Sobre o direito à alimentação de verdade - Le Monde Diplomatique

ALTERNATIVAS À RAÇÃO HUMANA

Carta aberta a um desempregado sobre o direito à alimentação de verdade

por Carlos Alberto Dória e Mariana Marcon
dezembro 5, 2017
por Divulgação
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Não é pouca coisa, não é? E é fruto de um trabalho sério, desses raros que reúnem técnicos capacitados, discutindo com a população, e que por isso tem legitimidade incontestável.

Conseguimos! Mas conseguimos o quê? Uma vitoriazinha miúda, mas suficiente para lavar a alma quando se vive esse mal-estar que é o peso da história atual do país. Foi como se fosse possível, de repente, bordar uma flor num tecido esgarçado.

As linhas desse bordado se entrecruzaram durante dias, até ele aparecer, inteiro, ao meio-dia do dia 16 de novembro, diante do Theatro Municipal de São Paulo, sob o nome de Banquetaço.

Um senhor desempregado, ao receber seu prato das mãos de um chef de cozinha, perguntou: “Vem cá… de onde vocês vieram?”. Depois, sumiu na multidão, mas merecia uma resposta. Como damos a seguir.

Viemos de todo lado, de entidades ligadas à segurança alimentar e nutricional; da agricultura familiar agroecológica e orgânica; dos consumidores; da área de saúde pública e das redes que preconizam o conjunto de programas e ações contidas no 1º Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (2016/2020).

Juntos, cozinheiros e cozinheiras agitaram, mergulharam de cabeça, abriram suas cozinhas… Deixaram seus negócios de lado por um tempo, assinaram um manifesto de apoio e foram pessoalmente cozinhar. Em seu manifesto conclamavam “toda a população, em especial aqueles trabalhadores da cadeia alimentar, a cerrar fileiras em torno da alimentação popular saudável, natural, orgânica e socialmente justa, como o único caminho de conquista do bem comum”.

Juntos, viemos para exigir o cumprimento desse plano que contempla as políticas, os programas e os equipamentos envolvidos, como o Programa Operação Trabalho (POT), para estimular pessoas como o senhor a retornar ao mercado de trabalho; para defender a aquisição progressiva de alimentos orgânicos na merenda escolar e a ampliação do acesso da população a alimentos in natura e fomentar o consumo por meio da realização de feiras orgânicas; para recuperar a função social dos sacolões municipais; para reativar as escolas-estufa, entre várias outras propostas, além do fortalecimento da participação da cidade de São Paulo no Pacto de Milão – acordo firmado em 2015 por 159 cidades de todas as partes do mundo em torno da agenda da soberania e da segurança alimentar e nutricional.

Não é pouca coisa, não é? E é fruto de um trabalho sério, desses raros que reúnem técnicos capacitados, discutindo com a população, e que por isso tem legitimidade incontestável.

Mas não é que, sob a nova administração da prefeitura, ele havia sido deixado de lado? Sim, deixou-se de lado o 1º Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (2016/2020), em troca de uma “inovação” chamada farinata, um composto alimentar ultraprocessado feito com alimentos descartados pela indústria e pelo comércio da cidade, a ser oferecido à população em situação de risco e nas escolas públicas da cidade. Claro que todos acharam um absurdo, e surgiu a ideia de mostrar a indignação em público.

Foram apenas vinte dias de organização, pois foi chegando gente com garra de todo lado, ajudando a encurtar o tempo. Alguém deu a ideia de montar grupos finalísticos no WhatsApp – os cozinheiros, os coletores de doações de alimentos, a turma da logística, os jornalistas, e assim por diante. E não é que funcionou? No dia 16, na hora marcada, estava tudo lá.

Foram servidas 2 mil refeições, como a que o senhor comeu, preparadas por chefs de cozinha, com verduras e legumes orgânicos, e até as famosas Pancs (plantas alimentícias não convencionais). Certo, era pouca coisa diante do fato de a Prefeitura fornecer diariamente à rede municipal de ensino 2,2 milhões de refeições. Mas era só para mostrar que era possível fazer comida com cara de comida, gosto de comida, e não de ração humana.

O prefeito, que todo mundo sabe que é esperto, estava do outro lado do Viaduto do Chá, a 500 metros do Banquetaço. Chamou a imprensa para a mesma hora e disse: “Decretamos que não utilizaremos a farinata não pelo aspecto intrínseco, mas pela polêmica em torno dela”.

Ficou provado, então, que fazer barulho, exigir, estar junto com a população é um bom negócio. Há quem chame isso de aprendizado político. E aprendemos muito nesses dias. E o prefeito, acreditamos, também; tanto é que, na mesma entrevista, ele anunciou a inclusão de alimentos naturais e orgânicos na merenda escolar por meio de um programa denominado Alimento Saudável, retomando o discurso que havia sido elaborado e começava a ser colocado em prática na gestão anterior. Pelo menos estava dizendo que corrigirá o malfeito, mas, como aprendemos a cobrar e exigir, vamos ficar de olho…

Por menor que tenha sido essa vitória – afinal, o Brasil todo precisa ser reinventado –, o que se jogou ali diante do Municipal foi um autêntico jogo de braço em torno da concepção do futuro alimentar que se quer construir para as cidades e para a formação sadia das crianças. Um problema que é de todo o país, e é possível que por isso os “banquetaços” pipoquem em muitos outros lugares. Isso porque há metodologia disponível: o Slow Food desenvolveu uma, chamada Disco Xepa, que, com um verdadeiro exército de voluntários, ataca em feiras e mercados, recolhendo alimentos desperdiçados normalmente dentro de uma cadeia alimentar que, sabe-se, perde cerca de 64% do que foi produzido no campo.

Parte do pessoal que estava no Banquetaço era de gente estudiosa e dedicada, disposta a dizer aos quatro ventos que a nutrição não se estanca no nível biológico, deve visar à inclusão social e se materializa no comer “comida com cara de comida” como a sociedade faz em todos os segmentos, e que comer bem constitui um direito humano inalienável, além de ser um estímulo para a cadeia de produção que tem, na ponta da agricultura, a produção familiar. Essas pessoas que dão duro na roça, de sol a sol, são responsáveis, no Brasil, por cerca de 70% da comida que chega à mesa.

A turma que lida com alimentação é tão importante quanto aquela que lida com saúde e educação. Sem esse tripé não existe a possibilidade de construir uma democracia que tenha por eixo o bem público nem recosturar o tecido esgarçado no qual não se pode bordar um futuro de bem-estar. Nesse futuro, a relação do campo e da cidade deverá ser outra. Não serão os chefs de cozinha os únicos a levar os méritos pela qualidade da comida: o dedo do agricultor estará visível em tudo, convergindo igualmente para a satisfação de quem come.

Por tudo isso é que todos, numa só voz, gritavam para o outro lado do Viaduto do Chá que queriam a revogação da “lei de combate à fome” (que permitira a farinata), a execução das ações do Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional e a recuperação de 93% dos recursos para as finalidades desse plano, retirados do orçamento para 2018.

O que a organização e a vitória do Banquetaço indicam, senhor, é que, se antes a alimentação estava num “segundo plano”, agora está ao lado da saúde e da educação. Afinal, e nem todo mundo tinha se dado conta, comer é uma prática universal que fala igualmente a todos nós.

Senhor, em resumo, somos não o caminho, mas o caminhar. Como no poema espanhol de Antonio Machado:

Todo pasa y todo queda,

pero lo nuestro es pasar,

pasar haciendo caminos,

caminos sobre el mar.

 

*Carlos Alberto Dória é doutor em Sociologia pela Unicamp; Mariana Marcon é bacharel em Direito pela PUC-SP.



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