Dossiê 9

O que estamos aprendendo nos dias de hoje é que os Estados não se movem pela defesa dos direitos humanos. Eles obedecem à lógica do acúmulo e manutenção do poder. Aprendemos também que as guerras chamadas humanitárias têm muito pouco de humanitárias.

Sempre é possível comparar situações semelhantes em contextos diferentes: no caso da Líbia, por exemplo, as forças da Otan, Estados Unidos à frente, se posicionaram em apoio à revolução. Aí estava em jogo garantir um futuro governo alinhado com os interesses ocidentais, garantindo o indispensável fluxo do petróleo para irrigar suas economias. No caso do Bahrein, algo muito emblemático, as forças da Liga Árabe que ocuparam o país, sob orientação dos EUA, se posicionaram contra a revolução e em apoio ao governo ditatorial, mas para quê? De novo, para garantir o indispensável fluxo do petróleo da região para irrigar suas economias. E para isso é indispensável garantir também sua posição de força na região. Dois pesos, duas medidas.

A revolta no Bahrein começou em 14 de fevereiro de 2011. O regime entrou em pânico e nem o gesto do emir de libertar 450 presos políticos e oferecer um bônus de R$ 2.600 para cada família adiantou. O Estado então desencadeia um ataque violento e instala o terror para impedir que o movimento de protesto cresça e ameace o regime. Com o aumento dos protestos a polícia ataca a ocupação da Praça da Pérola, causando centenas de feridos e dezenas de mortos. O governo impõe o estado de
emergência utilizando armamento pesado, tanques e blindados. Os militares do Bahrein assumem o controle da maior parte da capital depois que centenas de policiais fortemente armados dispararam contra a população desarmada.

É o medo da revolução árabe, que chega com força aos países do Golfo, região que concentra as maiores reservas de petróleo do mundo.
Para enfrentar as manifestações populares, a Liga Árabe – Arábia Saudita, Kuwait, Omã, Qatar e os Emirados Árabes – envia um forte contingente militar, agentes de segurança e blindados para apoiar o regime ameaçado.

E o governo do Bahrein, com apoio dos EUA e dos países da Liga Árabe, desencadeia então uma violenta repressão contra os manifestantes na capital da nação, com tanques e helicópteros, matando pelo menos duas pessoas e ferindo centenas.

Não podemos terminar sem mencionar que o Bahrein abriga a 5ª Frota dos Estados Unidos, com 6 mil militares, numa posição de frente ao Irã e próximo à Arábia Saudita, maior produtora de petróleo do mundo. Essa frota, armada de porta-aviões, destroieres e submarinos, tem um raio de ação que vai do Egito, à Rússia e à China. Em nome dos direitos humanos garante que a região ofereça o indispensável fluxo do petróleo

13 de Janeiro 2012
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por Silvio Caccia Bava

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