A guarda pan-arábica de Al-Assad - Le Monde Diplomatique

OS NOVOS FILHOS DE GAMAL ABDEL NASSER?

A guarda pan-arábica de Al-Assad

por Nicolas Dot-Pouillard
Janeiro 9, 2018
Imagem por Daniel Kondo
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O regime sírio deve sua reconquista de terreno não apenas à Força Aérea russa, mas também às unidades estrangeiras que combatem por sua preservação: o Hezbollah libanês, as brigadas xiitas iraquianas e afegãs, e os quadros militares iranianos. Menos conhecida, a Guarda Nacionalista Árabe reivindica uma ideologia socializante e pan-arábica

Desde maio de 2013, a Guarda Nacionalista Árabe (GNA) mobiliza centenas e centenas de voluntários oriundos do Magreb e do Oriente Médio em apoio às Forças Armadas sírias. O número exato dessa corporação é mantido em segredo, mas Bassel al-Kharet, seu representante em Alepo, reconhecia em fevereiro de 2017 a morte de 150 “mártires” nacionalistas árabes na Síria, em quatro anos. No mês seguinte, a GNA informava também a morte de um de seus comandantes, Iyad Jabburi, de nacionalidade iraquiana, na província de Palmira, por ocasião de combates contra a Organização do Estado Islâmico (OEI). A guarda intervém igualmente em Homs e em Quneitra, no planalto do Golan sírio, mas é na Ghuta oriental, a leste de Damasco, que luta com mais vigor, apoiando a quarta brigada do Exército governamental nos choques contra os diversos grupos de oposição.

Poderíamos estabelecer um paralelo entre os membros da GNA e essas dezenas de milhares de estrangeiros que vieram lutar na Síria e no Iraque ombro a ombro com a OEI e grupos jihadistas. Todos partilham ao menos três traços comuns: juventude, ideologia tenaz e vontade de pôr fim às fronteiras nacionais surgidas das grandes partilhas dos anos 1920. Utopia contra utopia: o que a GNA defende não é o projeto de uma nova cidade islâmica, mas “a resistência, a unidade árabe e o socialismo” – divisa oficial desse contingente pan-árabe.

Entretanto, seus modos de socialização política são diferentes e a crise síria não foi o início do engajamento dos nacionalistas árabes: eles se politizaram antes, no seio de formações que reivindicavam a herança do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser (1918-1970). O elo orgânico entre a GNA e a Organização dos Jovens Nacionalistas Árabes (OJNA) é explícito. Esta última, nascida no começo dos anos 1990 e sem sede oficial, conta com várias seções no conjunto do mundo árabe. Organiza anualmente acampamentos de jovens, com dezenas de participantes – o último aconteceu no Marrocos, em agosto de 2017. Os jovens nacionalistas árabes se inspiram num patrimônio intelectual saído diretamente dos anos 1950 e 1960, fruto de experiências socializantes e desenvolvimentistas (estatismo forte com base no progresso econômico e industrial). O pensador egípcio Ismat Saif al-Dawla (1923-1996), que articulava em seus escritos as perspectivas nasseriana, socialista e islâmica, continua sendo para eles uma referência capital.1 As teorias de Constantin Zureik (1909-2000) também são ensinadas aos membros da OJNA. Professor da Universidade Americana de Beirute (American University of Beirut, AUB),2 foi o inspirador, na década de 1950, do Movimento dos Nacionalistas Árabes (MNA), que deu origem, a partir de 1967, às principais formações de extrema esquerda libanesas e palestinas: Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), Partido de Ação Socialista Árabe e Organização de Ação Comunista no Líbano.

As redes da GNA e da OJNA são conectadas a organizações políticas legais em seus respectivos países. No Líbano, o Movimento dos Nasserianos Independentes (Al-Murabitun) lhes dá apoio. Essa formação, outrora ligada ao Fatah de Yasser Arafat, não tem nenhum parlamentar, mas se mostra ativa em vários movimentos: manifestações pela laicização do sistema libanês, conflitos sociais etc. Seu secretário-geral, o general Mustapha Hamdan, chefiou a guarda pessoal do presidente Émile Lahoud de 1998 a 2005. Suspeito de participação no assassinato do ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri, em fevereiro de 2005, ele ficou preso por ordem das autoridades libanesas até 2009, quando foi inocentado pelo Tribunal Especial para o Líbano (TEL). Hoje, Hamdan vai regularmente a Damasco e é um dos principais oradores nas reuniões públicas da GNA.

Nacionalismo sincrético

Na Jordânia, as redes da guarda se entrecruzam com as da Liga Nacionalista Árabe, movimento fundado por um ex-membro do Fatah palestino, Ibrahim Alluch. Na Tunísia, os Jovens Nacionalistas Árabes integram na maioria das vezes pequenas formações nasserianas que pertencem a uma ampla coalizão de esquerda radical – a Frente Popular, que conta com quinze deputados na Assembleia dos Representantes do Povo (ARP).

A guarda só foi criada em 2013, mas sua ideologia socializante segue um referencial que muitos acreditavam ultrapassado. Sua nostalgia em relação ao socialismo nasseriano esconde as fortes divisões que por muito tempo opuseram o partido Baas da Síria ao presidente egípcio – sobretudo por ocasião da efêmera República Árabe Unida (1958-1961). Mas o nacionalismo da GNA é sincrético. Assim, seu chefe militar, Dhulfikar al-Amili, foi em abril de 2017 a Qardaha, a aldeia alauita onde nasceu Hafez al-Assad, para reverenciar a memória do fundador da Síria baasista e pai do atual dirigente sírio. Seus cartazes, textos e comunicados celebram igualmente formações estranhas à sua ideologia original – o unionismo árabe deve também se acomodar à atmosfera dos tempos. O Hezbollah libanês continua sendo um modelo: não é visto como um movimento xiita ou libanês, mas como o exemplo de uma resistência regional a Israel e aos Estados Unidos. O Partido Sírio Nacional Social (PSNS), formação que se diz promotora da unificação de uma “Grande Síria”, de Jerusalém a Bagdá,3 mobiliza hoje vários milhares de combatentes sírios e libaneses em defesa do regime. Para a GNA, ele é um aliado natural, tanto quanto o Hezbollah. Ambos já se encontraram de vez em quando nas mesmas frentes militares. Única referência que continua estranha à GNA: a do ex-presidente iraquiano Saddam Hussein (1937-2006), cuja memória não aparece jamais em sua mídia. Não é de estranhar, pois a GNA apoia o partido Baas sírio, que por muito tempo travou uma guerra fria com seu alter ego iraquiano, do qual muitos adeptos se juntaram à OEI em nome da luta contra o Irã e os xiitas em geral.4

Campanhas políticas contra o “sionismo” ou o “wahabismo saudita” se juntam a seu ativismo armado. A GNA celebra anualmente a “Jornada da Terra”5 em companhia de partidos palestinos próximos do regime sírio. Lembra, em comunicados curtos, a sorte de Georges Ibrahim Abdallah, um ex-membro das Forças Armadas Revolucionárias Libanesas (Farl) encarcerado na França desde 1984; visitou escolas primárias e secundárias sírias em Alepo, depois da retomada do leste da cidade pelas tropas governamentais, em dezembro de 2016. E, enquanto o nacionalismo árabe é muitas vezes considerado um movimento puramente laico, a GNA apregoa sem descanso sua dimensão islâmica: vídeos postados nas redes sociais mostram seus combatentes recitando a Fatiha, a primeira surata do Corão. A guarda encabeça, nos bairros de Damasco, iniciativas populares previstas no calendário muçulmano: celebração do nascimento do Profeta do Islã, jantares ao fim do jejum do mês do Ramadã etc. Contrariamente ao que sucede na OEI, o novo partidário do nacionalismo árabe não deve ser apenas um indivíduo “conscientizado” politicamente, imbuído das teorias nasserianas ou baasistas: deve ser também piedoso. Talvez queira, além disso, competir com outras formações islâmicas em seu próprio terreno.

 

A questão da desmobilização

Após as reconquistas do verão de 2017, o problema da desmobilização e da volta aos países de origem já se coloca – como é o caso dos combatentes jihadistas. Em 13 de fevereiro de 2017, Nureddine Bhiri, ex-ministro da Justiça (2013-2014), deputado no Parlamento tunisiano e membro do movimento islâmico Ennahda, solicitou a abertura de uma investigação judiciária sobre os cidadãos tunisianos mobilizados em apoio ao regime de Bashar al-Assad. Ele conta com a ajuda de Imed Daimi, membro da comissão de segurança e defesa da Assembleia dos Representantes do Povo, ligada ao ex-presidente Moncef Marzuki. Nada mais justo: o movimento Ennahda, bem como seu ex-parceiro governamental, o Congresso pela República (CPR), têm sido acusados desde 2011 pela esquerda da Frente Popular de querer anistiar os jihadistas tunisianos que foram para a Síria e agora pretendem voltar ao país – quando não de ter, pura e simplesmente, favorecido sua partida. Eles devolvem a acusação: o histórico dos combatentes tunisianos na Síria não deve ser problema unicamente dos jihadistas, mas também da GNA, cuja proximidade com certos integrantes da Frente Popular está, a seu ver, comprovada.

A questão síria divide os antigos adversários de Zine al-Abidine ben Ali. Nada de novo: o CPR e o Ennahda apoiaram vigorosamente, desde 2011, a sublevação revolucionária síria, mas outros tomaram o partido do regime e seus aliados. É o caso da esquerda da Frente Popular e também de alguns setores sindicais da União Geral Tunisiana do Trabalho (UGTT), para não falar da direção dessa central, cujos responsáveis chegaram a visitar Al-Assad em Damasco, em julho último, para lhe confirmar seu apoio. Esse debate prosseguirá sem dúvida, futuramente, no Egito, no Líbano e na Jordânia.

 

*Nicolas Dot-Pouillard é pesquisador de Ciência Política em Beirute

BOX – Quatro brigadas com nomes simbólicos
Estabelecer um vínculo entre o passado e o presente é prioridade para a Guarda Nacionalista Árabe (GNA): o nome dado às suas quatro brigadas tem, assim, um valor simbólico.

A brigada Jules-Jammal alude a um oficial sírio responsável pelo afundamento de um navio francês por ocasião da crise de Suez em 1956, que opôs o Egito a uma aliança militar formada por França, Israel e Reino Unido. E quando, em 20 de novembro de 2013, um combatente egípcio da guarda tombou na Síria, um cartaz da GNA traçou um paralelo histórico imediato: se Jules-Jammal foi um sírio que se sacrificou pelo Egito em 1956, Abu Bakr al-Masri foi um egípcio que deu a vida pela Síria em 2013.

A segunda brigada da GNA ostenta o nome de Haydar al-Amili, pensador e militante nacionalista árabe morto em 2007, natural da aldeia de Kfar Melki, no sul do Líbano. Seu filho, Dhulfikar al-Amili, é o principal líder militar da GNA.

A terceira brigada da GNA alude mais explicitamente à história da esquerda árabe e a um de seus símbolos: a brigada Waddi-Haddad, do nome de um ex-líder da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP) – Operações Externas, responsável por vários sequestros de avião e morto na Alemanha Oriental em 1978.

A quarta brigada, enfim, lança uma ponte entre as antigas aspirações nacionalistas dos árabes e seu mundo atual: a brigada Mohamed-Brahimi (1955-2013). Essa referência lhe permite identificar-se com as revoluções de 2011: antigo adversário do presidente tunisiano Zine al-Abidine ben Ali, deputado e líder da Corrente Popular (uma pequena formação nasseriana que integra a coalizão de esquerda da Frente Popular Tunisiana), Brahimi foi assassinado em julho de 2013 por atiradores ainda desconhecidos, mas que a maioria dos tunisianos julga pertencerem à facção jihadista. (N.D.-P.)



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