Intrusão operária no cenáculo de acionistas - Le Monde Diplomatique

MUNDO ECONÔMICO

Intrusão operária no cenáculo de acionistas

julho 4, 2012
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Uma cena incomum perturbou os 2 mil acionistas reunidos em 2008 na assembleia geral da holding LVMH: ameaçadas de perder o emprego em razão da transferência da fábrica para a Polônia, operárias da costura entraram no salão luxuoso do Carrousel du Louvre decididas a discutir com os patrões

Quando raiou o dia na fábrica, as trabalhadoras desceram de um ônibus para entrar em outro e dirigir-se a um destino desconhecido. Contudo, Marie-Hélène, a delegada da Confederação Geral do Trabalho (CGT), acabou logo com o mistério: “Hoje vamos ao palácio do Louvre”.

– Aaaaah! – exclamaram suas companheiras.

– Hoje é um dia especial para o grupo LVMH: é o diados acionistas, no qual eles permanecem em uma sala onde certamente estará Bernard Arnault.

– Aaah!

– E vamos nos manifestar sem gritar, vamos mostrar ao LVMH que queremos que a empresa continue e que não queremos ir para a Romênia nem para a Polônia. Há anos trabalhamos para a empresa, e queremos continuar aqui. É crucial que eles nos entendam.

E então as assalariadas da Empresa de Comercialização e Confecção Europeia (ECCE) – fábrica que produz os ternos da Kenzo (grupo LVMH) e estava sendo transferida para a Polônia – aplaudiram a delegada pelo minidiscurso e começaram a entoar o canto de guerra: “Compagnon de colère, compagnon de combat, toi que l’on faisait taire…”.1

A estrada. A periferia.

Aproximávamo-nos de Paris, e Marie-Hélène se inquietava. Faltava pouco para que ela, a sindicalista, a “vermelha”, estivesse frente a frente com a boca do lobo. Estaria sozinha entre os poderosos, os cheios de trunfos. “Minha companheira de assento me olhou de maneira estranha”, conta com bom humor, “e me perguntou: ‘Apenas uma ação? Você não quer mais?’. ‘Não, só uma’, respondi. ‘Não faz seu gênero.’ ‘É preciso mudar nesta vida. Agora, serei acionista!’, lhe respondi.”

Ela não acredita na figura do “assalariado acionista”. Depois de ter trabalhado durante trinta anos em uma empresa, no momento das decisões estratégicas que determinam seu futuro e o de seus colegas – e um pouco o de seus filhos –, você não tem qualquer poder decisório. Quando muito, poderá discutir “medidas de acompanhamento”. Mas, ao possuir uma ação, “apenas uma”, você pode votar e ter voz na assembleia geral de sócios.

Esse procedimento se chama “democracia acionária” – como se a “democracia” tivesse deixado as urnas, em um gesto sem desdobramento econômico, a partir do momento em que os principais partidos entraram em acordo sobre uma Europa de livre-troca, livre concorrência e transparente, de livre circulação de capitais e mercadorias. Como se a “democracia” tivesse de fato saído do âmbito das urnas para residir no sufrágio ultracensitário das assembleias gerais de acionários. “Foi o Louis que me deu essa ideia”, conta.

Louis é um pequeno acionista militante. Ou melhor, um militante entre os pequenos acionistas.

Eu encontrei esse engenheiro aposentado em sua casa, em Poitou, onde ele guarda relatórios de empresas – enormes dossiês que analisa cuidadosamente para vigiar, para além da rentabilidade, os investimentos realizados, os endividamentos repentinos e também a remuneração dos presidentes e diretores-gerais. Entre dois copos de sidra, ele contou suas sagas: “Na Vivendi, Jean-René Fourtou, em seu preâmbulo durante a assembleia geral, disse que não havia nenhuma aposentadoria integral a ex-presidentes e diretores. Levantei, porque a empresa não queria me dar o microfone, e mostrei o documento de referência dizendo que não era verdade”.

Contudo, o maior “salário” do CAC 40 [relação das companhias abertas de melhor desempenho financeiro da França], na época, era o de Lindsay Owen-Jones, da L’Oréal, que Louis aceitava sem questionar: “Se comparo o preço que paguei por minhas ações da L’Oréal com o valor atual, constato uma valorização considerável. Então, eu, pequeno acionista, digo que o desempenho de Owen-Jones é digno de ser pago.

– Quando você fala de desempenho, é…

– Crescimento do título. Dividendos. E solidez do desempenho.

– O que me surpreende em seu discurso é a ausência de consideração sobre o que, para mim, é o coração da empresa: os salários. Por exemplo, eu fui deslocado para o Norte da França por uma empresa contratada pelo LVMH. Agora, a produção de ternos está sendo deslocada para a Polônia.

– Bom, esse é o problema da globalização. É outro problema – replica ele.

Foi Louis que nos guiou durante o processo pelo qual Marie-Hélène e eu nos tornamos acionistas. Também nos orientou como ser convidados para a assembleia geral. O melhor, ademais, era comparecer com um oficial de justiça, porque, se você é impedido de intervir, isso anula diretamente a assembleia.

“Gostaria de ressaltar o excepcional desempenho do grupo em 2006”, felicitava Bernard Arnault. “Um resultado operacional que cresceu 12% em 2006, uma melhoria dessa margem operacional e um resultado líquido com alta de 30%. E o grupo reforçou o avanço sobre o mercado mundial de luxo”, completou.

Ao redor de Marie-Hélène, um mar de crânios brancos. Dois mil acionistas, reunidos em um imenso salão no Carrousel du Louvre. Em sua maioria, eram anciãos habituados ao cerimonial e vestidos com muita pompa – o que tornava evidente a formidável transferência de riquezas de uma juventude precarizada, condenada ao salário mínimo, a uma velhice proprietária e rentável, que acumula inutilmente. Ànossa frente, um veterano dormita, sua cabeça oscila. Ele quer ir embora: “Ainda não, falta o presente”, aconselha a esposa. É que na saída cada acionista receberá uma pequena garrafa de champanhe Moët & Chandon. Os organizadores oferecem o presente depois, porque, se o fizessem antes, os convidados partiriam sem esperar o discurso.

Arnault é desagradável. Ao anunciar nos telões gigantes que os dividendos tiveram “alta de 30%”, sua voz monótona e lenta não provoca nenhum tipo de entusiasmo. Como um queijo mal curado. Ele não tem o carisma desses diretores norte-americanos que cresceram em escolas de pastores evangélicos e que a cada ano celebram o “Woodstock do capitalismo”.

O momento seguinte consistia na sequência de perguntas dos presentes. Marie-Hélène se precipita em direção a uma assistente do evento e é colocada em um painel com doze inscritos. Contudo, os escolhidos foram os números 3, depois o 9, logo o 7. “Esta é a última pergunta”, avisa Arnault. E escolheram o número 10. Marie-Hélène protesta a uma assistente, dizendo que havia viajado 200 quilômetros, que 147 trabalhadoras esperavam uma resposta e que ela não partiria sem fazer sua pergunta. “Não podemos abrir espaço a todos”, replicou a moça. Mas, nesse momento, Marie-Hélènejá estava no palco.

– Senhor Bernard Arnault, não quiseram me dar o microfone, mas sou delegada da CGT na ECCE – diz a todo pulmão a sindicalista.

– Ooooh! – um frisson de horror percorre a multidão.

– É verdade que vocês estão a ponto de reduzir os benefícios dos trabalhadores para assinar um novo contrato com a ECCE para que a produção seja mantida na França? Caso seja assim, 147 assalariadas serão demitidas – segue ela, olhando diretamente para o grupo de presidentes e diretores sentados na primeira fila.

Arnault retruca o “tom agressivo” da dirigente, acusando-a de “usar uma dialética adaptada à sua condição de sindicalista”.

– Mas serão 147 assalariadas! – insiste ela, e se volta para o público: – Os pequenos acionistas estariam dispostos a ganhar um pouco menos de dinheiro para manter essas 147 funcionárias na empresa?

– Sinto muito pelos problemas que isso pode vir a causar a essas pessoas – desculpa-se Arnault. – Mas o problema de fundo é a diferença de custo de alguns ofícios, como a confecção, entre a França e seus vizinhos europeus.

– Há 147 assalariadas que esperam uma resposta do lado de fora! – replica ela.

No cara a cara, ele sai perdendo, mesmo com o microfone. Então, ele chama os pegajosos do “diálogo social”. De repente, vemo-nos rodeados pelos responsáveis de comunicação: “Creio que o melhor seria conversar lá fora”, aconselha um senhor de gravata.

– Já escrevemos ao senhor, quenão teve nem a delicadeza de responder – responde Marie-Hélène.

– Então, proponho que, no marco do diálogo social, organizemos uma reunião.

Outros começam a empurrar, devagar: os vigias. “Eu sou deputado, senhor!”, lança Bertrand (tãoparlamentar quanto papa…). Os guardas se afastam para evitar o incidente. E Bertrand se aproveita de sua vantagem: “Gostaria do microfone para fazer uma proposta”.

– Não agora – responde o outro, enorme.

– Mas por quê? Por que não podemos propor uma diminuição dos dividendos para resolver esse problema?

– Não é o lugar. Estamos tentando passar ao voto.

– Como não é o lugar? Aqui se trata de um lugar democrático, não é mesmo? Não estamos em uma democracia? Então, o que é?

Bertrand fica nervoso, e sua inocência me comove: ele acredita de fato que os pequenos capitalistas, tocados pela graça, renunciariam a seus dividendos em um gesto de generosidade.

– Incomodamos muito, hein? Incomodamos porque lá fora há 147 desempregadas – provoca Marie-Hélène.

Um executivo de terno se soma à confusão: “Não é na assembleia geral que resolveremos esse tipo de conflito”.

O senhor gordo aprova: “Faremos uma reunião em seguida, para reatar o diálogo social”.

Marie-Hélène nos pergunta: “Saímos?”.

Sim, saímos. Quase voluntariamente. De tanto que estávamos incomodando. E nos incomoda incomodar. “Veremo-nos outra vez, senhor Arnault!”, fanfarroneia ainda Marie-Hélène. Retiramo-nos da sala, como ela e suas colegas serão retiradas da fábrica onde trabalham. Retiradas da vida ativa, em direção ao gargalo das “formações”, dos “estágios”, dos “serviços pessoais”. Já saindo pelo saguão, a voz de Arnault vai ficando para trás: “Curvas de crescimento…, lançamento de produtos…”.

Fechou-se um parêntese.

Passou um ano.

A ECCE de Poix-du-Nord fechou.

As pequenas mãos da alta-costura obtiveram outros postos e acompanhamento – o que não impediu a tristeza e o sentimento de incerteza sobre o futuro.

“Às vezes, em plena reunião, Bernard Arnault interrompe e sai para tocar algumas notas no piano”, informa um canal de televisão. “De tempos em tempos, como todo chefe de empresa, ele passa por períodos de preocupação, e faz bem dissipá-las. E pensar em outras coisas”. O salão de música está ao lado de seu escritório.2 Essas operárias desafinaram sua partitura e ganharam uma batalha em uma guerra perdida de antemão.



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