UMA LEGITIMIDADE FORTE, MAS CONTESTADA

Hezbollah, senhor do jogo libanês

Graças ao apoio dos bombardeiros russos, de consultores iranianos e combatentes xiitas libaneses, o Exército sírio recuperou terreno antes do cessar-fogo de fevereiro. Ao apoiar com firmeza o presidente Al-Assad, o Hezbollah viu sua legitimidade consolidada. Mas a ameaça do Estado Islâmico não basta para afastar o risc

por: Marie Kostrz
4 de abril de 2016


Em cada rua de Dahiyeh, subúrbio ao sul de Beirute, e ao longo das estradas da Planície do Bekaa, no leste do país, os retratos de combatentes mortos na Síria agora fazem parte da paisagem. O Hezbollah paga um pesado tributo por seu envolvimento no conflito sírio. Atrás do balcão da pequena loja onde trabalha em Rueiss, ao sul da capital libanesa, Farah C.1 conserva amorosamente uma fotografia de seu noivo, morto em 2014 na Ghuta, perto de Damasco. “Ele ia combater quinze dias na Síria e voltava para descansar uma semana antes de partir de novo”, conta a jovem, envolta em seu longo véu negro. “Tinha frequentemente problemas nos olhos e nos ouvidos por causa da fumaça e dos bombardeios. Dizia sentir sempre o cheiro de sangue. Era tudo muito difícil, mas nunca pensei que ele fosse morrer…” Como noiva, Farah não tem direito a nenhuma assistência, ao contrário das viúvas dos combatentes, que recebem uma ajuda financeira do partido. Mas nem por isso ela deixou de apoiar o Hezbollah. “Muitos combatentes morrem; só em minha vizinhança, foram sete. Contudo, eles precisam proteger nossos lugares santos, pois, caso não o façam, os takfiris2 virão atacar os xiitas no Líbano.”

Carros queimados, vitrines despedaçadas, corpos sem vida jazendo no meio de uma rua cheia de fumaça: em 12 de novembro de 2015, o duplo atentado camicasecontra o bairro de Burj al-Barajneh, em Dahiyeh, foi o mais mortífero desde o fim da guerra civil libanesa, em 1990. Esse ataque, porém, lembrou os moradores de que, no Líbano, os feudos do Hezbollah continuam sendo o alvo preferido da Organização do Estado Islâmico (OEI). Desde 2013, as zonas controladas pelo partido islâmico xiita em Beirute ou no Bekaa serviram de palco para uma dezena de ataques, dos quais alguns foram também reivindicados por grupos próximos à Al-Qaeda. Isso em represália ao apoio militar do Hezbollah ao Exército sírio, oficialmente depois de abril de 2013.

“A Síria tem na região amigos fiéis, e eles não permitirão que o país caia nas mãos dos Estados Unidos, de Israel ou dos grupos takfiris”, declarara então o secretário-geral do partido, Hassan Nasrallah, aludindo aos rebeldes sunitas que haviam empunhado armas contra as tropas do presidente Bashar al-Assad. Reafirmava assim seu apoio ao regime sírio, que considera um dos pilares do eixo da “resistência” a Israel levada a efeito com o Irã.

 

Intervir para defender o “verdadeiro Islã”

Dias depois, o Hezbollah participava maciçamente da batalha de Quseir, região a oeste da Síria na fronteira com o Líbano, então em poder dos rebeldes. Essa participação alterou por completo o equilíbrio de forças, num momento em que as tropas legalistas perdiam visivelmente terreno. Graças ao Hezbollah, a região de Quseir foi retomada em menos de um mês. Vídeos de combatentes em fuga, sedentos e devorando batatas cruas ilustraram essa primeira derrota esmagadora dos rebeldes.

“No início do motim contra Al-Assad, os militantes não se sentiam diretamente afetados”, explica Chiara Calabrese, que estuda o Hezbollah no Instituto de Pesquisas e Estudos sobre o Mundo Árabe e Muçulmano (Iremam), da França. Mas a interpretação dada pelo partido para o sequestro de peregrinos xiitas libaneses em Alepo em 2012, as declarações de alguns membros da oposição síria hostis ao Hezbollah e os atentados de Dahiyeh geraram um consenso muito forte em torno do partido. “O Hezbollah, de início, privilegiou a necessidade de proteger os lugares santos xiitas, ameaçados ou destruídos por alguns grupos rebeldes”, prossegue a pesquisadora, que cita o ataque contra a mesquita Sayyida Zeinab, ao sul de Damasco, um local reverenciado pelo xiismo que abriga o mausoléu da filha de Ali e neta de Maomé. “Sua intervenção na Síria tornou-se uma guerra santa com vistas a defender o que ele considera o verdadeiro Islã em relação a grupos rebeldes como o Daesh.”

Ainda assim, certa insatisfação, cujo alcance é difícil de avaliar, cresceu entre alguns militantes. Em 2013, Ali M., ex-combatente que tinha um filho na Síria, reclamava dessa implicação: “Sempre fui a favor da resistência a Israel, mas não vejo que relação isso tem com o conflito sírio”. Em 2014, a proclamação de um califado pela OEI, após tomar Mossul, no Iraque, desferiu um golpe mortal nesse protesto tímido. A base do Hezbollah está doravante convencida de que a sobrevivência do movimento depende de sua capacidade de ajudar o regime sírio a permanecer no poder.

 

Entusiasmo dos jovens xiitas

Na Síria desde 2013, Ahmad B. já pensava em desistir de lutar, cansado da guerra de posições na fronteira. A violência da OEI levou-a a mudar de ideia: “Devemos combater sem quartel o terrorismo na Síria para impedir a OEI de atacar o Líbano”. Reitera seu apoio ao Irã e à Rússia, os únicos que lutam contra o “terrorismo” insuflado, a seu ver, pela Turquia, os países do Golfo, os Estados Unidos e Israel. “O Hezbollah conseguiu unir a OEI e Israel”, analisa Chiara Calabrese. “Isso ficou bem claro no ataque a Golan em janeiro de 2015:3 matando os que combatiam a OEI, Israel surgiu como a encarnação do mesmo inimigo.”

O apoio à intervenção do Hezbollah na Síria continua forte no seio da comunidade xiita como um todo. De acordo com uma pesquisa feita em 2015 pela associação Hayya Bina, cujo fundador, Lokman Slim, é conhecido por suas posições críticas em relação ao partido, 78,7% dos xiitas a aprovam. Os 1.500 “mártires” dessa guerra não desestimulam o recrutamento. A causa suscita um tremendo entusiasmo entre os mais jovens. Segundo um produtor cultural que trabalha no sul do Líbano, a ausência de perspectivas nos feudos do Hezbollah, muito pobres, torna a guerra ainda mais atraente. “Cumpre não esquecer que o Hezbollah trava também um combate ideológico”, acrescenta Hussein M., do bairro Kenissé Mar Mikhael, nas cercanias de Dahiyeh. “As crianças podem entrar para os acampamentos de escoteiros do Hezbollah e, por volta dos 16 anos, têm seu batismo de fogo.” O partido oferece também uma opção para melhorar o cotidiano: “O Hezbollah luta com armas, mas não deixa de recrutar cérebros. Precisa de gente qualificada: jornalistas, engenheiros…”, prossegue o jovem, que perdeu dois amigos na Síria. “Paga seus estudos e depois os emprega.” Embora o prolongamento do conflito tenha obrigado o partido a diminuir os salários e a ajuda que concede a seus membros, ele ainda representa uma saída atraente num país onde o salário mínimo é de R$ 1.700 e a economia paralela responde por 30% da produção.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Exacerbação das tensões comunitárias

O Hezbollah se legitima graças a um projeto político de resistência a Israel e a seus aliados que não mobiliza apenas os xiitas, principalmente depois da “guerra dos 33 dias”, no verão de 2006. Após o surgimento da OEI, ele soube reforçar essa tendência e fazer-se indispensável. Apresenta-se como fiador da integridade das fronteiras libanesas diante dos jihadistas. Em outubro de 2014, um ataque da Frente Al-Nosra, ligada à Al-Qaeda, contra um de seus postos militares no jurd (deserto rochoso e montanhoso) de Brital, ao sul de Baalbek, mostrou que era ele, e não o Exército, que protegia certos trechos da fronteira. Uma vez ultrapassado o último posto de controle do Exército, perto de Nabi Sbat, apenas os combatentes xiitas circulam pelas estradas tortuosas das montanhas do Antilíbano para alcançar suas posições, bem mais distantes. Essa colaboração já havia sido apontada em junho de 2013, na ofensiva do xeque salafista Ahmad al-Assir contra o Exército, em Saida. No momento em que diversos blindados e os sistemas de transmissão entraram em pane, no meio do assalto, o Hezbollah interveio. “Seus atiradores de elite nos cobriram”, conta Imad K., soldado das forças especiais libanesas que participou da batalha. Um general da reserva admite com amargura: “Por acaso poderíamos agir de outra maneira? O Exército tem falta de homens e material”. Quer aceite ou não o projeto político e religioso do Hezbollah, uma parte dos libaneses não xiitas vê nele a única força capaz de deter a OEI.

Nesse contexto, faz muito sentido a decisão tomada pela Arábia Saudita, em 19 de fevereiro, de suspender seu programa de ajuda ao Exército libanês e retomar parte do montante de US$ 3 bilhões cedidos. No mesmo dia, em Saadiyat, a 20 quilômetros de Beirute, conflitos eclodiram entre as forças sunitas e as Saraya al-Muqawama, as “brigadas da resistência” ligadas ao Hezbollah. “Elementos sunitas bloquearam a autoestrada que leva ao sul, o que é claramente uma mensagem ao Hezbollah, pois Nasrallah sempre insistiu na importância de manter esse eixo rodoviário aberto para a ligação entre Beirute e seu feudo sulista”, explica Slim. Segundo ele, esses incidentes podem se multiplicar. Enquanto Al-Assad retoma nítida vantagem na Síria graças às intervenções russa e iraniana, Riad denuncia a “influência do Hezbollah sobre o Estado [libanês]”.

Entre os motivos da decisão saudita está a recusa do Líbano, desde janeiro, em votar uma resolução da Liga Árabe que condena a política do Irã na região e chama o Hezbollah de “organização terrorista”. Após a expulsão de empresários libaneses e a advertência a seus cidadãos para não pôr os pés no país dos Cedros, o reino wahabita e as outras cinco monarquias do Golfo que, em 2 de março, votaram essa resolução querem pressionar o partido xiita que participa do governo e domina a vida política libanesa. Disso é testemunha seu papel no boicote, desde maio de 2014, à eleição de um novo presidente da República pelo Parlamento.

Se o conflito sírio reforçou a posição do Hezbollah no Líbano, exacerbou também as tensões comunitárias. Uma parte dos sunitas, majoritariamente solidários à oposição síria, radicalizou seu discurso. A ausência de uma liderança sunita forte e a instrumentalização dessa radicalização por alguns políticos só agravaram o quadro. “Nesse contexto, a posição do Hezbollah na Síria é extremamente problemática”, previne Slim. “Esse endurecimento pode se tornar ainda mais perigoso devido à presença, no Líbano, de 1,5 milhão de refugiados sírios, quase todos hostis ao Hezbollah.” Levem-se em conta ainda as últimas sanções decretadas em dezembro pelo Congresso norte-americano, que fizeram do Hezbollah uma organização não apenas terrorista, mas também criminosa. Essa decisão obriga os bancos libaneses a recusar clientes ligados ao partido. Mais um fator, segundo Slim, para que a situação se degrade: “É difícil saber se, a longo prazo, essas pressões enfraquecerão o Hezbollah; mas, a curto prazo, vão certamente acirrar os ódios”.

Um movimento de vaivém

 

O Hezbollah (“Partido de Deus” em árabe) nasceu no seio da comunidade xiita após a invasão do sul do Líbano pelas tropas israelenses em 1982. Sua existência, entretanto, só foi oficializada em 1985, por meio da publicação de uma carta aberta. Nessa carta, o Hezbollah se dizia a linha de frente da “resistência” armada a Israel e aos Estados Unidos. Ao mesmo tempo partido político e milícia envolvida na guerra civil libanesa, proclama sua fidelidade ao líder espiritual da Revolução Islâmica iraniana, que derrubou o xá em 1979. O aiatolá Ruhollah Khomeini e Mohammad Hussein Fadlallah, considerado o líder espiritual do Hezbollah, estudaram em Najaf, no Iraque, berço de formação dos dignitários religiosos xiitas. O partido tece uma rede de solidariedade (escolas, associações, hospitais) que lhe garante um lugar no seio da comunidade xiita, até então marginalizada no Líbano. E pode contar com ajuda financeira, administrativa e militar vinda do Irã. Movimento armado, continua a lutar contra a ocupação israelense e se aproxima do regime sírio. Em 1989, os acordos de Taef, que puseram fim à guerra civil libanesa, provocaram em suas fileiras um processo de “libanização”. O Hezbollah desistiu de criar um Estado islâmico e, em 1992, por orientação de seu novo líder, Hassan Nasrallah, participou pela primeira vez de eleições, preservando uma estrutura militar enquanto as outras milícias concordavam em depor as armas.

Após o assassinato do primeiro-ministro libanês, Rafic Hariri, em 14 de fevereiro de 2005 em Beirute, as suspeitas que recaíram sobre Damasco e o Hezbollah enfraqueceram o movimento e polarizaram a sociedade. Entretanto, com seus aliados xiitas e cristãos, o partido conseguiu fazer uma demonstração de força ao reunir centenas de milhares de pessoas nas ruas de Beirute, em 8 de março. No dia 14 do mesmo mês, os partidos sunitas, drusos e cristãos hostis à Síria promoveram por seu turno uma manifestação gigante e conseguiram a retirada do Exército sírio, que ocupava o Líbano desde 1976. Chegou-se a um acordo e dois membros do partido participaram pela primeira vez de um governo de ampla coalizão. A partir do ano seguinte, uma nova ofensiva israelense reforçou sua legitimidade. E, desferindo golpes duros contra o adversário, o Hezbollah justifica sua autonomia de ação e sua recusa a desarmar-se. (M.K.)

 


1 nome de algumas pessoas citadas foi alterado.

2          A palavra takfiris designa os radicais sunitas praticantes do takfir, a excomunhão dos muçulmanos (sunitas ou xiitas) que não partilham de suas opiniões ou crenças.

3          O filho de Imad Mughnieh, um dos principais dirigentes do Hezbollah morto num atentado em 2008, perdeu a vida nesse ataque.

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