O QUE FAZER - ENTREVISTA

Continuar ocupando

O que fazer após o afastamento da presidenta Dilma Rousseff, concretizado no dia 12 de maio? O Le Monde Diplomatique Brasil convidou pensadores e lutadores sociais de diversos matizes para debater como lidar com a crise e trabalhar com certos elementos, como a guerra das ideias, as eleições municipais de outubro e a or

por: Allan Santos da Rosa
6 de junho de 2016

Quais são os caminhos para organizar a resistência aos ataques aos direitos?

Continuar ocupando espaços-chave, como sedes de órgãos públicos. É preciso apresentar também cotidianamente à população das periferias o  quanto as medidas do governo golpista avacalham cada mínimo direito arduamente conquistado em décadas; não cairmos na tocaia, às vezes mal-intencionada, de polarizar o debate entre “PT” contra “PSDB e os outros”; e divulgar internacionalmente a orquestra de vampiros que organizou esse golpe, orquestra bem nutrida e gestada erroneamente pela própria gestão de Dilma.

 

Como atuar na guerra das ideias e na comunicação?

 

Hoje, a internet é imprescindível. Muito do que se articulou e do que se concebeu como resistência baseou-se na exposição da escancarada parcialidade da mídia graúda. Mas comunicação vai além do digital. Consideremos sementes de novas políticas as inúmeras redes, complexas e mesmo com divergências entre si, e os muitos debates e rodas que presencialmente estão dialogando e propondo resistência. Além disso, é preciso esmiuçar a questão da corrupção. Considerarmos em nossa educação popular o que se grita e se oculta quando se estrilam contra a corrupção, que passa a ser um discurso de mote único, aliado a um viés parco e sensacionalista de economia.

 

Qual é o papel das eleições municipais?

Talvez as eleições marquem o atolamento do PT. Mas talvez o partido saiba sair da crise como o injustiçado e continue fazendo seu mais do mesmo. É possível que algo forte surja desse florescimento de resistência ao golpe, que aglutina muitos setores que já atuavam cotidianamente com comportamentos, miradas e propostas que trincam a engessada estrutura dos latifundiários do chão e das antenas parabólicas do país e do mundo. Assim como se levou anos para arquitetar e construir ninhos e revides originários do chão e de grupos organizadores fora do regime civil-militar, talvez, das forças que se unem quando são oposição, surjam as necessárias mentalidades e concepções de luta de que muito precisamos, que nos tragam novas perguntas diante das crises de representatividade, já previstas em seu menor germe.

 

Como resolver a crise política?

As Américas e talvez o globo todo buscam caminhos para as sinucas de bico que já parecem parte integrante de qualquer regime de democracia participativa. As crises parecem previstas no pacote eleitoral, que até mesmo simbólica e psicologicamente delas se alimenta, criando produtos à venda e espelhos que rosnem o suficiente para bailar no medo e nas divisões sociais tão fraturadas que nos compõem. Temos de formular rumos que tirem poder político de partidos e ao mesmo tempo preservar o que o Estado teria de não controlador e genocida, o que em si parece uma contradição. Uma Constituinte exclusivamente voltada à questão pode trazer respiros e novos mapas e sensibilidades, ou ainda ser engolida pelo próprio sistema. A ideia de autonomia às margens do sistema ainda apresenta seus limites e fraquezas várias, já que a cada passo estamos imersos na lógica sanguessuga e de biopoder que nos rege, murcha e adoece. Porém, as ocupações dos secundaristas hoje parecem ser uma semente de esperança em movimento, embebida que está a juventude tão em sintonia com movimentos de luta negra, periférica e por garantia dos direitos individuais e coletivos.


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