E agora, o que fazer?

E agora, o que fazer?

O golpe no Brasil mostra como a democracia, mesmo limitada ao processo eleitoral, incomoda as classes dominantes. Mostra também que as forças progressistas não podem jogar todas as suas esperanças nas eleições ou na luta dentro das instituições
por: Luis Felipe Miguel

O golpe no Brasil mostra como a democracia, mesmo limitada ao processo eleitoral, incomoda as classes dominantes. Mostra também que as forças progressistas não podem jogar todas as suas esperanças nas eleições ou na luta dentro das instituições. A disputa municipal de outubro é importante por oferecer um espaço de denúncia e de discussão. É importante também tentar eleger bancadas democráticas e progressistas nas Câmaras de Vereadores, para garantir uma tribuna e impedir retrocessos que ocorrem no âmbito municipal, como nos planos de educação. Mas canalizar a maior parte das energias para a disputa eleitoral, seja agora, seja em 2018, é uma armadilha.

De fato, as eleições funcionam, muitas vezes, como uma forma de restabelecer a legitimidade de um regime de dominação que está sendo questionado, anulando experiências de maior radicalidade e “normalizando” a política. Mesmo que um candidato mais à esquerda volte à Presidência em 2018, retornará em condições piores, seja porque o retrocesso acelerado da presidência Temer estará realizado, seja porque o golpe sinalizou com ainda maior clareza os limites que as classes dominantes impõem à disputa política. Uma ação política com sentido transformador tem, ao contrário, de recusar essa “normalização”, mantendo a pressão das ruas e forçando as fronteiras da ordem instituída. Ficou demonstrado que essa ordem é organizada de maneira a proteger privilégios e que braços do Estado, como a polícia ou o Judiciário, permanecem fortemente alinhados aos interesses dos grupos dominantes.

A opção desmobilizadora dos governos do PT, que buscaram até o final acomodar as elites tradicionais e evitar o confronto, mostrou seus limites. Na hora em que foi necessário buscar apoio das bases populares, elas estavam desorganizadas e foi difícil recolocá-las nas ruas. A defesa da democracia contra o golpe só ganhou força nos momentos finais, sobretudo após o episódio dramático da tentativa de prisão (“condução coercitiva”) do ex-presidente Lula. Só aí começou a ser forjada a necessária unidade diante do inimigo comum, que precisa ser preservada para a desobediência civil cotidiana ao governo ilegítimo.

A estratégia de acomodação mostrou-se particularmente equivocada no que se refere aos meios de comunicação de massa. Os governos de Lula e Dilma promoveram avanços muito tímidos na área e recuaram na defesa da democratização da mídia, temendo a reação das empresas do setor. Nem por isso conseguiram um mínimo de neutralidade da grande imprensa, que foi participante ativa do golpe, por meio da manipulação da informação. O protagonismo da mídia na crise política mostra que para as forças progressistas é crucial promover um ambiente de informação mais plural, em que a agenda possa ser disputada. Não basta fazer circular interpretações alternativas da pauta dos meios hegemônicos, como hoje faz a imprensa alternativa, sobretudo na internet. É necessário haver uma articulação que permita dar ressonância a uma agenda informativa diferente. 


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