O QUE FAZER - ENTREVISTA

Como resolver a crise política?

O que fazer após o afastamento da presidenta Dilma Rousseff, concretizado no dia 12 de maio? O Le Monde Diplomatique Brasil convidou pensadores e lutadores sociais de diversos matizes para debater como lidar com a crise e trabalhar com certos elementos, como a guerra das ideias, as eleições municipais de outubro e a or
por: João Pedro Stedile

Quais são os caminhos para organizar a resistência aos ataques aos direitos?

 

A conjunção de forças que patrocinaram o golpe pretendia “sangrar” ainda mais o governo da presidenta Dilma, mas se viu obrigada a “pegar uma carona” no pedido de impeachment aceito por Eduardo Cunha, mesmo com sua fragilidade jurídica e claro intuito de chantagem. Isso fez transparecer o caráter golpista. Especialmente a votação da admissibilidade na Câmara dos Deputados foi uma verdadeira autópsia da podridão de nosso Parlamento. Um espetáculo grotesco, visto por milhões que pouco a pouco vão compreendendo o que se passa em nosso país. A luta contra o golpe conformou um amplo campo democrático, com intelectuais, artistas, juristas, atraindo todos os que percebem o que está em jogo neste momento. Nosso grande desafio segue sendo despertar a classe trabalhadora, que ainda não entrou em cena com todo seu potencial, para construir uma greve geral. À medida que o governo golpista de Temer promove a reforma da Previdência, terceirização e redução de direitos sociais, mais setores vão compreendendo que é preciso lutar contra o golpe.

 

Como atuar na guerra das ideias e na comunicação?

 Sofremos uma derrota política, mas não fomos derrotados moralmente. Surgem mobilizações, até mesmo inesperadas, em todas as regiões do país, demonstrando que a compreensão sobre o golpe vai se consolidando. Estamos construindo uma ampla unidade nessa luta. A experiência exitosa da Frente Brasil Popular potencializa nossa capacidade de ação e nos permite abranger amplos setores. Nas redes sociais, a luta contra o golpe cresce a cada dia. Unificar os meios de comunicação dos movimentos sociais e organizações populares tem possibilitado uma importante batalha de ideias. Uma grande parcela dos que saíram às ruas contra o governo Dilma está atônita com o resultado. É preciso multiplicar as iniciativas, demonstrar a resistência ao golpe de forma incessante, possibilitar que todos possam participar de alguma forma dessa luta, indo aos atos, divulgando notícias, construindo lutas.

 

Qual é o papel das eleições municipais?

 As primeiras eleições sem doação empresarial ocorrerão no momento em que o país se divide em relação ao golpe. As medidas impopulares dos golpistas vão se refletir no debate eleitoral. A sociedade vem se politizando, e com certeza as eleições expressarão esse novo momento.

 

Como resolver a crise política?
 
O golpe rasgou o pacto político que gerou a Constituição de 1988. A atual crise deixou clara a inviabilidade de nosso sistema político, que somente favorece a classe dominante. O único caminho democrático para enfrentar essa situação é uma Assembleia Constituinte Exclusiva do Sistema Político. Uma proposta com essa importância precisa ser legitimada por meio de uma consulta popular, pois jamais será aceita pelas forças que patrocinam o golpe. Por isso, defendemos a convocação de um plebiscito que decida a convocação da Constituinte. 


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