EDITORIAL

Crise sistêmica

Se hoje a política é controlada pelas grandes empresas, como fazer para que a democracia controle a economia? Como limitar o poder do dinheiro na formulação das políticas? Como fortalecer os setores empobrecidos para a disputa pelos recursos públicos? Precisamos de um novo modelo de democracia, mais inclusivo, mais participativo, mais justo.

por: Silvio Caccia Bava
3 de maio de 2017
Crédito da Imagem: Claudius

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Agora que todos os partidos políticos, o Executivo e o Legislativo (e logo mais o Judiciário) são denunciados por práticas de corrupção, vai se caracterizando uma crise sistêmica do sistema político, capturado pelos interesses das grandes empresas.

Embora 70% dos brasileiros considerem a democracia o melhor sistema de governo, apenas 32% apoiam a democracia que temos, uma queda de 22 pontos percentuais se comparado 2015 a 2016; 55% declaram que não se importam se um governo não é democrático, desde que solucione os problemas.¹

Pesquisas realizadas no período das últimas eleições identificam que 57% dos eleitores não votariam se o voto não fosse obrigatório.² E 70% dos eleitores estão indecisos ou votarão branco e nulo nas eleições de 2018.³

Quanto à avaliação do governo Temer, sua desaprovação cresce a cada mês. Em janeiro, era 59%; em fevereiro, 62%; em março, 75%; em abril, 87% julgam o governo ruim ou péssimo. Apenas 4% julgam o governo atual positivo.

A Lava Jato, ao tornar pública essa vasta gama de iniciativas de corrupção, gera a repulsa da sociedade a essas práticas, mas também ao sistema político que as viabiliza.

E como chegaremos às eleições de 2018 neste cenário de descrédito e suspeição?

Lula ressurge, com 47% de potencial de votos (30% votariam com certeza, 17% declaram que poderiam votar), como o mais forte candidato para 2018. Sua rejeição caiu 14 pontos desde o impeachment da presidenta Dilma, igualando a marca dos que o apoiam. Comparando a pesquisa de outubro de 2015 com a atual, seus adversários do PSDB despencam na preferência eleitoral. Aécio tinha 41%, caiu para 22%. Serra tinha 32%, caiu para 25%. Alckmin tinha 29%, caiu para 22%.5

Outra pesquisa atual mostra o crescimento de Lula: dezembro de 2016, 35%; abril de 2017, 45%. O PT recupera parte de seu eleitorado: dezembro de 2016, 15%; abril de 2017, 20%. Nessa mesma pesquisa, o PSDB aparece com a preferência de 4%.6

O impasse é duplo: o descrédito no sistema político e nos partidos de direita e o crescimento de Lula e do PT. O golpe não foi dado para dois anos depois o governo ser entregue novamente aos petistas. Assim, as chances de Lula ser condenado na Lava Jato e perder seus direitos políticos são grandes. Independe se ele é culpado ou não, assim como foi com a presidenta Dilma. Nossas elites não querem mais um projeto de governo que limite seus ganhos, imponha-lhes controles e aumente o custo de reprodução da força de trabalho.

Nessa situação, promover uma reforma política antes de outubro deste ano, para valer para as próximas eleições, é visto como a tábua de salvação para a maioria dos ocupantes do Congresso e para o Palácio do Planalto. Acreditam que a reforma política legitimaria o sistema político perante o eleitorado e garantiria para si mecanismos de financiamento eleitoral e regras do jogo para aqueles que só ganham eleições com muito dinheiro. O foco, agora que as empresas estão proibidas de financiar campanhas eleitorais, é o fundo público eleitoral.

A reforma do sistema político não pode ser feita pelos atuais congressistas, já que 70% deles foram financiados por dez grandes grupos econômicos e obedecem a seus interesses. Ela tem de ficar para 2019, já num novo cenário pós-eleitoral, que não sabemos qual será.

A reforma política não pode se restringir a definir novas regras, se o voto será distrital ou não, se a lista dos candidatos será aberta ou fechada, se haverá um filtro que impeça os partidos nanicos de disputar eleições etc. É preciso ir mais fundo, são os fundamentos da nossa democracia que estão em causa.

Se hoje a política é controlada pelas grandes empresas, como fazer para que a democracia controle a economia? Como limitar o poder do dinheiro na formulação das políticas? Como fortalecer os setores empobrecidos para a disputa pelos recursos públicos? Como garantir a representação das minorias discriminadas nas decisões de governo? Como enfrentar a política tributária regressiva e garantir serviços públicos de qualidade, universais e gratuitos? Como enfrentar a desigualdade e a crise ambiental? Precisamos de um novo modelo de democracia, mais inclusivo, mais participativo, mais justo.

Com a irritação popular chegando às raias das explosões sociais, como ocorreu com os professores do Paraná, com os funcionários públicos do Espírito Santo e do Rio de Janeiro, com a recente invasão por policiais da Câmara dos Deputados, em Brasília, e muitas outras manifestações, a situação política fica extremamente delicada. Condenar Lula, um candidato à Presidência da República que conta com 47% de potencial de voto, seria acender um fósforo perto de um barril de pólvora…

Mas, mesmo que seja cassado, Lula continuará sendo um grande eleitor. E não se pode ignorar a importância das eleições para o Congresso Nacional. Os defensores da democracia precisam se engajar nas eleições do futuro Congresso Nacional. Resgatar a ética na política e garantir a democracia como espaço e modo de negociação de interesses. É com o futuro Congresso que aprovaremos a Constituinte independente para a reforma do sistema político.

*Silvio Caccia Bava, diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil
{Le Monde Diplomatique Brasil – edição 117 – abril de 2017}

{Le Monde Diplomatique Brasil – edição 118 – maio de 2017}


1  Informe Latinobarómetro 2016.

2  Pesquisa Datafolha, maio 2014.

3  Pesquisa CNT/MDA, fev. 2017.

4  Pesquisa Ipsos, Valor Econômico, 26 abr. 2017, pág. A8.

5 Pesquisa Ibope, 20 abr. 2017.

6 Pesquisa CUT/Vox Populi, abr. 2017.


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7 Comments

  • Estamos diante de um grande desafio. Definitivamente temos que fortalecer a candidatura de Lula e quem sabe com Ciro sendo seu Vice. A cada dia a população percebe, principalmente os Camisa Amarelas, que ocorreu um golpe. As políticas do governo Golpista estão cada dia mais clara, desmontar as conquistas sociais conquistadas, com muita luta, pelos trabalhadores. Estão entregando as nossas riquezas ao capital internacional, com fez o governo de D. João VI quando abriu os portos as nações amigas, Inglaterra, em 1808, no século XIX. Definitivamente devemos extinguir nossa elite colonialista, não cabe mais esse tipo de política em nosso País, temos que andar para frente, temos que crescer não penas economicamente, mas intelectualmente. Temos que deixar de ser Colônia e nos tornarmos protagonistas de nós mesmo, construindo uma história própria, construindo um Brasil para os todos nós, Brasileiros.

  • O Brasil é o país mais esquisito do mundo. Nada justifica a esperança em Lula. É impossível que os crimes de que é acusado não tenham sido praticados. Então, seriam salafrários os operadores da Lava Jato? O autor do livro O Chefe? É possível que Lula desconhecesse estar cercado de bandidos? Seria verdade que Lula recebesse quatrocentos mil por palestra? O que teria ele a ensinar? Estaria o mundo tão carente a ponto de ter o que aprender com iletrados? Por que o autor do livro O Chefe não foi levado à justiça pelo acusado? Ainda que não passe tudo de mentira, o fato de ter sido o país deixado na miséria depois de dez anos de petismo não seria motivo bastante para não mais se querer nem ouvir falar em Lula?

    • De fato é o pais mais esquisito do mundo sim. Como uma pessoa que no caso o LULA, pode ser indiciado por posse de uma propriedade que não está em seu nome? Como um sitio que frequentou passa a ser seu sem estar no seu nome? Como uma justiça limpa e digna e com moral processa alguém sem provas cabais e usa a mídia para politizar uma situação? Como as pessoa podem viver num país e nunca souberam da corrupção a séculos neste país. É tão incrível e verossímil, que as pessoas creditam numa mídia tendenciosa e comprada, pq um Jornal corporativista fala, sem qualquer prova ou debate. Mais as diferenças e os contrastes são tantos. Que este mesmos insatisfeitos e indignados que insuflaram e mentiram para povo, dizendo contra a corrupção ai estão sendo indiciados, e sua grande maioria surpreendam-se com provas. E agora? Provas. Só no RIO um ex-governador do PMDB retirou e a justiça já recuperou R$ 500 milhões. Mais muitos pela sua incompreensão da politica politizam e só acreditam que um único partido assim o fez. E esquecem que este partido que agora ai estão, já destruíram este pais mais de uma vez, e estão na politica a mais 200 anos. É este pais realmente é muito esquisito ou seu povo totalmente alienado.

      • Justamente por não estar em seu nome é que existe o processo, já que ele é claramente o beneficiário dos imóveis e melhorias neles empregadas, por construtoras e “amigos”.

  • Acho que a maior reforma que estabelecerá o novo modelo de democracia, é a reforma ética e moral. No meu ponto de vista, todo candidato envolvido na lava-jato não deveriam se elejer. Se é difícil encontrar políticos isentos, corretos, íntegros, então a democracia está fadada ao insucesso realmente, principalmente o processo eleitoral! A massa quer sair da crise e acaba sendo conivente com aquela antiga frase “os fins justificam os meios”, que ética e moralmente significam: “vale qualquer coisa pra se chegar a um objetivo”. Por fim, deixo uma reflexão: é o fim que justifica o meio, ou é o meio que pode levar ao melhor fim? Eticamente falando, é por essa razão que sou anti-Lula, e tb anti-Temer pois sempre vou defender a 2ª opção.

  • À medida em que o capitalismo aprofunda a crise geral iniciada na década de 1970, o Capital se sente menos confortável na camisa de força da Democracia. Democracia esta que já é bastante limitada, visto que o voto, em vez de encher barrigas, enche os cofres dos bancos. A tendência é a restrição progressiva dos direitos democráticos da população em geral, mas com particular ênfase nos direitos trabalhistas. Isso já aconteceu antes quando o Capital se sentiu ameaçado, e nada impedirá de acontecer de novo. A verdade inescapável é que a Democracia, entendida como um conjunto de direitos democráticos concretos, não faz parte do DNA do Capitalismo.

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