Eleições na Itália, um país dividido em três - Le Monde Diplomatique

BERLUSCONI ESTÁ DE VOLTA?

Eleições na Itália, um país dividido em três

Acervo Online | Itália
por Paula Rettl
Março 2, 2018
Imagem por Wasfi Akab
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Mesmo antes da formação do governo já é possível tirar algumas conclusões sobre o que essa campanha eleitoral significa para o futuro da Europa e da Itália

As eleições legislativas na Itália acontecem no próximo domingo após uma campanha eleitoral marcada por manifestações fascistas e antifascistas e por uma grave crise migratória.

Desde o início, o foco da campanha eleitoral é a crise migratória. Essa tendência foi aprofundada por dois eventos trágicos. No fim de janeiro, o corpo mutilado e nu de Pamela Mastropietro, uma jovem romana, foi encontrado nas redondezas de Macerata, uma cidade das Marcas, região do centro-norte da Itália. Até o momento, os acusados são três jovens nigerianos. Dias mais tarde, um rapaz fascista de 28 anos, Luca Traini, atirou em diversos imigrantes alegando que assim vingaria Pamela. Após esses trágicos eventos, uma série de manifestações fascistas e antifascistas se proliferou em diversas cidades italianas. À questão da crise migratória se uniu a da segurança nacional como principais focos da campanha.

Tais fatos favoreceram a xenófoba coalizão de direita que tem defendido a expulsão de imigrantes ilegais, dado diversas declarações racistas e afirmado repetidamente “primeiro os italianos”. De fato, as últimas sondagens apontam para um resultado favorável à coalisão de centro-direita que deve chegar em primeiro lugar com aproximadamente 37% dos votos; seguida pela coalizão de centro-esquerda e pelo Movimento 5 Stelle (M5S) liderada pelo jovem Luigi di Maio de 31 anos, ambos com aproximadamente 27% dos votos.[1]

Vale lembrar que a coalizão de centro-direita é liderada por Silvio Berlusconi do Forza Italia, o qual se pensava não tornaria tão cedo a envolver-se diretamente em política, já que uma condenação por fraude fiscal o impede de ocupar cargos públicos até 2019. Berlusconi, contudo, argumenta que ele não poderia deixar a Itália nas mãos dos populistas, isto é: do M5S, e por isso assumiu o papel de mediador dos partidos de centro-direita, formando então a coalizão de centro-direita. Esta tem como segunda força política o partido nacionalista e eurocético de Matteo Salvini, a Lega – antiga Lega Nord [Liga Norte] – partido pelo qual Luca Traini teria sido candidato para Câmera Municipal de Corridonia, uma cidade de apenas 15 mil habitantes nas redondezas de Macerata. Além disso, compõe também essa coalizão o partido pós-fascista de Giorgia Meloni, o Fratelli D’Italia.

Enquanto isso, as propostas do M5S continuam, como sempre, muito genéricas e mudam conforme a opinião pública, com a diferença de que nesta campanha eleitoral o partido, que gosta de ser chamado de movimento, adotou algumas posições mais institucionais. Por exemplo, Luigi di Maio numerosas vezes afirmou ter voltado atrás no que se refere à proposta de saída da Itália da zona euro.

Já o PD, partido atualmente no poder liderado por Matteo Renzi, tenta fazer face ao crescimento da centro-direita e do M5S propondo uma maior participação da União Europeia na crise migratória e repetindo que a atual melhora econômica é resultado das reformas feitas pelo seu governo.

Dado que as previsões indicam que nenhuma dessas três forças obterá a maioria dos votos nas urnas, é provável que na próxima segunda-feira observemos uma Itália dividida em três, com o início das negociações para formar um governo de maioria. Existem muitas dúvidas sobre que aliança política poderá ser formada.

Uma hipótese é que a coalizão de centro-direita composta principalmente por Forza Italia – tradicionalmente pró-União Europeia – e a Lega – partido fortemente eurocético – se dissolva. Nesse caso, é possível que Forza Italia forme uma aliança com a coalizão de centro-esquerda liderada pelo PD. Contudo, recentemente Berlusconi declarou em resposta a alegações de que a colisão de centro-direita seria apenas uma estratégia eleitoral que Forza Italia não formará nenhuma outra coalisão após as eleições.

Já uma coalisão entre o M5S e o PD ou entre o M5S e Forza Italia é improvável dado não somente o profundo e permanente desacordo entre esses partidos, mas também pelo fato de que a própria força política do M5S deriva do seu posicionamento antiestablishment e anti-partidos; e o que há de mais establishment do que Renzi e Berlusconi?

No limite, se nenhuma colisão de maioria for formada, novas eleições podem ser convocadas. Todas essas questões serão respondidas até o início de abril, data limite para a formação de um governo de maioria.

Mesmo antes da formação do governo já é possível tirar algumas conclusões sobre o que essa campanha eleitoral significa para o futuro da Europa e da Itália: a confirmação de algumas tendências observadas também em outros países europeus como a França e a Áustria. Em primeiro lugar, também na Itália se observa o crescimento de sentimentos nacionalistas, xenófobos e antiestablishment, que se reflete nas urnas. Além disso, observa-se uma ruptura da conexão entre performance econômica e suporte do partido no governo.

Contudo, a Itália possui também a suas particularidades, isto é: mesmo após uma campanha fortemente marcada pelo tema da imigração e pela campanha antiestablishment do M5S, o PD não sai tão enfraquecido desta batalha como o saiu, por exemplo, o Partido Socialista francês em eleições cujas questões em voga não eram assim tão diferentes. Talvez esse resultado não tão catastrófico graças a uma característica do sistema político-eleitoral italiano, que garante uma grande pluralidade na representação, mas pouca estabilidade política. Em todo caso, também na Itália se fala sobre a necessidade de refundar a esquerda, mas sem nenhuma força política importante em vista.

 

*Paula Rettl é doutoranda em Políticas Públicas e Administração Pública pela Universidade Luigi Bocconi (Milão).

[1] Segundo a Termometro Politico: https://www.termometropolitico.it/sondaggi-politici-elettorali



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