Crise brasileira reanima as direitas radicais - Le Monde Diplomatique

POLARIZAÇÃO EXACERBADA A MENOS DE UM ANO DAS ELEIÇÕES

Crise brasileira reanima as direitas radicais

por Anne Vigna
dezembro 5, 2017
Imagem por Tulipa Ruiz
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“Que se vayan todos!” Quinze anos depois dos argentinos confrontados com o caos econômico, o grito percorre um Brasil sacudido pelos escândalos de corrupção. Enquanto nenhuma formação tradicional escapa do descrédito, uma direita radical, por vezes ligada aos militares, emerge, prometendo limpar os estábulos de Aúgias

Havia no ar como que um aroma de vitória por ocasião da abertura do Fórum da Liberdade, em Porto Alegre, no último mês de abril. Conhecida no exterior como uma das primeiras cidades conquistadas pelo PT em 1988 e como berço do Fórum Social Mundial, a metrópole do Sul acolheu também esse encontro da direita ultraliberal brasileira depois de três décadas. Por muito tempo reservado a iniciados, o encontro assumiu depois de alguns anos o perfil de uma grande missa.

Em 2017, com o auditório de 2.600 lugares lotado, os oradores exibiam um largo sorriso. “As ideias liberais nunca estiveram tão presentes no debate público”, rejubilou-se Hélio Beltrão, presidente do Instituto Mises, um think tank oficialmente “apolítico”, mas que se inscreve na linha do economista Ludwig von Mises (1881-1973), pai fundador da Escola Austríaca, resolutamente liberal.1 “Pusemos milhares de jovens nas ruas contra o PT e expulsamos a esquerda do poder. Pela primeira vez, acho que conseguiremos chegar à Presidência em 2018.”

Camisetas anticomunistas

Talvez isso não seja fanfarronada. Após treze anos de hegemonia do PT, uma direita empedernida governa o país sem ter passado pelas urnas. Chegando à Presidência após a destituição de Dilma Rousseff em 2016, seu ex-vice-presidente, Michel Temer, aplica metodicamente a cartilha liberal do fórum: emenda constitucional que limita o aumento das despesas às taxas de inflação do ano anterior, ampla onda de privatizações, flexibilização das leis trabalhistas, projeto de reforma da previdência (que irá privar de aposentadoria grande parte da população) e até restrições à definição de “trabalho escravo”, ainda comum no país.

Neste ano, o novo prefeito de São Paulo, João Doria, do PSDB, foi quem abriu o fórum. O empresário se diz “um empreendedor que trabalha quinze horas por dia”. Seu projeto? “Menos impostos, menos regulamentação do mercado e zero entrave à livre-iniciativa.” Ele promete também privatizar o mais rápido possível as empresas ainda públicas da cidade (como as dos parques e estádios), a fim de erradicar “o peso e a burocracia do sistema público”. “Modifico os hábitos do mundo político ao preferir os Uber aos táxis”, proclamou sob uma torrente de aplausos. Doria figura como favorito da nova direita brasileira, que o sociólogo Laurent Delcourt descreve como um “Tea Party tropical”, em referência ao movimento anti-imposto norte-americano. Perfeitamente engomado, ele conquistou tanto as classes populares da periferia de São Paulo quanto os ricaços dos bairros sofisticados, descrevendo-se como um “trabalhador honesto” e conseguindo assim obter um apoio eleitoral interclassista. Cada um de seus comícios da campanha de 2016 terminava com uma mensagem ao adversário do PT, Fernando Haddad: “Que ele vá para Cuba!”.

O apelo a um discurso centrado no da Guerra Fria caracteriza essa “nova direita”. Como outrora, o inimigo a combater é o comunismo, que estaria tentando dominar o Brasil por meio do PT. “A ideologia bolivariana do PT penetrou na cultura, na escola, nas ONGs e em grande parte da juventude. Se não tivéssemos conseguido destituir a presidenta Dilma Rousseff, nosso país seria hoje comunista”, explica com a maior seriedade Rodrigo Tellechea Silva, diretor do Instituto de Estudos Empresariais (IEE), aparentemente sem se lembrar de que o líder do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente de 2003 a 2010, encantava tanto a Bolsa quanto as favelas.2

Entre os jovens, que atulham os corredores do fórum, muitos vestem roupas da marca Vista Direita, que propõe uma linha anticomunista, principalmente camisetas com os dizeres “Seja descolado, não seja comunista!” ou “O comunismo mata desde 1917”. Esses garotos pertencem, na maior parte, ao ramo brasileiro dos Students for Liberty (Estudantes para a Liberdade), organização mundial de cunho liberal que se implantou nas universidades brasileiras a partir de 2010. Três anos depois, ela gerou o Movimento Brasil Livre (MBL), ponta de lança das mobilizações que exigiam a destituição de Dilma desde sua reeleição, em outubro de 2014. Inovadores no contexto político brasileiro, os “jovens líderes” do MBL se destacam pelo sarcasmo, pelo tom de zombaria, mas também pelos insultos aos adversários e pela violência. Em 12 de abril de 2015, o dirigente mais conhecido do MBL, Kim Kataguiri, criticou a oposição por não defender o impeachment e emendou: “O PT tem que tomar um tiro na cabeça”.

A direita radical brasileira surfa sobre um fenômeno de polarização e antipetismo que ganhou força a partir de junho de 2013. O país assistia na época às mais importantes manifestações desde o fim da ditadura militar em 1985.3 No começo, exigiam-se mais investimentos públicos nos transportes, na saúde e na educação. “De forma inesperada, a direita que então se manifestava reunia duas grandes tendências: uma extrema, isto é, ‘identitária’ e ‘racista’, e a outra liberal. Juntas, elas conseguiram recuperar o movimento de protesto. Orientaram-no para a contestação ao PT, sobretudo instrumentalizando o tema da luta contra a corrupção”, explica Delcourt. Em 20 de junho, apenas dez dias após o início do movimento, os alvos dos manifestantes não eram mais apenas os cortes orçamentários ou a penúria dos serviços públicos, mas também as construções públicas de Brasília e todos os símbolos ligados ao PT ou a um mundo político descrito como corrompido.

Em 2015, a investigação de corrupção dentro da Petrobras revelou um sistema de financiamento ilegal dos partidos políticos, alimentado por grandes empresas do setor da construção e das obras públicas. Todos os partidos foram citados desde as primeiras denúncias dos altos escalões da Petrobras, mas a mídia e os procuradores encarregados da investigação só mencionaram num primeiro momento as acusações ao PT, no poder desde 2003, que apresentaram como o responsável por esse sistema.4

Os que então saíam às ruas lembravam cada vez menos o brasileiro médio: segundo as pesquisas realizadas durante as manifestações por uma equipe de sociólogos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade de São Paulo (USP),5 eram brancos, urbanos e das classes privilegiadas. “O que motiva 90% desses manifestantes é o desejo de derrubar o PT”, explicou a socióloga Esther Solano, responsável pelas pesquisas. “Eles se opõem a seus programas sociais: o emblemático Bolsa Família, as cotas para afrodescendentes e indígenas nas universidades e o programa Mais Médicos, que recrutou profissionais cubanos. Seu discurso enfatiza a meritocracia em vez do ‘assistencialismo’, que, segundo eles, é a marca do PT.”

“Pobretões” nos aeroportos

O ódio – o termo não é exagerado – contra a formação de esquerda e o que ela representa se espalha pelas redes sociais sob a forma de galhofas, principalmente contra a população do Nordeste. Apresentam os nordestinos como “retardados”, “preguiçosos” ou “aproveitadores”: uma mistura de racismo (o Norte do Brasil é mais negro que o Sul) e desprezo de classe, que às vezes se exprime abertamente nas ruas. Aos olhos desses detratores de boa família, o PT seria culpado de conceder certos direitos a populações historicamente discriminadas, que erodiriam automaticamente os privilégios dos mais afortunados. Além da afronta de permitir que antigos “pobretões” viajassem de avião – partilha de espaço que muitos endinheirados não toleravam –, o PT cometeu um pecado capital em 2015, quando Dilma Rousseff fez votar uma lei que obrigava os empregadores a registrar em carteira seus empregados domésticos, pagar-lhes um salário mínimo e respeitar a jornada legal de trabalho.6 No seio dessa população, “o antipetismo funciona como um cimento, da mesma forma que o anticomunismo organizava a oposição durante o governo esquerdista do presidente João Goulart, derrubado por um golpe de Estado militar em 1964. A mesma classe social, branca e privilegiada, que marchou nos anos 1960 contra Goulart agora desafia Dilma Rousseff”, resume Delcourt.

Se os defensores da extrema direita que pediam a volta dos militares ao poder eram minoritários durante as manifestações de 2015, a grande maioria das pessoas mobilizadas sustentava uma política mais repressiva. “De 70% a 80% dos interrogados se pronunciaram a favor de um endurecimento das leis contra a delinquência e pela redução da maioridade penal para 16 anos”, informa Esther Solano. “Mostravam além disso uma enorme admiração por figuras do mundo da justiça e pela Polícia Federal, encarregada de investigações sobre a corrupção que parecem se voltar unicamente contra o PT.” Esses dados reúnem os números das pesquisas de opinião feitas em 2010 e 2016 pelo Ibope para avaliar o peso das ideias conservadoras na sociedade. Entre as duas datas, o apoio à redução da idade penal passou de 63% para 78%; a adesão à pena de morte, de 31% para 49%; e o número de pessoas que a pesquisa classificou como altamente conservadoras foi de 49% para 54%. “Nesse contexto, era de esperar: jamais, desde o fim da ditadura, os grupos parlamentares conservadores, que defendem os interesses dos grandes proprietários de terras, dos cristãos evangélicos e dos militares, foram tão bem representados no Congresso”, resume Maurício Solano, professor de Ciência Política da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Pouco a pouco, o movimento de rua parte para a conquista das instituições. Nas eleições municipais de 2016, o MBL – que até então se proclamava “cidadão e apolítico” – apresentou 45 candidatos em diversas legendas. Dez foram eleitos vereadores; um, prefeito de Monte Sião, em Minas Gerais (25 mil habitantes). Em Porto Alegre, Felipe Camozzato venceu com a bandeira do Partido Novo (PN). “Antes de 2015, eu não sabia nada de política. Isso não me interessava absolutamente”, confessa, rindo. O novato se juntou ao movimento de oposição ao PT formando uma batucada com amigos. Nome? Banda Loka Liberal. O grupo retoma um canto entoado durante partidas de futebol, transformando a letra: “Chora, petista, bolivariano!”. A cantilena ressoou por ocasião das manifestações que marcaram o ano de 2015. No escritório da prefeitura, ele se lembra com orgulho: “Ficávamos sob as janelas da presidenta quando ela vinha a Porto Alegre e passávamos a noite esgoelando para impedi-la de dormir”.

Homenagem a um torturador

Provocações desse tipo conferiram a Camozzato uma notoriedade da qual ele se valeu na campanha. Seu projeto se resumia então a uma ideia única: nada de dinheiro público para os partidos políticos. Em 2015, o Supremo Tribunal Federal proibiu, com efeito, o financiamento privado dos partidos após o escândalo de corrupção na Petrobras. Até aquela data, 70% do financiamento provinha do setor privado. Agora, o montante destinado a um fundo público eleitoral é decidido pelo Congresso, antes das eleições. Para o próximo ano (eleição para presidente, governadores, deputados federais e estaduais e para dois terços do Senado), o fundo disporá de cerca de R$ 1,7 bilhão. “Uma aberração”, exalta-se Camozzato. “Os partidos devem encontrar eles próprios seus recursos, como fazem todas as empresas!”

Aos 29 anos, o vereador reconhece ignorar todos os problemas da cidade; mas garante, em contrapartida, ter depurado as leis municipais que entravam o empreendedorismo. Gente fina, ele já se destacou ao defender o porte de armas para os “cidadãos de bem” e denunciar os “juízes de ideologia marxista” que libertam marginais. Em agosto, qualificou os militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) de “bandidos” e “canalhas”. “Os partidários do MBL sabem muito bem como disseminar o ódio. E há quem os siga”, lamenta Raul Pont, de 73 anos, um dos fundadores do PT e ex-prefeito de Porto Alegre. “No ano passado, pela primeira vez na vida fui agredido por um bando de jovens furiosos que me chamaram de comunista e bolchevista…”

Na maioria das vezes, as agressões do MBL ocorrem nas redes sociais, onde a organização se gaba de ter mais de 2,5 milhões de seguidores e mantém sites de “informação” que prolongam suas violências. Já familiarizado com tendências ideológicas na grande imprensa,7 o Brasil perdeu a conta dos sites em que o direito de ofender se sobrepõe ao de informar. Nesse domínio, as páginas conservadoras ultrapassam todas as outras. Setenta e um por cento das pessoas interrogadas pela equipe de sociólogos citada acreditavam que o filho mais velho de Lula era o dono de uma das maiores transnacionais da carne (Friboi). Cinquenta e três por cento asseguravam que a maior quadrilha do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC), agia como braço armado do PT. Em julho último, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) reagiu aos repetidos ataques desses sites contra os jornalistas que desmascaram suas farsas: o site de investigação Agência Pública, por exemplo, foi enxovalhado pelo MBL por ter exposto os erros de um de seus vídeos sobre a delinquência. O MBL acusou a organização de acolher “militantes de extrema esquerda disfarçados de jornalistas”…

Um líder político, em especial, se destaca nesse tipo de discurso: o deputado federal Jair Bolsonaro, figura da extrema direita brasileira e, por enquanto, em segundo lugar nas sondagens para a próxima eleição presidencial (com 16% das intenções de voto, segundo pesquisa do Instituto Datafolha de 3 de outubro). Eleito desde 1990, o ex-militar nunca se destacou por seu trabalho no Parlamento. Suas provocações, ao contrário, lhe proporcionam enorme visibilidade midiática. Foi o caso da votação no Congresso do impeachment de Dilma Rousseff, em 17 de abril de 2016 – transmitida ao vivo pela televisão. Bolsonaro justificou seu voto apresentando-o como uma tomada de posição “contra o comunismo, pela nossa liberdade, pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”. Esse ex-coronel foi comandante-chefe do Destacamento de Operações Internas (DOI-Codi) de São Paulo no período de 1970 a 1974, centro de sequestro, tortura e morte que operou durante a ditadura. Pelo menos cinquenta pessoas morreram no período e há registros de mais de trezentas pessoas torturadas sob suas ordens. Já Dilma (então membro de um grupo de extrema esquerda) ficou presa entre 1970 e 1972, período no qual sofreu diversas sessões de tortura. O deputado foi condenado pela justiça por suas falas depreciativas sobre as mulheres, os negros e os homossexuais, mas “é hoje o político mais em evidência no Facebook, com mais de 4 milhões de seguidores”, observa o sociólogo Pablo Ortellado.

Bolsonaro aplaudiu as recentes declarações do general Antônio Hamilton Martins Mourão, que gelaram o sangue até de quem não foi vítima da ditadura (1964-1985): “Ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso”.8 Alguns dias depois, seu superior hierárquico, o general Eduardo Villas Boas, comandante do Exército, assegurou que “a Constituição concede às Forças Armadas um mandato para intervir em caso de caos”.9

“Evidentemente, a Constituição de 1988, nascida após a ditadura, não permite que as Forças Armadas intervenham de modo autônomo no campo político. Mas o presidente Michel Temer está tão fragilizado por uma popularidade perto de zero que já não tem autoridade para se impor ao Exército”, avalia a historiadora Maud Chirio, em um libelo intitulado “No Brasil, a possibilidade de um golpe de Estado”.10

As direitas – extrema, liberal, clássica – agora disputam o eleitorado tradicional do PT, sobretudo na periferia das cidades, onde o nível de vida melhorou no curso da última década… graças à esquerda. “Essas novas e pequenas classes médias sonham empreender e consumir”, explica o sociólogo William Nozaki, que coordenou um estudo da Fundação Perseu Abramo (ligada ao PT) para tentar entender o recuo do partido na periferia de São Paulo quando da eleição de Doria.11 “Elas são mais sensíveis ao discurso meritocrático da direita ou das Igrejas evangélicas que ao do PT, cuja voz ainda se dirige aos pobres.” Do mesmo modo, a periferia do Rio de Janeiro votou majoritariamente em Bolsonaro e no novo prefeito, Marcelo Crivella (PRB), bispo da poderosa Igreja Universal do Reino de Deus.

Cruzada contra os artistas “zoófilos”

Mais bem implantadas nos bairros pobres que a Igreja Católica, as Igrejas evangélicas promovem uma visão globalmente conservadora e individualista do mundo.12 Para seduzir esse eleitorado, a direita liberal multiplicou seus alvos, como a arte contemporânea. Em setembro, o MBL conseguiu assim fechar a exposição Queermuseu: das 264 obras apresentadas, três teriam feito – segundo os jovens liberais – “a apologia da pedofilia e da zoofilia, além de blasfemar da cultura cristã”. O MBL se insurgiu da mesma maneira contra o Museu de Arte Moderna de São Paulo por causa de uma mostra artística onde figurava um homem nu. “É uma estratégia tendo em vista as próximas eleições”, conclui Ortellado. “Eles compreenderam que as ‘guerras culturais’ oferecem um excelente vetor de mobilização e que, graças a um discurso hostil aos movimentos feminista, negro ou LGBT, podem aliciar conservadores para a causa liberal.”

Segundo a equipe de sociólogos dirigida por Ortellado e Esther Solano – que reproduziu seu questionário por ocasião da tradicional Marcha para Jesus, com perto de 1 milhão de fiéis em São Paulo –, os evangélicos se mostram, contudo, pouco sensíveis às ideias liberais. “Esses fiéis não sabem se posicionar no tabuleiro esquerda-direita. Tais conceitos não lhes dizem nada. Declaram-se, como um todo, ‘conservadores’, mas nem por isso aprovam o programa econômico de Michel Temer”, analisa Esther Solano. Característica dos evangélicos? Talvez não.

Nada garante que a radicalização da direita augure um sucesso futuro nas urnas. As pesquisas de opinião mostram que o povo brasileiro se opõe às reformas trabalhista e previdenciária, propostas pelo governo. “Constatamos isso também nas manifestações pela saída de Dilma Rousseff”, explica Esther Solano. “A grande maioria não é favorável a um Estado mínimo. Ela deseja educação e saúde de melhor qualidade.” Isso abala as certezas de vitória dos ultraliberais do Fórum da Liberdade. A extrema direita (militar e civil) não conteve a língua; a direita clássica e liberal governa; aquela que quer regenerá-la promete ser ainda mais radical – e mesmo assim Lula continua à frente das pesquisas para as eleições presidenciais de 2018, com mais de 35% das intenções de voto.


Fora os professores marxistas!

Em 2016, um movimento de ocupação de escolas que exigia mais recursos para a educação polarizou o país. Em outubro, envolveu cerca de mil estabelecimentos. Por causa do apoio dos sindicatos e partidos políticos de esquerda, foi logo apresentado pela direita como a prova da “infiltração da ideologia marxista” (segundo o senador Ronaldo Caiado) nas escolas. As chamadas organizações “cidadãs” contrárias ao PT, então no poder, e seus representantes políticos desengavetaram um projeto de lei de 2004 intitulado Escola sem Partido. Esse projeto, que pretende combater os “abusos da liberdade de ensinar”, consiste na instalação, em cada sala de aula do Brasil, de uma placa (com 90 cm de altura por 70 cm de largura) onde se leem os “deveres do professor”, acrescidos de um número de telefone gratuito e anônimo para os alunos denunciarem os professores empenhados em “doutriná-los” (em questões políticas, religiosas ou ligadas à orientação sexual). Embora o Supremo Tribunal Federal tenha declarado esse projeto inconstitucional, o texto foi de novo apresentado à Câmara dos Deputados em Brasília e é discutido em oito estados e dez cidades. Não adquiriu força de lei em lugar nenhum (salvo em Alagoas, a despeito de sua inconstitucionalidade); ainda assim, vários professores foram punidos por seus superiores – quando não “denunciados” aos militantes conservadores por pais ou alunos. Um dos membros do MBL, Fernando Holiday, vereador em São Paulo, impôs-se a tarefa de averiguar se os professores estavam “doutrinando os alunos nas ideias marxistas”, como explica ao nos expor seu projeto. Suas “visitas-surpresa” às escolas, filmadas e difundidas pelas redes sociais, acabaram interrompidas após a queixa de um deputado estadual de esquerda de São Paulo, Carlos Giannazi. “Além de não ter direito de controlar o ensino, ele inventa professores marxistas para provocar uma caça às bruxas que pode se tornar perigosa”, relata o deputado. (A.V.)

 

*Anne Vigna é jornalista (Rio de Janeiro).



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