ESPECIAL JUVENTUDE

Juventudes urbanas: o que podemos fazer juntos?

A chegada dos anos 2000 ampliou a visibilidade de movimentações de jovens de distintos setores sociais que se comunicam hoje de maneiras mais horizontalizadas,[...]
por: Kátia Maia
Crédito da Imagem: Renato Alarcão

A chegada dos anos 2000 ampliou a visibilidade de movimentações de jovens de distintos setores sociais que se comunicam hoje de maneiras mais horizontalizadas, dinâmicas e multicêntricas. Isso ficou evidente durante as experiências do Acampamento Intercontinental da Juventude, realizadas em diferentes edições do Fórum Social Mundial. Em Porto Alegre se reuniram jovens ligados tanto aos espaços clássicos da participação social (partidos, sindicatos, movimento estudantil, pastorais engajadas) quanto a novas iniciativas voltadas para antiglobalização, meio ambiente, expressões culturais. Os acampamentos fizeram “da diversidade sua força”, mostrando que nenhum tipo de organização tem o monopólio de “representação” da juventude contemporânea.

 

2005: um marco para a configuração do “campo da juventude”

Na edição do Fórum Social Mundial de 2005, de uma articulação de vários movimentos e organizações sociais intergeracionais (como MST, Via Campesina e Consulta Popular), nasceu o Levante Popular da Juventude. Seu objetivo: “multiplicar grupos de jovens em diferentes territórios e setores sociais”. Sua proposta: “sair juntos Brasil afora, associando periferias e favelas, jovens que querem direitos”. Incorporando lutas urbanas, as mobilizações do Levante são marcadas por acampamentos, performances e “esculachos”, sempre utilizando várias técnicas de comunicação e linguagens artísticas.

O mesmo Fórum Social Mundial de 2005 foi cenário da plenária de fundação do Movimento Passe Livre-Brasil. Movimentos pelo preço e gratuidade do transporte – com destaque para a Revolta do Buzu (Salvador, 2003) e a Revolta da Catraca (Florianópolis, 2004) – motivaram a criação do MPL-Brasil como um “movimento social de transporte autônomo, horizontal e apartidário, cujos coletivos locais, federados, não se submetem a qualquer organização central”. Em seu repertório, destacam-se: uso de mídia independente; assembleias horizontais, aulas públicas; pressão em torno de projetos de lei; “ação direta” (ocupação de terminais de ônibus, bloqueios de vias urbanas, “catracaço”). Nascido em um contexto de movimento estudantil de ensino médio, o MPL não se caracteriza como “de juventude” e busca agir como Frente Única pela Tarifa Zero.

Também no Fórum Social Mundial de 2005 ganhou importância o Encontro Nacional do Movimento Hip Hop, que reuniu jovens de diferentes regiões brasileiras, como parte de um importante processo de transformar o estigma de morar na periferia em um emblema gerador de arte e compromisso social.  

Por fim, no mesmo espaço do Fórum Social Mundial, foi divulgado o documento final do Projeto Juventude, produzido pelo Instituto Cidadania por encomenda do então presidente Lula. Após consulta nacional, esse documento demandava a criação de um espaço institucional “de juventude” em nível federal, o que veio a se concretizar em junho do mesmo ano, com a Lei n. 11.129, que criou a Secretaria Nacional de Juventude, o Conselho Nacional da Juventude e o Programa Nacional de Inclusão de Jovens.

 

Dez anos depois: conquistas, velhos desafios e novas contradições

No que tange ao poder público, passados dez anos, registra-se um maior número de secretarias e conselhos municipais e estaduais de juventude; a realização de Conferências Nacionais de Políticas Públicas de Juventude (2007 e 2011); a promulgação o Estatuto da Juventude (2013), bem com um maior número de programas e ações públicas voltadas para jovens.

Contudo, não tem sido fácil criar vasos comunicantes entre as “caixinhas” das políticas setoriais e a integração entre os entes federados. Reproduz-se assim o hiato entre formulação e aplicação de políticas públicas, bem como persistem as contradições entre o calendário eleitoral e o tempo de maturação das políticas.

Já para os jovens gestores, “estar no governo” também implica desafios: internamente são considerados “inexperientes” para executar políticas; externamente podem ser acusados de cooptação e/ou de favorecimento de uma causa ou grupo político; e, ainda, com suas trajetórias militantes, têm dificuldades para se aproximar da chamada “juventude não organizada”.

No que tange à sociedade civil, em tempos de capitalismo globalizado e conectado, certamente os movimentos juvenisincorporam (e modificam) características de protestos mundiais (como Black Blocs e Marcha das Vadias).

Também em consonância com o tempo presente, iniciativas presenciais e virtuais se complementam, expressando-se em territórios vulnerabilizados e em redes sociais. Entre os novos coletivos juvenis, que se reúnem com diversos objetivos, vale destacar tanto os midiativistas quanto os grupos culturais locais. Arteativismo, rolezinhos, ocupações e outras formas de “ação direta” se fazem por meio de expressões artísticas e culturais, tornando os protestos políticos divertidos e irreverentes, performáticos.

Assim sendo, e não por acaso, como pudemos ver nas manifestações de junho de 2013, embora existam pontos de convergência, predomina a heterogeneidade entre coletivos e indivíduos mobilizados. Jovens com diferentes trajetórias, acionando identidades múltiplas (não necessariamente excludentes), e com diferentes experiências de militâncias (simultâneas ou consecutivas) transitam na sociedade civil e/ou em esferas governamentais.

 

Vida e direitos para a juventude negra: uma urgência e uma oportunidade

Entretanto, após uma década de mudanças no imaginário social brasileiro, a grave situação de violência vivida pela juventude negra nas cidades brasileiras produziu uma prioridade entre movimentos, redes e coletivos juvenis. Reconhece-se que a mortalidade de jovens é resultado de processos históricos e da criminalização da juventude pelas polícias e pela mídia. Em contrapartida, reconhece-se também que a situação exige o combate ao racismo institucional, a integração de políticas (de segurança, educação, trabalho, lazer, saúde e assistência psicossocial), o acesso à justiça, o fim dos questionáveis “autos de resistência” e a necessária reforma das polícias.

Estancar esse processo é uma urgência porque tais mortes – que chegam a números de guerra – estão banalizadas e não causam indignação na chamada “opinião pública”. Porém, ao mesmo tempo, ao acionar a solidariedade, essa causa urgente pode representar uma especial oportunidade de convergência para a ação com e entre jovens. Ou seja, sem pretensões de homogeneizar as juventudes e suas experiências, priorizar o direito à vida da juventude negra pode representar uma oportunidade para promover inéditas interlocuções que resultem em respostas inovadoras para a indagação: o que podemos fazer juntos? O aprofundamento da democracia brasileira depende de uma nova articulação entre igualdade e diversidade. 


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