O candidato da mídia - Le Monde Diplomatique

EMMANUEL MACRON, FABRICADO PARA SERVIR

O candidato da mídia

maio 3, 2017
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O sucesso de um candidato desconhecido pelo público há três anos não se explica somente pela decomposição do sistema político francês. Inventor de uma nova maneira de promover velhas ideias socioliberais que valeram a Hollande recordes de impopularidade, Emmanuel Macron encontrou na mídia um sólido ponto de apoio. Sua história parece um sonho de editorialista

Marie Bénilde

Duas semanas antes do primeiro turno da eleição presidencial francesa, em abril, Emmanuel Macron, de 39 anos, sai com sua esposa de uma livraria do Boulevard Saint-Germain aberta até tarde da noite. Eles cruzam com estudantes ocupados em colar cartazes do líder do movimento En Marche!. A conversa começa na ausência lamentada do candidato no quartel-general dos “marchadores” parisienses e acaba no cartaz oficial da campanha. Brigitte Macron não gosta dele. Não se parece com seu jovem esposo, estima. Macron explica a razão: ele foi envelhecido na foto; rugas sob os olhos foram acrescentadas para sugerir melhor uma postura presidencial.

Assim como esse clichê, a candidatura de Macron não foi moldada pelas mãos de especialistas? Para além da ambição, do talento e da trajetória desse produto do elitismo à francesa,1 as fadas debruçadas sobre o berço do prodígio não revelam mais sobre o homem do que o que ele diz sobre si mesmo – em particular as fadas que agitam suas varinhas sobre o mundo da mídia e da comunicação? Macron agrada à imprensa e a seus dirigentes. E com razão: seu discurso liberal, eurófilo, atlantista e modernista evoca uma síntese dos editoriais do Le Monde, Libération, L’Obs e L’Express…

Foi pela intervenção de Henry Hermand, o ourives dos think tanks A República das Ideias e Terra Nova e acionista de referência da revista Le 1, de Éric Fottorino, que o jovem ex-aluno da Escola Nacional de Administração encontrou Jacques Attali. “Emmanuel Macron? Fui eu que o descobri. Fui inclusive eu quem o inventou”,2 afirma o antigo conselheiro de François Mitterrand e presidente do conselho de supervisão do site de informação Slate, que nomeou Macron em 2007 relator adjunto de sua comissão sobre a “libertação do crescimento”. Ali, o candidato a presidente se viu em meio a dezessete patrões e ex-patrões e encheu seu caderno de endereços. Pascal Houzelot, fundador do canal Pink TV, depois comprador do canal Numéro 23 e membro do conselho de supervisão do Le Monde, o convidou para jantar. Em 2010, esse personagem influente do universo parisiense da mídia e da cultura apresentou ao jovem gerente de Rothschild três personalidades que tinham acabado de comprar o grupo Le Monde: o banqueiro de negócios Matthieu Pigasse, o fundador da Free, Xavier Niel, e o antigo chefe da Yves Saint Laurent, Pierre Bergé.

Da paixão à primeira vista à história de amor

Os negócios do venerável jornal diário não eram totalmente desconhecidos para ele. Alguns meses antes, Macron tinha aconselhado gratuitamente a Sociedade dos Redatores do Le Monde (SRM) em busca de investidores. Enquanto esta se preparava para fechar um acordo com o trio, os responsáveis da SRM perceberam que seu anjo da guarda apoiava por debaixo do pano uma proposta concorrente encampada por Alain Minc, antigo líder do jornal do qual a SRM tinha se livrado com dificuldade dois anos antes. Em 3 de setembro de 2010, uma cena burlesca aconteceu na Avenida George-V, em Paris: Adrien de Tricornot, vice-presidente da SRM, viu por acaso Macron saindo do escritório de Minc antes de bater precipitadamente em retirada. Tricornot começou a persegui-lo no prédio. “Quando cheguei ao patamar do último andar”, conta ele, “Macron olhou para os pés, com o telefone no ouvido, e fingiu que não estava me vendo. E precisamente no momento em que eu cheguei ao último degrau do último andar eu ouvi: ‘Alô, é o Emmanuel…’ […] eu me aproximei alguns centímetros dele, mas nada… Ele continuou ‘falando’ ao telefone. Eu estendi a mão e disse: ‘Bom dia, Emmanuel. Você não diz mais bom-dia? Meus colegas estão te esperando lá embaixo’. Senti nesse momento a angústia dele. Ele tinha dificuldade para respirar. Seu coração batia a duzentos por hora.”3

Nomeado secretário-geral adjunto no Élysée em maio de 2012, o inspetor de finanças se tornou correia de transmissão entre as grandes empresas e o poder. “Emmanuel Macron é nosso correspondente, nossa porta de entrada junto ao presidente”, declarou Stéphane Richard, CEO da Orange.4 Sua nomeação para ministro da Economia, Indústria e do Digital, em agosto de 2014, lhe rendeu uma reputação de defensor da “destruição criativa” dos empregos em benefício da transformação digital do mundo do trabalho. “Seria um grande erro proteger as empresas e os trabalhos existentes”, estimava em dezembro de 2014, enquanto os motoristas de táxi se manifestavam contra o Uber. O ministro seduziu assim os capitalistas da nova economia, como Marc Simoncini, o fundador do site Meetic, que fala de seu encontro com ele como de uma “história de amor depois de uma paixão à primeira vista”. O fundador da Free, Xavier Niel, que o convidou para uma visita à sua École 42 (uma escola de informática), resumiu o sentimento compartilhado por inúmeros patrões: “Nos bons meios parisienses, ele é adorado […]. Gosto do Emmanuel por seu lado voluntarista e liberal” (Society, maio 2016).

Em janeiro de 2017, o acionista do Le Monde Pierre Bergé anunciava no Twitter seu “apoio sem a menor restrição a Emmanuel Macron para ser o presidente que nos levará para uma social-democracia”. Essas simpatias, e a perturbação que elas suscitam nos leitores, incitaram o jornal a se interrogar no dia 10 de março de 2017: “Le Monde está apoiando Macron?”. Claro que não, respondia o mediador do jornal, que esclarecia ainda assim que os cronistas eram “livres para dar seu ponto de vista”. E eles não se furtaram a isso. Arnaud Leparmentier se entusiasmou com o programa desse herdeiro do blairismo que apresenta “a receita razoável cozinhada pelo economista de centro-esquerda Jean Pisany-Ferry para reerguer o Estado social francês”. Seu colega Vincent Giret expressa regularmente nas ondas da Radio France sua admiração por “uma visão, uma explicação frequentemente brilhante da globalização” e pela “coerência” de um projeto “ao mesmo tempo liberal e social”.

Na capa da revista Challenges, em janeiro de 2017, o jovem se diferenciava vantajosamente de seus concorrentes sob o título: “Esquerdas: o bulevar se faz Macron”. O apoio incondicional da revista semanal, principalmente nos artigos de Maurice Szafran e de Bruno-Roger Petit, exasperou até mesmo seus funcionários. No dia 16 de março, um comunicado da sociedade dos jornalistas chamava a um pouco mais de comedimento diante do homem que, em 13 de abril, em plena campanha eleitoral, era o convidado pop star do segundo “Encontro das start-ups” organizado pela revista.

As relações do candidato do En Marche! com outro magnata das telecomunicações e das mídias, Patrick Drahi (SFR, BFM TV, RMC, Libération, L’Express), levantam questões. Em 2014, quando era ministro da Economia, Arnaud Montebourg iniciou uma investigação fiscal sobre esse industrial que tinha fixado sua residência na Suíça e suas participações pessoais em um paraíso fiscal (Guernesey). Assim que chegou a Bercy, Macron se mostrou mais conciliador. Drahi pôde assim comprar a SFR de Vivendi sem ter de repatriar seus bens na França, como tinha exigido Montebourg. E se, no ano seguinte, o ministro não favoreceu a oferta de retomada da Bouygues Telecom pela SFR por 10 bilhões de euros, foi porque ele sabia que o dossiê era explosivo: a empresa dirigida por Martin Bouygues, acionista da rede de televisão TF1, tinha como conselheiro o banco Rothschild. Didier Casas, diretor-geral adjunto da Bouygues Telecom, inclusive se uniu em janeiro de 2017 à equipe da campanha do candidato Macron.

“Estou chegando com a auréola de uma reputação que me foi feita pela imprensa”, constatava este último ao tomar posse de suas funções em Bercy.5 O ministro correspondia, com efeito, à visão “moderna” da política que diversos editocratas se esforçam em promover. Depois de “A bomba Macron”, em setembro de 2014, a revista L’Express inaugurava sua nova fórmula, em março de 2016, com o seguinte título: “Macron: ‘O que eu quero para 2017’”. “É ele quem encarna melhor o espírito de reforma na França hoje, com modernidade”, insistia Christophe Barbier, então diretor da revista. No mesmo mês, quando o interessado ainda não havia criado seu movimento político, a revista L’Obs dava em manchete: “O foguete Macron: seu plano secreto para 2017”. Cinco outras “capas” deveriam em seguida lembrar aos leitores a atualidade do candidato do En Marche!. Em 20 de abril de 2017, o diretor de redação da revista, Matthieu Croissandeau, pôs as cartas na mesa em um editorial intitulado “Por que Macron”: “Ele soube melhor que ninguém nesta campanha encarnar ao mesmo tempo um projeto, um impulso, uma esperança de renovação e uma vontade de união”.

Um pouco mais à direita, a revista Le Point multiplicou as capas: “E por que não ele?”, “O homem que incomoda”, “Quem tem medo dos liberais?” ou “O que ele tem na cabeça”. Até mesmo o Le Figaro, oficialmente apoiador de François Fillon, deixou passar comentários elogiosos. “Ter um presidente da República que tem 39 anos em um país como o nosso, que sempre teve uma espécie de prevenção diante da juventude”, arriscou-se o diretor adjunto da redação, Yves Thréard, no canal France 2 (16 abr.), “muda muita coisa. Isso mudaria a imagem da França no exterior, que seria completamente renovada.” O cientista político Thomas Guénolé fala de “panfletagem midiática para vender a marca Macron ao eleitorado”. Sob a fidelidade dos números do escritório Dentsu Consulting, ele constatou que entre 1º de abril e 30 de setembro de 2016 o candidato do En Marche! teve 42% de participação na mídia, enquanto atingia apenas 17% nas redes sociais.6 Em 21 de fevereiro de 2017, a revista semanal Marianne calculou que, em quatro meses, a BFM TV tinha retransmitido 426 minutos de discursos de Macron ao longo de seus seminários contra 440 minutos para seus quatro principais adversários juntos. Deve-se ver aí uma ligação com a presença de Bernard Mourad, ex-dirigente da Altice Media, a acionista da BFM TV, na equipe de campanha do candidato do En Marche!? O simples enunciado dessa hipótese “ajuda a Frente Nacional”, julgou Macron em 2 de março, diante de um jornalista da Mediapart.

Claro, a novidade na política suscita a curiosidade e faz vender. Mas propulsionar o “foguete Macron” ao firmamento exigia um combustível bem mais eficiente do que os elogios conjugados de Maurice Szafran e Matthieu Croissandeau. Esse poderoso motor auxiliar foi a imprensa de fofoca. Em abril de 2016, no momento do lançamento do En Marche!, a revista Paris Match dava como manchete: “Juntos na nova estrada do poder. Brigitte e Emmanuel Macron”, com as confidências da senhora “com exclusividade”. Ainda que o ministro tenha dito depois “se arrepender” da capa – que, no entanto, foi seguida por muitas outras –, a história da antiga professora que se apaixonou por seu aluno vinte anos mais jovem é uma mina de ouro para as revistas populares. O casal Macron trabalha com Bestimage, uma importante agência de fotografias de celebridades criada pela cofundadora do site PurePeople, Michèle Marchand. O político entendeu bem rápido que tinha “pouco tempo para aumentar sua notoriedade”. Entre outubro de 2014 e fevereiro de 2015, a proporção de franceses que não o conheciam passou de 47% para 18%, segundo o Ifop.7 Por sua narrativa, a imprensa de fofoca veicula e depois confirma a ideia de um Macron transgressivo, diferente, decidido a ir até o fim de seu projeto, até mesmo a desagradar. É também o momento em que sua esposa se exibe nas fotos com vestidos Louis Vuitton, a marca dirigida por sua amiga Delphine Arnault, filha de Bernard Arnault, presidente do grupo de luxo LVMH.

No seio do grupo Lagardère – cujo proprietário, Arnaud Lagardère, decidiu em 20 de abril tomar as rédeas diretamente –, Macron pôde assim contar com o Journal du Dimanche, que, depois de ter sucessivamente agradado a Manuel Valls e François Fillon, terminou, em março de 2016, por mudar seu apoio. Quinze dias antes do primeiro turno, o candidato do En Marche! teve o privilégio de imaginar seus cem primeiros dias no Élysée em uma entrevista sobriamente intitulada “Eu, presidente”. Uma mão lava a outra? Em 2013, Lagardère tinha se aproveitado das luzes de um jovem secretário-geral adjunto do Élysée para conseguir abandonar o grupo Eads nas melhores condições – e com uma mais-valia de cerca de 1,8 bilhão de euros.8 Alguns anos antes já, o banqueiro de negócios de Rothschild tinha brevemente sido intermediário para tentar vender o ramo internacional das revistas do grupo.

A vantagem concedida pela imprensa a Macron se baseia, no entanto, menos no que ela diz e mais no que ela não diz. No assunto dos “casos” – os 120 mil euros de notas de alimentação em Bercy, o imposto sobre a fortuna ou a avaliação de seu patrimônio, revelados pelo jornal Le Canard Enchaîné –, a clemência com relação a “E. M.” é ainda mais impressionante pelo contraste com o apedrejamento ao qual seus rivais são submetidos quando pegos em flagrante.

“Perguntem-se o seguinte: por que essas horas e horas de televisão ao vivo? Por que essas capas de revista, por que essas páginas e mais páginas em torno de fotografias ou histórias vazias?”, interrogava-se o centrista François Bayrou na BFM TV em 7 de setembro de 2016, antes de se ligar a Macron, a quem ele qualificava na época de um “holograma”. “Existe aí uma tentativa que já foi feita diversas vezes de interesses financeiros muito grandes e outros que não se contentam mais em ter apenas o poder econômico.” O ministro Macron, que em outubro de 2014 estimava que a “doença da França” era “a dos interesses particulares constituídos”, poderia concordar com isso…

*Marie Bénilde é jornalista e autora de On achète bien les cerveaux [Paga-se bem por cérebros], Raisons d’Agir, Paris, 2007.



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