Nas vielas da periferia, a insubmissão - Le Monde Diplomatique

A CRIMINALIZAÇÃO DO FUNK

Nas vielas da periferia, a insubmissão

agosto 10, 2017
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Marginalizado, o funk enfrenta o conservadorismo ao quebrar valores morais de classes dominantes. A criminalização do ritmo visa enquadrá-lo em crime de saúde pública. A música de origem periférica não foi a única que se rebelou contra classes dominantes na história brasileiraArthur Iassia, Daniela Arcanjo, Lucas Pinto e Matheus Ferreira

baile funk carioca

 

“Eu acreditava, sinceramente, que não iria dar em nada”, conta Marcelo Alonso, 46, autor da proposta legislativa que quer criminalizar o funk no Brasil. Em maio de 2017, sua ideia alcançou, há 8 dias do vencimento do prazo, 20 mil apoios no site do Senado Federal, número mínimo para que fosse apreciada na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH). A sugestão se junta a 26 outras na espera de um parecer na CDH, que podem resultar em um projeto de lei.

O tema levantou protestos de artistas, de pessoas que vivem do funk e encontrou apoio em parcela da população. “A ideia legislativa só virou essa polêmica porque o povo venceu com as 22 mil assinaturas e continua vencendo com 41 mil de apoios ainda da sugestão”, explica Alonso. Segundo ele, a ideia foi sua, mas a vontade de criminalizar o funk é “do povo”.

Qualquer cidadão pode enviar alguma sugestão ao site do Senado. Basta ter um e-mail e escrever uma proposta que não fira os termos de uso do e-cidadania. Dar apoio ao projeto também é fácil, feito ao apertar de um botão.

Morador da região metropolitana de São Paulo, onde trabalha como webdesigner, Marcelo Alonso diz que escreveu a proposta “porque o funk fugiu do controle dos criadores e porque não houve um cuidado por parte do governo em fiscalizar, coibir e censurar”.

O propositor critica os pancadões, chegando a considerá-los como “um dos cancros” de São Paulo. “São somente um recrutamento organizado nas redes sociais por e para criminosos, estupradores e pedófilos; é prática de crime contra a criança e o menor adolescentes”, defende. No texto que está em apreciação no Senado, pede-se a criminalização do Funk como crime contra a saúde pública e contra a criança e adolescente.

Parte do processo para angariar apoio à criminalização do Funk é feita na página do Facebook Funk é lixo, administrada por Alonso. “A página foi criada para rirmos da imbecilidade, idiotice, falta de inteligência e senso de ridículo que todo funkeiro tem”, dispara. Quem manda uma mensagem no inbox da Funk é lixo recebe automaticamente a resposta “Vamos criminalizar o funk! Vamos livrar nossas crianças e jovens dessa apologia do mal. Apoie essa ideia”, com o link do site do Senado.

Criada em 2015, a página acumula, ao mesmo tempo, milhares de seguidores – quase 150 mil – e violações. Já foi tirada do ar duas vezes por não respeitar os termos de uso da rede social. O próprio Alonso, que costuma responder que sua página não é de ódio, reconhece que não sabe como não ela foi removida por uma terceira vez. “Recebo muitos vídeos e imagens do que acontece nos pancadões na página”, relata. Seu principal objetivo é “conscientizar” as pessoas sobre a suposta apologia do funk.

Toda a empreitada de Marcelo tem por base seus conceitos de cultura. Ele exemplifica o que seria aceitável ou não: “Um índio que pega uma criança que nasce com síndrome de Down e a pisoteia até a morte e depois a enterra em um buraco na floresta também é cultura, mas nem por isso a sociedade aceita e irá tolerar. Assim é com o funk”.

Ela dá outro exemplo. “Se você cria uma peça de teatro onde todos ficam pelados, em uma espécie de trenzinho, e um indivíduo enfia o dedo no ânus de outro. Acreditar que isso é cultura é deprimente”. Alonso avalia que esses tipos de manifestações culturais não podem ser toleradas.

Ainda segundo o proponente da ideia, o funk se resume a uma falsa cultura, na qual o crime foi inserido para que não fosse proibido. “O funk não tem nenhuma base como cultura”, julga. Alonso justifica, repetindo seu lema: “o funk faz a apologia ao sexo precoce entre crianças e adolescentes, consumo de tráfico de drogas, sexo livre e grupal, pedofilia, extermínio de policiais, entre outros”.

Apesar de todo o rebuliço, o autor acha que sua proposta não vai para frente. “Deverá ser arquivada, com certeza, ainda mais tendo um funkeiro como relator”, confessa. “A ideia preocupa peixe grande, está é a verdade, o universo do funk é muito maior do que se imagina”. Avisado por um curtidor da página, Alonso é ciente de que a proposta é inconstitucional. “Se é inconstitucional tornar funk crime, então vamos rever isto e mudar as leis deste país”, sugere.

A relatoria da sugestão legislativa está a cargo de Romário, senador do Podemos-RJ. O relator não enxerga a caracterização de funkeiro como negativa. Ao contrário. Em sessão da CDH, o senador disse: “Eu, como carioca nato e eterno funkeiro, faço questão de defender essa bandeira aqui”. O senador é contra a proposta.

Na opinião de Romário, expressada nas redes sociais, a sugestão que criminaliza o funk atenta contra a liberdade de expressão e contra a cultura popular. O funk deve ser visto de uma perspectiva cultural, aliado a uma capacidade de empregar pessoas e gerar renda. Quanto às críticas de que os pancadões são lugares de crime, o senador observa que as tipificações de crime já estão previstas no Código Penal, assim como suas devidas punições.

Funk na história

Com origem em plena Ditadura Civil Militar, o funk toma forma na periferia da cidade do Rio de Janeiro. Nos anos de 1970, a cidade recebia uma influência cultural da música dos Estados Unidos, naquele momento com o funk americano consolidado. Foi nesta época que bailes começaram a ocorrer especialmente nas zonas periféricas cariocas, já que haviam sido expulsos da Zona Sul, local conhecido por ser o que abriga os bairros com a população mais rica da cidade.

Hermano Vianna, antropólogo que se envolveu com as manifestações periféricas e na divulgação do funk na TV aberta – primeiro com o Central da Periferia e depois com o Esquenta!, programas da Rede Globo de Televisão – estudou o ritmo em 1987, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sua dissertação de mestrado, “O Baile Funk Carioca: Festas e Estilos de Vida Metropolitanos”, abriu as portas da academia para um fenômeno que ocorria longe do asfalto das universidades.

Segundo o estudo de Vianna, no início essas festas ainda não eram chamadas de bailes funk. Eram organizadas no Canecão, na Zona Sul do Rio, aos domingos, pelo discotecário Ademir Lemos. Eram conhecidos como “Bailes da Pesada” e uniam dançarinos dos mais diversos bairros do Rio de Janeiro. Lemos era eclético na escolha da música, mas o Soul, música negra americana, era a sua escolha preferida. Ele afirmou, em entrevista concedida ao Jornal da Música em Fevereiro de 1977*, que o ponto de virada para a mudança das festas no Canecão para o subúrbio do Rio de Janeiro foi a chance dos diretores da casa de levarem o Roberto Carlos para cantar. “Era a oportunidade deles para intelectualizar a casa, e eles não iam perdê-la, por isso fomos convidados pela direção a acabar com o baile”.

Com a justificativa de que o soul era “uma música mais marcada, portanto melhor para dançar”, o ritmo dominou as festas da cidade, naquele momento disseminadas. Ligados à estética negra, esses eventos chamaram a atenção do jornalista Lena Frias, que publicou, em 1976*, uma matéria intitulada “Black Rio – O Orgulho (importado) de ser Negro no Brasil”, no Caderno B do Jornal do Brasil. O alvoroço fez a repressão da ditadura chegar na porta do que era um protótipo do funk carioca. Os donos das equipes de som Black Power e Soul Grand Prix chegaram a ser levados ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). O regime militar queria averiguar a presença de grupos de esquerda nesses espaços.

Esta seria apenas a primeira reportagem de uma ampla cobertura que se seguiu nos jornais a respeito do circuito do funk carioca que se iniciava naquela época. Na coluna Afro-América Latina do jornal Versus, foi publicada uma nota, em 1978*, sobre os bailes que estavam ocorrendo no Rio de Janeiro e se espalhavam pelo Brasil. Ela tinha o seguinte trecho: “A vontade de lutar como o negro norte-americano, em busca da libertação do espírito negro, através do Soul. As roupas coloridas, as investidas na imprensa branca junto com a polícia comum… Num segundo momento uma consciência incipiente começa a surgir. O trabalho, as condições de vida, a igualdade racial começam a receber destaque”.

O termo “funk” tem origem americana. Era uma gíria, “funky”, que significava algo como “ofensivo”, tinha um significado pejorativo. Com o tempo, a palavra foi ressignificada e nomeou o ritmo que teve origem com o desenvolvimento do rock e do blues.

Criminalização e fascismo social

Marcado pela contravenção e pela repressão, o funk não está sozinho entre as manifestações culturais periféricas e negras que sofreram tentativas ou até efetivas proibições no Brasil. A capoeira e o samba também entram nessa lista.

Durante décadas a capoeira foi proibida de ser praticada no Brasil. Criada a partir da dança entre pessoas de diferentes etnias africanas que vieram escravizadas ao Brasil, esta manifestação cultural foi coibida em todo o território nacional pelo Código Penal de 1890, feito durante o governo Marechal Deodoro. Já o Estado Novo, que vigorou de 1937 a 1946, criminalizou o samba. Sob um governo autoritário de Getúlio Vargas, o ritmo foi perseguido por conta de suas mensagens que enfrentavam valores vigentes.

O funk está mais adaptado a uma lógica de consumo. A quantidade de cantores brancos que têm surgido dentro do ritmo é um termômetro para a inserção do funk na indústria cultural. Este fenômeno, no entanto, não impediu que uma ideia legislativa ganhasse tanto apoio ao ponto de se tornar uma sugestão legislativa.

Para Bruno Muniz, PhD em Sociologia pela London School of Economics and Political Science, a internet possibilita a união das pessoas em torno de uma causa para mobilizar esforços. “Conforme o funk ganha projeção nacional, essas manifestações também vão para o âmbito nacional. Mas a internet facilita a união de pessoas em torno de um mesmo tema. É uma ideia claramente inconstitucional, a aplicação é quase impossível, mas a pessoa conseguiu fazer o movimento de juntar mais de 20 mil pessoas em torno disso, em um país onde tem muito mais pessoas que apreciam o funk”, afirmou ele.

Para Luciane Soares da Silva, professora associada na Universidade Estadual do Norte Fluminense e estudiosa do fenômeno da criminalização dos bailes pelas UPPS , a proposta de lei não diz respeito a esse funk que está inserido no mercado e que tem força para continuar sendo produzido. Ela cita a gravadora Furacão 2000, o DJ Marlboro, que ficou famoso nos anos de 1990 tocando funk e a cantora Anitta como empresas ou artistas que continuarão com o seu trabalho garantido. “O funk se torna um perigo quando ele se territorializa em lugares periféricos. Quando o funk que é tocado em uma festa em um local nobre de São Paulo, todo mundo vai descer até o chão e achar até engraçado dançar Tati Quebra-Barraco. O funk que acontece na periferia, não controlado, assusta. É esse que se quer criminalizar. A Anitta e os cantores brancos estão liberados”. A socióloga cita o elemento “anárquico” como a principal fonte de rejeição do funk.

Os dois estudiosos não descolam o que ocorre no Brasil de uma realidade mais ampla. “É interessante quando você vê essa onda conservadora crescendo. Ela escolhe alguns alvos que são absolutamente secundários se comparados a um debate essencial, que é a questão da cultura”, afirma Luciane. Para Bruno, o que é retratado no funk faz parte da sociedade. Ele fala que a música é uma ficção e não pode ser tratada como a origem dos problemas brasileiros. “O funk é um estilo musical. Ele não pode ser o bode expiatório das mazelas do Brasil. A gente sabe muito bem que as causas dessas mazelas são outras. Parece que desde a gravidez precoce e a violência ao uso de drogas, tudo você pode jogar na conta do funk, o que é completamente sem sentido”

André Bezerra, presidente do Juízes Para a Democracia (JPD), usa o conceito de fascismo social, de Boaventura de Sousa Santos, para falar sobre a sugestão legislativa. “O fascismo social legitima certas violações na sociedade. Existem pessoas que tem a sua dignidade violada diariamente, mas que não causam nenhuma comoção social. O fascismo social é histórico no Brasil e tem como seu principal instrumento o Direito Penal, um ramo seletivo e que foi usado para reprimir determinadas categorias da população”, explica Bezerra.

Ele conta que o primeiro código civil brasileiro, do século XIX, visava reprimir os escravizados, para inibir qualquer tipo de rebelião. “A capoeira era criminalizada no século passado. Hoje a defesa da criminalização do funk vai no mesmo sentido. Todas essas proibições têm como alvo a população negra.”

Apesar do Brasil ter uma constituição que abarque os Direitos Humanos, por ter sido realizada após uma ditadura que vitimou milhares de inocentes, a partir de 1988, o Direito Penal não parou de crescer. “Há várias leis que criminalizam ações, uma população carcerária que não para de crescer e forças armadas sendo usadas para reprimir as populações mais pobres. Aproveitando desta onda conservadora e com o congresso mais conservador desde 1988, vivemos um ápice da criminalização de manifestações culturais de pessoas, não coincidentemente, negras”. Para Bezerra, o funk sempre vai incomodar porque é uma manifestação cultural que vem de baixo para cima, então tem um potencial ameaçador. “É bom lembrar que a uniformização dos valores e da cultura é um projeto hegemônico desde a formação do capitalismo”.

Bezerra afirma que o posicionamento histórico da JPD é de limitar ao máximo o Estado Policial brasileiro. “A gente tem como ideia básica que o Estado de Direito é o Estado em que a polícia aparece em casos excepcionais. O Estado de Direito é o Estado da Tolerância, e ela implica no respeito às mais diversas manifestações culturais”, afirma ele.

Choque entre concepções

“Desconfio que, quando dizem que o funk é uma ‘falsa cultura’, querem dizer com isso que ele não tem nada a somar à sociedade, como se cultura fosse algo que pudéssemos controlar, guiar”. É assim que pensa Mylene Mizrahi, doutora em Antropologia Cultural pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em reflexão sobre os críticos que questionam o valor do funk como cultura. A pesquisadora, que dedicou muitos de seus trabalhos para entender o funk e sua estética, pontua que essas críticas são oriundas de uma visão antropológica ultrapassada sobre a cultura.

Essa visão pode ser relacionada às teorias que tratam a cultura de forma estratificada – que tende a dividi-la em diferentes estágios de desenvolvimento – e que é originada a partir dos estudos e definições do antropólogo inglês Edward Tylor e da escola do Evolucionismo Social; além disso, ela obedece uma lógica etnocêntrica, mais especificamente eurocêntrica, na qual o nível final que todas as formas de cultura devem almejar atingir é definido por parâmetros culturais europeus.

Foi Tylor que cunhou, em seu livro intitulado “Primitive Culture”, uma das definições sobre o assunto mais conhecidas na modernidade: a cultura é “todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. Ele enxergava a cultura de forma única e formada por fases de desenvolvimento que todas as sociedades iriam passar rumo a um estágio civilizatório final.

“Cultura é, assim, formada por sistemas simbólicos por meios dos quais os indivíduos se entendem no mundo, dão sentido a ele e se fazem humanos, de maneira que não é possível separar suas atribuições de sentido do modo com engendram suas vidas”. Essa é uma das possíveis interpretações do conceito de cultura que Mizrahi aponta, considerando a cultura em conjunto com a vida humana. A pesquisadora revela que sua linha de pensamento segue os passos do antropólogo alemão Franz Boas, criador da escola antropológica Culturalista. Se antes as particularidades de cada sociedade eram vistas apenas para definir em que estágio de desenvolvimento universal ela se encaixava, para Boas as sociedades não podem ser definidas por um conceito geral de cultura.

“Com Boas temos uma mudança fundamental. As culturas passam a ser pensadas como múltiplas e singulares, iguais e diferentes entre si. Iguais em seu valor e importância mas diferentes em suas particularidades. Passa-se a pensar culturas como conformando sistemas simbólicos singulares”, é assim que Mizrahi resume a contribuição de Boas para os estudos antropológicos sobre cultura.

Dizer que um ritmo musical, como o funk, não é cultura é uma afirmação que se apoia sobre teorias universalistas e etnocêntricas da antropologia e sobre o senso comum. Para Mylene Mizrahi, o senso comum aceita como cultura apenas o que era compreendido no conceito de “cultura erudita”, classificando todo o resto como se não fosse cultura.

O senso comum é apontado pela pesquisadora como responsável por ter uma visão pouco abrangente das manifestações culturais. “Nesse sentido, o funk […] é tomado como algo único, fechado e não como fenômeno multifacetado como ele de fato é”. Mizrahi explica o aspecto multifacetado do funk ao qual se referiu ao dizer que “se o funk fala de crime, ele não poderia então, dentro dessa lógica representacionalista, falar de relações amorosas ou produzir narrativas românticas. Podemos dizer assim que há um certo maniqueísmo nessa noção de cultura, como se cultura fosse somente aquilo de que nos orgulhamos”.

Pode-se inferir, a partir da fala de Mylene Mizrahi, que, tomando por base a linha de pensamento de Franz Boas e seu relativismo cultural, é possível enxergar por que definições pré-determinadas e qualitativas de cultura são tidas como obsoletas no meio acadêmico. Conceitos como “alta cultura” ou “cultura erudita” e “baixa cultura” ou “cultura popular” são deixados para trás na teoria do alemão, em prol de uma análise das diversas culturas sob um olhar que as interpreta de acordo com suas características e a função que elas desempenham na sociedade.

A cara do Funk

A versão brasileira mais conhecida do funk é o carioca. A demarcação local no nome do ritmo tem caráter identitário, mas também auxilia na diferenciação do tradicional funk norte-americano. Ele foi criado adicionando manifestações mais recentes como o miami-bass (mistura de hip-hop e electro) e o freestyle (música urbana, que abarca o rap).

Foi nos anos 80, quando o funk carioca se consolidava, que a socióloga Carla Mattos se mudou para a favela carioca Nova Holanda, no Complexo da Maré, e notava a presença do ritmo nas relações sociais dos moradores do local. O funk se popularizou ao mesmo tempo em que “um segmento de moradores construiu e pensou a Nova Holanda como lugar político e local integrado à cidade”, lutando por moradia e urbanização

Por sua origem, o gênero musical sempre esteve ligado a exigências e problemas de populações marginalizadas. Suas letras tinham como principal intuito retratar a realidade social vivida nas áreas mais pobres da cidade e denunciar a incapacidade do Estado em chegar a determinados locais.

Ao longo dos anos, no entanto, o funk passa a ser associado ao crime por parte da sociedade brasileira. Algumas letras que abordam o tráfico dentro das comunidades e práticas violentas ganham destaque e ficam conhecidas como “proibidão”.

Para Carla Mattos, doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), essa noção é resultado da criminalização da pobreza no debate político e da discriminação dessa população. “Atualmente, o preconceito social acredita que a origem de todo mal da violência e do crime está nas periferias. Isso retira do foco da política de drogas e de criminalização da pobreza como processos que produzem efeitos vitimizadores dos moradores dos territórios periféricos”, comenta a socióloga.

Adriana Lopes, doutora em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), concorda com essa afirmação. Autora do livro “Funk-se quem quiser no Batidão Negro da Cidade Carioca”, ela acredita que a má imagem do funk está mais relacionado com seus interlocutores do que com seu conteúdo. “O proibidão não tem tanto a ver com as letras, mas com quem está cantando, porque a pessoa traz as marcas deste lugar. Não é sobre a forma como cantam, mas como a sociedade escuta essas vozes”, explica.

Além disso, segundo as pesquisadoras, o sentido das músicas pode ser deturpado. A menção à violência nem sempre representa apologia ao crime. Mattos acredita que “ainda que uma vertente do Funk fale da ação violenta de uma facção, em geral, as letras vão localizar as situações de violência. Ou seja: não há generalizações, mas identificações de práticas, relações e ideias”. Para ela, é um processo de mediação entre o que acontece dentro das comunidades com o ambiente externo.

A relação do funk com violência fez parte da vida de Thomas Pereira, de 25 anos, mas de outra forma. Conhecido como “PJ”, é funkeiro e MC, mas já esteve envolvido com o crime e cumpriu pena em regime fechado. “A música salvou minha vida, minha liberdade, minha honra como pai e como filho. Se eu continuasse naquela vida não teria apoio da minha família e não teria voz, ninguém ia me ouvir, porque dentro da cadeia ninguém te ouve – e muito menos dentro de um caixão”, conta o jovem

Thomas faz shows aos finais de semana e estava envolvido na produção e gravação de um disco. Ele acredita que a sua história e a arte que produz estão ligadas. “Se hoje eu tenho uma mente diferente de antes e se eu parei, coloquei a mão na consciência e revi meus conceitos diante da vida, eu não tenho dúvida nenhuma que é por causa da música, é por causa do funk”.

Algo semelhante é visto por David Jackson de Oliveira, o MC David Boladão. Ele aponta o potencial econômico do ritmo, que tira pessoas do desemprego e dá oportunidade a profissionais de diferentes áreas. “O funk não é só o MC: através dele tem o DJ, o produtor, o hold, o técnico de som… Quando faço um show, ainda tem o dono da casa, o segurança, o barman, o promoter. É muita gente envolvida”.

Para ele, a música foi a oportunidade encontrada para conhecer pessoas e lugares novos, se expressar e divertir. Com 29 anos, viaja o interior paulista para fazer apresentações em casas de show e destaca a importância desses eventos para o entretenimento da população. “O que mais rola hoje é baile funk. Se você cortar, principalmente em cidades no interior, não vai sobrar nada. Eventos assim são escassos e, sempre que tem, lota”.

Boladão também comenta uma tendência cada vez mais notável: o consumo desse ritmo está longe de ser exclusividade das classes mais baixas. O MC conta orgulhoso que se apresentou diversas vezes “onde o funk não é bem visto, em festas da classe A”. Mas ele não está sozinho: ao lado do sertanejo universitário, o ritmo nascido nas favelas cariocas detêm os maiores números da indústria fonográfica brasileira.

Poética da periferia

Em plataformas de streamings na web, o destaque é evidente. Entre as 50 canções mais ouvidas no Spotify em território brasileiro (no mês de julho deste ano), 11 são de artistas do gênero – para efeito de comparação, a MPB aparece com apenas duas canções. No Youtube, outra dominação: os dois videoclipes recordistas de visualizações em 24 horas no Brasil são de Anitta (6,4 milhões com “Paradinha”) e Mc Kevinho (6,2 milhões com “Tô Apaixonado nessa Mina”).

Outro nome de peso no cenário nacional é Konrad Cunha Dantas: o KondZilla. Dono da KondZilla Filmes, maior produtora audiovisual de funk no Brasil, é detentor de quase oito bilhões de visualizações em seu canal no Youtube e gerenciou clipes de grandes hits recentes do gênero, como Deu Onda, Bumbum Granada, e Baile da Favela.

A visibilidade desses artistas, porém, nem sempre está ligada às demandas do funk tradicional. Com letras mais festivas, os grandes hits são feitos segundo uma lógica de mercado para atingir públicos maiores.

Como visto, o discurso político perde espaço e, em seu lugar, predominam referências a festas e relações amorosas. Adriana Lopes, linguista e pesquisadora de funk, destaca as diferenças entre as músicas que vão além da comunidade em que foi produzida. “O funk que vai tocar nos bailes de favela têm um tipo de produção mais precária, o estúdio onde foi produzido, o investimento no artista. O que vai ser tocado em ambientes de classe média se aproxima de uma música pop e tem uma outra roupagem, até pelo estigma que carrega”. Ela destaca, por exemplo, o caso da cantora Anitta: no início da carreira conhecida como MC, hoje se projeta no cenário internacional como cantora pop latina.

Para Adriana, casos assim só ressaltam que o preconceito é o principal empecilho dos ritmos marginalizados. “As diferenças de tratamento do funk dependendo de quem está consumindo essa música mostra como o problema não é o funk, é quem consome e quem produz. Como existe a criminalização intensa da juventude favelada e, em sua grande maioria, negra, aquilo que ela consome é sempre sinônimo de crime”.

Carla Mattos acrescenta: “A marginalização do ‘preto-pobre-favelado’ marca uma diferença radical. Não é bandido, mas também não é trabalhador. Quando uma identidade é entendida como muito diferente, significa que foi atirada ao reino do exotismo incontrolável e emudecido”.

Enquanto isso, os profissionais seguem produzindo sua música e levando a cultura das favelas aos bailes. “O funk é grande, é a ideologia do protesto e da palavra de conforto. Eu quero fazer a diferença, como MC de Funk, eu quero mostrar pra essas pessoas que o funk é cultura e salva vidas”, projeta Thomas.

 

Arthur Iassia, Daniela Arcanjo, Lucas Pinto e Matheus Ferreira são estudantes do curso de jornalismo da Universidade Estadual de São Paulo



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