Fico Eataly, o maior parque gastronômico do planeta - Le Monde Diplomatique

SEIS MILHÕES DE VISITANTES SÃO ESPERADOS ATÉ 2020 EM BOLONHA

Fico Eataly, o maior parque gastronômico do planeta

por Jean-Baptiste Malet
Janeiro 8, 2018
Imagem por Bruno Maron
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Os pequenos comércios italianos vivem uma verdadeira hecatombe. Uma crise que não afeta muito os fundadores do Fico Eataly World, em Bolonha: inaugurado em novembro de 2017, o parque de diversões gastronômico celebra uma Itália de cartão-postal, para a felicidade das transnacionais

Grandes pórticos semelhantes aos de um parque de diversões anunciam a entrada do Fico Eataly World, construído no meio de uma zona comercial da periferia de Bolonha (Emilia-Romagna), onde se encontram grandes lojas de bricolagem, artigos esportivos, luminárias e brinquedos. Atrás de barreiras controladas por câmeras de segurança, o local ocupa uma área de 10 hectares. Oito são cobertos por 44 mil placas solares e, ao redor, dois abrigam pequenas áreas cercadas para animais, além de dois minijardins. Acima das catracas da entrada principal, o visitante é acolhido por uma parede alta formada por prateleiras em que estão minuciosamente alinhadas várias centenas de maçãs. A instalação foi financiada pelo Melinda, consórcio especializado em arboricultura frutífera cujo montante de negócios chegou a mais de 255 milhões de euros em 2015. “Na Europa, existem mais de 1.200 variedades de maçãs: mil na Itália e duzentas no resto da Europa. Foi por isso que fizemos o Fico”, diz uma placa. “São frutas de verdade”, salienta com um sorriso Silvia Zanelli, responsável pela área de comunicação do parque. “Trocamos as frutas de quinze em quinze dias. O Fico é um parque sustentável e ecológico, engajado contra o desperdício. Por isso, não jogamos fora as maçãs velhas. Nós as doamos para obras de caridade.”
Chamada pela mídia francesa de “Disneylândia da gastronomia” (France Info, 15 nov. 2017) e de “parque de diversões agroalimentar” (Le Figaro, 14 nov. 2017), o Fico, “figo” em italiano, é o acrônimo de Fabbrica Italiana Contadina. Esse “ateliê camponês italiano” reúne, sob sua égide, a Electrolux, o café Lavazza, os tratores New Holland, as conservas de tomates Mutti, a Samsung, o consórcio da mortadela de Bolonha, a Whirpool, os móveis Kartell, as cafeteiras Alessi e, entre tantas outras, o gigante dos laticínios Granarolo. O parque foi inaugurado em 15 de novembro de 2017 na presença do primeiro-ministro italiano, Paolo Gentiloni, dos ministros do Meio Ambiente, do Trabalho, das Políticas Agrícolas e ainda da Cultura e do Turismo, assim como por mais de 150 diretores de empresas, entre eles Oscar Farinetti, fundador e diretor da rede de distribuição de produtos alimentícios Eataly, que dá nome ao parque.

Lojas nos Estados Unidos, Brasil,
Catar, Japão…
Herdeiro da UniEuro, uma cadeia de supermercados especializada em eletrodomésticos fundada por seu pai, Farinetti a vendeu em 2003 para fundar o Eataly no ano seguinte. Na península, o empresário bigodudo tornou-se herói de uma verdadeira lenda, a de uma empresa vitoriosa, capaz de triunfar mesmo com o marasmo econômico do país, exportando produtos agroalimentares para lojas e restaurantes espalhados no planeta. A rede Eataly conta com pontos de venda nos Estados Unidos, no Catar, na Arábia Saudita, no Brasil, na Alemanha, no Japão, na Turquia, na Coreia do Sul e ainda nos mares, via diversos cruzeiros da companhia MSC. A inauguração do Fico Eataly World na presença dos mais altos dirigentes políticos e industriais italianos ganhou, para Farinetti, ares de coroação de um novo “Rei dos Negócios”, cujo retrato se encontra fixado, a partir de agora, na cobertura das grandes lojas, assim como nas grandes publicidades dos aeroportos.
Na entrada, sob as maçãs, estão estacionadas centenas de triciclos azuis “unidos na Itália” por outra empresa parceira, a montadora de bicicletas Bianchi. Para usá-los, apresentamos um documento de identidade. O veículo, na frente e atrás, é equipado com cestas de madeira. “Com esses triciclos planejados pelo Fico, cada um pode se deslocar facilmente na imensidão do parque e transportar tranquilamente suas compras”, diz a assessora de imprensa. “Investimos 120 milhões de euros e estimamos que, se todos os visitantes gastarem um mínimo de 20 euros durante a visita, o parque será rentável.” O objetivo é atingir 6 milhões de visitantes até 2020: um terço proveniente da região, um terço do resto da Itália e um terço do exterior. Dentro dele, como recepção, grandes carrosséis enfeitados com cartazes apresentam os principais valores do parque: “1. Trabalhamos para a Itália. 2. Aqui é um lugar autêntico. 3. Temos o que contar. 4. A Terra antes de tudo. 5. Dialogamos com o mundo. 6. Aprender enquanto se diverte. 7. Respeito e negócios”. Ou seja, a síntese perfeita de uma indústria agroalimentar italiana poderosa, que nasceu da “autossuficiência verde” sob o fascismo, adaptou-se perfeitamente ao neoliberalismo e não para de mobilizar um imaginário exótico, o da Itália dos cartões-postais. Pois, por mais impecáveis que possam ser as embalagens dos produtos agroalimentares made in Italy, muitos de seus ingredientes não têm nada de italiano. As estatísticas alfandegárias falam por si: embora a Itália tenha exportado, em 2016, uma quantidade considerável de massas (2,19 bilhões de euros), azeites puros (1,42 bilhão), café (1,29 bilhão) e queijo (2,26 bilhões), isso se deu graças às suas importações maciças de trigo (US$ 1,29 bilhão), azeite (1,39 bilhão), café (1,2 bilhão), leite, derivados do leite fermentados e leite concentrado (1 bilhão).
Nas primeiras pedaladas, o ciclista descobre, sob grandes luminárias de madeira, um templo de consumo de um gênero novo, onde inúmeros slogans pregam sem cansar em favor da defesa do meio ambiente, das “tradições”, da “gastronomia italiana” e da biodiversidade. “O respeito, isso é muito bom”, resume uma das placas. Grandes queijos redondos, embutidos variados, vidros de azeite e de vinagre balsâmico, garrafas de vinho ou de cerveja, caixas de biscoitos, balas, bombons, chocolates, conservas de todos os tipos: o Fico é, antes de mais nada, o maior shopping center agroalimentar do planeta. “Quisemos acabar com as barreiras”, explica a assessora de imprensa. “Aqui, somos sobretudo o templo do made in Italy. Nenhum país do mundo pode rivalizar com a gastronomia italiana. Portanto, este lugar é, ao mesmo tempo, um salão de exposição para a indústria agroalimentar, um lugar de comércio, de turismo, mas também um espaço para aprender enquanto se diverte”, salienta Zanelli.
No meio do universo fechado do Fico, como nos vastos hangares comerciais da [multinacional sueca de móveis] Ikea, não se pode escapar do percurso imposto. “A visita do Fico foi pensada para ser uma experiência”, afirma a assessora de imprensa. Aberto, o mapa do parque impressiona. Minúsculos personagens foram desenhados: eles jantam em um dos 45 restaurantes, participam de uma degustação dos produtos, praticam esporte em áreas reservadas para isso, assistem a uma aula de culinária dada por uma marca ou se divertem observando vacas e porcos em pequenos cercados de uma dezena de metros quadrados. Ou então veem os operários trabalhando em uma das quarenta unidades de produção aqui chamadas de “ateliês camponeses”. Epônimos do parque, esses ateliês são os símbolos da reinvenção do shopping center pelo Fico Eataly World. Depois de décadas de redução ou de eliminação das tarifas alfandegárias de importação, no momento em que a indústria alimentícia decompôs ao máximo seu processo produtivo a fim de integrar em seus produtos ingredientes de origens distantes, as pequenas unidades de produção do “ateliê camponês italiano” oferecem aos visitantes uma apresentação da produção com a reivindicação de um objetivo: recontar uma história pensada para que sua conclusão seja, na loja ao lado do ateliê, uma compra. O espetáculo, tranquilo e compreensível para todos, não é o de uma fábrica gigantesca e barulhenta: ele tem, como cenário, um ateliê do tamanho de uma grande cozinha e, como perfume, o de um bom pão quente.

Trezentas mil horas de trabalho não remunerado
De todos os estandes, o mais discreto é seguramente o da agência de trabalho temporário Randstad. Vamos ali para pedir um emprego. “A maior parte das pessoas que trabalha no Fico tem um contrato com a Randstad e passa por nossa agência”, informa uma das responsáveis pelo recrutamento. “Oferecemos apenas contratos mensais, semanais ou por dia. Isso pode significar de uma jornada até quatro meses. No momento, recrutamos garçons, cozinheiros, operadores e demonstradores.” Os empregados da loja de pastilhas de alcaçuz Amarelli, que conseguiram um contrato de quatro meses, e os do café Lavazza, um de três meses, são os mais favorecidos. Recrutadas por uma agência de comunicação, as jovens recepcionistas que distribuem as maçãs da marca registrada Pink Lady – que, conforme afirma o estande, se trata de uma “maçã tradicional”, embora seja resultado de um cruzamento recente protegido por certificado – assinaram contratos temporários por apenas algumas jornadas. “Peguei esse trabalho porque não tinha escolha”, explica uma das jovens usando um boné rosa. “Ninguém é idiota, o Fico está baseado inteiramente em nossa precariedade. Neste parque há alimentos para vender em toda parte, até não poder mais, mas eles não têm nada previsto para as refeições de quem trabalha aqui, nem sequer um vale-refeição. Eu faço vários trabalhinhos ao mesmo tempo. Quando não tenho tempo de comer, como hoje, ganho 43 euros por dia no Fico e gasto 12 para jantar um prato de alguma massa”. À precariedade dos trabalhadores maiores, soma-se o trabalho gratuito dos menores estagiários, a maior parte estudantes no setor de hotelaria ou na preparação de sanduíches e crepes. A Randstad e o Fico Eataly World previram empregar 300 mil horas de trabalho não remuneradas, fornecidas por 20 mil estudantes provenientes de duzentas escolas espalhadas no território italiano.1
No estande da Balocco, gigante dos biscoitos e do panetone, que realizou um montante de negócios de mais de 170 milhões de euros em 2016, uma frisa cronológica apresenta “a história universal do trigo”e conduz progressivamente o espectador desde o Egito antigo até a era capitalista e a criação da empresa. Deparamos aí com uma grande vidraça que nos permite ver uma pequena unidade de produção. Sob os flashs de turistas, os operários trabalham usando um chapéu de cozinheiro. Eles manipulam máquinas para produzir biscoitos. Do lado dos espectadores, dez letreiros simplificam para o público as etapas de fabricação. Na última etapa, a sinalização anuncia: “Não pare aqui. A viagem através da história continua. Na loja de doces, você vai respirar a atmosfera das primeiras confeitarias abertas em Fossano, por Francisco Antonio Balocco, em 1927. Você poderá descobrir nossas deliciosas especialidades”. No cenário de papelão se encontram uma velha balança e toda a gama de produtos da empresa – com exceção dos biscoitos que Balocco produz para as marcas de distribuidores como os da rede alemã de supermercados Lidl. De onde vem a farinha que entra na composição dos biscoitos? “Não sei”, confessa o responsável pela loja, onde estão empilhados livros cuja capa mostra um homem sorrindo. Sob o retrato do patrão Alberto Balocco, o título com letras maiúsculas: “Eu queria ser confeiteiro”.

*Jean-Baptiste Malet é jornalista e autor de L’Empire de l’or rouge. Enquête mondiale sur la tomate d’industrie [Império do ouro vermelho. Investigação global sobre o tomate industrial], Fayard, Paris, 2017.



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