Nosso maior erro foi não fomentar a mídia alternativa - Le Monde Diplomatique

ENTREVISTA – GILBERTO CARVALHO

Nosso maior erro foi não fomentar a mídia alternativa

por Miriam Moraes
Janeiro 9, 2018
Imagem por Agência Brasil
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Gilberto Carvalho foi incluído em 2013 na lista dos sessenta nomes mais poderosos do Brasil pelo site IG por participar dos doze anos do governo PT como assessor do ex-presidente Lula e ministro da Secretaria de Governo da Presidência da República nos governos Dilma. É amigo íntimo e conselheiro de Lula há mais de trinta anos e colabora ativamente na gestão do PT

LE ONDE DIPLOMATIQUE BRASIL – Fazendo um retrospecto, em 2013 Dilma Rousseff chegou a 79% de aprovação. Em 2014, a aprovação tinha caído para 37%, atingiu 10% em 2015 e permaneceu inalterada até seu afastamento pelo impeachment. Em sua opinião, qual é o fator preponderante nessa alteração da percepção popular em apenas dois anos?

GILBERTO CARVALHO – As razões são variadas. Desde o governo Lula, o Brasil vinha num ritmo crescente de desenvolvimento com inclusão social. Em determinado momento, Dilma decidiu corajosamente mexer no “andar de cima”, quando utilizou a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil para forçar uma queda das taxas de juros. Os bancos privados, ao verem que estavam perdendo mercado, se viram sem alternativas senão reduzir suas taxas, o que provocou uma diminuição dos juros bancários de 12,5% para 7%. Ao mesmo tempo, ela se recusou a fazer o leilão do setor elétrico que eles queriam e ainda taxou em 5% o lucro das empresas concessionárias… Esse foi o momento em que o capital deu o grito de guerra e decidiu entrar em ação para nos fazer parar, como forma de defender seus próprios interesses. Primeiro apostaram na eleição de Aécio. Para isso, desde 2012 o comportamento da grande imprensa – que faz parte desse conglomerado financeiro, dos grupos detentores do grande capital – passou a ser o de insuflar a população contra o governo com ataques ininterruptos. Em 2013, a manifestação que começou como um protesto contra o aumento de passagens foi rapidamente apropriada por esse grupo e transformada num movimento de conspiração contra o governo.

 

Em 2014, o país vivia uma situação de pleno emprego; no começo de 2015, o poder de compra do salário bateu seu recorde histórico; havia muitos indicadores econômicos favoráveis ao governo Dilma. Houve falha na comunicação do governo com a sociedade?

Eu diria que uma falha brutal. Os governos Lula e Dilma cometeram o erro de não trabalhar alternativas para a criação de uma imprensa democrática. Não falo de uma imprensa chapa-branca, que poupasse o governo, mas que trabalhasse honestamente as informações. Adotamos um sistema de “mídia técnica”, em que a verba da comunicação era distribuída na proporção da tiragem ou alcance dos veículos. Naquele momento nos pareceu uma solução justa, não percebemos que isso acabaria mantendo os grandes cada vez maiores, impedindo o crescimento dos menores e o surgimento de novos veículos de comunicação. Acabamos injetando muitos recursos financeiros em televisões, jornais e revistas, no que imaginávamos uma atitude justa, e esses veículos terminaram sendo nossos algozes. Isso foi fatal para nós.

Outra falha que nos custou muito caro foi defender aquilo em que de fato acreditamos, que o acesso ao trabalho, às oportunidades, a uma vida digna é direito de todos, mas deixamos de falar que tudo depende de um governo que promova condições para que a população possa exercer esse direito. E o que vimos foi um povo feliz com as conquistas, mas que atribuía o resultado apenas ao próprio esforço, à sorte, às orações do pastor… e não entendia que era fruto do trabalho que fizemos para gerar e distribuir essas oportunidades, da nossa escolha de confrontar interesses de uma classe muito poderosa para governar com foco na inclusão e promoção da justiça social. Assim, não foi possível explicar de última hora que, para garantir essas conquistas, eles precisavam defender o governo que as oportunizara, que o golpe ameaçava justamente esses bens que passaram a ser possíveis para uma imensa parcela da população. E, sem esse entendimento, muita gente acreditou que estava pondo fim a um governo que, com o bombardeio da mídia, passou a ser visto com maus olhos, mas estava pondo fim à melhor fase de sua vida, às oportunidades que via como naturais e que já foram encerradas por meio da política elitista do atual governo, ou se encontram em declínio. A miséria e a fome já se tornam outra vez uma realidade no país. Foi uma grande falha da nossa comunicação.

 

Mesmo dentro da esquerda existe muita crítica ao fato de o governo do PT não ter feito a regulamentação da imprensa. Por outro lado, na Argentina, o governo de Cristina Kirchner conseguiu aprovar a Ley de Medios, mas os inúmeros recursos e obstáculos judiciais acabaram impedindo a redução do poder do grupo Clarín. Na prática, a lei não funcionou, a direita retomou o poder e hoje Cristina luta contra uma condenação judicial que pode levá-la à prisão. O senhor acredita que no Brasil teria sido diferente?

Aprovar uma lei de democratização dos meios de comunicação exige grande mobilização, porque se trata de um enfrentamento de forças. Nossa ideia era fazer algo nos moldes do que vigora nos Estados Unidos ou na Inglaterra, mas outra vez caímos no problema da comunicação que não conseguimos criar com a população, pois a imprensa acabou fazendo todo mundo acreditar que o propósito era cercear a liberdade de expressão, o que não é verdade. No campo das concessões de rádios e TVs, a situação é mais complicada, porque o Senado tem a palavra final na distribuição dessas concessões, e sabemos que a maioria dos senadores é eleita com o apoio da Globo e de outros conglomerados, e obviamente com o compromisso de defendê-los. Mas penso que nosso maior erro foi a permanência na ideia da mídia técnica, pois, mesmo sabendo que enfrentaríamos uma guerra política, era vital que tivéssemos reduzido mais substancialmente as verbas dos grandes veículos e fomentado as mídias alternativas com um viés democrático. Isso já teria feito uma diferença significativa.

 

A situação econômica e social do país após o impeachment mudou drasticamente do começo de 2015 até o final de 2017. Há um discurso generalizado de que essa quebra do país é uma consequência do governo deposto. Isso é fato ou distorção?

Houve uma sabotagem contra a economia do país envolvendo os grandes empresários que maliciosamente retiraram o dinheiro do mercado, transferindo para a ciranda financeira, em combinação com o ataque contínuo do Congresso, na época capitaneado por Eduardo Cunha, que se vangloriava publicamente de paralisar o governo por meio das pautas-bomba… Porém, sobretudo pesou a ação da grande imprensa, que praticava todo tipo de terrorismo para confundir e aterrorizar a população. Basta ver como o padrão adotado para divulgar notícias mudou. Hoje a situação está caótica, e eles tentam vender uma imagem de um cenário florido. Antes era: “Quem vai querer investir num país que está à beira do caos?”. Era o tipo de terrorismo praticado com o objetivo de fazer as pessoas segurarem o dinheiro para produzir uma retranca econômica que fatalmente se transforma em crise. Eles, irresponsavelmente, queriam quebrar o governo e quebraram o país. A responsabilidade não é do governo do PT, é claramente dessa sabotagem. Ela foi tão grande que agora não conseguem fazer a retomada da economia. E, mesmo que houvesse essa retomada, ela viria com os efeitos perversos das mudanças que fizeram, com a qualidade de empregos da pior espécie e expansão da pobreza. Volta-se a ser o país de até 2002, governado para apenas 40 milhões de brasileiros, e os outros 168 milhões ficaram outra vez estagnados na situação de pobreza.

 

O Congresso tem adotado uma postura diferente: nota-se uma celeridade na votação das pautas do governo. Um exemplo é a aprovação, em 13 de dezembro de 2017, do Orçamento de 2018. Em 2014, a votação foi adiada e só pôde ser sancionada pelo governo Dilma em 22 de abril de 2015, o que paralisou o país durante quatro meses, gerando impositivos de ajustes que eram usados pela imprensa como uma escolha do Executivo. Em sua opinião, é o governo Temer que faz concessões ao Congresso ou o Congresso que mostra maior disposição de colaborar com o governo Temer?

A mudança na postura do Congresso é a maior prova do grande acordo relatado por Romero Jucá. Eles atuaram em conjunto. Note que nunca se viu tanta rapidez na aprovação de medidas tão fundamentais para a mudança do enquadramento econômico e social do país. A aprovação da PEC dos gastos, da reforma trabalhista, da lei das terceirizações, a liberação para exploração do pré-sal por petrolíferas estrangeiras, a isenção de impostos para elas, algo que nenhum país faz e que configura a entrega das nossas riquezas… Tudo aprovado a toque de caixa. Isso revela claramente a razão da sabotagem contra o governo Dilma. Esse é um Congresso comprado, desmoralizado, são congressistas em sua maioria vendilhões, movidos apenas por interesses pessoais, não há nenhum interesse no bem do país ou do povo em suas ações. Essa é seguramente a pior composição do Congresso na história, e eles são responsáveis pela deformação de um modelo de desenvolvimento do país que vinha dando muito certo, que promoveu desenvolvimento com inclusão social, que foi inclusive adotado como modelo para muitos outros países. Eles deformaram até a Constituição, tudo isso em troca do vil metal.

 

Brasília – O ex-ministro Gilberto Carvalho fala à imprensa após prestar depoimento como testemunha na Operações Zelotes, na Justiça Federal (Wilson Dias/Agência Brasil)

O PT tem um plano para recuperar o espaço da esquerda e reverter essas medidas?

Sim. Garantir a eleição e a posse de Lula em 2018.

 

Lula e o PT acusam Sérgio Moro e o Judiciário de estarem a serviço do golpe. Não há uma contradição no fato de denunciarem o atropelo das leis para privilegiar um grupo político no presente momento e confiarem justamente no Judiciário para garantir o direito de eleição e posse de Lula, algo inteiramente contrário às aspirações dos que vocês afirmam fazer parte do golpe?

Essa questão é importante, porque infelizmente o Judiciário foi sendo transformado no elemento central do golpe, da mesma maneira que as Forças Armadas foram usadas em 1964. Isso é trágico para o país, porque, quando o Judiciário se desvia de suas funções, você não sabe mais a quem recorrer. Mas estamos trabalhando com a seguinte perspectiva: a candidatura de Lula crescendo mesmo sob esse fogo brutal da imprensa e o uso do regime de exceção… Aliás, a última surpresa foi esse açodamento do julgamento marcado para 24 de janeiro. Mesmo assim, a candidatura de Lula vai crescendo, vai se consolidando, e vai aumentar para eles o custo dessas arbitrariedades a ponto de eles terem de calcular se essas provocações não vão resultar numa reação forte da sociedade. Porque acreditamos que em algum momento o povo vai dizer “Basta!”. Nossa aposta não é no Judiciário, é na reação da sociedade.

 

No momento da eleição, a esquerda estará focada em usar os poucos recursos para promover seus candidatos. Quem mobilizaria a reação popular no caso de Lula ser impedido de disputar a eleição de última hora?

Tenho de reconhecer nossa enorme dificuldade de mobilização. Já aconteceu de tudo, como a reforma trabalhista e esse escandaloso benefício às petroleiras estrangeiras, e o povo não sai às ruas. Mas acredito que as coisas começam a mudar. Não me preocupa absolutamente o fato de Guilherme Boulos lançar seu nome pelo Psol e Manuela D’Ávila pelo PCdoB, porque ao fim e ao cabo haverá uma galvanização dessas candidaturas.

 

Isso no segundo turno.

Talvez até mesmo no primeiro. Estamos conversando bastante e no momento não dá para ter certeza de nada.

 

Mas vocês acreditam que, mesmo tendo candidatos próprios, essas siglas brigariam pelo PT e pelo direito de Lula disputar as eleições, caso ele seja impedido às vésperas do pleito?

Brigariam, sim. O PCdoB já afirmou isso no Congresso; Boulos tem conversado com Lula, manifestando sua solidariedade… Eu já antevejo em 24 de janeiro, no dia do julgamento, uma mobilização muito forte não apenas em Porto Alegre, mas em diversas cidades do Brasil. Isso mostrará que não é prudente que os setores dominantes prossigam nessa retirada de direitos. Estou vendo chegar a hora em que teremos uma situação semelhante à de 2013, só que pelo outro lado, desta vez com a ocupação das ruas pelas classes que estão sofrendo as perdas. Não será surpresa se o ano de 2018 for de muitas mobilizações, com o risco de violência. As pessoas estão com os nervos à flor da pele, revoltadas com o comportamento do Congresso e de Temer. Quando isso acontece, a qualquer momento a violência pode eclodir. O pior dos cenários é essa eclosão ocorrendo sem nenhum controle, o que pode resultar numa guerra civil. É hora de alertar a esses senhores que tudo tem limite, e eles estão extrapolando há tempos o limite de segurança.

 

O senhor confia na lisura do processo eleitoral organizado pelos que não aceitaram a derrota nas urnas?

Eu não tenho elementos para duvidar do processo eleitoral, até porque nós ganhamos diversas eleições, inclusive a de 2014.

 

Mas foram eleições coordenadas por um governo democrático. Se houve um golpe, isso não produziria mudanças na condução do processo eleitoral?

Era o TSE, em sua autonomia, que conduzia o processo. Não tivemos até aqui nenhuma razão para acreditar em fraudes, tanto que eles recorreram ao golpe porque não podiam fraudar as eleições. A fraude que eles podem vir a fazer é a fraude pré-eleitoral, no sentido de inviabilizar Lula ou criar um sistema semipresidencialista e até impedir as eleições. Havendo eleições com Lula, eu não tenho dúvidas de que seremos vitoriosos, porque temos força de fiscalização, temos militância e temos sobretudo o apoio do povo.

 

E se adotarem como estratégia a não condenação com o intuito de impedir a candidatura dele por meio de outro recurso jurídico às vésperas da eleição?

Se Lula for absolvido no dia 24, vamos comemorar, será festa nas ruas. Havendo a condenação, não vai ter festa, terá protestos, mas vamos continuar no mesmo tom, com as caravanas pelo país, vamos registrar a candidatura de Lula e fazê-la crescer o máximo possível, de modo a aumentar de tal forma o constrangimento dos golpistas que as instâncias superiores se vejam compelidas a corrigir esse erro brutal cometido por Moro, que o TRF-4 pode ou não validar. Para nós não tem plano B, é Lula, Lula, Lula… Não há outro candidato. Lula tem afirmado que não quer tomar posse sob suspeição, ele vai lutar pelo direito de ver a Justiça fazendo a sua absolvição.

 

*Míriam Moraes é jornalista.

 



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