DINHEIRO É DINHEIRO

Cumplicidade com o tráfico de drogas

A repressão ao comércio ilícito de entorpecentes atinge principalmente os consumidores e produtores. Contudo, o mercado é dominado pelo crime organizado e seus aliados indispensáveis, sem os quais não pode prosperar. Em particular, os bancos
por: Silvio Caccia Bava
8 de novembro de 2011
Crédito da Imagem: Daniel Kondo

Qualquer que seja a atividade, a partir de, digamos, um punhado de milhões de dólares em negócios, nada escapa aos banqueiros. Nem mesmo o dízimo do culto. Desde a Renascença, o banco está no coração da civilização material e da economia capitalista. Foi seu promotor e inspiração, tecendo suas redes por toda a Europa, depois pelo mundo. Engenhoso, criativo, estrategista e poderoso, priorizando ao máximo seus interesses e ambições, para melhor ou para pior. Durante séculos financiou as conquistas coloniais, o tráfico de escravos, as guerras mais fratricidas e assassinas. Drogas? Em última análise, elas não são mais que um mercado entre outros.

Há séculos o banco lava e recicla o dinheiro das fraudes fiscais; das transferências ilícitas de capitais; tráfico de armas, alimentos, tabaco, álcool e outras mercadorias; de superfaturamentos e comissões por baixo do pano; falsas faturas; fortunas saqueadas por ditadores e tiranos ao redor do mundo… Ora, lavar e reciclar é precisamente o problema dos traficantes: os bilhões em divisas, produto da venda, chegam em pequenas quantias. É preciso depositá-las, em pequenos pacotes1 em contas abertas, agrupá-los em outras contas em nome de intermediários indulgentes, advogados, consultores, agentes de câmbio, intermediários, prestadores de serviços; transferi-los em seguida para instituições protegidas pelo sigilo, lavá-los por meio de circulação intensa de transferências entre vários lugares ao redor do mundo; reuni-los e, por fim, distribuir as despesas em nome de empresas de fachada, que vão investir em atividades legais ou fornecerão empréstimos sem devolução ao emissor – empréstimos back to back2– depositário de origem, para financiar suas operações.

Tudo isso os bancos sabem fazer. Eles têm redes globais equipadas para esse fim e desfrutam de um privilégio exorbitante: o segredo em relação a terceiros, incluindo o Estado, particularmente nos paraísos que eles controlam, eufemisticamente chamados de “fiscais”, mas que seriam mais bem denominados de paraísos da criminalidade, versão moderna das ilhas e portos onde os piratas de antigamente acumulavam o produto de seus saques. Pelos serviços prestados, remunerados por uma comissão sobre cada transação, há um monte de dinheiro a ganhar. Em suma, os parceiros precisam um do outro.

Conhecemos os argumentos dos bancos, preocupados com a respeitabilidade. Primeiro de tudo: sem Estado ou burocracia nas questões que devem permanecer sob responsabilidade dos banqueiros, únicos profissionais competentes. A experiência demonstra amplamente que em caso de dificuldades é dinheiro público que vem para resgatar bancos falidos, por vezes depois de os responsáveis desaparecerem, após terem feito fortuna.

Além disso, o setor bancário é o menos vigiado pelo comércio internacional: em geral, não se exige licença para exportar capitais, não é preciso oferecer nenhuma informação sobre trocas internacionais, não há nenhuma barreira física. Um botão basta para enviar bilhões de dólares de um canto a outro do mundo e encobrir os rastros de modo que nenhum investigador possa encontrá-los: quantidade, rapidez e proteção garantidas. Pouco antes da falência fraudulenta do Penn Square Bank, em 1982, a mais famosa das empresas de auditoria financeira, a Peat Marwick, tinha assegurado ao público a excelência das contas da instituição. Ora, ninguém controla os controladores.

 Feche os olhos

Segundo argumento invocado pelos bancos: eles estão afastados de negócios criminais, particularmente os das drogas. Se acontece, raramente, de estarem envolvidos, é sem seu conhecimento ou por causa da desonestidade de um gerente que será punido. De resto, eles não estão preparados para controlar a origem dos depósitos, a verdadeira identidade dos depositantes que se escondem por trás de contas ou empresas de fachada. Por mais grosseiro que seja, o argumento, bem orquestrado, funciona. Mas, na verdade, os bancos não só não fogem do dinheiro da droga, como se atiram a uma feroz concorrência para captá-lo.

Foi observando a extraordinária proliferação, no final dos anos 1980, de bancos de todas as nacionalidades em Palermo e em Catânia, na Sicília, em Miami e Los Angeles, que investigadores italianos e norte-americanos se convenceram de que esses lugares tinham se tornado hubs para o tráfico de heroína e cocaína. Na mesma época, nas menores cidades das áreas de coca na Bolívia, Peru e Colômbia, havia sucursais de bancos norte-americanos, britânicos, holandeses, alemães, suíços, franceses. Para quais negócios e para qual dinheiro, senão os das drogas?

Quanto a dizer que os bancos não estão equipados para investigar a origem dos depósitos e a identidade dos depositantes é uma brincadeira para qualquer pessoa familiarizada com as minuciosas investigações pessoais, familiares e patrimoniais, e as garantias que eles estão em condições de acumular sobre qualquer um que solicite um empréstimo, ainda que modesto. Em todo o mundo, um número considerável de bancos e agências aceita todos os dias o depósito ou retirada em dinheiro de milhões de dólares, operações em contas numeradas ou de “laranjas”, por trás da dupla fachada de um advogado ou empresa fiduciária da qual não querem saber nem a origem nem o destino, muito menos a identidade e a atividade real dos clientes, em virtude de normas que eles mesmos estabeleceram. Regra de ouro: feche os olhos, desde que o delinquente use terno de flanela cinza.



1 Uma lei norte-americana (Banco Security Act de 1970) exige que os bancos declarem os depósitos em valores superiores a US$ 10 mil.

2 Financiamento paralelo de garantia, que consiste em tomar por empréstimo fundos depositados em paraísos fiscais sob a cobertura de uma empresa de fachada.


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