Integração, a grande obsessão - Le Monde Diplomatique

ANSIEDADE IDENTITÁRIA NA FRANÇA

Integração, a grande obsessão

por Benoît Bréville
Fevereiro 2, 2018
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No incessante debate sobre a integração de árabes e africanos na França, alguns preferem se referir a uma época mítica em que italianos, portugueses, poloneses – que seriam “menos diferentes” – eram assimilados sem contratempos. Tomando a questão como essencialmente cultural, essa leitura negligencia as lições de mais de um século de história da imigração

A fanfarra da identidade deseja um feliz 2018. Desde o réveillon, o espancamento de uma policial nas proximidades de uma festa em Champigny-sur-Marne, na região de Paris, deu início a uma controvérsia sobre violência na periferia. O caso se transformou em polêmica sobre a integração dos imigrantes quando um jornalista do Le Figaro publicou em sua conta no Twitter fotografias de crianças brincando na lama, com o seguinte comentário: “O bairro pobre de Champigny, que acolhia mais de 10 mil portugueses. Sem ódio nem violência”. Essa ideia foi rapidamente reciclada na televisão por Laurent Bouvet, cientista político e fundador do coletivo Primavera Republicana. “Nos anos 1960, como em muitas cidades de periferia, em Champigny existiam bairros pobres de portugueses, e não havia agressão de policiais”, afirma em um programa consagrado à “Laicidade, um valor ameaçado?” – um tema a priori sem grande relação com este assunto.1
Em 3 de janeiro, as jornalistas do Le Monde Raphaëlle Bacqué e Ariane Chemin começaram um vasto tour midiático para promover La Communauté [A Comunidade] (Albin Michel), uma investigação sobre a cidade de Trappes que se assusta com o comunitarismo muçulmano. Enquanto isso, o ministro da Educação Nacional, Jean-Michel Blanquer, anuncia a criação de um “conselho dos sábios da laicidade”, do qual participaria principalmente Laurent Bouvet. Já Marlène Schiappa, secretária de Estado para a Igualdade das Mulheres e dos Homens, publicou o livrinho La Laïcité, point! [A laicidade e ponto!] (Éditions de l’Aube), que lhe valeu uma longa entrevista na revista Marianne. “Três anos após os atentados, ser ‘sempre Charlie’ é ser ‘sempre laico’?”, pergunta Reanud Dély (7 jan.). Ao final dessa primeira semana, a mídia descobriu com estupor e desolação um dado do instituto de pesquisa Ifop: 48% dos franceses consideram a imigração “um projeto político de substituição de uma civilização por outra”. Por que será…?
Por trás das múltiplas e longas discussões sobre a laicidade, a religião ou o comunitarismo se escondem frequentemente as mesmas questões: os muçulmanos podem se dissolver no caldeirão francês? O islã é compatível com a República? O “modelo republicano”, que permitiu a integração de italianos, poloneses, espanhóis etc., pode funcionar com os magrebinos e os africanos? “Os combates em torno da laicidade são apenas cortinas de fumaça que dissimulam a verdadeira questão de fundo, a da assimilação”, admite até mesmo o editorialista do Le Figaro, do Le Figaro Magazine e da rádio RTL Éric Zemmour, nostálgico do tempo em que os imigrantes se dobravam ao “antigo ditado: ‘Em Roma, faça como os romanos’”.2

Poloneses rebeldes
Comparar a integração das diversas ondas de imigração sempre foi um jogo muito apreciado por especialistas. Nos anos 1930, os demógrafos se divertiam em medir o “nível de assimilabilidade” dos estrangeiros; depois da guerra, analistas louvavam o mérito dos nórdicos em detrimento dos europeus da bacia mediterrânea. Há trinta anos, um consenso parece surgir para diagnosticar uma “crise da integração” inédita na história da França. “O que tinha funcionado – com voluntarismo, apesar do racismo, do antissemitismo e da xenofobia – para os belgas, os poloneses, os judeus da Europa central e oriental, os espanhóis, os italianos, os portugueses etc. como que se entravou assim que se começou a acolher, promover e reivindicar os trabalhadores oriundos de nossas imigrações coloniais e pós-coloniais”, analisa o diretor do Mediapart, Edwy Plenel, que situa o bloqueio na “inconsciência ainda recalcada da relação colonial, inclusive no seio da esquerda francesa”.3 Laurent Bouvet refere-se também a uma “integração que funciona e que permitiu, geração após geração, a milhões de estrangeiros se tornarem franceses e, consequentemente, se tornarem a França”.4 Mas, se ele fustiga a esquerda, é por razões opostas às de Plenel: ele a critica por ter promovido desde os anos 1980 o tema do “direito à diferença”, abrindo assim caminho para as reivindicações comunitárias e o encerramento identitário.
Essa encenação da história conjuga dois pressupostos. O primeiro consiste em pensar que os estrangeiros se integrariam mais fácil e rapidamente ontem do que hoje. Não há dúvidas, os descendentes de imigrantes muçulmanos sofrem atualmente importantes discriminações em matéria de emprego, alojamento, controles policiais. Mas enfrentam de fato uma rejeição mais significativa do que seus predecessores? Parece inútil estabelecer uma gradação da xenofobia, e nenhum historiador se arriscaria a fazê-lo. Porém, diversos pesquisadores dão destaque à permanência dos mecanismos de exclusão (social, urbana, simbólica) e aos estigmas que atingem as pessoas de origem estrangeira. Brutais, sujos, ladrões de emprego, agentes do exterior: italianos, poloneses, portugueses e espanhóis também tiveram de passar por isso e, mesmo sendo cristãos, eram considerados religiosos demais, supersticiosos, místicos.5 A rejeição, por vezes, durou diversas décadas. Surgido no último quarto do século XIX, o racismo anti-italianos só se apagou realmente depois da Segunda Guerra Mundial.6
De acordo com o segundo pressuposto, discutido com menos frequência, os migrantes europeus seriam mais inclinados a “se assimilar”, a abandonar sua identidade de origem para abraçar plenamente a cultura francesa, do que seus homólogos originários das colônias. Nada é mais falso. Cada geração de migrantes teve a preocupação de preservar sua identidade de origem e transmiti-la a seus filhos; cada geração foi atravessada pelas diferenças entre aqueles que queriam se assimilar e aqueles que continuavam vinculados a suas particularidades.
No final do século XIX, não era raro os italianos mandarem seus filhos para seu país até os 12 anos, antes de trazê-los de volta para a França. Em Paris, Montreuil, Marselha, Nice e Nogent-sur-Marne, alguns bairros transbordavam de lojas de produtos transalpinos, cafés-hotéis que acolhiam os recém-chegados, bares onde os exilados se encontravam para jogar morra – um jogo de cartas tradicional – ou para escutar o acordeão, instrumento tipicamente italiano. Graças ao liberalismo da lei de 1º de julho de 1901, os italianos puderam cultivar esse “mundinho” fundando dezenas de associações culturais, esportivas, recreativas, de assistência, reservadas a seus compatriotas. Para satisfazer o estado civil – que impunha que escolhessem nomes franceses –, os imigrantes nomeavam, é verdade, seus filhos Albert e Marie, mas, fora da escola, todo mundo os chamava de Alberto e Maria.
A partir de 1922, a preservação da “italianidade” dos imigrantes, segundo o vocabulário em uso na época, tornou-se um objetivo do poder fascista, que queria impedir a assimilação de seus emigrados pela França. O governo de Roma se empenhou então em tornar vivo o sentimento de vínculo patriótico, criando mais de duzentas seções da Associação Nacional dos Antigos Combatentes Italianos nas cidades francesas, colocando as associações italianas sob o controle dos consulados e reagrupando os cultivadores no seio de cooperativas que dependiam dos bancos italianos. Diante disso, os antifascistas encorajavam, ao contrário, os imigrantes a se integrarem na sociedade francesa participando das lutas sociais e políticas ao lado das forças populares.7
Os poloneses chegados após a Primeira Guerra Mundial queriam ainda mais preservar sua “polonesidade”. Eles se casavam entre si, recusavam qualquer naturalização e proibiam seus filhos de falar francês dentro de casa. Algumas cidades do Pas-de-Calais contavam com dois times de futebol: um para os poloneses e outro para os franceses e demais estrangeiros.8 Nas grandes festas religiosas, durante o período entreguerras, os membros da comunidade se vestiam com as roupas tradicionais, depois desfilavam em procissão entoando cânticos, o que não deixava de desagradar à população local.
O clero polonês, que considerava a França uma terra ímpia, encorajava seus fiéis a cultivar sua identidade cultural, sob o olhar benevolente do patronato francês, que financiava a construção de presbitérios e igrejas, e até mesmo a viagem e o salário de capelães vindos da Polônia. Que melhor proteção do que a de um padre contra a agitação operária e a pretendida depravação do proletariado? Quando dos sermões (em polonês), os padres se entregavam à apologia de sua terra natal. Além de qualificarem como traidores aqueles que pediam a naturalização, eles nunca perdiam a oportunidade de criticar a imoralidade da França e seus objetivos assimiladores. Em 1926, conta o historiador Ralph Schor, um capelão do Nord-Pas-de-Calais “insuflou tanto seus paroquianos contra os professores franceses que os alunos começaram a insultar seus mestres, o que deu início a um pequeno escândalo”.9
O vínculo identitário dos filhos de imigrantes diminuiu progressivamente, mas pode, no entanto, atravessar gerações. Muitos netos dos poloneses chegados no período entreguerras manifestaram emoção quando João Paulo II se tornou papa em 1978 e, dois anos depois, diante das esperanças suscitadas pela Solidarnosc. Existem ainda centros culturais espanhóis abertos pelas primeiras gerações de migrantes, como a Colônia Espanhola em Béziers e, em Saint-Denis, o El Hogar de Los Españoles, um espaço fundado em 1922 que pretende “conservar um lugar de convívio, trocas interculturais e intergeracionais, e permite à comunidade espanhola reforçar uma vida social rica”. Em julho de 2016, na noite da final da Eurocopa, centenas de pessoas celebraram na Avenida Champs-Élysées a vitória de Portugal contra a França. Ninguém viu nessa inundação de bandeiras vermelhas e verdes uma ameaça à coesão nacional. Assim como ninguém se constrange com o fato de que Matteo, Enzo, Esteban ou ainda Giulia e Elena figurem entre os cinquenta nomes mais dados em 2017 na França – uma lista que não contém nenhum nome de origem árabe, exceto Adam e Inès, que transcendem as culturas.
Longe da assimilação fantasiada por alguns, a “integração à francesa” se parece mais com um caminho em direção à “invisibilidade, o que não quer dizer o fim das diferenças, mas a aceitação pelo meio de acolhida, quando ninguém se preocupa mais com as diferenças”.10 Esse “caminho em direção à transparência”11 não foi traçado por circulares ministeriais, seminários universitários ou tribunas sonoras na imprensa: foi o resultado de contatos e trocas cotidianas entre as populações minoritárias e seu meio de inserção, na maior parte das vezes um meio urbano, popular, operário.
A história demarcou amplamente as trilhas dessa integração: o trabalho, em uma época em que a solidariedade operária, o sentimento de pertencimento profissional e a consciência de classe eram vivos; o serviço militar e as duas guerras mundiais, que reuniram sob a mesma bandeira franceses e descendentes de estrangeiros; a escola, então lugar de aclimatação à cultura dominante e instrumento de ascensão social para os filhos de imigrantes; a Igreja Católica, que tentava atrair para si os fiéis estrangeiros propondo patrocínio e serviços de auxílio; as lutas sociais e a militância no seio das organizações de esquerda, quando o Partido Comunista Francês, a Confederação Geral do Trabalho (CGT) e suas associações-satélite (Socorro Popular, União das Mulheres Francesas, Turismo e Trabalho…) serviam ainda como “máquinas de integrar”;12 a cidade popular antiga, que oferecia certa mistura social e étnica e cujas ruas animadas favoreciam os encontros entre pessoas de todas as origens.
A maioria dessas trilhas hoje está fechada. Em um contexto de desemprego em massa e concorrência generalizada no seio das classes populares, o trabalho tem um papel de divisão em vez de aproximação. Os bancos das igrejas ficaram desertos, as organizações progressistas se esvaziaram e as periferias populares conhecem uma segregação socioétnica cada vez mais importante, que repercute na escola por meio da distribuição dos alunos no mapa (ou pela evasão pelas famílias menos favorecidas). Fazer da origem dos descendentes dos imigrantes a única fonte de seus “problemas de integração” leva a negligenciar o contexto social dessa integração e a transformar em questões de identidade demandas que são, em sua maioria, profundamente sociais: a igualdade diante do emprego, a escola, a polícia, a justiça, a habitação, o direito de praticar (ou não) sua religião.

*Benoît Bréville é jornalista do Le Monde Diplomatique.

 



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