A nova era dos extremos - Le Monde Diplomatique

POLÍTICA DE ÓDIO

A nova era dos extremos

por Fernanda Motta de Paula Resende e Glariston Resende
Fevereiro 27, 2018
Imagem por Rodney Dunning
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Se antes o pensamento progressista era o novo, defendido pelos jovens, hoje é visto como retrógrado, defendido pelos velhos. Discursos de ódio, conservadores, potencializam e se beneficiam com esta inclinação ao conservadorismo, em que não faltam atores que elegem seus inimigos, semeando a discórdia entre os seguimentos sociais, e elegendo a democracia como o mal a ser suplantado.

 

Grupos neonazistas de supremacia branca durante protesto em Charlottesville, EUA (2017)

 

Temos assistido assombrados aos acontecimentos do Brasil e do mundo e, tentando entendê-los, bem como para, e principalmente, antevermos as suas implicações, um pavor corta-nos a alma. Isso, porque o exercício de tentar entender o presente e, se possível for, antever o futuro, perpassa, necessariamente, ao estudo da história e, neste processo, impossível não retomarmos HOBSBAWN.
Lendo seu título “A era dos Impérios” é impossível não traçar um paralelo com a atualidade, que, por óbvio, guardadas às diferenciações históricas, na essência do espectro socioeconômico, parece ser clara a similitude hodierna com o final da Era dos Impérios.
Diz o historiador: a Era dos Impérios é marcada e dominada por essas contradições. Foi uma era de paz sem paralelo no mundo ocidental que gerou uma era de guerras mundiais igualmente sem paralelo. Apesar das aparências, foi uma era de estabilidade social crescente dentro da zona de economias industriais desenvolvidas que fornecem os pequenos grupos de homens que, que com uma facilidade que beirava a insolência, conseguiram dominar vastos impérios; mas uma era que gerou, inevitavelmente, em sua periferia, as forças combinadas da rebelião e da revolução que a tragariam¹.
Lendo o trecho acima, assusta-nos a atualidade.
Igualmente, estamos em uma era relativamente de paz para a humanidade, era esta que já conta com quase trinta anos, se considerarmos o fim da guerra fria, ou até maior se considerarmos o fim da segunda Guerra Mundial.
Esta tranquilidade possibilitou as reconstruções das economias centrais, bem como, em certo grau, certo desenvolvimento das economias periféricas, fazendo com que o PIB mundial, no período, multiplicasse dezenas, quiçá, centenas de vezes.
Como maiores beneficiados desta paz, e deste crescimento, e com a facilidade propiciada pelos Estados, visualizamos um minúsculo grupo de corporações (ou de homens?) conquistar vastos impérios econômicos. Presenciamos as fusões e incorporações de conglomerados econômicos, em que não raramente monopolizam seguimentos inteiros econômicos, cuja atuação não encontram limites ou barreiras no mundo globalizado. Vimos o seu poderio econômico ser contados na casa das unidades de bilhões de dólares, depois na casa das dezenas, saltando-se para as centenas de bilhões de dólares, aproximando-se a passos largos da marca de trilhão de dólares.
Apesar de não ser técnico confundir pessoas jurídicas com as pessoas físicas dos empresários, como era de se esperar, os principais acionistas destes conglomerados econômicos, igualmente, com o mesmo crescimento exponencial, tiveram sua fortuna pessoal contada na casa das dezenas de bilhões de dólares, hoje já alcançando a casa das centenas de bilhões de dólares.
No entanto, principalmente após o fim da guerra fria, período que nós estamos considerando similar à Era dos Impérios, estamos presenciando na periferia disto tudo o desenvolvimento das forças que poderão tragar o cenário de paz acumulativa destes poucos, e que nos regalará situação histórica similar à Era do Extremo.
Há, com a inclinação ao neoliberalismo, a corrosão dos ganhos sociais, estes possibilitados, segundo o historiador, pelo flagelo, destruição e sofrimento da Segunda Guerra, pela reconstrução das economias e, principalmente, pelo medo do socialismo.
As novas gerações não sentiram e não viram o impacto de uma grande guerra, e não tiveram a oportunidade de entender pensamentos progressistas e humanitários, voltando-se para o conservadorismo, vendido pela elite, detentora dos maiores meios de comunicação e de formação de opinião, de uma forma idealizada, e que gera a simpatia popular por conseguir repassar as mazelas atuais ao pensamento progressista, como se este atualmente ditasse as regras do mundo.
Com as reconstruções dos Estados, aquele gigantesco crescimento econômico não mais se faz presente, de modo que, se vivenciamos atualmente pequenas taxas de crescimento econômico, com as contradições de se ter altas taxas de crescimento dos grandes conglomerados econômicos e de altas taxas de crescimento da fortuna pessoal de seus detentores, estas contradições somente se realizam em prejuízo da massa trabalhadora, com a corrosão dos parcos ganhos que tiveram no passado.
Já o socialismo, este perdeu totalmente sua força, não havendo mais, neste quadrante da história, preocupações sérias sobre este ideal, ficando folclóricos na mentalidade dos ocidentais os Estados ainda neste regime, de modo que não mais há razão para fazer concessões à classe trabalhadora, por não haver mais paralelo comparativo para esta.
De modo que, atualmente, já sinalizou o economista THOMAS PIKETTY², em sua obra Capital do Século XXI, já chegamos na concentração de renda igual à vivenciada no início da Primeira Guerra Mundial, o que sinaliza que pode estar próximo o início da Nova Era do Extremo.
Para todos nós há uma zona de penumbra entre a história e a memória; entre o passado como um registro geral aberto a um exame mais ou menos isento e o passado como parte lembrada ou experiência de nossas vidas (HOBSBAWN)³.
Passado o terror da Segunda Guerra, e a inevitabilidade de uma reconstrução mundial humanista, defendida pelos vivenciadores daquele período, o passado se tornou apenas um registro histórico frio, não vivido.
Vivenciamos nossa juventude se voltar ao conservadorismo, ao desprezo por todo o pensamento humanitário, ao desprezo do Estado enquanto agente interventor, ao desprezo do assistencialismo, ao desprezo da atuação social do Estado, à defesa da atuação mínima econômica do Estado, tão somente a necessária para possibilitar o livre comércio entre os conglomerados econômicos. Vivenciamos nossa juventude eleger o inimigo, o preto, o pobre, o esquerdista (todos eles agora intitulados comunistas), o indígena, a mulher e etc. Vivenciamos a excrecência da democracia e a apologia aos regimes autoritários. Vivenciamos a excrecência do pensamento politicamente correto.
Se antes o pensamento progressista era o novo, defendido pelos jovens, hoje é visto como retrógrado, defendido pelos velhos.
Discursos de ódio, conservadores, potencializam e se beneficiam com esta inclinação ao conservadorismo, em que não faltam atores que elegem seus inimigos, semeando a discórdia entre os seguimentos sociais, e elegendo a democracia como o mal a ser suplantado.
Lembra, de algum modo, a bandeira de um personagem em específico?
A pergunta é quando e em que local surgirá o mor desta espécimen de político, que nos levará à Nova Era do Extremo, pois semeado já há muito se encontra o terreno, e pretendentes pululam aqui e acolá.

Fernanda Motta de Paula Resende é  Professora do Departamento de Educação da UNESP – São José do Rio Preto, Doutora em Educação e Glariston Resende é Juiz de Direito do Estado de São Paulo, Mestre em Políticas Públicas.



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