MUDANÇA NOS COMITÊS DE DEFESA DA REVOLUÇÃO

Em Cuba, José não se levantou…

Enquanto Havana sai lentamente de seu isolamento tanto diplomático quanto econômico, a evolução do papel e do funcionamento dos Comitês de Defesa da Revolução (CDRs), por muito tempo consagrados a uma forma de vigilância da população, ilustra o modo como os cubanos se adaptam à nova situação

por: Marion Giraldou
4 de fevereiro de 2016

 

Diante das campanhas de agressão do imperialismo, nós vamos introduzir um sistema de vigilância coletiva revolucionária; que todo mundo saiba quem é quem e quem faz o que dentro das casas, e qual relação teve com a tirania…” Em 28 de setembro de 1960, após atentados assassinos na ilha, Fidel Castro anunciou a criação dos Comitês de Defesa da Revolução (CDRs), estruturas de base organizadas na escala de um prédio ou, no máximo, de um grupo de casas. Com um objetivo: proteger e servir à revolução cubana contra a potencial invasão dos contrarrevolucionários apoiados e financiados pela Central Intelligence Agency (CIA). Menos de dois anos depois de seu “triunfo” em 1959, Castro não tinha dúvidas: o povo constitui uma força militante-chave para defender a revolução. Afinal, a população não tinha acabado de se levantar junto a um punhado de “barbudos” por muito tempo isolados na Sierra Maestra?

Em 1961, os CDRs participaram ativamente da resistência contra a tentativa de invasão norte-americana da Baía dos Porcos. Organizar a resistência às agressões estrangeiras levou, no entanto, rapidamente, a enquadrar a vida cotidiana dos cubanos: no seio dos comitês, todos eram encarregados de aprender a conhecer o vizinho, de modo a poder denunciar os indivíduos suspeitos de terrorismo ou de espionagem.

A essa tarefa inicial de enquadramento da população e de vigilância diante das sabotagens e das agressões vieram se juntar outras, na ótica de apoiar as grandes causas da revolução: campanhas de alfabetização, de vacinação, de ajuda às vítimas de um ciclone, elaboração das listas de candidatos para as eleições provinciais e legislativas etc. Os CDRs tomaram então a forma de uma correia de transmissão entre o Estado e a população: eles comunicavam as necessidades e as diretrizes do Estado às populações e, inversamente, permitiam que informações sobre a população chegassem às instâncias dirigentes. Da escala do grupo de casas à da nação, passando pela “zona” (o equivalente a um bairro), o município e a província (equivalente a um estado), existem ainda hoje mais de 130 mil núcleos agrupando cerca de 8 milhões de cidadãos cubanos maiores de 14 anos, ou seja, quase a totalidade da população. A proporção se manteve estável desde sua criação.

No entanto, a afiliação não é obrigatória, como ressalta Eloisa,1 eleita para a presidência de um CDR no bairro de Altahabana, um cargo para o qual não é necessário ser membro do Partido Comunista Cubano (PCC). Há quase dez anos, ela é anualmente reeleita pela vizinhança. Como seu trabalho é muito apreciado, o cargo de presidente de CDR não é remunerado e nenhum imperativo legal a impede de se recandidatar, é provável que ela mantenha seu posto ainda por muitos anos. Como explicar que em seu prédio todos os moradores com mais de 14 anos, ou seja, quarenta pessoas divididas em 24 apartamentos, sejam membros do CDR? A pergunta a desconcerta: “O CDR existe para proteger os moradores; por que alguém não desejaria se afiliar?”.

A adesão pode, contudo, se explicar por outras motivações. A maioria dos cubanos com mais de 30 anos conheceu de perto ou de longe uma pessoa cujos estudos ou a carreira foram interrompidos em razão de uma implicação em seu CDR julgada “muito pouco revolucionária”. Em 2001, Vilma, uma jovem que trabalhava no turismo e fazia estudos nesse setor, justificava assim sua participação na tradicional manifestação de 1º de maio. Ela estava perfeitamente consciente de que nada a obrigava a ir, mas também sabia que se não fosse isso poderia prejudicar sua carreira.

Os centros de trabalho pedem frequentemente uma carta de recomendação do CDR na qual está mencionado um futuro funcionário. Essa carta, nos explica Eloisa, testemunha o papel dos comitês na vida cotidiana dos cubanos: “Como presidenta, eu conheço as pessoas do meu prédio, somos uma grande família”. Ela seria então, na lógica do sistema, designada a ter um julgamento sobre a moralidade, a honestidade, a seriedade, em suma, as qualidades do candidato. É sem dúvida uma das razões pelas quais, quando seu CDR organiza uma sessão de “trabalho voluntário” (cortar a grama na frente dos prédios, pintar uma fachada, vigiar uma Bodega2 nos dias de entrega de produtos eletrônicos etc.), José, um adolescente do bairro, se questiona: “No que isso é voluntário, se é obrigatório?”. No entanto, audácia inconcebível quinze anos atrás, no mês de agosto de 2015 José não se levantou para ir cortar a grama.

Os CDRs então não exercem mais esse poder de intimidação que nos descrevia Vilma em 2001. As cartas de moralidade ainda existem – Eloisa as redige regularmente –, mas a implicação revolucionária não está mais revestida do mesmo significado. Assim, quando José quis se unir ao corpo de guardas do aeroporto, Eloisa e os membros do escritório valorizaram na carta de recomendação sua honestidade e seu rigor. Eles não mencionaram sua fraca contribuição ao CDR. Sua atitude não lhes pareceu “contrarrevolucionária”, como teria sido, sem dúvida, o caso há alguns anos.

 

“Domingo tem trabalho voluntário!”

O enfraquecimento progressivo da ameaça norte-americana, que traduz a reaproximação econômica e diplomática com os Estados Unidos, permitiu ampliar as funções dos CDRs. Uma evolução pode ser observada por meio das escolhas que efetuam os dirigentes em escala local. Um presidente vai trabalhar para garantir a segurança de seu conjunto de casas; será então preciso organizar turnos de guardas noturnos. Outro, preocupado com a educação, vai criar uma monitoria para auxiliar nos deveres de casa. Eloisa se diz particularmente sensível à proteção dos mais vulneráveis: idosos, diabéticos, gestantes etc. Ela também verifica as vacinações e conhece o grupo sanguíneo do conjunto de seus “cederistas”, a fim de poder responder rapidamente a um pedido do Ministério da Saúde em caso de coleta de sangue devido a um acidente, por exemplo.

Os CDRs respondem também às dificuldades do cotidiano. O abastecimento de água, o transporte e a moradia são um problema geral em Havana. Em alguns bairros, essas questões se transformam num quebra-cabeça que gera frustração, às vezes raiva. Mas aqui, nada de manifestações na rua: o protesto obedece a uma rotina bem calibrada. Os comitês informam os delegados de bairro das dificuldades encontradas. Nas crises graves que atingem o conjunto da comunidade, como diante de destruições provocadas por ciclones, os delegados informam por sua vez o governo municipal, para que este resolva o problema; o Estado providencia o material. Porém, na maioria dos casos, os CDRs devem se encarregar de encontrar as soluções sozinhos. Em Altahabana, a água corrente funciona de maneira intermitente. Muitos prédios se dotaram de reservatórios que se enchem quando a água corrente chega. Quando acontece a inevitável interrupção, os moradores acionam um motor que permite bombear a água desse reservatório e abastecer os apartamentos. Geralmente ele é ligado a partir das 17 horas, para que todos possam ter água ao voltar do trabalho.

No CDR de Eloisa, o responsável pelo motor se mudou em agosto de 2015. A presidenta então reuniu os membros do CDR. Em regra, as convocações são feitas no boca a boca. Ouve-se, por exemplo, Eloisa gritar a Maricel de sua janela: “Compañera, domingo tem trabalho voluntário, vamos limpar os jardins da frente do prédio”. Mais tarde, Maricel, que discute na beira da porta com Ana, a vizinha, cruza com Mercedes e transmite a informação, e assim vai. Em menos de duas horas, as quarenta pessoas estão informadas, o que não garante, no entanto, a presença de todos. Raramente vemos mais do que umas dez pessoas se levantarem no domingo de manhã para limpar, desentupir, pintar… Eloisa explica que não se deve contar com os “jovens que saem no sábado à noite, com os idosos, com os pais de filhos pequenos”. Quando a presença de todos é necessária, o melhor é passar em cada casa para convencê-los a vir: “É preciso que as pessoas se sintam implicadas, explicar para elas por que devem se mobilizar. Ser presidente de CDR é um trabalho pedagógico”.

 

Para a reunião sobre a delicada questão da água, dezessete pessoas apareceram, ou seja, uma por apartamento, se não contarmos aqueles que não podem se deslocar ou trabalham. A reunião aconteceu no jardim. Eram 18 horas; todo mundo chegou, mas a reunião demorou a começar. As conversas privadas estavam animadas. O tempo estava bom – nesse horário o sol está fraco – e só faltava um aperitivo para completar o quadro de uma refeição comunitária. Eloisa logo chamou a assembleia; a reunião pôde enfim começar.

A presidenta pediu inicialmente a todos que fechem bem as torneiras, principalmente quando não há água. Todos ainda se recordam da inundação causada há alguns dias por Marcelo, que tinha deixado a torneira aberta quando a água foi cortada. Quando a água voltou, a varanda de Mercedes foi transformada em piscina. As piadas estavam animadas; Marcelo as aceitava com resignação. Depois finalmente Eloisa entrou no assunto – a responsabilidade é chata. O voto aconteceu e sua candidatura foi aceita unanimemente.

Alguns CDRs continuam a ser concebidos como essencialmente encarregados de reagir aos ataques do “imperialismo”. A vigilância permanece um dos aspectos mais importantes de sua missão. Mas ainda nesse ponto a situação evoluiu.

Desde a chegada ao poder de Raúl Castro, ser um “bom revolucionário” não implica mais uma luta feroz contra o imperialismo. Ao contrário: a população foi convidada a tomar consciência dos aspectos positivos da reaproximação com os Estados Unidos (fim do boicote, aumento do turismo etc.). Trata-se de “desdemonizar” o velho inimigo a fim de fazer a nova política ser aceita. Mas essa reaproximação suscita a desconfiança de uma parte da população, como testemunha a atitude de alguns presidentes de CDR.

Já faz três anos que Vladimir, artista franco-cubano residente na França, organiza um festival de arte urbana nas ruas de Altahabana. Até 2014, ele se contentava em obter a autorização dos presidentes de CDR para realizar afrescos murais, organizar oficinas com crianças, shows, espetáculos etc. Todas as edições tiveram grande sucesso, mobilizando, além dos artistas do bairro, as crianças e toda a população.

 

Mudança de espírito

No mês de agosto de 2015, Vladimir e Rancel, outro artista, já tinham realizado várias pinturas murais em diversos prédios quando decidiram pintar um cachorro louco, acompanhado das palavras: “O que você vai fazer?”. Em alguns minutos, as crianças do bairro se juntaram. Cada um fazia um comentário. Rapidamente, compreendendo que a obra seria imponente e que sua realização tomaria certo tempo, o público se instalou. Cervejas e garrafas de Tukola (o refrigerante “made in Cuba”) apareceram. O cachorro, porém, mal estava rascunhado e as letras mal estavam traçadas quando o presidente do CDR chamou a polícia e pediu aos artistas que fossem embora. Para ele, o desenho era contrarrevolucionário: ele atacava o processo de normalização das relações entre os Estados Unidos e Cuba. O público que assistia a essa discussão surrealista tomou o partido dos artistas e tentou convencer o presidente de que sua análise estava errada. Assim que chegou, a própria polícia se perguntou por que tinha sido chamada. No calor da tarde cubana, os temperamentos começaram a esquentar e o tom subiu. Vladimir e Rancel decidiram abandonar sua pintura e se dirigir à autoridade superior: a delegada do bairro.3 Sob as vaias do público, o presidente se apressou, por sua vez, em pintar a parede com um slogan revolucionário bem conhecido pelos cubanos: “Siempre en 26 [de Julio]”.4

A multiplicidade dos caminhos empregados pelos dirigentes de CDR demonstra que esses comitês não podem mais ser pensados como entidades políticas congeladas. Ao contrário: suas escolhas e seu modo de funcionamento dependem muito mais do que antes das pessoas que os compõem e em particular de seus presidentes. Depois de ter simbolizado durante tantos anos o aspecto mais repressivo do regime cubano, será que os CDRs poderiam se tornar o primeiro laboratório de uma forma de expressão popular?

*Marion Giraldou é doutora em História.


1  Os nomes foram modificados.

2 Nome dado às lojas nas quais são distribuídos os produtos vendidos com os livretos de racionamento (libreta).

3 Eleito a cada dois anos e meio, o delegado de bairro faz a ligação entre a população local e o governo municipal para os problemas que dizem respeito a toda a comunidade, e não apenas a um CDR.

4 O dia 26 de julho é uma das festas mais importantes de Cuba. Ela comemora o ataque do quartel general de La Moncada em Santiago de Cuba pelas forças revolucionárias de Fidel Castro em 1953.

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