CINEMA E IDEOLOGIA

Hollywood e a liberdade norte-americana

A liberdade chegou a um nível jamais atingido, mas não sabemos o que fazer com ela. Uns até a condenam. Ronda o ódio à democracia. Por que não reivindicar uma democracia mais real? O que vemos são pessoas reclamando de ela ser real demais. Ledo engano. O que não podemos é defender uma democracia disforme, que se desdobra para atender aos interesses capitalistas – a que Hollywood reproduz com excessiva confusão de efeitos especiais e cenas românticas

por: Raphael Silva Fagundes
14 de agosto de 2017
Crédito da Imagem: Daniel Kondo

carreta furacão

Africanos, asiáticos e ocidentais unidos para defender a liberdade norte-americana. Disso se trata o filme Independence day: o ressurgimento. No 4 de Julho, alienígenas invadem a Terra, mais especificamente os Estados Unidos. A cabeça da líder da espécie invasora lembra o penteado das rainhas inglesas (coincidência?). Em um dado momento da aventura, a nave alienígena destrói tudo, mas para antes de colidir com a Casa Branca. No entanto, o aprendizado é claro: o imperialismo é necessário. Isso é tácito no discurso do ex-presidente, interpretado pelo ator Bill Pullman. Todos se aliam aos norte-americanos, por vontade própria ou mediante pagamento, pois estes sabem conduzir as naves espaciais alienígenas, enquanto os africanos, por seu turno, ainda usam facões. Reverbera-se o que disse uma vez o general John Ikenberry: “Os Estados Unidos se atribuem o papel de fixar os parâmetros, determinar as ameaças, usar a força e administrar a justiça em escala global”.1 Por que não universal?

É por meio de filmes dessa natureza que a indústria cultural hollywoodiana reproduz o processo cultural que permite a sobrevivência de seu mercado e de seu poder ideológico.2 Devemos observar as artimanhas que usa para tal feito. Quando se trata dos blockbusters, não é apenas uma questão de prazer visual e sonoro. São esses filmes “tolos” que, encantadoramente, reproduzem a ideologia dominante.3

Heróis e o discurso da liberdade

Observemos Capitão América: guerra civil. Milhões gastos para constituir uma “imagem do real que tenha a aparência de ser o real”4 e forjar uma visão de mundo comprometida com os interesses norte-americanos. O filme mostra o Capitão América desrespeitando os preceitos da ONU para poder continuar com sua missão de paz intervencionista. Resgata-se o conflito entre Rússia e Estados Unidos, tendo os russos como os controladores do terror. Daí o personagem Bucky, produto da ex-URSS. Tudo nos leva a crer que os terroristas de hoje, movidos pela vingança, não passam de marionetes russas ou fantoches controlados por uma força maior que quer pôr fim ao modelo de liberdade norte-americano. Isso é reflexo do relacionamento acirrado entre Rússia e Estados Unidos antes de Trump. A indústria cultural nos induz a escolher um lado, criando seus demônios.

Esquadrão Suicida aborda a vigilância. A agente, interpretada pela vencedora do Oscar Viola Davis, intitula-se “o olho” e liberta os vilões para combater o que chama de “terrorismo”. “As pessoas deixam a sua liberdade para defender este país”, diz a agente. É renunciando à liberdade que a liberdade pode ser garantida. Perfeito! Todavia, percebe-se que a vigilância constante sobre os delinquentes os adestra, o que nos lembra Michel Foucault: “O poder encontra o nível dos indivíduos, atinge seus corpos, vem se inserir em seus gestos, suas atitudes, seus discursos, sua aprendizagem, sua vida cotidiana”.5 No ápice, até a louca da Arlequina deseja ter uma família comum com o Coringa. O Crocodilo, por sua vez, teve como exigência ver TV a cabo, e algo do tipo acontece com os outros… A vigilância nos ensina a agir livremente em prisões de chumbo.

É de “turistas” e “vagabundos” que o filme As tartarugas ninja: fora das sombras quer falar. O turista é aquela identidade nômade pós-moderna que quer conhecer tudo e não chegar a lugar algum. O personagem que recebeu todo o mérito por salvar Nova York no filme anterior é esse ser. Presenteado com a chave da cidade, ele tem acesso livre a tudo, mas não possui compromisso com nada, estabelecendo apenas relações epidérmicas. Já os vagabundos vagueiam pela cidade sem um lugar fixo por falta de opção, às escondidas, e, quando aparecem, todos sentem medo. Zygmunt Bauman diz que o vagabundo é a escuridão sobre a qual o turista deve brilhar. Assim, as tartarugas, que vagam nas sombras, são a razão para outro brilhar. “Os vagabundos são os depósitos de entulho para a imundície do turista”,6 por isso as tartarugas vivem nos esgotos. Assim como os grupos excluídos do mundo real, as répteis subterrâneas do filme só foram reconhecidas quando úteis para a manutenção da liberdade norte-americana.

Em X-men: Apocalipse pode ser detectado um clássico niilista.7 Os mutantes abandonam a moral contemporânea em troca da amplitude de seus poderes. O próprio Magneto se frustra com a experiência de ser demasiado humano (operário e pai de família). Mas por que no ápice ele se alia ao representante da moral, o professor Xavier? Para garantir a liberdade. É da natureza humana criar bombas, é dito. E daí? Não há jeito, estamos condenados. É a essa liberdade que Sartre se referia? Sem dúvida, é melhor que se entregar a um Leviatã, como o personagem Apocalipse. Mas ficamos sempre encurralados, sem opção nessa ideologia repetida incessantemente nos filmes. “A melhor forma de ser é como somos.” Por que não existe a opção de uma democracia mais popular?

O mesmo acontece em Batman vs Superman. Não, não se engane pelo glamour nietzschiano do “Deus está morto”. A “lança do destino” (nessa versão, com kriptonita), que indiretamente mata o Superman no momento em que ele se sacrifica para salvar a humanidade, acaba sepultando essa ideia. No entanto, as produções hollywoodianas têm a mania de apresentar o poder de maneira simplória, excessivamente hobbesiana. Todos – Lex Luthor, Batman, Superman, o governo e a imprensa – querem o poder para si de modo absoluto. Mas devemos temer esse excesso de poder? O poder está espalhado, passa pelos indivíduos que o (re)produzem com prazer. Sim, o poder produz prazer. É também microfísico, circular, está em toda parte.8 Está mais nas instituições produtoras de discursos verdadeiros que no Estado ou nos indivíduos excepcionais. Mas Hollywood insiste que o Leviatã é o inimigo, quando na verdade deveríamos criticar a sagacidade da indústria do cinema em fabricar discursos conformistas.

A manipulação do que é liberdade

A trama dos filmes sempre está vinculada ao relacionamento com os pais. Batman revive seu trauma quando descobre que a mãe do Superman é homônima à sua. Lex Luthor é vilão pelos problemas que teve na infância… O mesmo acontece em Star Wars: Rogue One. Mas, apesar da protagonista só se interessar pela rebelião após assistir a um holograma de seu pai, temos de atentar para o principal fator de liberdade norte-americana: a propriedade. Logo no início, a propriedade é violada pelo Estado quando um agente do Império obriga Galen Erso, pai de Jyn, a deixar de ser fazendeiro (um clássico norte-americano) para prestar serviços às forças imperiais. Esse fator inaugura nossa compreensão de um Império corrupto.

Hollywood molda conceitos, esvazia-os e os substitui pelos traumas freudianos para reconstruir casais. É o que vemos em Convergente. A revolução só tem início quando o personagem Quatro percebe que está perdendo sua companheira para o cientista que controla a cidade de Chicago. Com o ego ferido, corre para os braços da mãe. É em torno dessa crise entre nora, sogra e homem que o filme gira. Assim que o pai de Quatro perde a memória, o jovem aparece para esclarecer à mãe toda a farsa: eles são apenas ratos de laboratório. O filho substitui o lugar do pai, um simples complexo de Édipo. Depois de salvá-la, e também toda a sociedade, ele a chama de mãe pela primeira vez. Os laços fraternais são restabelecidos e sua companheira retorna para ajudá-lo na revolução pela liberdade. Como disse uma vez o filósofo Slavoj Žižek, tudo vale nessa lógica comovente: “Até a Revolução de Outubro é aceitável, desde que sirva para reconstruir um casal…”.9

A chegada, por seu turno, é um bom filme. Mas nem tudo se trata de linguagem, e sim do relacionamento entre norte-americanos e chineses, estes últimos os maiores consumidores de filmes de Hollywood. Eles salvam o mundo. A língua (e a linguagem) é o caminho para a compreensão do outro. Esse é o ponto alto do filme. Outra questão é que a linguagem realmente é uma maneira de conceber o tempo. Sem a narrativa não haveria a concepção linear. As categorias básicas da ciência e da política dependem da noção de tempo que adotamos.10 Enfim, não há como duvidar de que abordar um tema clássico da ficção científica (viagem no tempo) por meio da linguagem tenha sido algo inovador.

Passageiros, no entanto, pode ser visto como uma propaganda da ideia de “sociedade de risco”. A sociologia que quer ocultar as lutas de classe. A fé que a modernidade tem na ciência e na tecnologia é uma faca de dois gumes. Esses elementos trazem benefícios, mas também aumentam os riscos ambientais, de saúde etc. No filme, o futuro é entregue à tecnologia, em uma relação de confiança que se espatifa com a própria falha da máquina. Porém, “não é a falha que produz a catástrofe, mas os sistemas que transformam a humanidade do erro em inconcebíveis forças destrutivas”.11 Daí os protagonistas se unem, mas não para mudar o sistema, e sim para repará-lo. Nesse ínterim, quer substituir-se a sociedade de classes por uma sociedade de risco, quando o romance entre os personagens de classes distintas é colocado na epiderme da trama.

O terceiro filme da nova trilogia de Star Trek se inicia com uma questão antropológica que terá grande influência na narrativa. Há um discurso de apaziguamento e de respeito com o diferente e tudo parece estar voltado para o conhecimento. A sociedade da informação. Há uma aversão ao passado, um tempo de trevas, de guerra, no maior estilo iluminista. Às vezes o capitão Kirk faz lembrar o capitão Cook, adaptado, obviamente, aos valores pós-modernos. E no fundo de uma das cenas um casal gay se abraça… Esse conceito de universalização foi um sonho das potências e dos intelectuais modernos em busca da ordem universal. É preciso, contudo, notar que esse mesmo discurso imperialista outrora transformava lugares estranhos em lar, impondo sua dominação em nome da democracia e do progresso.12

Ao confundir liberdade com livre-arbítrio, a cultura ocidental arrancou o sentido político de tal conceito e trouxe-o para o eu interior. Isso permitiu que fosse possível ser livre e ainda estar sob o jugo de outro. Esse é o modelo de liberdade atual. A liberdade submetida à vontade que nada mais é do que obrigar a si mesmo a ser, ter e dizer.13 Em Assassins Creed isso é inequívoco. O diretor lançou mão da elipse para historicizar a luta pela liberdade. A planificação do discurso fílmico se alterna através do tempo, e cenas que ocorrem no passado se completam no presente, mas, no fim, tudo se resume a defender a liberdade norte-americana. A desobediência foi reacionarizada, assim como a liberdade. Por ela se mata e se funda a crença assassina. O filme peca por não perceber que é justamente pela necessidade de garantir a liberdade que existe o controle (como o fez o filme Esquadrão Suicida).

Considerações finais

Hoje vivemos numa época em que a liberdade chegou a um nível jamais atingido, mas não sabemos muito o que fazer com ela. Há tantos objetos fascinantes… Uns até a condenam. Ronda o ódio à democracia. No entanto, por que não reivindicar uma democracia mais real? Infelizmente, o que vemos são pessoas reclamando de ela ser real demais. Ledo engano. O que não podemos é defender uma democracia disforme, que se desdobra para atender aos interesses capitalistas – a que Hollywood reproduz com excessiva confusão de efeitos especiais e cenas românticas.

Isso pode gerar prejuízos futuros. Sem uma alternativa clara ao modelo de democracia atual, as pessoas indignadas recorrem à única opção restante, o Leviatã. O ódio à democracia se sustenta com a ideia de que “só existe uma democracia boa, a que reprime a catástrofe da civilização democrática”.14 As queixas se voltam para os costumes que são modernizados intensamente, não para as instituições de poder. A modernidade reflexiva ainda é capenga politicamente para combater os riscos produzidos por ela. Assim, emerge o desejo de um retorno a um modelo moral representado por uma autoridade forte, que assegure a liberdade tão desejada. A opressão em nome da liberdade. São tempos difíceis. Agora mais do que nunca precisamos pensar se vamos subir a bordo do barco do socialismo ou se naufragaremos na barbárie.

*Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da Uerj e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.


 

1 Apud FOSTER, John B. O redescobrimento do imperialismo. In: BORON, Atilio; AMADEO, Javier; GONZÁLEZ, Sabrina (orgs.). A teoria marxista hoje: problemas e perspectivas. Trad. Simone R. da Silva e Rodrigo Rodrigues. São Paulo: Expressão Popular, 2007, p.432.

2 ADORNO, Theodor W. A indústria cultural. Trad. Juba E. Levy. 5. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002, p.18.

3 Cf. KELLNER, Douglas. A cultura da mídia. Trad. Ivone C. Benedetti. Bauru: Edusc, 2001, p.81.

4 BRETON, Philippe. A manipulação da palavra. Trad. Maria S. Gonçalves. São Paulo: Loyola, 1999, p.15.

5 FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 23. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979, p.131.

6 BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Trad. Mauro Gama e Cláudia M. Gama. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p.119.

7 NIETZSCHE, Friedrich W. A vontade de poder. Trad. Marcos S. P. Fernandes e Francisco J. D. de Moraes. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008, p.23.

8 FOUCAULT, op. cit., p.183.

9 ŽIŽEK, Slavoj. Em defesa das causas perdidas. Rio de Janeiro: Boitempo, 2011, p.78.

10 MARRAMAO, Giacomo. Poder e secularização: as categorias do tempo. Trad. Guilherme A. G. de Andrade. São Paulo: Editora Unesp, 1995.

11 BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. Trad. Sebastião Nascimento. São Paulo: Editora 34, 2011, p.11.

12 SAID, Edward. Cultura e imperialismo. Trad. Denise Bottman. São Paulo: Cia. das Letras, 1993, p.16.

13 ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. Trad. Mauro W. Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 2013, p.209.

14 RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia. Trad. Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2014, p.11.

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