Guerra civil na direita americana - Le Monde Diplomatique

A APARIÇÃO INESPERADA DE DONALD TRUMP

Guerra civil na direita americana

abril 4, 2016
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Como um megaincorporador imobiliário nova-iorquino casado três vezes conseguiu tornar-se tão popular no sul dos Estados Unidos, bastião da direita religiosa? A resposta vem do Alabama, onde os militantes do Partido Republicano enfrentam-se em torno da candidatura de Donald TrumpSerge Halimi


S
ábado, 27 de fevereiro, Mobile (Alabama). Três dias antes das primárias em vários estados do sul dos Estados Unidos, a reunião anual do comitê executivo do Partido Republicano do Alabama se dá em uma grande sala de um centro de convenções. Centenas de delegados participam. Cruza-se mais facilmente com um delegado negro do que com um partidário de Donald Trump. Paradoxo curioso num estado onde o bilionário de Nova York parece muito popular – o que ele confirmaria três dias depois vencendo por larga margem a eleição primária – e onde o Partido Republicano é composto quase exclusivamente por brancos.1

O nome de Trump não é pronunciado na tribuna. Mas ele está na cabeça de todo mundo. O sucesso de sua campanha afeta o futuro do partido. Cada eleição tem um ou dois candidatos de quem ninguém gosta; como, realmente, apreciar um homem tão antipático quanto Ted Cruz, senador do Texas? Quase nenhum de seus colegas consegue essa façanha. Mas com Trump a coisa é bem diferente. Trata-se daquilo que os manuais de administração chamam de “tomada de controle hostil”. Sucede que inúmeros republicanos, entre os quais a esmagadora maioria dos delegados do partido, não vislumbram nele nenhum assomo de ideologia, apenas narcisismo desenfreado e impulsos autoritários. O homem parece cuidar menos do “partido de Lincoln e Reagan” que da reputação de seus hotéis de luxo ou de sua marca de vodca. Nesse 27 de fevereiro, em Mobile, os quadros republicanos se entregam a um exercício meio desesperado ou, pelo menos, aleatório: reafirmar, pelo voto eletrônico, os fundamentos de seu partido, rezando enquanto isso para que Trump não faça das suas.

Para testar o funcionamento das urnas com as quais escolherão entre as diversas resoluções que lhes serão propostas, os cerca de trezentos membros do comitê republicano “elegem” primeiro seu filme de guerra preferido. Patton, rebelde ou herói? (1970) esmaga Pearl Harbor (2001). A seleção oferecida, tanto quanto o resultado, sugere que os quadros do partido gostam de grandes batalhas e preferem as vitórias.

Chega a vez das votações mais importantes: 76% querem que as próximas primárias do Alabama sejam “fechadas”, isto é, reservadas aos eleitores do partido (as deste ano foram “abertas”). Objetivo transparente: complicar em 2020 a vida de candidatos republicanos pouco ortodoxos como Trump, que chamam às urnas numerosos eleitores democratas ou independentes. Caso Trump, dono de vários cassinos, não entenda bem a mensagem, outra resolução se opõe a “toda forma de jogos de azar” no Alabama. O resto do programa da reunião é mais convencional: denúncias do “projeto destruidor de Barack Obama e Hillary Clinton”, lembrança do fato de que a eleição presidencial determinará o equilíbrio político da Corte Suprema, nova exigência de restrição ao direito de aborto, recusa persistente do controle das armas de fogo.

 

Do reality show ao extremismo

Na entrada da sala de reunião, numerosas mesas e painéis promovem os candidatos ainda na disputa no fim de fevereiro – Ted Cruz, Marco Rubio, John Kasich, Ben Carson –, distribuindo bótonse santinhos com o nome dos candidatos. Não há nada disso no caso de Trump. O malandro de Nova York parece contar com pouquíssimos fiéis entre os militantes republicanos, que já antecipam a catástrofe: em novembro, se ele for derrotado; um pouco depois, se ele for eleito…

No entanto, não é vilipendiando os muçulmanos que Trump incomoda mais. A moção n. 2016-06 propõe até que os Estados Unidos recusem asilo a todos os “refugiados originários de países que têm ligações com o Islã radical”. Um delegado republicano defende a medida: “Temos a impressão de que o mundo inteiro quer vir aos Estados Unidos para matar os norte-americanos”. A moção é rejeitada, com justiça.

No jantar que se segue (ruim, mas a US$ 150), dois terços dos garçons são negros e 98% dos convivas são brancos. Dessa vez, cada um dos candidatos mandou um representante. O de Carson é seu filho. Referindo-se implicitamente a Trump (que, não obstante, seu pai decidiria apoiar treze dias depois), ele começa o discurso citando a Bíblia: “Guardai-vos dos falsos profetas”. O porta-voz de Cruz bebe na mesma fonte, mas para insistir na constância ideológica de seu candidato: “Sereis julgados pelos frutos de vossas ações”. Já Rubio enviou um emissário de peso: Rick Santorum, bastante popular nos meios evangélicos. Ele mesmo, candidato em 2012, venceu as primárias no Alabama. Um representante local aparentemente pouco conhecido defende a seguir a candidatura de Trump: “O que ele tem de melhor é a capacidade de agitar as massas”.

Chega a vez do ponto alto (anunciado) da noite e a parte que sem dúvida custou mais caro aos organizadores: Clark Geist, um ex-agente de segurança privada na Líbia e agora conferencista de luxo, faz o relato pormenorizado – pormenorizado até demais para que alguém entenda grande coisa – do ataque desferido em setembro de 2012 contra o consulado norte-americano em Bengasi.2 Conclusão óbvia e unânime nessa noite: a negligência de Hillary Clinton, então secretária de Estado do presidente Barack Obama, foi responsável pela morte do embaixador John Stevens. Está dado o tom da campanha. Mas não por norte-americanos enfurecidos, vítimas da precariedade, do desemprego, das transferências de empresas para outros países: quase todos aqui pagaram do próprio bolso a viagem, o hotel e o jantar. Duas ou três semanas do salário mínimo local, US$ 7,25 por hora (o menor do país), mal dariam para cobrir essa despesa.

A aversão que Obama e Hillary despertam nas fileiras republicanas conseguirá superar a desconfiança que lhes inspira Donald Trump? Para Vaughn Poe, que preside um condado do partido no Alabama e tem por principal característica ser negro, o problema é mais complexo. A seu ver, a popularidade do incorporador de Nova York revelaria o poder conjunto do “reality show” e do “extremismo” sobre o eleitorado norte-americano. Dizer que ele está preocupado é pouco: “Adolf Hitler também era popular. E como tudo aquilo terminou? Se Trump for nosso candidato, ficarei muitíssimo envergonhado. Votar nele? Não, eu não faria isso pelo bem de meu país”. O professor de segurança digital na Universidade do Alabama acrescenta: “Meu quociente intelectual ultrapassa 50; ora, se a pessoa tem um cérebro, Trump não aparece em sua tela de controle”.

O pior, porém, está por vir: “Trump não é republicano, é democrata. Os verdadeiros conservadores não se deixam levar por ele. Esse tipo faz trapaças, é seu negócio. Por isso, eu não me espantaria se, em meados de setembro [isto é, depois da escolha definitiva dos candidatos dos dois grandes partidos], ele resolvesse apoiar Hillary. O partido não teria então tempo para escolher outro candidato”.

A hipótese de um conluio tão estapafúrdio pode surpreender. Mas numerosos republicanos, que não veem com bons olhos a carreira política atípica de Trump, não esquecem jamais que ele convidou Hillary para seu terceiro casamento. Ademais, ruminações suspeitas não são apanágio de delegados furibundos ou de militantes aturdidos pela Fox News, as redes sociais e as teorias da conspiração. Em 16 de março, no Arizona, Cruz acusou a mídia, “quase toda dirigida por partidários da esquerda”, de “fazer o possível para forçar a escolha de Donald, pois sabem que ele é o único candidato na face da Terra capaz de ser derrotado por Hillary Clinton”.

Barbara Priester está no comitê do partido. É uma vigorosa octogenária e republicana de primeira hora num estado que, durante 136 anos (de 1874 a 2010), foi governado por democratas – e, aos poucos, acabou se tornando um dos mais republicanos do país. Priester conheceu e combateu o governador democrata do Alabama George Wallace, um personagem pitoresco ao qual Trump vem sendo cada vez mais comparado. Suas tiradas contra o establishment e os intelectuais, sua demagogia racial e sua repressão violenta ao movimento pelos direitos civis marcaram a história norte-americana contemporânea.

Wallace, que se candidatou quatro vezes à presidência dos Estados Unidos, venceu em 1968 em cinco estados do sul, entre os quais o Alabama, com 66% dos votos. Resultado ainda mais estranho quando se leva em conta que ele concorria então com dois adversários de peso: o republicano Richard Nixon (que foi eleito) e o democrata Hubert Humphrey. Seus comícios eram frequentemente uma bagunça, como são hoje os de Trump, o que permitia a Wallace enfrentar os baderneiros mandando-os tomar banho e fazer a barba. Quando estava bem-humorado, propunha-lhes “autografar seus chinelos”. Por ocasião da terceira candidatura de Wallace à Casa Branca, em 1972, uma tentativa de assassinato colocou-o numa cadeira de rodas, mas nem assim ele se afastou da magistratura suprema de seu estado, que governou por quatro vezes. “A força de Wallace”, avalia a filha de Priester, Ann Bennett, também militante do partido como seu marido, Kevin, “era falar pelo povo vencido, o povo do sul. É isso, igualmente, o que explica o poder de Trump hoje. Obama fez da América um povo derrotado. Perdemos no Iraque, perdemos no Afeganistão e perdemos para a Organização do Estado Islâmico. Assim, as pessoas estão dispostas a aceitar qualquer um que lhes prometa uma retomada, doravante, golpe por golpe.”

Um povo vencido por culpa de dirigentes muito fracos: esse é, pelo menos, um tema quase constante no pensamento de Trump. Afora o narcisismo do empresário que quer sempre “ganhar” (um de seus verbos favoritos) todas as lutas que trava e, portanto, ser presidente dos Estados Unidos, um nacionalismo autoritário lhe serve de bússola desde que sua vida privada e sua fortuna fazem a felicidade das revistas. Suas ideias estão no ar, mas Trump já as exprimia há 25 anos numa longa entrevista à Playboy.3 Os presidentes das duas superpotências da época, George H. W. Bush e Mikhail Gorbachev, eram ali tratados com desdém.

 

“Votos, não balas”

Primeiro, Trump censurava a tibieza deles para com os aliados dos Estados Unidos (Japão, Alemanha e países do Golfo, em particular), protegidos gratuitamente pelo Exército norte-americano e sempre prontos a atrapalhar os negócios comerciais de seu suserano. Sobre o dirigente soviético, profetizava: “Ele será derrubado porque se mostra extremamente fraco”. Em março de 1990, quando um republicano ocupava a Casa Branca após dois mandatos de Ronald Reagan, Trump já resmungava que os dirigentes do planeta “não nos respeitam”, “riem de nossa estupidez”, “pisam em nós”. Agora, ele entra na arena para “restaurar a grandeza da América” (make America great again), combatendo os acordos de livre-comércio e construindo um muro fortificado na fronteira meridional do país. Enquanto isso, a China e o México passam a constar da lista dos Estados que, segundo ele, exploram a covardia de Washington.

Em Wallace, a senhora Priester já conheceu um demagogo que imputava a maior parte dos problemas de seu país a uma classe política protetora das minorias, dos estrangeiros, dos delinquentes. Ela se lembra também do especialista em manipulação da mídia que agredia jornalistas e se proclamava o único porta-voz do homem comum, capaz de falar uma linguagem crua e defender suas ideias a qualquer preço. Por isso, Priester desconfia de Trump. Como sua filha, Ann, e seu genro, Kevin, ela consultou regularmente as pesquisas a fim de convencer seus vizinhos (e paroquianos) a optar pelo candidato mais apto a derrotá-lo. Os três hesitaram entre Rubio e Cruz, mas afinal se decidiram por este último. Em vão.4

Ninguém é mais estranho ao universo social e cultural dos Bennetts do que Trump. Ann possui uma velha plantação de 800 hectares perto de uma pequena cidade universitária, Auburn, famosa por sua equipe de futebol americano. O marido administra a propriedade e organiza ali caçadas a cervo. A fé batista orienta a existência do casal e sincroniza boa parte de seu tempo. Para os dois, a política exige competência e experiência. Corteses, não falam alto e defendem uma forma de governo limitado, jeffersoniano, que respeite escrupulosamente a décima emenda da Constituição norte-americana,5 o poder local e as tradições rurais do sul. De súbito, aparece à frente do partido um bilionário divorciado que propalou sua vida íntima em jornais escandalosos e se pavoneou num ringue de lutas ladeado por duas modelos de maiôs colantes. Esse homem, nunca eleito, anuncia na televisão que se for presidente não hesitará em dar aos soldados norte-americanos ordens para transgredirem leis que ele acha incômodas. E que cancelará vários tratados comerciais sem dar a mínima para o Congresso. A senhora Bennett confessa sua tristeza e perplexidade: “Não se pode fazer nada para detê-lo. Nós, porém, somos tudo, menos o que ele denuncia. Mas não será a primeira vez que Nova York e o nordeste nos espezinham”.

Kevin Bennett, ex-executivo da Eastman Kodak, lembra com inquietude que, por ocasião de um debate, Trump empregou a palavra “reino” para se referir à presidência de George W. Bush. Versado em história, em particular a da Guerra de Secessão, e cioso da bandeira confederada, já não gosta muito que seu partido se gabe de Abraham Lincoln. Assim, os lapsos autoritários do ricaço de Manhattan sempre o fazem pensar nos exércitos nortistas do “Grande Emancipador”.

Que pensam disso os partidários sulistas de Trump? Entrevistada em Auburn, Dianne Jay sempre votou nos republicanos; sua família também. Ela leva na bolsa um Smith & Wesson calibre 38 e não lê o jornal local, que acha muito esquerdista (um julgamento discutível). Nada a irrita mais que chamar os eleitores de Trump de homens destemperados. A seu ver, o que há é um “movimento de norte-americanos cuja vontade foi ignorada, que se retraíram, que perderam a confiança nos dois partidos. Os republicanos fizeram muitas promessas que nunca cumpriram. E tratam Trump, um bilionário, com o desdém que reservam habitualmente aos trabalhadores manuais. Mas ele ganhou dinheiro, fez coisas, não ficou apenas falando. Já nosso partido só fala, fala, fala”. Os líderes do partido se mancomunaram para barrar o caminho de Trump. Resultado: o “movimento” se voltou contra eles. “Mike Huckabee, de quem gosto muito, disse bem: os republicanos deveriam ficar contentes pelo fato de esta rebelião utilizar votos, e não balas.”

A dialética dos “votos” e das “balas” se inspira num discurso célebre… do militante negro Malcolm X em 1964.6 Ou seja, ainda que o termo lhe desagrade, a raiva de Jay contra os membros republicanos do Congresso lembra muito o destempero. “Eles preferem”, continua, “dividir o partido e dar a vitória a Hillary Clinton a ser desmascarados e revelar o que se passa lá dentro: os lobbies, as negociatas, os subornos. Donald Trump financia sua própria campanha e não fica devendo nada a grupos de interesses: gosto disso. O líder republicano no Senado, Mitch McConnell, ganha mais de US$ 1 milhão por ano; o presidente da Câmara, Paul Ryan, mais de US$ 900 mil. Teriam muito a perder se alguém chegasse e dissesse: ‘Está bem, agora vamos cortar na própria carne’”.

 

“Deveríamos ter deixado tudo pegar fogo”

Embora hostil a Trump, Kevin Bennett compartilha com ele o mesmo sentimento pela “quadrilha de Wall Street”. “Os dois partidos são controlados por uma cultura idêntica, urbana e próspera. Para eles, o interior do país é apenas um pedaço de terra que sobrevoam indo de costa a costa. Durante a crise de 2008, deveríamos ter deixado que tudo pegasse fogo. Sofreríamos, mas muita corrupção seria erradicada.” Sobrou alguma coisa do crédito do sistema político norte-americano e de seus dois principais partidos?

Com a palavra, a defesa. No dia 29 de fevereiro, uma segunda-feira, em Opelika (uma antiga fábrica de garrafas perto de Auburn), ocorreu o jantar anual dos republicanos do condado. Em 1994, o primeiro banquete do tipo acolheu menos de quarenta convivas; nessa noite, foram quase trezentos. Depois do juramento à bandeira e da prece, o delegado da circunscrição no Congresso, Mike Rogers, soube que teria de responder às acusações de conivência e corrupção que pesam sobre seus correligionários em Washington, e não apenas sobre os democratas. Os partidários de Trump, como os de Cruz, criticam os parlamentares republicanos, que, no entanto, são maioria no Congresso, por não terem anulado nenhuma das decisões importantes da Casa Branca (reforma do sistema de saúde, ou obamacare; acordo nuclear com o Irã; demora na expulsão de alguns migrantes), quando foram eleitos justamente para fazer isso. Teriam sido cooptados pelo “sistema” a ponto de se tornarem também membros do que Cruz chama de “cartel de Washington”? Rogers retruca que uma maioria de dois terços é necessária para invalidar um veto presidencial. E recomenda a seus amigos um pouco de paciência: “No último ano desta administração socialista, não vamos conseguir grande coisa. Nosso trabalho será garantir que nenhum outro mal seja cometido. Depois, se elegermos um presidente norte-americano, o primeiro texto que apresentaremos para sua assinatura será a anulação do obamacare. O segundo tratará da Lei Dodd-Frank, que regulamenta os bancos. A atual administração socialista logo não passará de uma má lembrança”.

Um mistério persiste. Como, a um partido e a uma região onde o voto evangélico pesa bastante, Trump conseguiu se impor com tamanha facilidade? A senhora Jay apoiou antes Huckabee, um ex-pastor batista e defensor dos “valores tradicionais da família”. Hoje, apoia um dono de cassinos cuja fé não é das mais ardentes, que pragueja como um carroceiro e discorre na televisão sobre sua anatomia sexual. Ela se explica sem dificuldade: “Trump é contra o aborto e a favor da prece nas escolas. Não há ninguém mais tradicionalista por aí. Olhem bem para ele: sua família é o sonho americano realizado. Sim, ele se casou três vezes. Mas Reagan também não se casou uma vez só; era ator e teve lá suas aventuras. Todos nós, se examinados a fundo, somos pecadores. E, se começarmos a atirar pedras, o Senado inteiro será lapidado”. Não há dúvida: Trump soube estabelecer um vínculo sólido e direto com seus partidários; já são mais de 900 mil no país que, como Jay, recebem suas numerosas mensagens. Longe de abalá-los, as críticas e revelações contundentes da maior parte da mídia, dos artistas e dos intelectuais os fortificam ainda mais. “Confio em Trump”, admite Jay. “Precisamos de um empresário. Ele não tem de provar mais nada. Possui uma família magnífica e US$ 10 bilhões.”

Perda de empregos, transferências de empresas para outros países, salários baixos, alteração da identidade religiosa do país, incapacidade do Estado federal para controlar suas fronteiras, medo do futuro: quase tudo remete prontamente ao tema da imigração.7 “É o problema levantado por Trump”, confirma Kevin Bennett. “Ninguém queria tocar no assunto. Ele tocou. Nossas escolas estão atulhadas de imigrantes, mas elas não têm o direito de verificar a situação legal dos pais. As leis não são claras e passamos por racistas quando queremos que as respeitem. Não sei se construir um muro será uma ideia exequível, mas de qualquer modo precisamos de uma fronteira. Obama escancarou-a. As pessoas se cansaram. Percebem que nenhum dos dois partidos se arrisca a descontentar o eleitorado hispânico.”

Os medos se acumulam e enchem a bola de Trump. Alguns dias no Alabama bastam para ouvir falar de células terroristas infiltradas nos Estados Unidos vindas do México, de túneis sob a fronteira por onde fluem toneladas de drogas, de um exército estrangeiro que pode contar com 12 milhões de imigrantes… Desde a eleição de Obama em 2008 e sua reeleição em 2012, estrategistas e pesquisadores republicanos repetem, no entanto, que essa fixação é eleitoralmente perigosa para seu partido e que nenhum candidato à Casa Branca jamais chegará lá sem conquistar uma parte considerável dos votos hispânicos.

Editorialista estridente e apavorada com a imigração, Ann Coulter calculou: com a atual demografia dos Estados Unidos, menos “branco” que quando James Carter e Walter Mondale foram candidatos contra Reagan, o primeiro o teria derrotado em 1980 e o segundo quatro anos depois. Mas, paradoxalmente, Coulter se diz convencida das chances de Trump – o qual, fique claro, ela apoia. Trump, no entanto, parece se dirigir a uma fração cada vez mais reduzida, em sua quase totalidade branca e masculina, do eleitorado norte-americano. Em novembro próximo, Hillary Clinton poderá muito bem se tornar a candidata obrigatória das minorias e de Wall Street, das feministas e do livre-comércio, de Goldman Sachs e do statu quo. Com uma única missão, um único mandato: barrar o caminho de Donald Trump.

 

Uma cena de três minutos

Mas semelhante coalizão não se sustentaria por muito tempo. É que a campanha de Bernie Sanders também revela o esgotamento desse tipo de arranjo, a ponto de detalhes importantes de seu discurso contra a corrupção do sistema político norte-americano serem retomados pelo campo contrário. E não apenas por Trump: Cruz declara igualmente que “os republicanos são quase tão maus quanto os democratas. Muitos deles dormem com Wall Street, com os lobbiese com o big business, vendo na imigração ilegal uma fonte de salários baixos”.

Quando se trata de transferência de empresas para outros países, de comércio internacional ou de livre-comércio, não é fácil distinguir Jay de uma eleitora de Sanders. Essa militante republicana conservadora nos mostrou uma cena de três minutos que circula amplamente pela internet e que a chocou bastante: o dono de uma empresa terceirizada da United Technology, a Carrier, avisava a seus 1.400 empregados de Indianápolis que a produção logo seria transferida para o México8 – com o objetivo, explicou ele sob vaias, de “manter a competitividade e a sobrevivência a longo prazo do negócio”. Essa história agora faz parte do repertório de campanha de Trump. Os operários, inclusive sindicalizados, prestam muita atenção ao que ele diz. Nesse meio Trump pode também dar alguma cartada.

Desde o início da campanha, o eleitorado republicano exprime preferências rigorosamente contrárias às de seus ex-presidentes, da maior parte de seus delegados, dos financiadores e consultores do partido. Como não vão renunciar facilmente a tudo o que moldou sua identidade política a partir dos anos Reagan, identidade da qual muito se beneficiaram, a guerra civil republicana está apenas começando.

Serge Halimi é o diretor de redação de Le Monde Diplomatique (França).



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