CARNE FRACA - EUROPA

Carne brasileira sob a lupa dos portos europeus

Em entrevista, o porta-voz da Agência Federal pela Segurança da Cadeia Alimentar (Afsca) da Bélgica, Philippe Houdart, afirma que houve reforço no controle da União Europeia sobre as importações de carne brasileira e até toparia comer um churrasco com carne do Brasil em Bruxelas, sede das instituições europeias.

por: Viviane Vaz
29 de março de 2017
Crédito da Imagem: Frame do documentário "Carne osso"

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Desde a deflagração da Operação Carne Fraca no Brasil, o assunto da carne brasileira vem à mesa nos bons restaurantes e lares europeus, dividindo os comedores de carne. Há quem diga que não ingere mais carne do Brasil de “jeito nenhum” –remetendo sem saber e às avessas a um comercial dos anos 80 da empresa Sadia (do grupo BRF, envolvido no escândalo da carne). E há quem ainda aceite um bom churrasco com carne proveniente do Brasil, porque confia na vigilância sanitária praticada pelos países da União Europeia. Deste grupo faz parte o porta-voz da Agência Federal pela Segurança da Cadeia Alimentar (Afsca) da Bélgica, Philippe Houdart.  Na entrevista a seguir, Houdart afirma que houve reforço no controle da UE sobre as importações de carne brasileira e até toparia comer um churrasco com carne do Brasil em Bruxelas, sede das instituições europeias.

É verdade que o porto de Antuérpia é a principal entrada de carne importada para o mercado da UE?

Os portos belgas estão efetivamente envolvidos na importação de carne do Brasil. Diferentes empresas brasileiras utilizam tanto os portos de Antuérpia como de Zeebrugge para a entrada de seus produtos destinados ao mercado da UE. Com base nos dados de 2016 fornecidos para toda a Europa através do Eurostat e nos dados que temos sobre as transferências nos nossos portos, estimamos que cerca de 22% da carne bovina e 6% da carne de aves entram no mercado europeu através dos portos belgas. Não acho que isso faça dos portos belgas a principal entrada para a carne brasileira, mas somos uma das entradas importantes, especialmente para a carne bovina.

Como são os procedimentos quando as importações de carne chegam ao porto? Passam por uma nova inspeção?

Cada embarque é realmente controlado novamente na entrada na Europa. Esse controle consiste na totalidade de 100% das remessas numa verificação dos documentos (conformidade dos documentos e rotulagem e concordância entre a remessa e os documentos). Além disso, para 34% dos lotes a embalagem é aberta e o que chamamos de controle físico é realizado. O conteúdo é verificado, entre outros, quanto à temperatura, à consistência, aos critérios organolépticos. Por último, quando relevante ou prescrito pelas regras da UE, são colhidas amostras para diferentes parâmetros (microbiologia, resíduos de medicamentos ou contaminação química…). Isso acontece em cerca de 10% dos desembarques. Esses números, de 34% e 10%, podem ser um pouco diferentes em outros Estados-Membros, dependendo do tipo de carne e da origem das remessas, mas todos em todos os números são semelhantes nos outros portos de entrada da UE, são prescritos pela UE.

No Brasil, as autoridades encontraram adulteração principalmente em alimentos de carne processada, como em embutidos. Que tipo de importação de carne chegou ao porto de Antuérpia? (Refrigerada, congelada, salgada, processada?)

Tanto quanto eu sei, apenas carne congelada e refrigerada passaram por Antuérpia e Zeebrugge.

De acordo com as investigações da Polícia Federal Brasileira, 21 empresas apresentaram irregularidades e adulterações na carne vendida ao mercado interno. Destas, quatro empresas têm licença para exportar carne para a União Européia, como JBS, BFR e Peccin. A Afsca recebeu instruções para bloquear as importações dessas empresas? Como estão as atividades no porto de Antuérpia agora?

A Comissão Europeia solicitou aos Estados-Membros que recusassem, até novo aviso, as remessas provenientes dos quatro locais de produção brasileiros que podem exportar para a UE e que são mencionados no escândalo. Além disso, os controles de toda a carne brasileira foram reforçados pelo aumento do número de verificações e análises físicas.

 

É possível que belgas (e outros europeus) tenham comprado carne brasileira com irregularidades?

Não podemos excluir com certeza que tal carne tenha chegado à Europa. No entanto, os controles adicionais à entrada na UE oferecem garantias adicionais de que esta carne não entrou efetivamente no mercado. Não tenho dados precisos sobre quantas remessas foram rejeitadas nesses controles, mas posso garantir que essas rejeições acontecem com freqüência, entre outras razões por hiato nos documentos, resíduos ou outras não-conformidades, provando que esses controles são eficientes.

 

Se um amigo o convidasse hoje para ir a uma churrascaria em Bruxelas ou em Antuérpia com churrasco de carne brasileira, o senhor aceitaria?

Sem problemas. Eu tenho fé em nosso sistema de controle de segurança alimentar.

*Viviane Vaz é jornalista e escreve de Bruxelas


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