MUTAÇÕES

Entre dois mundos

O ciclo de conferências Mutações – Entre Dois Mundos, que reúne filósofos brasileiros e franceses, vai percorrer cinco capitais para comemorar trinta anos de experiência do pensamento

por: Adauto Novaes
31 de agosto de 2016

Um aspecto chama atenção quando se pensa nos trinta anos de ciclos de conferências: o surgimento, no meio desse percurso, de fatos novos, inteiramente novos, sem precedentes e sem exemplos, sem ligação com o passado, o que define o início de uma grande mutação. Essa mutação abalou de forma radical toda a vida social e política. Entre o primeiro ciclo de conferências, Os Sentidos da Paixão (1986), e o último, Mutações – Entre Dois Mundos (2016), houve uma revolução que pôs em questão o próprio pensamento: o mundo viu o nascimento de formas estranhas, enigmas jamais pensados, problemas inteiramente novos, invenções que moldam espíritos e costumes, novidades incoerentes e “experiências extravagantes”. Na política, o surgimento do que se pode definir como a era da indiferença resignada. Com o elogio do veloz e do volátil, “passamos a não mais suportar a duração”, como escreveu o ensaísta Paul Valéry ao analisar um momento infinitamente menos veloz. Foi entre dois mundos, “um que ainda não acabou; outro que está apenas no começo”, que os ciclos de conferências navegaram durante trinta anos.
Mas como definir esse trabalho que envolveu mais de duzentos pensadores num momento em que os próprios conceitos eram questionados? Como buscar coerência em meio a tantas contradições? Um fragmento de Wittgenstein resume nossa ação coletiva: “Surpreendi-me muitas vezes ao me sentir orgulhoso por ter enquadrado uma pintura como devia ou por tê-la posto no lugar certo, como se eu mesmo fosse o autor da obra. Na realidade não era isso. Eu não estava ‘tão orgulhoso como se a tivesse pintado’, e sim orgulhoso como se eu tivesse ajudado a pintá-la, como se, por assim dizer, tivesse pintado um fragmento dela”. É essa imagem de reflexão coletiva que nos dominou ao longo dos mais de oitocentos ensaios publicados na série de conferências. Uma pintura que contém uma multiplicidade infinita de cores e formas. Um trabalho coletivo, dominado pela paixão da amizade.

1. A amizade. “[…] em uma república na qual todos os cidadãos são amigos da ciência e da especulação filosófica”, escreveu Henri Bergson, “eles seriam também amigos uns dos outros. Isso não quer dizer que a ciência põe fim às discussões e às lutas, mas que a discussão perde sua acidez […] Porque, no fundo, a ideia é amiga da ideia, mesmo da ideia contrária, e as dissensões graves decorrem sempre quando misturamos nossas paixões grosseiras e humanas às ideias…” Este foi nosso princípio ao longo dos ciclos: ser amigo até mesmo da ideia contrária. Como bem define Valéry, a amizade comporta liberdade absoluta dos julgamentos, fidelidade absoluta dos atos. Mas, para que isso pudesse acontecer, sempre imaginamos que o pensamento que devíamos partilhar com os outros não seria um alimento, mas um excitante tanto para quem lê quanto para quem escreve: “Quem ensina hoje filosofia”, diz Wittgenstein, “não escolhe para seu aluno o alimento ao seu gosto, mas aquele que é capaz de mudar seu gosto… Devo ser simplesmente o espelho no qual meu leitor vê seu próprio pensamento com todas as suas deformidades e com a ajuda do qual ele se possa refazer”.

2. As paixões. Em 1986, estávamos apenas saindo da ditadura. Por que abrir a série de ciclos com tema tão inusitado, as paixões? Para muitos, filhos do dogmatismo, os sentidos eram movimentos ilusórios e irracionais apenas. Perguntavam: por que falar de paixão quando o mais urgente seria estabelecer novas regras para a política? Queríamos fugir das “paixões grosseiras e humanas”. Mais: pensávamos com Alain: o que move o mundo talvez sejam as paixões. À pergunta “o que é a paixão”, ele respondia: é uma mistura de ideias, de cóleras e desejos. Ora, pensamos que a cólera, o ódio, a ambição, o ciúme, o fanatismo, o medo, a avareza constituem um desregramento do pensamento e uma barreira à consciência política. Sabemos que esse desregramento não está propriamente no pensamento, mas principalmente em nosso corpo e nossos humores, que são armas letais na relação cotidiana. Todos os nossos movimentos são sinais de algo, da mesma maneira que nossos gritos de ódio ou espanto são espécies de palavras e “pensamentos”. Aprendemos, pois, com Alain, leitor de Descartes, que as perturbações das paixões, ainda que quase sempre acompanhadas de pensamentos, nascem e se mantêm segundo a mecânica e a fábrica do corpo e se transformam em crenças, imagens sem objeto. O espírito livre é aquele que procura destruir por diversos meios “as causas imaginárias dos males reais”, como definiu Valéry, que abriu caminhos em nossos ciclos. Assim, discutindo as paixões, fomos, naquele momento, 1986, um pouco na contramão, quando boa parte dos intelectuais pensava apenas na questão do poder.

3. As mutações. A série sobre as mutações foi um salto radical, iniciada há dez anos. O espírito geral da série define-se pela crítica de um mundo decadente e pela procura de elementos que levem a pensar o novo mundo. Partimos da ideia geral de que o que acontece hoje não é propriamente uma crise, e sim uma mutação, transformações radicais em todas as áreas da atividade humana – conceitos, política, mentalidades, costumes, normas morais etc. Mais: essas mutações são produzidas, essencialmente, pelas revoluções tecnocientífica, biotecnológica e digital. Uma revolução, portanto, fora dos moldes da tão esperada revolução humanista. Buscávamos uma experiência do pensamento que fosse incompatível com as experiências das certezas técnicas e científicas.
Eis a questão central: como pensar a experiência em um mundo que tenta abolir a própria ideia de experiência? Como pensar o pensamento em um mundo estruturado na técnica, ou seja, momento em que se opõem ciência saber e ciência poder?
Uma frase de Heidegger serviu de ponto de partida para entender o enorme problema que vivemos hoje: “a ciência não pensa”. “Essa frase significa: a ciência não se move na dimensão filosófica… A ciência não pensa, pois; ela nem mesmo pode pensar neste sentido com seus métodos. Não posso dizer, por exemplo, com os métodos da física o que é a física. Só posso pensar o que é a física à maneira de uma interrogação filosófica. A frase a ciência não pensa não é uma crítica, mas simples constatação da estrutura interna da ciência: é próprio de sua essência que, em parte, ela dependa daquilo que a filosofia pense, mas, de outra parte, ela esqueça e negligencie o que exige ser pensado.”
Por outros caminhos, Valéry chega à mesma constatação. Quase como uma obsessão, o poeta e ensaísta escreveu inúmeras vezes a célebre frase, bem no estilo de Heidegger: “É preciso denominar ciência apenas o conjunto das receitas que funcionam sempre”. No ensaio Balanço da inteligência, ele diz: “tudo o que sabemos, isto é, tudo o que podemos, acabou por opor-se a tudo o que somos”. Isso quer dizer que a ciência poder liga-se, necessariamente, à ideia de potência, e não à busca da essência das coisas. As mutações conduzidas pelas tecnociências se dão, pois, no vazio do pensamento.
E assim Valéry pôde concluir que a ciência poder é o princípio do empobrecimento da inteligência e da sensibilidade. “O saber que se encerra no poder será uma fonte de miséria e exasperação.” Portanto, “o próprio desenvolvimento das ciências tende a diminuir a noção do Saber”. A potência, uma vez liberada, volta-se contra o próprio espírito. Explorando, de maneira metódica, racionalmente, todos os recursos em todas as áreas da atividade humana, a ciência tende a suprimir a própria ideia de civilização tal como ela se pensou até meados do século XX. Por ironia, um trabalho do espírito que tende a abolir o próprio espírito: uma civilização que se abole a si mesma. É o mesmo movimento de autodestruição que, no espírito dos homens, abole o pensamento. Lemos nos famosos Cahiers sombrios pensamentos sobre o que seria da humanidade quando a ciência “terá reduzido tudo o que é possível aos homens em receitas precisas, o que o levará ao cúmulo da potência e do desespero”.
Eis algumas de uma multiplicidade de ideias que nos nortearam nos trinta anos de ciclos de conferências.
Informações e inscrições: www.mutacoes.com.br.
Este novo ciclo tem o patrocínio da Petrobras, copatrocínio do Banco do Desenvolvimento de Minas Gerais, apoio da Embaixada da França e realização de Artepensamento e Sesc-SP.


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