Nada a temer - Le Monde Diplomatique

O QUE FAZER - ENTREVISTA

Nada a temer

junho 6, 2016
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O que fazer após o afastamento da presidenta Dilma Rousseff, concretizado no dia 12 de maio? O Le Monde Diplomatique Brasil convidou pensadores e lutadores sociais de diversos matizes para debater como lidar com a crise e trabalhar com certos elementos, como a guerra das ideias, as eleições municipais de outubro e a orIsabel Loureiro

Quais são os caminhos para organizar a resistência aos ataques aos direitos?

 

É preciso começar com um balanço do que foi feito nos governos Lula/Dilma, inserindo nosso quintal no plano global. Com o fim da sociedade salarial, vivemos um tempo em que há trabalho, mas não há emprego. O PT chegou ao governo quando o neoliberalismo avançava mundo afora, e aqui não foi diferente. O que fizeram esses governos para viabilizar a existência de milhões de brasileiros descartados? Aplicaram a receita do Banco Mundial para os países em desenvolvimento: políticas de transferência de renda que, com o aumento do salário mínimo (e sobretudo por isso), além de outras políticas públicas, melhoraram a integração das classes subalternas. Mas, como foram remendos, e não a resolução dos problemas estruturais do país, o resultado está aí: a volta das forças do atraso, agora sem mediações.

Tomemos como exemplo o mundo agrário. Aqui vemos a combinação perversa do moderno (a grande empresa capitalista, adepta da monocultura, dos transgênicos e agrotóxicos) com o atrasado (a barbárie da predação ambiental e social). Nos governos do PT, as estratégias para consolidar a hegemonia do agronegócio foram mais amplas que nos anteriores: aumentou-se a concentração fundiária, regularizou-se a grilagem na Amazônia Legal, os transgênicos foram liberados, o país virou o maior consumidor mundial de agrotóxicos etc. No plano retórico, tentou-se conciliar os interesses do agronegócio com os dos pequenos agricultores, aprovando, pela pressão dos movimentos, uma política favorável à agroecologia. Mas os recursos destinados ao primeiro sempre foram infinitamente maiores.

O PT (e os movimentos que orbitam em torno dele) alega a seu favor que diminuiu a pobreza no país, o que é verdade. Mas isso foi feito por meio de alguma inclusão social pelo consumo financiado, e não pelo acesso a educação, saúde, moradia, saneamento básico, cultura etc. Ou seja, conquistas perdidas rapidamente com o desemprego.

 

Como atuar na guerra das ideias e na comunicação?

 

Como a mídia impressa e televisiva está nas mãos de grupos conservadores que manipulam a opinião pública, é difícil saber se haverá resistência por parte das classes subalternas. Ao mesmo tempo, com a entrada de jovens dessas classes na universidade por meio do ProUni e do Fies, pode ser que essa turma se insubordine contra a impossibilidade de ascensão social que o governo Temer, com os cortes anunciados, pretende levar a cabo. O papel das redes sociais, blogs, sites alternativos é crucial. Temos visto muitas manifestações contra o governo Temer por parte de movimentos LGBT, de gênero, pela liberação da maconha, resistência dos artistas contra o fim do MinC etc. Isso é uma novidade no Brasil que aponta para um desejo de combater os privilégios das elites e uma vontade de radicalizar a democracia.

É de esperar violência contra ativistas, uma vez que a lei antiterrorismo servirá para criminalizar os movimentos sociais e todos os que se opuserem às políticas de ajuste. Nesse caso, será preciso criar grupos de defensores dos direitos humanos, recorrer às organizações internacionais para denunciar a violência. Numa época de redes sociais, é mais difícil para os mandantes de plantão cometer arbitrariedades contra os brancos de classe média. O problema foi, é e será a violência contra os jovens negros das periferias. É fácil criticar o governo Temer: arquiconservador, um retrocesso etc. O mais difícil é que o PT faça uma profunda autocrítica de sua trajetória e não fique no papel de vítima de um golpe de Estado. Mas, conhecendo esse pessoal, acho que é tudo que eles não farão. O mantra do golpe vem a calhar para isso. Estou convicta de que um partido de esquerda só poderá ter um papel relevante se atuar apenas no Legislativo, aproveitando esse espaço para denunciar, controlar o Executivo. Na hora em que ocupa cargos executivos, ele é obrigado a gerir a máquina do Estado, ficando prisioneiro de quem manda no mundo, o poder do dinheiro.

Isabel Loureiro é filósofa e especialista na obra de Rosa Luxemburgo. A professora decidiu concentrar-se nas duas primeiras questões.



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