Costa Rica define presidente e se aproxima do polo conservador - Diplo

ELEIÇÕES 4 DE FEVEREIRO

Costa Rica define presidente e se aproxima do polo conservador da América Latina

Acervo Online | Costa Rica
por Murilo Matias
Fevereiro 2, 2018
Imagem por José Pablo Orozco Marín
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Forças conservadoras dominam eleição marcada pela defesa da família tradicional costaricense e pelo tema da corrupção pública

Levou mais de sessenta anos para que a Costa Rica rompesse o bipartidarismo entre forças conservadoras e, contrariando prognósticos, elegesse Guillermo Solís no que era considerada a primeira chegada da esquerda ao poder, em 2014. Quatro anos depois da questionada gestão liderada pelo Partido Ação Cidadã, outra surpresa eleitoral parece empurrar a nação ao autoritarismo com a liderança de candidatos reacionários nas pesquisas que indicam os favoritos da eleição presidencial cujo primeiro turno acontece em 4 de fevereiro.

Território de estabilidade no contexto violento da América Central, o país de 4,5 milhões de habitantes orgulha-se de utilizar exclusivamente energia renovável, investir 8% do orçamento em educação, 10% em saúde e posicionar-se entre os menores índices de desigualdade da região, além de não contar com Forças Armadas. Apesar dos méritos, a persistência da pobreza para 20% da população nas últimas duas décadas, somadas às pressões migratórias e à criminalização da atividade política abriram espaço para o dogmatismo religioso do deputado Fabricio Alvarado e para o extremismo do advogado Juan Diego, autodenominado trumpico ou trumptico, em mescla entre o nome do presidente norte-americano e a palavra tico, forma tradicional pela qual os costaricenses são conhecidos.

Ambos os candidatos fazem suas ideias ressoar em parte da classe média, assustada pelos meio de comunicação a respeito do aumento da violência – registrou-se o recorde de 603 homicídios em 2017 – e entre setores das classes populares, incomodados com a competição com os migrantes, em especial nicaraguenses que cruzam a fronteira em busca de trabalho. A preocupação com o custo de vida, por sua vez, atravessa todos os cidadãos, pois embora recebam o mais alto salário mínimo regional com ingressos de R$ 1,5 mil, os costaricenses são os que pagam mais caro pela energia e pelo combustível, R$ 4 o litro. A estimativa de que um terço dos trabalhadores não alcança a remuneração básica acresce a necessidade de atuação do Estado na regulação de preços de itens estratégicos.

Nesse cenário, Alvarado pelo Partido Restauração Nacional viu sua expectativa de votos ascender de 3% para 15% depois de opor-se à decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos que determinou a garantia legal ao matrimônio igualitário e o acesso à identidade social a minorias. O evangélico perfila-se como defensor da família e repete o slogam de governar com as mãos limpas para cacifar-se e agregar o voto de comunidades cristãs. “O desencanto com a política e a posição social desvantajosa para muitos dão margem a alternativas autoritárias, assim a classe dominante estabelece saídas repressivas para manter privilégios”, afirma Allen Ulate, diretor da escola de sociologia da Universidade da Costa Rica.

Outro segmento do eleitorado reconhece em Diego Castro do Partido Integração Nacional uma liderança alheia ao meio político, ainda que o penalista tenha sido ministro da Segurança e da Justiça de Jose Fígueres, de 1994 a 1997, período em que foi censurado pelo parlamento por junto de um contingente de policiais armados pressionar deputados pela aprovação de leis para endurecer penas criminais. “Nas pesquisas aparece o resultado do reconhecimento público e não das posições dos candidatos. Castro fala o que as pessoas desejam ouvir, como a mão pesada contra a corrupção e, para o pesar de muitos, é o único que coloca um pouco de emoção na campanha”, comenta o jornalista Esteban Mora.

 

O cimentaço sobre a candidatura governista

A tentativa de consolidação de uma agenda positiva pelo governo na véspera do período eleitoral baseava-se no crescimento econômico acumulado e em avanços sociais, por exemplo a redução da pobreza no campo de 30,3% para 24,3% com o programa Ponte para o Desenvolvimento, que entre outras ações, manteve aberto o refeitório das escolas nas zonas rurais durante as férias. As obras viárias inauguradas também são destaque do período da Concertacion, liderado pelo presidente Sollís e sua equipe ministerial composta por siglas de esquerda como Frente Ampla e conservadores, a exemplo do Partido da Unidade Social Cristã.

No terreno do comportamento e das liberdades individuais a polêmica não impediu que o governo assumisse o respeito pela diversidade. A resposta da Corte à consulta realizada pela vice-presidenta Ana Chacón sobre direitos civis de gays e de transgêneros foi imediatamente acatada pelo país em importante marco nos direitos civis, apesar de pesquisas indicarem que 60% da população reprova a medida.

Esses e outros debates foram precedidos pela relação corrupta entre agentes públicos e privados no caso nacionalmente conhecido por Cimentaço, referente à concessão indevida de créditos e vantagens pelo Banco da Costa Rica a um empresário importador de cimento chinês. Para além de desgastar o campo político e o Executivo de maneira especial, o episódio evidenciou a rede de influência no aparato institucional, incidindo sobre o judiciário ao causar a suspensão de Celso Gamboa, juiz da Suprema Corte. Inconformados com os desvios, os cidadãos passaram a rechaçar os altos salários da magistratura e de graduados funcionários cujos vencimentos ultrapassam os R$ 50 mil mensais.

“O sentimento de quatro anos atrás era de otimismo e esperança. Vínhamos de oito anos de governos de Liberação Nacional e a gestão de Laura Chinchilla, marcada pela corrupção. Esperávamos caras novas, mais transparência e compromisso com o meio ambiente. A avaliação final é de decepção”, diz Heiner Vargas, técnico em informática na capital San José.

A oposição dentro da própria legenda por causa de contestações de dirigentes como Otton Solís, fundador do Partido Ação Cidadã, as críticas maliciosas às viagens presidenciais pela televisão e jornais controlados pela elite e o conflito com valores católicos e evangélicos debilitaram a aposta no jovem Carlos Alvarado, de 38 anos, para seguir no comando do Estado. Os resultados tímidos obtidos pela gestão que prometia mudanças, mas não conseguiu desenvolver sua plataforma a ponto de persistir no país 300 mil locais em condição de miséria concorrem para as dificuldades de renovar a experiência, ainda que a possibilidade de reviravolta seja possível nas urnas. O quinto lugar na intenção de voto com 8% de adesão demonstra a necessidade de reação da candidatura encabeçada pelo ex-ministro do Trabalho.

“Em nosso período houve diálogo com diferentes atores sociais e protestos quase não ocorreram. Historicamente os simpatizantes do PAC não dão informações a institutos e tendem a mostrar-se nos últimos momentos, por isso esperamos alcançar 25%, o que seria histórico. A mensagem central da campanha vincula-se à atração do voto progressista para convencer a população de centro e esquerda a não retroceder em direitos civis, investimento social e na boa relação entre sindicatos e setores agrícolas. Reconhecemos os erros, mas eles foram menores do que as conquistas”, argumenta Marvin Delgado, deputado do PAC.

 

A possível volta ao bipartidarismo e a debilidade da esquerda

Melhor o diabo conhecido do que o novo por conhecer. A expressão ajuda a explicar a força da autodenominada família liberacionista representada pelo deputado Alvaro Desanti, presidente da Assembleia e aliado de primeira ordem de Oscar Arias, ex-presidente, Nobel da Paz e um dos homens mais ricos e poderosos da Costa Rica, segundo admiradores e detratores. “Desanti está em segundo lugar pois é o padrão da família tradicional católica. A classe trabalhadora já encontra-se castigada com impostos, o que pode agravar-se uma vez que esse grupo político detém grande controle sobre a mídia e o parlamento”, opina Carlo Matikainen

Partido que mais governou os costaricenses ao longo da história e o maior em número de filiados, o Liberação Nacional assenta sua trajetória na política oligárquica, alinhamento com os interesses norte-americanos e ênfase na abertura de mercados – atualmente a nação exporta 420 produtos agrícolas a 110 países. “Construímos 80% das universidades públicas, colocamos em prática o 13º salário e programas sociais. Além disso, desenvolvemos nossos recursos humanos e os tratados de livre comércio”, defende o deputado Ronny Sala (PLN) ao situar a legenda na social democracia.

Na mesma linha, em quarto lugar com cerca de 10% aparece a candidatura de Rodolfo Piza pelo Partido Unidad Social Cristã. O advogado promete a geração de 50 mil empregos e 40 mil casas anuais, mas a proposição que mais difere dos demais é a construção de um metrô na capital, proposta considerada inviável ainda que 70% da população utilize transporte público e o caos no tráfego seja constante nas maiores cidades. Mais próximo da realidade está a renovação da frota veicular do país caso seja aprovado o projeto que vetará a partir de 2030 a importação de carros hidrocarburetos e incentivará a aquisição de modelos elétricos.

“Os mais velhos sempre votam no mesmo partido, mas os jovens pensam diferente e muitos não pretendem votar, como eu”, critica Vale Jimenez, que trabalha em call center, um dos principais mercados para a juventude. A eleitora lembra ainda que há somente uma mulher dentre as treze candidaturas presidenciais, Stephannie Campos do Partido Restauração Costarricense, reflexo do machismo que classifica a gestão de Laura Chinchilla como a pior da República, embora tenha se assemelhado em vários aspectos a administrações anteriores exercidas exclusivamente por homens – no congresso o equilíbrio está mais perto de ser alcançado diante de 37% de participação feminina com relação às 57 vagas existentes (no Brasil, são 9,9%).

A esquerda, por sua vez, fragilizou-se para além do governo, especialmente a Frente Ampla (FA), que transformou-se em importante bloco político com a eleição de nove deputados e do terceiro lugar na presidencial passada, mas perdeu prestígio por sua participação na atual gestão. A exaustão com os partidos tradicionais parece não ser suficiente para que fatias consideráveis do eleitorado transfiram suas esperanças a siglas progressistas mais conhecidas ou aos ainda incipientes, caso do Partido dos Trabalhadores (PT) .

“A campanha de medo e o papel pouco relevante de nossa fração legislativa podem pesar para eleitores cada vez mais voláteis”, afirma Edgardo Araya Sibaja, candidato presidencial da FA. “Esse governo causou uma grande frustração e fortaleceu o bipartidarismo empresarial e o fenômeno populista ao não romper com a agenda neoliberal, congelar salários e atacar os direitos laborais, já somos mais de 1 milhão de trabalhadores explorados”, considera John Vega, nome à presidência escolhido pelo PT. Ambos praticamente não pontuam nas pesquisas.

A poucos dias da votação, nenhum candidato deve alcançar os 40% necessários à vitória no primeiro turno. Por outro lado, os 25% indecisos, de acordo Centro de Investigação e Estudos Políticos da Universidade da Costa Rica, podem produzir toda sorte de reposicionamento em uma eleição que até o momento se mostra propícia a colocar também a Costa Rica na rota conservadora da América Latina.

 

*Murilo Matias é jornalista.



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