Cena ordinária de um tribunal escolar - Le Monde Diplomatique

Esfera social

Cena ordinária de um tribunal escolar

julho 4, 2012
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Considerada a solução universal para os problemas da sociedade, a escola revela os desgastes que levam ao desemprego, às desigualdades e à diminuição do Estado. A solução de certos estabelecimentos: “associar-se” à polícia, encarregada de “recordar a lei” aos jovens turbulentos

A cena a seguir, extraída do documentário de Gilles Balbastre, Fortunes et infortunes des familles du Nord[Fortunas e infortúnios das famílias do Norte],1 se desenrola em um colégio de Roubaix. Após um incidente, o diretor solicita a presença do policial M. W.

O policial entra na sala do diretor.

O policial: – Bom dia.

O diretor: – Bom dia, senhor W.

O policial se senta em frente à mesa do diretor. Ao lado, um homem (o professor), uma mulher (V., professora) e o diretor. Entra um garoto.

O policial (que o mede de cima a baixo): – Bom dia, jovem.

O jovem: – …

O diretor: – Não escutei.

O jovem: – Bom dia…, senhor.

O diretor (dirigindo-se ao jovem): – Apresento-lhe o senhor W.

O policial: – Bom dia.

O jovem: – Bom dia.

O diretor: – O senhor W. éoficial de polí…

O policial (agressivo): – Como?

O jovem: – Bom dia, senhor.

O policial: – Obrigado.

O diretor (ao jovem): – Você poderia nos explicar, em detalhes, o que aconteceu?

O jovem: – A professora V. estava indo em direção a Younes. Nesse momento, eu tinha na mão uma moeda de 2 centavos e atirei-a nela.

O diretor: – Você pegou uma moeda de…?

O jovem: – Dois centavos.

O diretor: – E você mirou…?

O jovem: – Na professora.

O diretor: – E você diz isso assim, friamente, na frente da professora: (imitando o jovem) “e atirei-a nela…”?

O policial: – Você pode explicar por que atirou a moeda nela?

O diretor (antes que o jovem pudesse responder): – Você atiraria assim, do nada, uma moeda de 2 centavos em sua mãe? Dois centavos de euro…

O jovem: – Não.

O diretor: – Você sabe o que significa isso? Dois centavos de euro?

O jovem: – Não sei, era um jogo.

A professora: – Um jogo que você jogava sozinho?

O jovem: – Não, um jogo entre os alunos da classe.

A professora: – E o objetivo era me acertar?

O jovem: – Não.

A professora: – Não? Então qual era o objetivo desse jogo?

O policial: – Você precisa responder.

O jovem (balbuciando): – Não, não era… particularmente…

O policial: – Não disse que você é o único. Ninguém me disse que você era o único, mas você foi o único que atirou a moeda na professora, no olho. E se ela tivesse perdido o olho, o que você teria dito? (imitando o jovem) “Oh, desculpe, senhora. Essas coisas acontecem!”

O diretor: – Nos termos da lei, o senhor W. vai explicar o que acontece. Mas antes de continuar, de todo modo, gostaria que você dissesse algumas palavras sinceras à professora, que corajosamente veio trabalhar hoje.

O jovem: – Peço minhas sinceras desculpas, senhora.

O diretor: – Olhando nos olhos.

O jovem: – Peço minhas sinceras desculpas, senhora. (A professora aceita as desculpas.)

O policial: – E eu gostaria de conversar um pouco sobre isso, sobre o que chamamos de Código Penal. São leis, e segundo essas leis o que você fez é considerado um delito. Cometer um delito pode ser passível de prisão. E o que você fez aqui é bastante grave: trata-se de violência voluntária. Segundo o artigo 222-13, são violências agravadas. Por quê? Porque foi uma violência sobre a senhora V., que é considerada a pessoa encarregada de uma missão de serviço público. Ademais, ocorreu em um estabelecimento escolar. (Aproximação do plano no Código Penal. O policial lê.) “As violências que engendram uma incapacidade de trabalho são punidas com três anos de prisão e 45 mil euros de multa.” Hein, está vendo? Além disso, existem dois agravantes: violência contra pessoa encarregada de missão pública e violência praticada em estabelecimento escolar. Neste caso, é ainda mais grave (o policial lê): “As violências que acarretarem uma mutilação ou doença permanente são punidas com dez anos de prisão e 150 mil euros de multa”. Justamente aí está você. Fez besteira e terá de pagar, é normal. Eu gostaria de verdade que você compreendesse que atirar alguma coisa em alguém é um risco de mutilação… sobretudo no olho (o policial olha fixo para o jovem). Gostaria que você entendesse isso. Mas infelizmente nos veremos de novo. Porque a sanção escolar é uma coisa, depois vem a sanção penal… E não sou quem decide sobre a sanção penal. Não sou eu, é a Justiça. Meu papel é simplesmente transmitir o que você fez.

O diretor: – Mas você mirou no olho quando lançou a moeda?

O jovem: – Como, senhor?

O diretor: – Você mirou o olho da professora quando lançou a moeda?

O jovem: – Não, mirei qualquer coisa.

O diretor (dirigindo-se ao professor): – Sobre a escolaridade… Senhor professor, esse jovem tem gestos violentos às vezes?

O professor: – Ele nunca fez gestos violentos, nem oralmente nem de outra natureza, a seus camaradas ou professores. É que ele é hiperativo, não para de se mexer, e é verdade que em algumas aulas lança pequenos projéteis, isso acontece às vezes. Mas, fora isso, não se pode dizer que haja grandes problemas com A.

O diretor (ao jovem): – Você considera normal que seja convocado ao conselho de disciplina?

O jovem: – Não.

O diretor: – Não é normal?

O jovem: – Bom, sim, é normal porque cometi um ato que não deveria ter cometido.

O diretor: – Se você tem condições de perceber seu erro, por que fez o que fez? Pensou que não ia acontecer nada?

A professora: – Você não pensou nas consequências quando cometeu esse gesto?

O policial: – Por que você está na escola? Para que serve a escola?

O jovem: – Para estudar.

O policial: – Estudar. E para quê?

O jovem: – Para ser alguém na vida.

O policial: – Até aqui vamos bem. E o que você quer fazer de sua vida?

O jovem (com lágrimas nos olhos): – Quero ser padeiro.

O policial: – Padeiro… E quando você for dar o troco aos clientes, vai atirar moedas neles?

O jovem: – Não.

O diretor: – O que você fez é grave, por isso você vai para a sala de castigo. Você fica na sala?

O jovem: – Sim.



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