EXTREMA DIREITA

Cinco motivos pelos quais um fascista tem chances reais nas próximas eleições

A rua se mostra como a última trincheira. Mas ela está vazia, de pessoas e parece também de sentidos. Estamos com a pele dura, e vamos aceitando a excepcionalidade como um processo ordinário. No Brasil estamos vivendo um filme, de drama e com um roteiro ditado por poucos. É neste cenário, de almas derrotadas, de debacle econômica e de paralisia geral é que escrevo este artigo.

por: Andrés del Río
17 de agosto de 2017

Sem título

Não sou Michael Moore e nem pretendo ser. Mas no Brasil estamos vivendo um filme, de drama e com um roteiro ditado por poucos. É neste cenário, de almas derrotadas, de debacle econômica e de paralisia geral é que escrevo este artigo. Como o cineasta, delimito cinco motivos para que nas eleições de 2018 um Bolsonaro qualquer tenha chances de ganhar a corrida presidencial.

Explicito a clara viabilidade para que um candidato de perfil conservador, autoritário, financista, de costas aos interesses do povo e contra a inclusão, seja eleito. É um manifesto honesto das nossas incapacidades presentes e que, como sociedade, cultivamos para nos tornar a cada dia um campo fértil da exceção, num momento que a democracia está nas cordas. Se é que existem as cordas ou se é que existe a democracia.

1 – Ilegalidade, ilegitimidade e problemas de representação

Estamos vivendo um processo de destruição de todos os sentidos da democracia. A destruição se exibe sob a apatia geral, escancarando a falta de esperanças para mudar e a falta de vontade para se manifestar. Mesmo em concepções formalistas e minimalistas da democracia não considerariam o Brasil hoje um país democrático.

A origem do atual mandato presidencial tem sérios questionamentos sobre sua legalidade. Foi tirada uma presidenta eleita popularmente a partir de um instrumento que outorga a Constituição, mas que teve sua finalidade desviada. Crime de responsabilidade foi a condenação de Dilma. Dois dias depois, Temer autorizou as pedaladas. Ironias de uma democracia esquálida. Recentemente, o Ministério Publico Federal arquivou a denúncia. Enfim, foi golpe.

Por méritos próprios, Temer tem menos de 5% de apoio popular, a mesma proporção de pessoas que se beneficiam com este governo. Além disso, 94% têm uma imagem ruim dele. Mais de 80% da população apoiou a investigação da denúncia contra Temer. Mas apesar da ilegalidade de origem e da ilegitimidade do governo, o processo de votação da denúncia de Temer foi, assim como no processo de impeachment da Dilma, marcado pela hipocrisia estendida. Segundo o Congresso em Foco: Pelo menos 238 congressistas respondem a acusações criminais no Supremo. Desses, ao menos 190 são deputados que participaram da votação histórica da denúncia. Esses deputados com problemas na justiça são os que votaram pela impunidade do Temer.

A reforma da lei trabalhista é outro exemplo, um atentado aos interesses básicos do cidadão, assim como a emenda do teto dos gastos, inconstitucional até a raiz. Mas toda a legislação aprovada, e com sérios problemas de viabilidade no médio prazo, não foi negociada com setores interessados, nem debatida com a sociedade, atropelando e apagando qualquer resquício de processo democrático. Foi uma decisão setorial com interesses específicos.  De cima para baixo.

Assim, um governo ilegal, ilegítimo e com profundos problemas de representação está mudando estruturalmente os sentidos dos vínculos do Estado com a sociedade, eliminando todo processo de construção social num país que grita desigualdade por todos os poros. E neste cenário, pós-impeachment, da instauração de uma ordem ilegítima no Brasil, a torneira da ilegalidade e da prepotência está aberta. E com ela, o conservadorismo ganha adeptos.

2 – Eleições de 2018: o Oasis no deserto?

No plano partidário, todos projetam as eleições em 2018. Parece que uma grande parte da classe política abriu mão de eleições imediatas, mesmo que 85% da população seja a favor das Diretas Já. Assim, ao aceitarmos quietamente esperar um ano, assistimos pela TV o esvaziamento da democracia e das já frágeis estruturas do Estado. A banda que está no poder, está conseguindo, como nunca antes na história deste país, realizar reformas de forma acelerada. Reformas institucionais que o (a) próximo presidente vai ter que lidar, conviver e enfrentar. Sem falar das reformas (políticas) que vão vir pela frente. É a partir dessa perspectiva que se darão as eleições em 2018.

As mudanças institucionais consolidam as possibilidades de um Bolsonaro ser eleito e agem no sentido de inviabilizar aqueles que desejam tomar um percurso diferente ao traçado por estas elites no poder. Essas reformas, de forma acelerada, vão mudando a arquitetura institucional. Em diferentes âmbitos as regras do jogo são “não regras” e têm duas consequências. Por um lado, demarcam os limites das alternativas para as próximas eleições. Ou seja, teremos liberdade de votar dentro do que um Congresso corrompido acha que está correto e aceitável. Uma ilusória liberdade de escolha. Por outro, no caso de ser eleito um candidato fora do esperado, as mudanças institucionais restringiriam as possibilidades de transformação, aumentando o custo de negociação. Até onde será possível a anulação das tóxicas reformas de Temer ou será simplesmente aceitar a conciliação das reformas das reformas? E claro, tudo policiado pela mídia e carimbado por parte do judiciário. Enfim, com o Supremo, com tudo.

Olhar apenas para o próximo ano, mais que falar de estratégias eleitorais, é aceitar o novo Brasil do fim da Constituição Federal de 1988, da democracia estética e vazia de sentidos. Ou seja, o único que estamos dispostos a fazer é mudar de camarote, acreditando que é um melhor camarote. Mas é do Titanic.

O “não fazer” é uma forma de colaborar com o outro neste processo. Ninguém ganha sozinho. Hoje, a população brasileira olha de longe, derrotada, com o sentimento de ter sido domada, sem forças nem incentivos para se manifestar. Mas é exatamente nestes momentos que as sociedades devem lutar por seus direitos, um momento de esforço coletivo que multiplique a diversidade e fortaleça os pilares da população brasileira. Inovação e construção. Pois ante o vazio, o pior toma o lugar.

3 – Imagina, ele não vai ganhar: O contexto internacional.

Antes de Trump se tornar um republicano presidenciável nos Estados Unidos, nem eles acreditavam na possibilidade do empresário virar candidato oficial. Dividiu as águas dentro do partido. E deixou partido a todos. Estamos num momento lamentavelmente fértil para a guerra dos extremos. O gérmen do ódio, da discórdia e da brutalidade já pode ser percebido em todos os lugares. Nesse cenário, ganha a lógica da violência, não a democrática. Quem tem o discurso mais duro ganha.

As mobilizações de perfil fascistas e reivindicando a supremacia branca nos Estados Unidos estão visibilizando um problema ainda maior. Atualmente existem mais de 900 grupos ativos com essas características nos Estados Unidos. E existem reverberações em todo globo. As ameaças de intervenção, tanto na Coreia do Norte, como na nossa região, na Venezuela, podem fortalecer o discurso conservador.

Os muros que estão sendo criados (e os já existentes), discursiva e materialmente, na Hungria, nos Estados Unidos, na Macedônia, entre outros, são parte deste contexto. Sem mencionar, a falta de vontade política para solucionar de forma humana e internacionalmente as correntes de refugiados. Da mesma forma que os desafios que evidenciam as amplas camadas de imigração amplificando os temores, ressentimentos e falta de acolhimento de parte da população dos países de destino. Neste processo, as minorias veem reduzidos seus direitos e suas demandas, e, simultaneamente, se fortalece a intolerância e se aprofunda a rejeição à incorporação e à inclusão social. Prevalece o individual sobre o coletivo.

4 – A “não política”: a construção do campo fértil para os xerifes

Perder em política é parte do jogo. Tirar-nos da política é não jogar o mesmo jogo. A política existe, os partidos existem e os movimentos sociais estão vivos, mas desarticulados e alguns desmoralizados. É só observar as votações das leis trabalhistas, do teto dos gastos, da denúncia contra Temer, como que alguns partidos mostraram sua coerência ideológica e compromisso, exibindo claramente a quem defende. Mas esses partidos são os principais alvos da política atual, da força-tarefa da mídia.

A construção da “não política” é perigosa. Nem todos são iguais, nem todos compreendem a política como troca de propina e ostentação dos privilégios. A questão não é criar pontes, senão em que tipo de pontes e em que condições elas são criadas. Hoje, a política está sendo demonizada a partir de um governo perseverante no erro e pela massiva campanha contra dos partidos de esquerda. E a erosão da política é o campo ideal para a “não política”.

Hoje um (a) outsider ou o judiciário são identificados como a principal esperança da construção de uma moralidade perdida, de voltar a um Brasil melhor (similitudes com o discurso de Trump). Aqueles que supostamente não tem vínculos com a política estão um passo na frente. Uma hipocrisia, pois ao mesmo tempo que a “não política” possibilita um outsider, a construção de um judiciário todo poderoso vai carcomendo os sentidos da justiça, longe de ser cega e imparcial, tornando-se um problema maior dia após dia.

A fantasia de que nada aconteceu e as instituições continuam é uma crença perigosa, de aceitação. O que existe é um processo de transformação institucional violento e unilateral que coloca a política como parte do problema e não da solução. Assim, a construção da rejeição da sociedade com a política se converte em votos a favor de todo aquele que pareceria não ser parte dela, exacerbando um discurso duro. Desta forma, o voto se torna uma punição ao sistema político, e quem ganha com essa votação é quem se apresenta como o novo xerife da nação. Aquele que chegou para limpar a casa.

5 – Os labirintos da Esquerda.

A votação da denúncia contra Temer demonstrou os problemas de colaboração e falta de coordenação entre as diferentes linhas de esquerda (e centro esquerda) para conseguir os votos necessários para investigá-lo. É importante reiterar que 81% da população apoiava a investigação. E essas dificuldades se apresentam num cenário de radicalização do conservadorismo no país (e na região). A perda na luta discursiva, ganhada pela direita, acusando à esquerda de ser a causa e problema de tudo, da “herança maldita” do petismo, é uma variável a ser enfrentada e rebatida.

Alguns indicam que a esquerda se beneficia com os desastres deste governo, acreditando que podem ganhar as próximas eleições de 2018. Outros indicam que os partidos de esquerda estão com poucas pontes, pouca clareza. Além disso, existem muitos desafios com a presença Lula da Silva nas próximas eleições e como isso reverberará nas estratégias das diferentes linhas da esquerda. Tendo em consideração as diferenças, nos Estados Unidos nem todos os eleitores de Bernie Sanders votaram em Hillary Clinton.

E em Terra Brasilis, as diferentes linhas mais à esquerda votariam num Lula, Haddad ou Ciro? E a chances de candidatura de um Guilherme Boulos, Marcelo Freixo, entre outros? Uma discussão divide águas: fazer as reformas das reformas ou um novo norte político programático? Continuidade ou ruptura? Qual é a viabilidade? A dificuldade de reconstruir e reorganizar as bases populares para poder retornar ao poder com um projeto nacional e inclusivo são desafios que ainda são uma incógnita.

A realidade nos mostra que a cada dia que passa, o governo de Temer reduz a democracia e torna o Brasil um campo fértil para a violência, o aumento da pobreza e o descrédito pela política. Nesse cenário tende a se beneficiar os piores atores políticos: os bonecos dos donos do poder, os fascistas, os autoritários e aqueles que acreditam que os militares são a reserva moral para colocar novamente o país no caminho correto.

 

O horizonte

O Brasil parece ser o “Funes o Inmemorioso”, o contrário do personagem de Jorge Luis Borges que, de tão boa memória, não podia viver nem habitar o presente. Aqui é o contrário, o presente não deixa ter nem um suspiro de memória. Cada fragmento, cada segundo nos impossibilita a reflexão, lembrar quem é quem, quem fez o que, como chegamos onde estamos e o que aconteceu faz dois meses. Refletir sobre o processo. Mas ironicamente, vamos a passos agigantados em direção ao passado, de retrocesso de direitos, da débâcle econômica e da consolidação de uma elite excludente, onde o povo não conta.

A rua se mostra como a última trincheira. Mas ela está vazia, de pessoas e parece também de sentidos. Estamos com a pele dura, e vamos aceitando a excepcionalidade como um processo ordinário. Perdemos a surpresa, hoje um evento político gera memes, mas não indignação nem manifestação. Estamos encurralados.

As eleições são todos os dias. As regras de jogo mudam o tempo todo, se adaptam para colocar um novo norte de possibilidades restritas. Somos parte das não-decisões e, como sapo na panela, vamos sendo adaptados, com reformas e reajustes, com um norte de alternativas limitadas: escolher dentro das alternativas que sejam aceitas por um grupo ínfimo da sociedade.

Num momento de aprofundamento da crise econômica por méritos do governo, do aumento do desemprego, da austeridade seletiva, das isenções aos amigos, do fortalecimento da “não política”, da violência estendida e de um mundo cada vez mais beligerante, os desafios da esquerda (e centro esquerda) são enormes. A esquerda está em plena reconfiguração e reorganização, traçando as futuras alternativas e estratégias. Mas ainda poucas propostas estão sendo colocadas com força. Não existe lugar para a isenção.  A mídia já declarou faz tempo para que time joga. Ante a dúvida, é só olhar as pesquisas do Manchetômetro da UERJ.

Nos Estados Unidos ninguém acreditava que Donald Trump fosse presidente. Da mesma forma aconteceu no Brexit no Reino Unido. E no Brasil? O cenário é ruim, e o horizonte pode ser pior ainda. A questão não são os Bolsonaros, a questão é o que a gente faz hoje, agora. Estamos no caminho certo para perder, trilhando todas as rotas para um xerife ganhar.

Andrés del Río é Professor Adjunto do Instituto de Educação de Angra dos Reis da Universidade Federal Fluminense e Chefe de Departamento do curso de Gestão Pública do Instituto. É pesquisador do Instituto de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Doutor em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

 


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