SÉRIE ESPECIAL – RACISMO NA MÍDIA E NA ESQUERDA

Negação prova existência do racismo

Confira o terceiro artigo da série “Racismo na mídia e na esquerda”, cujo objetivo é diagnosticar, problematizar e combater esse tipo de opressão presente nesses setores. Nesta edição, quem escreve é a relações públicas e escritora Gabriela Moura, especialista em sociopsicologia

por: Gabriela Moura
12 de março de 2017

O racismo é um fenômeno social de segregação conhecido, porém negado. Apesar de leis – falhas – que visam coibir práticas discriminatórias, estas prosseguem com raízes profundas nas teias sociais e uma história mais nebulosa do que se imagina. O desafio deste material é entender esse local de privilégios, sedimentados nas eras pré e pós-abolição, e o que ocorre na psique humana em relação a esses processos em uma sociedade cuja pluralidade é celebrada em alguns momentos e rechaçada em outros.

Com base no marketing bem-feito que coloca nosso país como um dos mais democráticos do mundo, a branquitude encontra subterfúgios para se isentar de responsabilidade sobre as relações raciais. Não é surpreendente que os debates acerca desse tema pairem sobre uma atmosfera defensiva por parte dos brancos. Entende-se a existência de uma sociedade racista, porém jamais se admite pertencer a ela ou reproduzir seu comportamento nocivo. Quando falamos em racismo estrutural, precisamos lembrar que estruturas são compostas por indivíduos, e não lavar as mãos como se a palavra “estrutural” significasse um local distante, utilizado como um álibi. Para ilustrar o que digo, segundo pesquisa do Instituto Data Popular:1 92% dos brasileiros afirmam haver racismo no país, enquanto apenas 1,3% se considera racista. Onde essa equação não fecha? Se existe uma dificuldade em assumir-se parte dos 92%, é porque estamos falando de moralidade. O ato de discriminar alguém por sua etnia é execrado publicamente, mas é perpetuado nas relações sociais e mantido pelo sistema como um todo. Se perguntarmos para uma pessoa se ela acha aceitável que negros sejam subjugados por sua cor, é pouco provável que ela diga sim. No entanto, ao mesmo tempo existe a ideia errônea de que racismo é apenas a verbalização de termos pejorativos.

A abordagem freudiana explica que o homem sente um profundo incômodo com o estrangeiro, aquilo que não pertence ao seu eu e que, eventualmente, lhe ferirá o ego pela não correspondência às suas ideações. Como explica a psicanalista Caterina Koltai, ao afirmar que “o inconsciente é o social”, “essa noção de conjuntos remete à noção de fronteira, ainda que, não necessariamente, entendida em seu sentido geográfico ou geopolítico. Pode tratar-se de uma fronteira interna, que separa um grupo social do outro, dentro de um mesmo país. E é aí que a questão começa a ficar problemática. Com o atual processo de globalização, o outro pode estar em qualquer lugar. A fronteira simbólica entre o conjunto formado pelos racistas e o conjunto formado por suas vítimas não coincide mais com a fronteira geográfica, como acontecia no caso do colonialismo. Com a industrialização e os processos migratórios, o outro se tornou extimo, termo inventado por Lacan para falar desse estrangeiro heterogêneo e interno ao mesmo tempo. Hoje, o estrangeiro mora ao lado. Vive na casa vizinha e goza de maneira diferente. É justamente aí que reside o problema. Aquilo que era tolerável quando o estrangeiro estava longe torna-se insuportável a partir do momento em que ele se aproxima demais e nos impõe suas ‘excentricidades’”.2

Podemos, então, com base na análise de Koltai, compreender o racismo como um sentimento de aversão narcísica, em que o branco não aceita a cultura do negro por considerá-la excêntrica e, portanto, inferior. Mas, quando falamos de negros e brancos brasileiros na contemporaneidade, criados com premissas semelhantes, em que a diferença principal é a cor da pele, eu tomo a liberdade de traduzir o mesmo trecho da psicanalista para outro viés: o de que o negro não é aceito porque ainda não é visto como parte da população e merecedor dos mesmos direitos. Como se tivéssemos nas denominações “escravo” e “ex-escravo” estigmas eternos. E onde já se viu um escravo ser tão inteligente como qualquer jornalista branco?

Os entraves que a mídia de esquerda tem em reconhecer seu próprio discurso racista cria a ilusão de que dentro de espaços progressistas esse tipo de violência não acontece. O racista é sempre o outro, não eu. Por esse motivo, capas de jornal que animalizam o corpo negro e a falta de profissionais negros no mercado não são uma adversidade sob a ótica do privilegiado, apenas o cenário comum. A negação do termo “raça” muitas vezes ocorre pelo tom pejorativo que essa palavra ganhou. Todavia, como lembra Lia Vainer Schucman, todos somos classificados com uma raça ao nascer: “Nos classificados socialmente como brancos recaem atributos e significados positivos ligados à identidade racial à qual pertencem, tais como inteligência, beleza, educação, progresso etc.”3

E é esse o principal pilar do racismo, um crime causado por brancos. Atentemos à perversidade do oportunismo: quando ao branco são apontados seus privilégios materiais – mais acesso a educação, moradia, saúde e mercado de trabalho – e imateriais – pertencer a padrões, não ser enxergado como potencial perigo, não ter sua intelectualidade questionada –, este apela para seu sangue miscigenado, geralmente apontando um ou dois familiares “de cor” como prova de sua idoneidade e apreço a todas as raças. Por outro lado, diante de políticas inclusivas ou iniciativas que visem diminuir o abismo racial no Brasil, o branco coloca-se exatamente como é: branco. E assim clama por direitos – que nunca lhe foram negados – e coloca a si mesmo como vítima de uma suposta discriminação racial por parte de negros que ousam apontar as mazelas causadas pela segregação. A lei de cotas para o ensino superior exemplifica o que quero dizer. Não raramente, fraudes são descobertas ou alunos autodeclarados brancos se dizem prejudicados por sanções que, segundo eles, privilegiariam negros.

Essa exposição ao “diferente” gera uma reação que mistura ódio e medo da perda da exclusividade. Ainda que nenhuma pessoa branca tenha sido prejudicada por políticas públicas de inclusão de negros e indígenas em espaços predominantemente brancos, esse grupo se sentirá acuado sob o risco de perder sua posição de superioridade. Possivelmente é por esse motivo que não há uma preocupação genuína em abraçar causas negras, apelando ao argumento da democracia racial.

Romantizada pela ótica freyriana, a miscigenação brasileira esconde uma perversa realidade, fundamentada na exploração do colonizador sobre os negros escravizados. Durante o período pré-abolição, o embranquecimento da população brasileira era malvisto, pois se acreditava que isso causaria uma degeneração da raça branca, tida como inquestionavelmente superior. Posteriormente, diante da inevitável “mistura de raças”, cientistas e juristas apresentaram novos argumentos, dessa vez considerando que o branqueamento do país poderia ser benéfico para a modernização industrial. Políticas de incentivo a imigrantes europeus foram introduzidas, nem sempre deixando explícitas as reais intenções: diminuir o número de negros no Brasil com uma limpeza étnica que não apenas era naturalizada, mas também encorajada.

É possível afirmar, pelas razões supracitadas, que o racismo deriva de um projeto criado para que o negro permanecesse inferiorizado após a abolição. O curioso é que nada disso é abordado costumeiramente, e nos acostumamos a acreditar que quaisquer reivindicações no sentido de questionar o destino dos escravos libertos eram desnecessárias. Essa é uma falha grave nos veículos de comunicação de esquerda, que perdem a oportunidade de reeducar a população, apresentando a parte escondida de nossa história. É a homogeneidade das redações e agências que mantém intocados os velhos paradigmas do jornalismo e da publicidade, que são pulverizados de volta para o público, reforçando o senso comum. Nesse sentido, mídias de esquerda e de direita nem sempre diferem tanto quando o assunto é a invisibilização do negro enquanto produtor de conteúdo, e não apenas personagem de pautas especiais. Em outras palavras, uma mídia racista mantém uma sociedade racista porque não questiona esse olhar colonizador.

*Gabriela Moura é relações públicas e escritora, especialista em sociopsicologia.

{Le Monde Diplomatique Brasil – edição 116  – março de 2017}


1          Ana Pompeu e Étore Medeiros, “Brasileiros acham que há racismo, mas somente 1,3% se considera racista”, Correio Braziliense, 25 mar. 2014.

2          Caterina Koltai (org.), O estrangeiro, Escuta/Fapesp, São Paulo, 1998, p.118.

3          Lia Vainer Schucman, Entre o encardido, o branco e o branquíssimo: branquitude, hierarquia e poder na cidade de São Paulo, Fapesp, Sao Paulo, 2014, p.63


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