proteger o sistema financeiro norte-americano, obrigando os bancos nacionais a identificar seus correspondentes e as operações que transitam por eles.

Por trás da aparência técnica e anódina dessa medida, os Estados Unidos dotaram-se de um enorme poder de controle sobre as finanças mundiais. Como grande parte das transações mundiais é formulada em dólares ou efetuada por bancos norte-americanos, e a nova regulamentação impõe seus termos a estabelecimentos norte-americanos e correspondentes, esse simples mecanismo de identificação e segurança confere às autoridades de Washington meios de controlar a maior parte do sistema. Uma instituição financeira europeia correspondente de um banco norte-americano deve fornecer todos os meios de identificação que dizem respeito não apenas a ela, mas também às operações que realiza com outros bancos a montante na cadeia de operações. As autoridades de controle dos Estados Unidos são as únicas com meios para explorar dados coletados pelos outros. As informações recolhidas não são compartilhadas, pois se destinam apenas à proteção dos interesses norte-americanos.

No campo da segurança física do território, a estratégia é a mesma. Para precaver-se contra ataques terroristas clássicos, nucleares, balísticos ou químicos relacionados ao tráfego de contêineres, os norte-americanos estabeleceram unilateralmente uma lista de vinte portos habilitados em todo o mundo, sob a condição de que apliquem as normas fixadas e sejam controlados localmente pelas aduanas norte-americanas. A França, que não tinha nenhum porto na lista inicial, lutou para incluir Le Havre (que realiza cerca de 85% das exportações de contêineres franceses para os Estados Unidos), aceitando as regras. Se as autoridades francesas recusassem as condições impostas, seu porto provavelmente teria sofrido uma grande crise econômica. Um dispositivo semelhante aplica-se ao controle de milhões de visitantes que chegam aos Estados Unidos, os quais devem ter um passaporte à prova de falsificação ou prestar-se a ser fichado (com arquivamento de fotografia e impressões digitais).

O pensamento estratégico norte-americano utiliza cada vez mais a noção de smart borders(“fronteiras inteligentes”), que diferencia a fronteira geográfica da fronteira de segurança. Todos os setores estratégicos são ou serão protegidos por mecanismos idênticos de externalização das normas norte-americanas. A novidade, que caracteriza a segunda globalização e a distingue da primeira, consiste em estender a intervenção direta nos sistemas econômicos e financeiros, os quais haviam sido cuidadosamente preservados.

 

4. Da guerra local à crise global

Um conflito local pode agora causar uma grande crise financeira, e a estratégia requer uma visão global. A principal preocupação de Washington durante a crise do Iraque foi evitar a explosão simultânea de tensões em um dos três reguladores da economia mundial: mercados financeiros, de informação e matérias-primas estratégicas (incluindo petróleo).

Ocupada com a guerra no Iraque, a Casa Branca pôs de lado sua ofensiva contra Hugo Chávez na Venezuela e contra a família real saudita, além de confiar a crise norte-coreana à ONU, cuja legitimidade, no entanto, ela contesta. Durante o conflito, o risco de pânico dos mercados financeiros foi real, em razão do custo total já exorbitante da crise: US$ 500 bilhões de capitais árabes haviam fugido da América desde o 11 de Setembro, o déficit público previsto atingia pelo menos US$ 350 bilhões, e a incerteza sobre a rapidez do sucesso da estratégia militar escolhida condicionou o custo estimado da guerra (na época) em US$ 200 bilhões…

Até então, as crises continuavam sendo setoriais ou regionais (crise do petróleo, crise financeira, crise militar…); agora, elas têm fortes chances de se tornar globais. Se os europeus têm uma visão regional dos desafios, os norte-americanos têm uma estratégia global.11

Devemos nos habituar à ideia de que um mundo de unipolaridade militar e diplomática é estruturalmente um mundo de terrorismo e proliferação, os quais, por sua natureza, perturbam as regras estratégicas. A permanência dos atentados em Israel demonstra isso, numa escala menor, todos os dias. Este é o paradoxo da estratégia norte-americana: a vitória militar é certa, mas torna a paz impossível.

 

BOX:

AFEGANISTÃO 2001, “OPERAÇÃO LIBERDADE DURADOURA”

Países envolvidos
A primeira fase dos combates – essencialmente aéreos – foi liderada por Estados Unidos e Reino Unido, a partir de 7 de outubro de 2001, em apoio à Aliança do Norte, forças afegãs contrárias ao Talibã. Os outros países da coalizão (48 no total) uniram-se a eles em novembro.

Principais contingentes militares
Em outubro e novembro de 2001 − Estados Unidos: muitos milhares de soldados e membros das forças especiais; Reino Unido: cerca de 200 comandos; Alemanha: 4.000 militares; Itália: 2.700; França: 2.000; Canadá: 2.000; Austrália 1.500 etc.
Em outubro de 2011 − Estados Unidos: 90 mil soldados; Reino Unido: 9.500; Alemanha: 4.920; França: 3.800; Itália: 3.770; Canadá: 2.905; Polônia: 2.490; Turquia: 1.825 etc. No total, quase 130 mil militares, além de muitas dezenas de milhares de mercenários e agentes de segurança privados.

Direito internacional
A Resolução n. 1.368 (12 de setembro de 2001) do Conselho de Segurança, adotada após os atentados de 11 de setembro, dá carta branca para os Estados Unidos intervirem em nome do “direito inerente à legítima defesa”.

Datas-chave
• 2001. 7 de outubro. Início da operação. Os talibãs são expulsos de Cabul no dia 13 de novembro.
5 de dezembro. Facções afegãs concluem, em Bonn, sob a égide das Nações Unidas, um acordo sobre a criação de uma autoridade de transição.
20 de dezembro. A ONU autoriza a introdução de uma Força Internacional de Assistência à Segurança. Ela passaria ao comando da Otan em 2003.
22 de dezembro. Hamid Karzai, ex-colaborador da CIA, é nomeado presidente interino. Ele é eleito em 2004 e reeleito em 2009.
• 2009. 3 de novembro. Os insurgentes rejeitam a oferta de reconciliação feita por Karzai enquanto as forças estrangeiras estiverem presentes.
1º de dezembro. Barack Obama decide enviar 30 mil soldados adicionais (depois de ter enviado 17 mil no início do ano).
2010. 19 de novembro. A Otan anuncia a retirada das tropas da coalizão até 2014.
2011. 2 de maio. Osama bin Laden é morto no Paquistão por um comando norte-americano.

Custo humano e material
Custo humano: mais de 10 mil civis afegãos perderam a vida durante operações militares aliadas ou ataques insurgentes; entre 20 mil e 30 mil combatentes do Talibã foram mortos no Afeganistão e muitos milhares no Paquistão, onde centenas de civis também morreram durante bombardeios norte-americanos nas áreas de fronteira; 2.753 membros das forças de coalizão pereceram, incluindo 1.801 norte-americanos, 382 britânicos e 75 franceses (números de outubro de 2011).
Custo material: destruição de grande parte da infraestrutura: estradas, pontes, aeroportos, hospitais, edifícios governamentais etc. Um plano de reconstrução de US$ 50 bilhões foi colocado em prática, sendo apenas uma parte realmente paga.

Custo financeiro da guerra
O custo total para os Estados Unidos desde 2001 chega a mais de US$ 460 bilhões. A conta anual da presença francesa é estimada em 450 milhões de euros.

Movimentos migratórios
Em 2011, havia cerca de 3 milhões de refugiados afegãos – principalmente no Paquistão (1,8 milhão) e no Irã (1 milhão)



UMA DIPLOMATA NORTE-AMERICANA E O IRAQUE



“Eu estava exasperada, tinha de perder a cabeça”



Pouco esforço foi feito para explicar do que Saddam Hussein era culpado, sua maneira de desviar os recursos do Iraque, ou ainda o fato de que não havíamos embargado medicamentos e alimentos. Eu estava exasperada com o que nossa televisão mostrava, que parecia propaganda pura e simples de Bagdá. Eu tinha de perder a cabeça; tinha de responder à questão, reformulando-a e mostrando que ela se baseava em premissas falsas. Saddam Hussein poderia ter evitado o sofrimento de qualquer criança se tivesse respeitado as obrigações que lhe cabiam.

Mas, em vez disso, fiz a seguinte declaração: “Penso que esta é uma escolha difícil, mas o jogo vale o esforço”.

Mal pronunciei tais palavras e já queria poder parar o tempo e apagá-las. Foi um grave erro responder desse modo. Foi irrefletido, desajeitado. Foi um erro. Nada é mais precioso do que a vida de pessoas inocentes. Eu caí numa armadilha e disse algo que não penso de fato. Não é culpa de ninguém além de mim.



Madeleine Albright,  Madam Secretary. A Memoir [Senhora secretária: memórias], HarperCollins, Nova York, 2006, ao falar sobre uma entrevista dada ao programa 60 minutes (CBS News).



 



1  Lawrence Muraviec, La guerre au XXIe siècle [A guerra no século XXI], Odile Jacob, Paris, 2001; ler também o excelente compêndio: Barthélémy Courmont e Darko Ribnikar, Les guerres asymétriques [As guerras assimétricas], Presses Universitaires de France, Paris, 2002.

2  Se a guerra norte-americana no Iraque mostrou os incontestáveis progressos alcançados na área, o método israelense está longe de ser tão respeitoso em relação aos “danos colaterais”. A Segunda Intifada teria feito mais de 3.600 mortos, de três a quatro vezes mais numerosos do lado palestino que do lado israelense, revelando que a repressão ao terrorismo faz mais vítimas que os próprios atentados.

3  Barbara Victor, Shahidas: les femmes kamikazes de Palestine [Shahidas: as mulheres camicases da Palestina], Flammarion, Paris, 2002; Laetitia Bucaille, Génération Intifada [Geração Intifada], Hachette, Paris, 2002; Laurence Haim, Bombes humaines [Bombas humanas], La Martinière, Paris, 2003.

4  Barthélémy Courmont, Terrorisme et contreterrorisme: l’incompréhension fatale [Terrorismo e contraterrorismo: a incompreensão fatal], Le Cherche Midi, Paris, 2003.

5  Rohan Gunaratna, Al-Qaida: au coeur du premier réseau terroriste mondial [Al-Qaeda: no coração da primeira rede terrorista global], Autrement, Paris, 2002.

6  Olivier Roy, L’islam mondialisé [O islã globalizado], Seuil, Paris, 2003.

7  Dominique Thomas, Le Londonistan: la voie du Djihad [O Londristão: a caminho da Jihad], Michalon, Paris, 2003.

8  Ler “La sécurité internationale sans les États” [A segurança internacional sem os Estados], Revue Internationale et Stratégique, Presses Universitaires de France, Paris, 2003.

9  Ler artigo de Paul-Marie de La Gorce, p.XX.

10  “USA Patriot” é a sigla para “Uniting and Strengthening America by Providing Appropriate Tools Required to Intercept and Obstruct Terrorism” [Unir e fortalecer a América, fornecendo ferramentas adequadas para interceptar e obstruir o terrorismo].

11  Entrevista do autor com Patrick Lagadec e Xavier Guilhou, autores de La fin du risque zéro [O fim do risco zero], Eyrolles, Paris, 2002.

 


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