Jemaa-el-Fna, patrimônio oral da humanidade - Le Monde Diplomatique

NUMA PRAÇA EM MARRAKECH

Jemaa-el-Fna, patrimônio oral da humanidade

setembro 14, 2011
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Alvo de um atentado em 27 de abril de 2011, a praça, no centro de Marrakech, resiste ao assalto do tempo e de uma modernidade degradante e limitada. Novos talentos se revelam, e o público está sempre ávido por histórias

Como demonstra Mikhaïl Bakhtin em sua admirável análise da obra de Rabelais, houve um tempo em que o real e o imaginário se confundiam, os nomes superavam as coisas que designavam, as palavras inventadas tinham existência própria: elas cresceram, se desenvolveram, se uniram e se reproduziram como seres de carne e osso. O mercado, a grande praça e o espaço público eram o lugar ideal para sua eclosão: os discursos se entrelaçavam, as lendas eram revividas, o sagrado era ridicularizado sem deixar de ser sagrado, as paródias mais ácidas eram conciliáveis com a liturgia, o conto bem narrado mantinha o público em suspense, o riso se misturava às ações de graça, o malabarista e o saltimbanco aproveitavam a ocasião para fazer a coleta.

É um universo de vendedores de roupas usadas e carregadores de água, artesãos e mendigos, vigaristas e desordeiros, malandros de mãos leves, pessoas simples de espírito, mulheres de vida fácil, desbocados, velhacos, espertos, charlatães, cartomantes, impostores, doutores de ciência infusa. Todo este mundo colorido, aberto e despreocupado, que deu sua força vital à sociedade cristã e islâmica – muito menos diferenciada que se poderia acreditar – na época do Arcipreste de Hita, foi suprimido pouco a pouco ou de maneira radical, pela burguesia nascente e pelo Estado controlador de cidades e vidas; não é mais que uma vaga lembrança para os países tecnicamente avançados e moralmente vazios. A influência da cibernética e do audiovisual nivela a população e o espírito, “disneylisa” a infância e atrofia sua capacidade imaginativa. Apenas uma cidade mantém o privilégio de abrigar o falecido patrimônio oral da humanidade, qualificado por muitos com desprezo, como coisa de Terceiro Mundo. Refiro-me a Marrakech e à praça Jemaa-el-Fna, nas imediações da qual, há mais de vinte anos e com intervalos regulares, eu escrevo, passeio e moro.

 

A mesma agitação

Em Jemaa-el-Fna, malabaristas, saltimbancos, palhaços e contadores de histórias são quase tão numerosos e de qualidade tão grande como quando cheguei a Marrakech, ou quando de uma visita de Elias Canetti que deixou ali um rastro fecundo, ou ainda na época em que os irmãos Jérôme e Jean Tharaud escreveram seu relato de viagem, ou seja, sessenta anos atrás. Se compararmos seu aspecto atual com as fotos tiradas no início do protetorado, descobriremos poucas diferenças: alguns imóveis mais compactos, embora discretos; circulação mais densa; proliferação vertiginosa de bicicletas. Mas é a mesma agitação, os mesmos fiacres; grupos de vigaristas se misturam aos círculos que se formam ao redor dos contadores de histórias, em meio à fumaça errante e acolhedora das cozinhas; o minarete da Koutoubia protege, imutável, o reino dos mortos e a existência atarefada dos vivos.

No espaço de poucas décadas apareceram, e depois desapareceram, as barracas de madeira com seus vendedores de bebidas, seus bazares, suas livrarias de segunda mão: um incêndio as destruiu, mas foram reconstruídas no florescente Mercado Novo (somente as livrarias sofreram um exílio cruel em Bab Doukala). As companhias de ônibus, reagrupadas na parte alta de Riad Zitoun – algazarra, vai e vem incessante, passageiros, carregadores, vendedores ambulantes, cigarros, sanduíches –, também se mudaram e se instalaram na nova estação rodoviária onde reina a ordem. Consequência do esplendor e pompa da reunião do GATT (Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio), em 1995, a praça Jemaa-el-Fna foi pavimentada, limpa, embelezada: os vendedores informais que se instalavam ali em determinadas horas, e fugiam em um piscar de olhos quando um agente de polícia aparecia, imigraram para climas mais propícios. A praça perdeu um pouco de sua animação fervilhante, mas preservou sua autenticidade.

Enquanto isso, a morte causou seus estragos habituais entre as personalidades mais célebres. Primeiro foi Bakchich, o palhaço, com seu boné de rabo de vaca, cujo número atraía cotidianamente para o universo insular de sua halca1 um círculo compacto de espectadores, adultos e crianças. Depois foi a vez de Mamadh, o artista da bicicleta, capaz de saltar do guidão para o selim sem parar de girar em seu círculo mágico de equilibrista. Em 1995, ela bateu à porta de Sarouh: pregador solene e contador de casos insolente, que inventava histórias picantes sobre a cândida e astuciosa Jeha, ele conduzia sem dificuldades uma língua de extrema riqueza, e suas metáforas alusivas e imprecisas vibravam como flechas ao redor de um ignóbil alvo sexual. Sua imponente figura – cabeça raspada, barriga volumosa – inscrevia-se em uma tradição da praça, encarnada há muito tempo por Berghut (a Pulga), e cujas origens remontam a tempos mais duros e cruéis, quando os opositores à augusta autoridade do sultão apareciam pendurados em ganchos de açougue para servir de exemplo, ou balançavam sob os olhos de uma população assustada e silenciosa, no sinistro “balanço dos corajosos”.  

Fiquei sabendo com atraso, faz pouco tempo, da morte acidental de Tabib al-Hacharat (Doutor dos insetos), a quem Mohamed al-Yamani dedicou algumas belas páginas na revista Horizontes do Magreb. Os frequentadores de Jemaa-el-Fna conheciam bem esse homenzinho de cabelos ralos e desgrenhados que, entre suas aparições, cada vez mais raras, passeava cambaleando pela praça e roncava como uma locomotiva asmática sob as tendas das tabernas, ao lado dos fornos acolhedores. Sua história, mescla de verdade e lenda, poderia ser comparada à de Sarouh. Como ele, havia escolhido o caminho da pobreza e da errância, passava noites nos cemitérios e em delegacias, com breves permanências na prisão – que ele chamava “a Holanda” – por embriaguez em local público. Quando se cansava do Marrocos, como ele dizia, fazia sua trouxa e partia “para a América”, isto é, até os terrenos baldios vizinhos ao Holiday Inn. Seu gênio verbal e capacidade de invenção, seus jogos de palavras e palíndromos se ligavam, sem que ele mesmo soubesse, aos do manuscrito dos Makamat d’Al-Hariri – ignorados por nosso arabismo oficial tão indigente –, e se inscreviam em uma paisagem literária, como observou muito bem Shirley Guthrie, originária ao mesmo tempo das audácias de Al-Hariri e da “estética do risco” de Raymond Roussel, dos surrealistas e do Oulipo.2Suas paródias do jornal televisivo, sua receita do melhor tagine do mundo são um modelo de imaginação e humor. Não resisto ao prazer de transcrever alguns parágrafos sobre as virtudes terapêuticas dos produtos que ele aconselhava a seu público: nem filtro de amor nem poção mágica, como os charlatães de profissão, mas vidro moído e o âmbar extraído do cu do diabo…

“E o carvão?

– Ele serve para os olhos, para a torneira da ágata da íris dos olhos, para o farol dos olhos. Coloque o carvão sobre o olho doente, deixe crescer até estourar, enfie um prego bem no olho, e mexa até que consiga tirar seu olho, e quando pegá-lo na mão, poderá ver a uma distância de trinta e sete anos-luz! Se você tem pulgas no estômago, ratos no fígado, uma tartaruga no cérebro, baratas nos joelhos, uma sandália, um pedaço de zinco, um triturador, eu encontrei uma meia na casa de uma mulher de Dawdiyat. Me perguntem: onde você a encontrou?

– Onde você a encontrou?

– Eu a encontrei no cérebro de um professor!”3

 

O café Matich

Mas a perda mais grave foi o fechamento inesperado e definitivo do café Matich: embora muita água tenha passado debaixo da ponte – aguaceiros, rajadas de vento, inundações –, Jemaa-el-Fna ainda não se recuperou.

Como definir o que, por seu caráter proteiforme e sua cordialidade insinuante, escapa de qualquer esquema redutor? Sua posição estratégica, na esquina mais movimentada, fazia dele o baluarte, o centro da praça.

Quem estivesse sentado ali, podia abraçar com o olhar toda a praça, surpreender seus segredos: brigas, encontros, cumprimentos, intrigas, apertos de mão furtivos ou de uma tumescência procurando uma concavidade propícia, insultos, agitação, canto itinerante dos mendigos, gestos de caridade. A multidão que se comprime, o corpo a corpo involuntário, o espaço em perpétuo movimento, compunham a trama de um filme sem fim, sempre renovado. Histórias ou anedotas sem fim, fábulas de moral no mínimo suspeita, tal era o alimento cotidiano de seus frequentadores. No terraço do café se misturavam músicos guineanos,4 professores, comerciantes do bazar, acrobatas, pequenos traficantes, desordeiros de bom coração, vendedores de cigarros por unidade, jornalistas, fotógrafos, estrangeiros atípicos e clientes de bolsos vazios. A simplicidade das relações os colocava em pé de igualdade. No Matich, falava-se de tudo e não se escandalizava com nada. O encarregado do serviço desses reinos dispersos possuía uma sólida cultura literária e dava apenas atenção intermitente à clientela – onde somente os recém-chegados se impacientavam –, mergulhado que estava na leitura de uma tradução árabe de Rimbaud.

Vivi ali a terrível tensão e o doloroso amargor da Guerra do Golfo de 1991: quarenta dias trágicos e inesquecíveis. Os turistas haviam abandonado a praça e os residentes estrangeiros, com exceção de um punhado de excêntricos, não se aventuravam mais ali. Um velho professor guineano escutava as informações com o ouvido colado ao rádio. Os terraços panorâmicos do Glacier e do Café de France permaneciam desesperadamente vazios. Ao entardecer, o sol tingia a praça de vermelho, como se previsse o horrível massacre.

Foi ali também que passei a noite de São Silvestre mais deliciosa e poética da minha vida. Estava sentado com alguns amigos e esperava, bem agasalhado, a chegada do Ano Novo. De repente, como em um sonho, apareceu um fiacre vazio. O cocheiro, em seu banco, tinha dificuldade para se manter de pé. Seu olhar nebuloso pousou em uma jovem loira instalada em uma das mesas. Fascinado, ele largou as rédeas; o fiacre reduziu a velocidade e parou. Como em uma cena de cinema mudo, rodado em câmara lenta, o modesto cocheiro cumprimentou a moça e a convidou a subir em sua carroça. Como ela não parecia estar prestando atenção nele, ele desceu de seu lugar, aproximou-se com passo incerto e, com um “madam, madam…” tímido, refez seu gesto senhorial, convidando-a cerimoniosamente a subir em seu Rolls-Royce ou sua carroça real, seu landau suntuoso. A atitude amigável dos clientes dava realidade a seu amor, as suas velhas roupas transfiguradas em trajes de festa, ao elegante carro seu esplendor efêmero. Um deles, no entanto, interveio para quebrar esse idílio e o escoltou cortesmente até seu fiacre. O jovem não conseguia romper o encanto: olhava para trás, lançava beijos e, para se consolar de seu fracasso, bateu com extraordinária delicadeza na garupa de seu jumento (houve aplausos e risos). Depois, tentou subir em seu banco, conseguindo após muito esforço, mas logo vacilou e caiu para trás, rolando para o fundo da carroça (nova salva de palmas). Alguns voluntários colocaram-no sentado e, com as rédeas nas mãos, desenhou com os lábios um beijo de despedida à deusa escandinava, antes de se perder no trote sobre o asfalto indiferente e poeirento, no halo melancólico de seu éden abolido. Desde a época abençoada dos filmes de Chaplin, eu nunca havia assistido a uma cena como esta, tão delicada, onírica, repleta de humor e deliciosamente romântica.

Depois do fechamento do café, seus frequentadores se dispersaram como uma diáspora de insetos privados de seu ninho. Os guineanos se reúnem à noite no asfalto inospitaleiro, ou se comprimem em um velho fondouk5de Derb Dabachi. Os outros, inclusive eu, se consolam como podem do desaparecimento desse centro internacional da cultura, rememorando episódios e histórias de seu passado mítico e glorioso, como fariam imigrantes nostálgicos, provisoriamente no exílio.

Mas Jemaa-el-Fna resiste ao assalto conjugado do tempo e de uma modernidade degradante e limitada. As halcas continuam prosperando, novos talentos se revelam e um público sempre ávido por histórias faz um círculo em volta dos malabaristas e dos artistas. Graças à sua inacreditável vitalidade e capacidade digestiva, ela aglutina os elementos mais diversos, suprime momentaneamente diferenças de classe e hierarquias. Os ônibus repletos de turistas, que chegam ali como cetáceos, ficam imediatamente presos na fina teia de aranha e são neutralizados por seus sucos gástricos. Este ano, durante as noites do Ramadã, a praça atraiu dezenas de milhares de pessoas em torno das cozinhas ambulantes, entre os gritos dos vendedores de calçado, roupas, guloseimas e brinquedos. À luz da iluminação a querosene, pensei ter notado a presença de Rabelais, Arcipreste de Hita, Chaucer, Ibn Zaïd, Al Hariri e muitos dervixes. Neste espaço ainda preservado, não se veem idiotas falando em telefones celulares. O brilho e incandescência do verbo prolongam milagrosamente seu reino. Mas, às vezes, tremo em pensar como ela é vulnerável, e me vem à mente a questão que resume todos os meus temores: até quando?



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