Iki, a ilha que quer salvar o atum - Le Monde Diplomatique

PESCADORES CONTRA A PESCA PREDATÓRIA NO MAR DO JAPÃO

Iki, a ilha que quer salvar o atum

por Yuta Yagishita
Janeiro 9, 2018
Imagem por Alves
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Em uma pequena ilha no sul do Mar do Japão, mais de trezentos pescadores japoneses lutam para conter o declínio das reservas de atum-vermelho no Pacífico. Eles questionam a pesca intensiva e denunciam a agência governamental que a defende. No país que mais consome atum no mundo, essa é uma luta árdua

Quando fala sobre o maior atum que já capturou, Minoru Nakamura, um pescador de 49 anos da ilha de Iki, fica subitamente sério: “Pesava 319 quilos”, conta, com o sotaque cantado da ilha de 27 mil habitantes, localizada a meio caminho entre a Península da Coreia e a cidade de Fukuoka, no sul do Japão. “O atum era tão grande que eu não podia colocá-lo a bordo. Amarrei ao casco.”

A raridade de uma presa desse tamanho fez o evento parar na primeira página do jornal local. Na matéria de 2013, vemos Nakamura sorrindo orgulhosamente ao lado de um imenso peixe prateado de 2,7 metros de comprimento, pendurado em uma grua. Na foto, apesar do tamanho extraordinário de seu troféu, o pescador não parece realmente extasiado. A precariedade da vida dos pescadores independentes obriga a certa humildade. “Já aconteceu de eu não conseguir pegar nada durante dois meses e meio”, revela. “Não posso descansar sobre meus louros.” Hoje, a frase soa profética. Ele poderia imaginar, na época, que sua presa antológica seria um dos últimos atuns-vermelhos com mais de 300 quilos capturados no mar de Iki?

Nessa ilha subtropical de 130 quilômetros quadrados flanqueada por colinas verdes, fontes termais, arrozais ondulantes e praias de areia branca, os pescadores enfrentam uma crise existencial. A pesca do atum-vermelho do Pacífico, apreciado pelos amantes de sushi, passa por uma queda brutal. A produção anual despencou de 358 toneladas em 2005 para menos de 23 toneladas em 2014. “Não há mais peixe no nosso mar”, lamentam os pescadores locais. “Primeiro, foram os pequenos, de 3 ou 4 quilos, que desapareceram. Depois, os maiores. E agora não sobrou nada”, constata Nakamura, suspirando.

Alarmados, o pescador de atum e seus colegas bateram muitas vezes na porta da Agência da Pesca, ligada ao Ministério da Agricultura e Alimentação. Para o órgão governamental, o declínio da captura seria simples consequência das mudanças climáticas. “Eles me disseram que os peixes migraram para a Península da Coreia, onde não podemos pescar”, queixa-se Nakamura, que não acredita em uma palavra disso.

 

Até 50 toneladas por viagem

Para ele e seus colegas, a causa do problema está nos atuneiros-cercadores, potentes navios operados por grandes empresas, como a Nippon Suisan Kaisha, que tem 11 mil funcionários. Esses barcos vêm do porto de Sakaiminato, situado 400 quilômetros a leste da ilha. Eles começaram a pescar atuns adultos no Mar do Japão, no verão, em 2004 – época em que as capturas começaram a cair na ilha. Seu método: por meio de sonares, localizam cardumes de atuns e, em seguida, lançam uma rede com mais de 1 quilômetro de comprimento. A captura pode chegar a 50 toneladas por viagem e a 1.500 toneladas nos meses de junho e julho, período em que os pescadores industriais trabalham intensamente. Já os pescadores de Iki raramente excedem, hoje, os 1.200 quilos por mês, por barco.

Esse método de pesca intensiva “pesa muito sobre o meio ambiente”, explica Komatsubara Kazue, ativista do Greenpeace Japão. “Ele permite capturar peixe em grandes quantidades, sem distinção de tamanho ou espécie.” Segundo um relatório publicado pelo Comitê Científico Internacional para o Atum e Espécies Afins no Pacífico Norte (ISC), nos últimos trinta anos cerca de 60% do atum pescado por navios japoneses foi capturado com esse método.

Circunstância agravante: grande parte do atum-vermelho, que normalmente circula pelo Oceano Pacífico, dirige-se para o Mar do Japão no verão a fim de pôr seus ovos. Essa área é um dos dois locais de reprodução da espécie, junto com o norte do Mar das Filipinas. Ironicamente, isso facilita o trabalho dos pescadores de Sakaiminato, que só precisam esperar com suas redes. Esse método provoca a ira dos defensores do meio ambiente e dos pesquisadores, que também veem nele a causa do declínio das espécies.

“A captura em massa de atum durante o período de reprodução é muito prejudicial para a saúde das espécies”, afirma Toshio Katsukawa, pesquisador da Universidade de Ciência Marinha e Tecnologia de Tóquio e especialista no assunto. “Ela é o extremo oposto da pesca sustentável, e, se continuarem a praticá-la, isso vai arruinar a indústria pesqueira na região. O Estado deve proibir essa prática.”

O empobrecimento da espécie é uma tendência confirmada em todo o Oceano Pacífico. Em abril de 2014, o ISC publicou números chocantes:1 em 2012, restavam menos de 6% de peixes maduros o suficiente para se reproduzir – entre 3 e 5 anos de idade –; em 2016, eles eram apenas 2,6%, de acordo com uma revisão dos dados. Responsável pela captura de três quartos do atum-vermelho pescados entre 1980 e 2014 no Oceano Pacífico, o Japão tem sido instado pela comunidade internacional e por organizações ambientais a introduzir medidas sérias para conter o declínio.

Em 2014, os países da costa do Pacífico – Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos, entre outros – chegaram a um acordo para limitar a captura, durante a reunião da Comissão de Pesca do Pacífico Ocidental e Central (WCPFC), criada no mesmo ano com o objetivo de proteger as reservas de grandes peixes migratórios na região. Segundo o acordo, cada país-membro deve respeitar uma cota de pesca. O Japão, maior consumidor da espécie, concordou em reduzir sua captura pela metade em relação ao período 2002-2004, isto é, a um teto de 4.007 toneladas de peixes com menos de 30 quilos e 4.882 toneladas para os maiores.

Nesse meio-tempo, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classificou o atum-vermelho do Pacífico como “vulnerável” em sua Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, destacando a necessidade de “medidas de preservação mais eficazes para […] restaurar os estoques de peixes em idade fértil”.2

Quanto aos 314 pescadores de Iki, eles têm sua própria forma de lutar. No final de 2013, lançaram o coletivo Proteger as Reservas de Atum do Mar de Iki, do qual Nakamura é presidente, e decidiram parar de pescar atum nos meses de junho e julho, até 2017. “O objetivo era pressionar a Agência da Pesca a impor um defeso definitivo durante o período de desova”, explica Tominaga Tomokazu, membro da associação. “Queríamos dizer às pessoas que, se continuarem a comer atum nesse ritmo, em breve não poderão mais comê-lo”, resume outro membro. A equipe de Nakamura também colabora com pescadores de outras regiões, organiza mesas redondas e continua as negociações com as autoridades e as indústrias de Sakaiminato. Em 2016, eles ficaram entre os finalistas do prêmio Seafood Champions Awards, oferecido pela Seaweb Seafood Summit, cúpula internacional e ambiental dedicada à preservação dos ecossistemas marinhos, em reconhecimento aos esforços “para promover o manejo sustentável da pesca do atum”.

A situação, porém, não evoluiu conforme esperavam os membros do coletivo. Até hoje os navios de pesca de arrasto de Sakaiminato continuam navegando no Mar do Japão, sob as barbas dos pescadores de Iki. Embora medidas restritivas tenham sido colocadas em prática após o acordo da WCPFC, o sistema de cotas é aplicado independentemente dos métodos de pesca. “As autoridades japonesas decidiram repartir as cotas de acordo com o saldo de captura de atum no período 2002-2004. A questão da sustentabilidade do método não foi levada em consideração”, esclarece Komatsubara, do Greenpeace. Assim, foram impostas aos pescadores artesanais de Iki reduções idênticas (em porcentagem) àquelas aplicadas aos pescadores de Sakaiminato – sistema que não é lógico nem justo. “Por que temos de ter a mesma participação do pessoal de Sakaiminato quando não pescamos a mesma quantidade e eles deveriam fazer mais esforços do que nós?”, revolta-se Nakamura.

Favorecimento das grandes empresas

Para completar, essas indústrias vendem o atum ao preço assustadoramente baixo de mil ienes (R$ 29) por quilo. Na verdade, “é difícil vender por um bom preço o atum pescado no período da desova, porque a carne é menos gordurosa”, indica Katsukawa. Alguns chegam a ficar sem compradores no prestigiado mercado de peixe de Tsukiji, na capital. Essa tarifa estranhamente baixa para um peixe de luxo como o atum-vermelho não chama atenção dos consumidores, mesmo que sejam muito ligados a seu prato nacional, os sushis, que absorvem 62% da produção de atum.

Para os japoneses, que, segundo os arqueólogos, consomem esse peixe pelo menos desde 5500 a.C., parece quase impossível pensar que a espécie poderia desaparecer um dia por causa da pesca predatória. “As pessoas têm dificuldade em perceber que se trata de uma espécie ameaçada, especialmente quando seu filé é vendido em toda parte”, lamenta Komatsubara. Embora não haja dados oficiais especificamente sobre o atum-vermelho, o consumo de peixe em geral caiu um terço nos últimos dez anos.3 No entanto, as importações dobraram entre 2010 e 2016, chegando a 5 mil toneladas, enquanto a aquicultura cresceu 40% em cinco anos.

Paradoxalmente, alguns japoneses temem que medidas severas contra a pesca predatória causem a escassez ou mesmo o desaparecimento do atum de qualidade de seu prato. “Muitas pessoas e empresas acreditam que, se não vai haver atum no futuro, é melhor consumir o máximo possível enquanto podem”, desespera-se Komatsubara. O método dos pescadores de Sakaiminato – capturar uma grande quantidade de peixe e vendê-lo por um preço baixo – simboliza esse modo de consumo intensivo.

A situação é ainda mais insuportável para os pescadores de Iki, que tomam todos os cuidados necessários – abate pelo método tradicional e esvaziamento imediato do sangue – para sublimar a carne de suas presas. “Com nossas varas, não conseguimos pegar muitos peixes, mas tentamos valorizar ao máximo aqueles que pescamos”, enfatiza Ogata Kazunari, atual secretário-geral do coletivo, orgulhoso do aspecto sustentável de seu método de pesca. O atum abatido dessa forma pode custar até 40 mil ienes (R$ 1.163) por quilo, sendo bastante consumido nos restaurantes mais chiques de Tóquio.

No início de julho de 2017, violentas intempéries atingiram a pequena ilha de Iki. Os pescadores, sem poder sair para o mar por causa das tempestades, reuniram-se espontaneamente no escritório de Nakamura para falar sobre o tempo, sobre o fechamento da escola dos filhos e sobre o atum. Desde que decidiram, em 2013, parar de pescar no verão, eles continuaram negociando com a Agência da Pesca para que o defeso de verão fosse estendido a todos, mas só encontraram resistência. Os encarregados da instituição estatal estão convencidos de que é melhor proteger os peixes pequenos do que os grandes. Para Shingo Ota, conselheiro da agência, a abordagem restritiva dos pescadores de Iki “não faz nenhum sentido”: “O atum-vermelho coloca um número colossal de ovos – de dezenas de milhões a mais de 100 milhões –, e a esmagadora maioria dos peixes jovens morre antes de atingir a maturidade sexual. Portanto, o que é decisivo para a sobrevivência da espécie é o ambiente no qual os peixes jovens crescem. Desse modo, proteger os peixes grandes que podem se reproduzir não terá impacto no crescimento dos pequenos”.

Nem é preciso dizer que esse discurso dá muita satisfação aos pescadores de Sakaiminato, que não veem nenhuma razão para deixar de atuar na área. “Faz dois anos que trabalhamos em conformidade com as cotas de pesca estabelecidas pela agência para proteger as reservas”, esclarece um encarregado da cooperativa de pescadores do porto, que quis permanecer anônimo. “As autoridades garantem que a pesca durante a época de desova não tem nenhuma influência negativa sobre os estoques, portanto não temos nenhum motivo para nos censurar.”

A posição da agência, porém, está longe de ser unanimidade entre os pesquisadores. “Atualmente, quase todos os atuns acabam sendo capturados antes dos 5 anos de idade, por causa da pesca predatória, o que significa que só se reproduzem uma ou duas vezes na vida”, explica Toshio Katsukawa. “Desse modo, para proteger as reservas, é importantíssimo deixar os peixes colocarem ovos.” Para encerrar o debate, o coletivo de pescadores de Iki pediu que a Agência da Pesca realizasse estudos na área para verificar os efeitos de seu defeso. A agência se recusou. O motivo? Falta de orçamento.

Os pescadores de Iki denunciam o favoritismo em relação às grandes empresas que controlam os atuneiros-cercadores, como os de Sakaiminato. “Eles oferecem cargos aos funcionários aposentados da agência, por isso ela tenta protegê-los”, garante Tominaga. De fato, nos últimos dez anos, pelo menos cinco ex-executivos da instituição tornaram-se conselheiros ou até presidentes de cooperativas de pesca ligadas a empresas que operam atuneiros-cercadores. Shingo Ota, conselheiro da agência, admite: “Não é mentira, alguns funcionários saídos de nossa instituição trabalham com eles”. Mas nega qualquer ideia de conluio.

Em Iki, a exasperação aumenta. Os pescadores independentes sobrevivem como podem, capturando outros pescados, principalmente lula e outros peixes. São espécies menos lucrativas: “Está difícil sobreviver”, admite Nakamura. Sua renda caiu ao menos pela metade nos últimos doze anos, período antes do qual as capturas de atum ultrapassavam as 300 toneladas anuais na ilha. Hoje, ela oscila mensalmente entre 1.250 e 2.500 euros, sendo a média regional de 2.800 euros. Sem conseguir ganhar a vida ou alimentar a família, cerca de quarenta pescadores já mudaram de profissão. É por isso que alguns não escondem a decepção com o resultado de seus três anos de luta no último ano de defeso. “Pensamos que isso iria mobilizar as autoridades, mas nada mudou”, diz Ogata amargamente. “Se as pessoas continuarem a pescar atum durante o período de desova, o resultado será o desaparecimento de toda uma parte da cultura culinária do país. Nem o pessoal de Sakaiminato nem as autoridades entendem isso”, lamenta Nakamura. Atualmente, 53% do atum consumido é importado, e há grande risco de ver a escassez estender-se a outros lugares, no Mediterrâneo e no Pacífico.

 

*Yuta Yagishita é jornalista.

 



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