EDITORIAL

Da subjetividade

A disputa em defesa de um novo projeto de sociedade, fundado em novos paradigmas, não pode olhar pelo retrovisor e buscar restaurar experiências anteriores.

por: Silvio Caccia Bava
9 de janeiro de 2017
Crédito da Imagem: Claudius

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Solidariedade, acolhimento, pertencimento, respeito, dignidade, autonomia, liberdade são sentimentos que movem as pessoas. Ninguém se engaja em algo coletivo porque leu um livro e passou a entender melhor do assunto. A adesão passa pelo sentimento.

As formas de sociabilidade, a maneira como nos relacionamos com os outros, ou como os outros se relacionam conosco, vão conformando o espaço em que vivemos e nossas relações. Dialogamos com distintas formas de sociabilidade na família, no trabalho, no bairro em que moramos, na igreja, nas associações e sindicatos, na torcida de futebol, nos espaços que frequentamos. E essas relações vão moldando nossa vida em sociedade.

A sociedade repressiva, competitiva, individualista e violenta em que vivemos é uma proposta de sociabilidade. Essa proposta é uma construção, ela não está dada, e se justifica para manter e reproduzir a profunda desigualdade que beneficia uma pequena elite e impõe sobre a maioria um clima de vigilância, controle, pauperização e terror. O que é o extermínio dos jovens negros da periferia senão isso? O que é a discriminação que sofrem as mulheres senão isso?

Se todos os dias a televisão mostra uma sociedade em que o principal enredo é a perseguição pela polícia dos bandidos que roubam, matam e praticam toda sorte de violência, qual é a proposta de sociabilidade que está sendo apresentada? Não há outras notícias para divulgar?

Se faltam para as maiorias todos os serviços públicos essenciais para a vida nas cidades, se os salários não conseguem atender às necessidades básicas da família, se as jornadas de trabalho são extenuantes, se a repressão e o controle são onipresentes, o que o indivíduo e sua família podem esperar desta sociedade?

No momento atual que vivemos no Brasil, o medo ganhou da esperança. A hegemonia do pensamento neoliberal se impõe e as maiorias passam a aderir aos valores do capitalismo neoliberal e a criminalizar a pobreza. Meritocracia, empreendedorismo, competição, individualismo, falsas saídas individuais para uma crise que é social. Qual é o lugar do indivíduo nesta sociedade?

Houve um momento, nos anos 1970 e 1980, em que as pessoas encontraram abrigo nas comunidades eclesiais de base da Igreja Católica. Aí, com a teologia da libertação, encontraram acolhimento, valorização, respeito, dignidade, pertencimento, vida em comunidade, esperança. E puderam se expressar coletivamente, mobilizadas em defesa da democracia, dos direitos sociais e políticos e de suas condições de vida.

Esse momento passou, e o que temos hoje é o crescimento das Igrejas neopentecostais, com sua teologia da prosperidade. E elas crescem porque também oferecem acolhimento, valorização, integração do indivíduo a uma comunidade. Nos bairros da periferia das grandes cidades vão conformando maiorias, vão difundindo seu pensamento conservador.

É o trabalho social junto à família, junto ao bairro, na vida comunitária, que vai construindo a hegemonia desse pensamento conservador. É claro que o apoio da televisão é fundamental – os meios de comunicação de massa tornaram-se essenciais numa sociedade complexa, metropolitana, onde se agrupam milhões de pessoas.

Mas há outros exemplos de trabalhos sociais junto aos indivíduos e na vida comunitária. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – o MST – também atua no território quando, por exemplo, convoca os trabalhadores que foram expulsos de suas terras, pessoas que estão isoladas, sem condições de trabalho, moradia e de sustento de si e da família. O trabalhador, antes isolado, se vê pertencendo a uma coletividade, a um movimento social de defesa de seus direitos, se vê acolhido, protegido, valorizado. O mesmo pode-se dizer dos movimentos sociais urbanos em defesa da moradia: eles cumprem esse papel de acolher, resgatar a dignidade das pessoas, oferecer-lhes uma alternativa, uma esperança.

Nossa sociedade é rica em formas organizativas populares. Os coletivos de jovens que se multiplicam nas periferias cumprem o papel que antes era atribuído às sociedades amigos de bairro, clubes de mães, associações e sindicatos. Eles operam no território e abraçam ideários autonomistas, anarquistas, recusam os partidos políticos e suas velhas doutrinas. E recusam o lugar que esta sociedade lhes atribui. As ocupações das escolas públicas por seus alunos são um exemplo disso.

A disputa em defesa de um novo projeto de sociedade, fundado em novos paradigmas, não pode olhar pelo retrovisor e buscar restaurar experiências anteriores. Ao reconhecer e valorizar o trabalho no território, ela deve incorporar os desafios dos novos tempos: a automação que substitui o emprego, o desafio da sustentabilidade ambiental, a necessidade da afirmação dos bens comuns, a refundação da democracia com ampla participação popular, novos meios de controle social sobre a máquina pública.

Silvio Cacia Bava, diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil



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4 Comments

  • É praticamente a falácia da democracia, o grande circo , e claro, amassa sao as marionetes, uma visão deturpada que não consegue enchergar o que acontece, estamos alienados.

  • Boa reflexão. E de fato as movimentações de caráter coletivo vêm assumindo a responsabilidade de reformular o modo pelo qual ocorre a sociabilidade. Chegamos num momento histórico que somos levados a repensar a política e as relações éticas (novamente), isto é, ao que toca a política, a sociedade demonstra progressivamente uma tomada de consciência que a ela revela o único meio ao seu alcance para transformar a política: empregando a práxis. Por outro lado, percebe igualmente que é imperiosa a práxis em função da liberdade à qual a sociedade está condenada, como diria Sartre; para lograr transformações no meio político e um “mundo melhor” depende exclusivamente de cada indivíduo que compõe a população. No entanto, a tomada de consciência ainda se revela primitiva entre nós e nos impede de prever, ao termo do próximo, transformações efetivas.

  • A arte de pensar nem sempre é a arte de ver. Para um país onde traços do seu processo colonial se faz presente em diversos setores da sociedade quem nunca teve espaço, está sempre em busca de um acolhimento. Os negros a tempos atrás tinham a igreja católica como sua referência, na época da escravidão salvou vidas, No regime militar salvou vidas. Hoje na (periferia), o Estado é representado pelas (igrejas) neopentescostais, por isso um crescimento tão expressivos destas. Numa critica que não cabem nestas linhas, não devemos olhar para trás, por não haver algo neste País que possa ser remodelado, como um projeto de Nação. Os pobres tem sua visão limitada por sua condição, se agarrar num conforto, é necessário.

  • Teoria dos Sentimentos Morais, este foi o livro que o autor deste texto utilizou para iniciar o que está escrito, mas ao indicar o MST como um exemplo ele peca ao extremo. O MST é uma ferramenta política e os seus membros são utilizados como um Exército Politizado de Reserva, fato esse comprovado ao se esperar de um governo ‘dito’ progressista, mas não cumpre o que faz (aproximadamente 14 anos de PT no Brasil e menos assentamento que o governo de FHC) e se torna apenas mais um controlador de classe, sem contar que destrói os mais pobres, podendo citar como exemplo a hidrelétrica de belo monte.. Outro fator se relaciona a juventude e sua luta, mas de forma totalmente dependente financeiramente e utilizando uma pujança de pseudo conhecimento liberado nos diversos meios de comunicações, mas sem a filtragem correta e levando-os a se jogarem no tonel das danaides. O que pensar de um momento onde os heróis ou estão presos ou em vias de se tornarem presos por crimes contra o povo a quem juraram lealdade. Ser neoliberal, ser idealista, ser pluralista, ser liberal pouco fará diferença se a distância entre o que se diz e o que se faz se torna infinita.

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