No méxico, o Estado recua diante dos cartéis - Le Monde Diplomatique

GUERRA CONTRRA AS DROGAS

No méxico, o Estado recua diante dos cartéis

por Jean François Boyer
3 de julho de 2012
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A campanha presidencial mexicana – marcada por um inédito movimento estudantil que denuncia o apoio de grandes grupos privados da mídia ao candidato do PRI, Enrique Peña Nieto – confirma a preocupação central da população: sobreviver à violência cotidiana desencadeada pelo tráfico de drogasJean François Boyer

(Fachada cravada de balas da prefeitura de San Cristóbal de las Barrancas, a cerca de 56 km de Guadalajara)

Os policiais que, no amanhecer de 7 de novembro de 2011, entraram no presídio de Acapulco, grande estação balneária do Pacífico, não acreditaram no que viram: cerca de vinte prostitutas dormiam nas celas ao lado dos presos. A inspeção que veio em seguida reservava outras surpresas: foram apreendidos cerca de 100 quilos de maconha, televisores, aparelhos de som, galos de briga e até dois pavões reais, animais de estimação favoritos (além do jaguar) dos narcotraficantes célebres.

O caso é revelador. Lentamente, corroído pelo crime organizado, o México não controla mais seus presídios nem grande parte de seu território. Os traficantes não se contentam mais em alimentar de cocaína,1 anfetaminas e maconha o mercado norte-americano, corromper para proteger seus negócios e se massacrarem entre si. Após seis anos de uma “guerra” contra o tráfico de drogas, desencadeada pelo presidente Felipe Calderón – preocupado em recuperar seu prestígio perdido por causa das acusações de fraude eleitoral em 2006 –, que mobilizou mais de quatrocentos policiais e 50 mil soldados, hoje os traficantes ameaçam o Estado e suas instituições de norte a sul da República.

As primeiras vítimas dos mafiosos são as polícias – municipais, regionais2 e federais –, pois estas os perseguem ou colaboram com seus concorrentes. As emboscadas multiplicaram-se nos dois últimos anos. A mais impressionante ocorreu em abril de 2011, na Rodovia do Ocidente, que vai da Cidade do México a Guadalajara, uma das estradas mais movimentadas do país. Sob o fogo de fuzis de ataque e lança-granadas, um comboio de diversas patrulhas da Polícia Federal bateu em retirada. Em Guasave, a 150 quilômetros de Culiacán, capital do estado de Sinaloa, os pistoleiros dizimaram sem piedade a escolta do chefe da segurança pública: doze de seus guarda-costas foram mortos. Em 2011, no estado de Tamaulipas, os mercenários dos cartéis rivais do Golfo e dos Zetas metralharam sucessivamente as sedes do Ministério Público de duas grandes cidades – Ciudad Victoria, capital do estado, e Ciudad Madero, principal terminal petrolífero do país –, deixando inúmeros funcionários feridos.

 

Armamento e comunicação

Os cartéis não hesitam mais em afrontar os comboios do Exército e da Marinha nas regiões que governam de fato. É o caso dos grupos La Familia, na região de Tierra Caliente, no estado de Michoacán, e dos Zetas, no nordeste do estado de Tamaulipas. Essas duas organizações paramilitares atuam, na maior parte das vezes, em sinal de represália à execução ou prisão de um de seus chefes. A violência dos enfrentamentos demonstra que o crime organizado dispõe, agora, de armamento pesado – capaz de pôr em xeque blindados e metralhadoras – e sistemas de comunicação ultramodernos que lhe permitem manter-se informados sobre os movimentos do adversário. Como os obtém? O mais legalmente possível, nos arsenais do vizinho do Norte ou, mais discretamente, dos comerciantes de armas norte-americanos.

O escritório da procuradora-geral da República (PGR), Maristela Morales, fez o balanço das perdas registradas pelas forças públicas de dezembro de 2006 a junho de 2011: 2.888 soldados, marinheiros, policiais e agentes dos serviços secretos. Destes, 45% eram policiais municipais, uma cifra que sugere que os municípios suportam o peso principal da guerra. Efetivamente, os mafiosos pretendem também impor sua lei aos poderes locais – à custa de sangue, se necessário. Para isso, influenciam cada vez mais o jogo democrático e os processos eleitorais.

Desde 2006 foram assassinados 32 prefeitos, a maioria pelo crime organizado. O assassinato, em 2011, do presidente municipal [prefeito] da cidade de La Piedad, em Michoacán, deu a impressão de ser um desafio ao poder central: a vítima era uma das principais defensoras da candidatura da irmã do presidente Calderón, Luisa María Calderón, ao posto de governadora do estado. Nas regiões que considera estratégicas, a máfia influencia também as eleições dos governadores. A PGR confirmou, em junho de 2011, que o candidato ao governo do estado de Tamaulipas, Rodolfo Torre Cantú, assassinado em plena campanha eleitoral em 2010, realmente tinha sido executado pelo cartel dos Zetas, ao qual havia recusado proteção.

Nenhuma instituição escapa dessa vontade hegemônica. Nem mesmo a Igreja. Em julho de 2007, Ricardo Junious, um padre norte-americano de 70 anos, pagou com a vida a campanha que conduzia nos bairros populares da capital contra a prostituição de crianças e a venda de drogas aos menores de idade. Faixas ameaçando Raúl Vera, o bispo de Saltillo, defensor da Teologia da Libertação, apareceram no átrio de sua catedral. O arcebispo de Durango, que declarara que “todo mundo, exceto as autoridades”, sabia onde se escondia o chefe do cartel de Sinaloa, precisou se retratar, salientando à imprensa que, a partir daquele momento, ele se tornara “surdo e mudo”.3

 

Barbárie

Os cartéis impõem sua dominação por meio do terror. No final de 2011, o país viveu semanas de pesadelo. Em setembro, em Veracruz, foram encontrados 35 cadáveres em frente a um grande centro comercial. As vítimas eram delinquentes conhecidos da polícia. Uma organização denominada Nova Geração assumiu o massacre. A PGR qualificou-a de braço armado do cartel de Sinaloa e falou de um acerto de contas com os Zetas. A carnificina foi também uma advertência feita ao Estado: a cidade acolheria, no dia seguinte, uma reunião de procuradores da Justiça de toda a República. Os massacres continuaram em novembro: dezesseis cadáveres carbonizados apareceram em Culiacán, capital do estado de Sinaloa, e 26 corpos foram abandonados em pleno centro de Guadalajara, a segunda maior cidade do país.

Nos estados do norte e do oeste, os mercenários instituíram um ritual macabro: a decapitação. O jornal Reforma listou 453 em 2011. Em 13 de maio de 2012, foram encontrados 49 martirizados – cabeça e braços decepados – na estrada nacional que liga Monterrey, capital do estado de Nuevo León, na fronteira com o Texas. Essa prática ameaça hoje a Cidade do México. Em outubro de 2011, foram encontrados dois corpos sem cabeça a menos de 1 quilômetro do Ministério da Defesa, no centro da cidade. Já em 2008 e 2009, cadáveres amputados tinham sido achados na megalópole, sem que se pudessem atribuir as sevícias aos traficantes. Mas, dessa vez, o crime foi assinado: um papelão cobrindo o corpo com a inscrição “La Mano con Ojos” [A Mão com Olhos], outra gangue que trabalha para os narcos do Sinaloa. Em novembro, duas outras decapitações confirmaram que a zona metropolitana não está mais protegida da barbárie.

Uma das últimas vítimas foi um motorista de táxi. Sem dúvida, ele trabalhava para uma máfia. Em um ano, mais de uma centena de taxistas foi executada em Acapulco e Monterrey, a metrópole industrial do norte. Trabalhavam como “falcões”, espécie de sentinelas móveis, para os diversos grupos que disputam o controle dessas grandes “praças”. O impacto das execuções foi propagado pelos blogs e sites especializados, que mostraram os vídeos dos assassinatos filmados por seus autores.

Entre o medo e a resignação, o país está exausto de contar seus mortos: 55.671 desde 2006, segundo o jornal La Jornada; 65 mil conforme a publicação semanal Zeta; e cerca de 47.500 de acordo com a PGR. Se a guerra continuar nesse ritmo, fará tantas vítimas quanto a da Bósnia. A vida de milhões de mexicanos, espectadores passivos do terror cotidiano, está conturbada.

 

Cidades abandonadas

Batalhas campais explodem há dois anos no centro de grandes cidades como Monterrey, Saltillo, Torreón, Tampico, Acapulco, Veracruz e Ciudad Juárez. O cenário é sempre o mesmo: a força pública descobre um grupo de traficantes, começa a persegui-lo e atira sem se preocupar com a multidão que se ocupa de suas atividades diárias. Os habitantes se trancam em suas casas.

Dezenas de pequenos empreendedores foram sequestrados nos estados do norte. Mais de 100 mil pessoas deixaram Ciudad Juárez para se instalar nos Estados Unidos ou no interior do país. Grandes cidades próximas da fronteira norte-americana, palcos de enfrentamentos mortais entre os cartéis, foram abandonadas por seus habitantes. Durante meses, antes de o Exército finalmente tomar posse deles, Ciudad Mier e San Fernando, os dois maiores municípios do estado de Tamaulipas, foram transformados em cidades fantasmas. Em abril de 2011, perto de San Fernando, foram exumados 145 corpos de várias covas coletivas: migrantes da América Central em trânsito para a fronteira do norte, supostos membros da delinquência organizada e habitantes da região. As vítimas haviam sido interceptadas pelos Zetas no ônibus de uma linha proveniente do sul. Acusados de proteger os assassinos, dezesseis policiais municipais foram presos. Embora com a segurança garantida pelo Exército, Ciudad Mier e San Fernando nunca mais recuperaram a calma.

A credibilidade do governo se esfacela. Quando, em novembro de 2011, o ministro do Interior, Francisco Blake Mora, desapareceu – segundo as autoridades, vítima de um acidente de helicóptero –, a maioria dos analistas e comentaristas levantou logo a hipótese de atentado.

A inquietação da opinião pública se alimenta também das declarações oficiais. No início de março de 2012, durante a Reunião Hemisférica contra a Delinquência Organizada Transnacional, a procuradora-geral Maristela Morales declarou: “A delinquência organizada transnacional não é mais um problema de segurança pública interna, mas uma ameaça à segurança global de nossos países”.

A perturbação aumenta quando a população percebe que as agências antidrogas norte-americanas – especialmente a Drug Enforcement Agency (DEA) – agem no território nacional com o aval do governo mexicano e quando personalidades influentes, como Jorge Castañeda ou Héctor Aguilar Camín, alegam a necessidade de uma intervenção direta dos Estados Unidos no conflito, por meio de uma versão mexicana do Plano Colômbia.4 A guerra contra o narcotráfico reduz, de maneira evidente, a margem de manobra do México diante do vizinho do Norte.

 

Calderón responsável

Desde o início da campanha para a eleição presidencial deste ano, a maior parte dos meios de comunicação e dos comentaristas influentes imputa a responsabilidade desse drama nacional ao presidente Calderón. Os mais indulgentes (ou mais condescendentes?) afirmam que ele se jogou nessa guerra de maneira irrefletida, sem ter avaliado a extensão do problema. Outros, com base nos testemunhos de ex-funcionários cúmplices do tráfico de drogas na época em que o Partido Revolucionário Institucional (PRI) dominava o país (1928-2000), sugerem que a “cruzada” de Calderón consolida a dominação do cartel de Sinaloa – do qual ele seria cúmplice – sobre seus rivais, particularmente o cartel do Golfo, os Zetas e o cartel de Ciudad Juárez.5 Finalmente, toda a esquerda afirma que a militarização do país constitui uma ameaça aos direitos humanos e à jovem democracia mexicana.

É preciso uma pequena retrospectiva para compreender por que a violência criminosa explodiu, de repente, no início dos anos 2000, nos rastros da transição política que viu o (longuíssimo) reinado do PRI terminar com a vitória em 2000 de Vicente Fox, do Partido Ação Nacional (PAN), o mesmo de Calderón. Até então, as organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas – como os cartéis do Golfo, de Guadalajara, de Ciudad Juárez e de Tijuana – atuavam a seu bel-prazer sem afetar demasiadamente a vida cotidiana do país. Beneficiando-se da proteção oferecida pelo mais alto escalão do Estado, os carregamentos de drogas chegavam sem dificuldade à fronteira norte-americana. Velhos Boeings e Caravelles decolavam na Colômbia carregados de dezenas de toneladas de cocaína e, embora detectados pelos radares instalados pela DEA na América Central, entravam no espaço aéreo mexicano, aterrissando perto da fronteira. Arrastões de pesca e barcos rápidos descarregavam discretamente os carregamentos nas costas de Yucatán, Veracruz, Sinaloa e Baixa Califórnia.

 

Proteção governamental

No final da década de 1990, as investigações conduzidas pela PGR, pelas principais agências antidrogas norte-americanas e pela juíza suíça Carla del Ponte – encarregada de investigar a lavagem de dinheiro depositado em bancos suíços por Raúl Salinas, o irmão do presidente – revelaram a enorme extensão da proteção desfrutada pelo crime organizado durante os seis anos de governo de Carlos Salinas6 e os outros seis de Ernesto Zedillo. Os governadores dos estados de Chihuahua, Morelos, Tamaulipas, Quintana Roo, Veracruz e Sonora, todos membros do PRI, são suspeitos ou acusados, do mesmo modo que vários diretores da Polícia Judiciária, generais do Estado-Maior do Exército, comandantes de regiões militares e ministros. Alguns traficantes afirmam que os secretários particulares dos dois últimos presidentes – assim como Raúl, irmão do presidente Salinas – fazem parte dessas redes. Um documento do serviço de inteligência militar mexicano, que data de 1995, confirma essas acusações.7

Em troca dessa proteção muito bem remunerada, o Estado impôs aos mafiosos a condição de não atacarem seus rivais e respeitarem seus territórios. O PRI, o partido-Estado, controlava suficientemente a engrenagem da administração e da força pública para impor um acordo como esse e aplicá-lo desde o governo central até os municípios, passando pelos governos regionais.

Com a vitória de Fox, tudo mudou. Na sequência da derrota do PRI, a maior parte dos altos funcionários cúmplices do crime organizado foi substituída. Como as de 1997, as eleições regionais e locais de 2000 conduziram ao poder governadores e prefeitos que não pertenciam ao PRI. Pela primeira vez depois de vinte anos, os traficantes se viram diante de um grande número de interlocutores políticos que, por diversas razões, não se sentiam mais ligados pelos acordos anteriores. Na esperança de reconstituir novos circuitos de corrupção nas altas esferas do Estado, eles tinham de redesenhar rapidamente outras rotas, ditas “rotas-formiga”, para poder encaminhar a droga. Para garantir essas vias, o único meio, a curto prazo, era corromper prefeitos e policiais municipais que controlavam os pontos estratégicos dos novos itinerários, da fronteira da Guatemala à do norte. As regras do jogo mudaram: os cartéis se enfrentaram para se apropriar dos novos bastiões.O México descobriu o que se chama de “guerra pelas praças”.

A primeira grande batalha desse novo conflito começou em Nuevo Laredo, em 2003, na fronteira de Tamaulipas com o Texas. Durante semanas, os pistoleiros do cartel do Golfo enfrentaram os mercenários do cartel de Sinaloa, e cada facção contava com o apoio de uma parte da força pública. Em 2008, segundo Edgardo Buscaglia, especialista da ONU em crime organizado, 60% dos municípios do país haviam sido “capturados ou feudalizados” pelo narcotráfico.8

 

Diversificação das atividades

O surgimento de uma nova organização acabou tornando a situação ingovernável. Após a prisão, em 2003, do último chefe inconteste do cartel do Golfo, seu braço armado, os Zetas, se emancipou de sua tutela. Dirigidos por ex-membros das forças especiais do Exército, eles adotam “uma estratégia mais mafiosa do que narcotraficante”, explica Luis Astorga, um dos melhores especialistas no assunto. Sentindo dificuldades para entrar no comércio das drogas, eles iniciaram outras atividades (extorsões, sequestros, tráfico de imigrantes e de prostitutos/as, jogos clandestinos, contrabandos, falsificações etc.). Seu objetivo é simples: estender sua ocupação ao conjunto do país para maximizar sua cifra de negócios. Para isso, não hesitam em atacar as praças-fortes dos cartéis tradicionais, aliando-se às vezes a máfias locais do mesmo tipo que eles aliciam e orientam, como a Familia Michoacana, no oeste do país, às margens dos feudos do cartel de Sinaloa. Depois da guerra pelas “praças”, a batalha pelos “territórios”.

A generalização da violência não é, portanto, diretamente imputável à decisão tomada pelo presidente Calderón, em 2006, de colocar maciçamente o Exército, a Marinha e a Polícia Federal para reprimir o crime organizado. É consequência de uma reestruturação que se tornou inevitável pela alternância política e do surgimento de uma nova forma de criminalidade. Em compensação, a responsabilidade do atual presidente é evidente em outros pontos.

Seu governo optou por uma estratégia errônea. Apesar dos golpes dados nos estados-maiores das máfias, a “guerra” não reduziu o tráfico propriamente dito: 22 dos 37 chefes traficantes presos ou assassinados durante o mandato de Calderón, identificados pelas autoridades, foram imediatamente substituídos. O mais célebre dos barões da droga, “El Chapo” Guzmán, quase caiu nas mãos do Exército no início de 2012. Mas, essencialmente, nada mudou: em 2011, de acordo com o Departamento de Estado norte-americano, 95% da cocaína consumida nos Estados Unidos passava sempre pelo México.

Além disso, o governo não atacou a corrupção. Ora, aí reside o principal problema. As confidências de Ismael “El Mayo” Zambada ao diretor do semanário Procesoconfirmam isso. Em 3 de abril de 2010, à pergunta “Por que a guerra contra o narcotráfico está perdida?”, o mais antigo dos líderes de Sinaloa, sarcástico, respondeu ao jornalista: “O narcotráfico está incrustado na sociedade do mesmo modo que a corrupção”.

O governo se defende dessa acusação de maneira pouco convincente, lembrando que, em 2010, 1.500 funcionários e 500 empresários foram punidos por corrupção. A PGR especifica que 28% de seus efetivos foram afastados de suas funções há dois anos. Mas nada do que foi feito pode convencer a opinião pública, a classe política e o mundo dos negócios da vontade governamental de atacar o mal pela raiz.

 

Conivência do poder

Alguns casos, entre dezenas de outros, ilustram a passividade ou a conivência do poder. Há muitos anos, três ex-governadores do estado de Tamaulipas e os ex-prefeitos de Culiacán (Sinaloa) e Tijuana (Baixa Califórnia), assim como um ex-governador do estado de Sonora – um dos empresários mais ricos do país –, estão sob a mira da PGR por conluio com o narcotráfico. No entanto, jamais foram incriminados. Da mesma maneira, a fortuna acumulada pelo ministro da Segurança Pública – incompatível com seus rendimentos de funcionário – foi objeto de inúmeras investigações jornalísticas, sem que nenhuma instância federal investigue oficialmente o caso.

A luta contra a lavagem de dinheiro não deu mais resultados, ainda que novas regulamentações fiscais e bancárias tenham sido adotadas para combatê-la. O Banco do México publicou recentemente cifras inquietantes: durante o atual sexênio, mais de US$ 31 bilhões de origem ilícita foram identificados pelo sistema bancário nacional, ou seja, 106% a mais do que sob a presidência de Fox (2000-2006).9 “O dinheiro sujo foi investido, sobretudo, nos estados do norte, onde surgiram empresas prósperas nos setores da construção civil, imobiliário e hoteleiro. Seria fácil investigar suas entradas”, explica o economista Rogelio Ramírez de la O. O chefe dos serviços de informações financeiras do Ministério das Finanças lembra que a avaliação das somas lavadas anualmente no México oscila sempre entre US$ 15 bilhões e US$ 50 bilhões, ou seja, de 3% a 8% do PIB do país.

Mas é no terreno dos direitos humanos que o balanço governamental é julgado com mais severidade. As Forças Armadas e a Polícia Federal, engajadas na repressão, são culpadas de múltiplos abusos. Vários civis foram mortos por militares porque não pararam a tempo nas barreiras do Exército. O general Moreno Aviña, que comandava a região militar de Ojinaga, no estado de Chihuahua, deveria ser ouvido pela Corte Suprema para prestar contas de execuções extrajudiciárias de civis, torturas, incineração de cadáveres, detenções e perseguições ilegais. Entretanto, a Justiça Militar se recusou, até agora, a incriminá-lo.

Bravateador, um oficial superior destacado para a direção da polícia de Torreón declarou à imprensa: “Quando eu pego um Zeta, eu o mato. Para que interrogá-lo? O Exército tem seu serviço de informações, ele não tem necessidade de informações suplementares”.10 Uma denúncia feita pelo advogado Netzai Sandoval e por 28 mil cidadãos mexicanos ao Tribunal de Haia evidencia mais de duzentos casos de tortura pelas Forças Armadas. A maior parte dos prisioneiros não foi apresentada ao Ministério Público após sua detenção, como exige a lei, e foi interrogada em casernas durante vários dias.

 

Violações de direitos humanos

O Ministério da Defesa tem feito pouco para acabar com a impunidade desfrutada por seus soldados. De 2006 a 2011, somente 29 foram condenados, enquanto o Ministério Público Militar instruiu 3.671 casos de graves atentados aos direitos humanos. Em suma, o Estado dá a impressão de não controlar mais seu Exército e sua polícia. Ou pior, de querer militarizar a sociedade.

Um grande número de mexicanos se insurgiu contra essas práticas dignas de uma ditadura corrupta dos anos 1970 que, além disso, prejudica a imagem do Exército, uma das raras instituições até então respeitada pela maioria da população. Durante todo o ano de 2011, o poeta Javier Sicilia, pai de um adolescente assassinado pelos mercenários de Cuernavaca, conseguiu juntar uma parte da esquerda em torno do slogan “Não queremos mais sangue!”. Apoiado pela maior parte das ONGs nacionais, ele denunciou o mau funcionamento dos sistemas de repressão e do Judiciário. Embora essa campanha não tenha mobilizado as massas, aumentou a inquietação de uma opinião pública desconfiada, desencantada e cínica. Acabou desabonando a Presidência da República, única instituição capaz de consolidar o frágil processo de democratização do México, iniciado há doze anos com a derrota do partido-Estado que governou o país durante setenta anos.

A ofensiva de Calderón vai se voltar, então, contra a ordem institucional que, ao contrário, pretendia defender. O narcotráfico provou nos últimos anos que, com ou sem a cumplicidade ativa do poder, é capaz de dar um xeque no Estado e controlar uma grande parte do território. Sem dúvida, essa demonstração terá consequências políticas. No meio de uma campanha presidencial dominada pelos temas relativos à segurança pública e à violência, as imagens reprisadas repetidamente nas grandes redes de televisão paralisam, cada dia mais, uma sociedade que parece se realinhar em torno da ideia de reconduzir o PRI ao poder: dizem que somente este seria capaz de negociar com o narcotráfico e restabelecer a paz. Pode ser que, na eleição presidencial de julho de 2012, os cartéis obtenham sua primeira vitória sobre a democracia mexicana.

Jean François Boyer é diretor de Le Monde Diplomatique no México, América Central e Estados Unidos.



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